Havia 3 bolas soltas navenida e outras tantas ainda presas dentro do saco. O malabarista fazia malabares usando os transeuntes.
Genial!
Ele chutava a bola de leve na direção de alguém que ia
passando, em geral de alguém que já havia passado. De repente, o cidadão via
uma bola passando devagarinho em sua frente.
Uma bola de futebol, parecida com essas que nossos craques
chutam.
A minoria reagia positivamente, chutando-a de volta. A
maioria não reagia.
Eu acho que um cidadão que não toca numa bola passando
lenta a 30 centímetros de seus pés é doente.
Mas, no caso lá davenida, alguns não interagiam por timidez,
outros por não se recuperarem a tempo da surpresa e a maioria, por
cosmopolitismo.
Sim, cosmopolitismo.
Explico.
Aquelavenida é excessivamente cosmopolita. Não é só no
visual que isso acontece, mas, principalmente, no mental, no cultural. É muito
mundo por metro quadrado.
Não me refiro à variedade comercial, que é banal. Me refiro
aos transeuntes.
Aliás, esse é o mal destes tempos pós-tudo: os mundos
paralelos.
Começa em casa. Cada membro da casa tem um ambiente físico
próprio e exclusivo. Quando se trata de ouvir música, cada um ouve sua música
com fones de ouvido. Cada um pede sua própria comida! O pai não sabe em quê a
mãe trabalha e vice-versa. Os filhos não sabem como os pais ganham dinheiro.
Aliás, as finanças entre os parceiros são separadas!
Continua na cidade. Em prédios de apartamentos, pouca gente
sabe sequer o nome de quem ocupa as unidades do mesmo andar. Ninguém mais pede
emprestada uma xícara de açúcar ao vizinho, um alicate, uma chave de fenda. Ninguém
escuta mais as conversas do quintal do lado, pelo fato de que ninguém mais
conversa em casa. Claro, ninguém sabe nem a profissão do vizinho, muito menos quais
são seus gostos e idiossincrasias.
Mas, o pior: ninguém sabe nem quer saber!
Ora, esse é um sintoma de cosmopolitismo exacerbado. Sabe
aquele seu vizinho que nem olha para sua cara no elevador? Aliás, ele nem entra
no elevador com você, espera o próximo. Então, a doença dele é
cosmopolitopatia.
E você, que ficou feliz porque o vizinho deixou você descer
sozinha, também está doente.
Evidentemente, isso é insustentável. Lembra aquela história
de que nenhum homem é uma ilha? Então, aquilo é sério!
Mas reconheço que não dá pra não ser cosmopolita nesse
domingo n’avenida da megalópole. Os curandeiros da saúde mental agradecem.
Por enquanto.
Falar nisso, o velho das bolas estava em frente ao xópi
cidade de São Paulo (sim, o malabarista era um velho). A torre é modernosa,
nova, tem o perfil curvado, deve ter dado um trabalhão para construir aquilo.
Grande merda, não restará pedra sobre pedra!
Óh, não! No mundo cosmopolita pós-tudo, a destruição se dá
pelo abandono.
Então refaço: grande merda, será tomada pelo mato e pelos
vermes!
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