segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

 Esse negócio de presunção de inocência é coisa séria. Certa feita, ia eu por uma estrada vicinal dessas que sempre há entre uma pequena cidade e outra desse meião do Estado de São Paulo.

A pé, sozinho, com minha mochila cargueira nas costas. Era uma travessia de 20 quilômetros, coisa de 4 horas de tranquila caminhada. Era um trecho deserto como poucos dos que passei em minhas andanças, três ou quatro enormes fazendas de gado com suas pastagens a perder de vista dominavam toda a extensão.

De vez em quando algumas cabeças de gado pastavam ao longe, na paisagem rasteira salpicada por raros capões de mato. Nenhum homem, nenhum outro bicho, nenhuma casa, nenhuma cerca, um único mata-burros nas duas horas já caminhadas como testemunho do poderoso engenho humano.

Ah, sim, me lembro que foi por essa altura do caminho que ouvi um ronco vindo do céu. Olhei pra cima e só vi uma reta sendo traçada por algo invisível em fuga. Foi quando surgiu na curva à minha retaguarda a caminhonetona (uma caminhonetona é um caminhão pequeno, mas grande...).

Devagar ela já vinha, obrigada pela precariedade do caminho, mas foi desacelerando ainda mais à medida que se aproximava e, de fato, parou ao meu lado.

A única coisa que dava para avaliar era que parecia estar o homem ao volante sozinho, eis que havia um banco atrás, protegido por um vidro escuro, onde poderia ou não haver outros passageiros. Do homem, não dava para saber se era baixo ou alto, gordo ou magro, sequer a idade dava para presumir, por causa dos óculos, do chapéu e da ausência de barba.

Sim, dava para ver que era branco, pelo vidro a meio pau. E que usava camisa xadrez.

A primeira coisa que fiz foi tirar meus óculos escuros e encarar os óculos escuros do fazendeiro, eis que tive essa certeza quando ele abriu a boca para me perguntar se eu estava perdido, após me desejar bom dia.

Conheço bem esse erre de “perdido” e esse “bom dia” caipira e o meu interlocutor era um deles. Que eu também era branco ele já havia percebido, apesar da barba de dois meses, mas diante dos meus olhos azuis ele acabou de baixar o vidro e a guarda e ficou à vontade.

Ora, meus amigos pretos e ingênuos, não adianta fazer como o avestruz e enfiar a cara no buraco para fugir do predador. Da parte dos brancos há um enorme preconceito contra os pretos, assim como há preconceito de rico contra pobre.

Nenhum país subsiste impunemente a 300 anos de escravidão e 500 de desigualdade. Quanto mais provinciano, mais preconceituoso.

Quando lhe informei que não estava perdido não, que estava indo para Nipoã, ele me ofereceu carona. Mas minha recusa o fez descer do carro e se irmanar a mim no mundo dos homens de pés no chão. Era um sujeito alto e rechonchudo de uns 50 anos de idade.

Mais que intrigado, estava indignado com minha atitude. Onde já se viu um “homem de bem” sozinho, a pé, num mundão desse!? O senhor não tem medo?

Em sua alarmada pergunta estava implícito que havia dois tipos de ameaças: de bichos selvagens e de bandidos.

Respondi-lhe que os bichos que mais me ameaçavam eram os cachorros, todos domésticos.  

Os bichos selvagens nem existiam mais, devido aquela devastação ambiental que se descortinava diante de nós. Alguns remanescentes fugiam apavorados, vendo em mim, ereto e com duas patas pequenas e balançando, o próprio capeta da destruição.

Quanto aos bandidos, que entendi como pessoas más, bem, todas elas eram boas, até prova em contrário. Quem me protegia, minha arma eficaz, eram meus olhos, que olhavam para as pessoas sem prometer nem esperar maldade.  

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