domingo, 23 de janeiro de 2022

DOMINGO NAVENIDA

Havia 3 bolas soltas navenida e outras tantas ainda presas dentro do saco. O malabarista fazia malabares usando os transeuntes.

Genial!

Ele chutava a bola de leve na direção de alguém que ia passando, em geral de alguém que já havia passado. De repente, o cidadão via uma bola passando devagarinho em sua frente.

Uma bola de futebol, parecida com essas que nossos craques chutam.

A minoria reagia positivamente, chutando-a de volta. A maioria não reagia.

Eu acho que um cidadão que não toca numa bola passando lenta a 30 centímetros de seus pés é doente.

Mas, no caso lá davenida, alguns não interagiam por timidez, outros por não se recuperarem a tempo da surpresa e a maioria, por cosmopolitismo.

Sim, cosmopolitismo.

Explico.

Aquelavenida é excessivamente cosmopolita. Não é só no visual que isso acontece, mas, principalmente, no mental, no cultural. É muito mundo por metro quadrado.

Não me refiro à variedade comercial, que é banal. Me refiro aos transeuntes.

Aliás, esse é o mal destes tempos pós-tudo: os mundos paralelos.

Começa em casa. Cada membro da casa tem um ambiente físico próprio e exclusivo. Quando se trata de ouvir música, cada um ouve sua música com fones de ouvido. Cada um pede sua própria comida! O pai não sabe em quê a mãe trabalha e vice-versa. Os filhos não sabem como os pais ganham dinheiro. Aliás, as finanças entre os parceiros são separadas!

Continua na cidade. Em prédios de apartamentos, pouca gente sabe sequer o nome de quem ocupa as unidades do mesmo andar. Ninguém mais pede emprestada uma xícara de açúcar ao vizinho, um alicate, uma chave de fenda. Ninguém escuta mais as conversas do quintal do lado, pelo fato de que ninguém mais conversa em casa. Claro, ninguém sabe nem a profissão do vizinho, muito menos quais são seus gostos e idiossincrasias.

Mas, o pior: ninguém sabe nem quer saber!

Ora, esse é um sintoma de cosmopolitismo exacerbado. Sabe aquele seu vizinho que nem olha para sua cara no elevador? Aliás, ele nem entra no elevador com você, espera o próximo. Então, a doença dele é cosmopolitopatia.

E você, que ficou feliz porque o vizinho deixou você descer sozinha, também está doente.

Evidentemente, isso é insustentável. Lembra aquela história de que nenhum homem é uma ilha? Então, aquilo é sério!

Mas reconheço que não dá pra não ser cosmopolita nesse domingo n’avenida da megalópole. Os curandeiros da saúde mental agradecem.

Por enquanto.

Falar nisso, o velho das bolas estava em frente ao xópi cidade de São Paulo (sim, o malabarista era um velho). A torre é modernosa, nova, tem o perfil curvado, deve ter dado um trabalhão para construir aquilo.

Grande merda, não restará pedra sobre pedra!

Óh, não! No mundo cosmopolita pós-tudo, a destruição se dá pelo abandono.

Então refaço: grande merda, será tomada pelo mato e pelos vermes!

 

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