sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

SABRINA

Vou escrever que o nome dela é Sabrina. Lá está ela, sentada num dos bancos da Praça Oswaldo Cruz, ao lado de uma caixa vermelha de 45 cm de lado. Em frente, está o shopping. Os bancos de concreto da praça estão quase todos ocupados por outros jovens; muitos olham o smartphone, vários conversam entre si, em meio a outras tantas caixas e bicicletas mal dispostas, mas nenhum parece tão solitário quanto Sabrina. Ao lado dela está escrupulosamente estacionada uma bicicleta laranja do Itaú. Mas seu entrosamento no grupo é questão de tempo. Ela já namora alguns com o rabo do olho e sorri ou resmunga com a barriga: está armando o bote para cair de paraquedas no meio daqueles moleques e, assim, pedalar a vida com mais leveza e produtividade.
Sabrina, 20 anos de idade, cabelos longos e lisos e naturais castanho-claros, pele branca-transparente, olhos azulados, rosto redondo; bonita, como toda garota inteligente nessa idade. Ontem, saiu feito doida com a caixa nas costas logo após comprá-la, pedalando uma bicicleta com os pneus meio murchos: escolhera mal ao pegá-la. Ao final do dia, muita canseira e baixo faturamento. Hoje, resolveu mudar de tática: vai se integrar a essa turma da Oswaldo Cruz, acha que é uma forma abreviada de conhecer os macetes. Se o cansaço continuar grande e o dinheiro continuar curto, ao menos se diverte, aqueles caras prometem.
Mas quem é essa garota que parece ter saído das filas do Dante Alighieri direto para as ruas, sem os costumeiros e paulatinos e intermediários trancos e degraus da vida? Sei lá, quem sabe ela seja aqui de pertinho, ali do Maria Imaculada… Meio dia, na volta do colégio, de dentro do carro, via a farra na praça, sonhava… Não, aquela Sabrina não suportaria nem meia hora dessa vida. Antes, ela teve de fazer o último ano do colégio numa escola da prefeitura.
Essa Sabrina que está ali, em carne e osso, é uma microempreendedora que já aguentou um dia e meio de trabalho duro e continua animada: não pensa em desistir porque não pode desistir, é o que lhe resta, é a água batendo na bunda, é a vida. Mas a vida é longa e cheia de curvas e buracos e é preciso enfrentar o trampo, não tem outro jeito… quer dizer, até que tem outro jeito, mas ele ainda não passou arreado para ela cavalgar. Além do que é besteira lamentar o leite derramado, ainda mais se esse leite foi derramado num finíssimo filete ao longo de várias gerações.
Para entender essa Sabrina, vamos retroceder no tempo, contar uma parte da sua história. Tudo na vida carece de circunstâncias. Melhor: tudo na vida é resultado de uma sucessão de circunstâncias. E o que é essa sucessão de circunstâncias senão a história? A gota que transborda o copo leva a fama, mas é vítima da circunstância do copo que já não aguenta mais. Qual a diferença entre essa Sabrina e Helena, sua mãe? E Berenice, sua avó? E Edite, sua bisavó? E Heliodora, sua trisavó? E Ofélia, sua tetravó? Eu, que ouvi a história, concluí que a diferença é a quantidade de água no copo… Essa imagem serve, mas não é boa: no caso da Sabrina e sua família, melhor seria algo que se vai escoando pelo ralo, ao invés de qualquer ideia de acumulação.
Ofélia e Abílio se casaram em 1888: tiveram Heliodora, a quarta filha, em 1900. Heliodora, que teve Edite, que teve Berenice, que teve Helena, que teve Sabrina. Caetano, de antepassados carcamanos pobres e porcos, entrou no rolo em 1944, quando se casou com Edite, a bisa; mas, então, já era limpinho e cheiroso e tinha algum dinheiro.
Ofélia e Abílio eram aristocratas, quer dizer, eram brancos. Em 1888, no Brasil, branco nenhum sujava as mãos. Então chegaram os brancos italianos que, sem cerimônia, metiam a mão no barro, no bronze, na massa, na madeira, daí porque foram logo considerados porcos – sinônimo de sujos, de trabalhadores.
Os tataravós de Sabrina ainda viveram da mão de obra escrava por muito tempo, após a abolição. A princesa baixou a lei, os fazendeiros foram docemente constrangidos a mandar embora todo mundo. Os escravizados passaram a ser cidadãos e, como tal, podiam ser demitidos. Naquele tempo não havia FGTS, multa, seguro-desemprego, aviso-prévio; foram demitidos sem nenhuma indenização, nenhuma compensação, nenhuma redistribuição de terras. Como, até então, era ilegal que os escravizados possuíssem dinheiro ou bens, esses neocidadãos postos no olho da rua sem nenhum tusta também não tinham onde morar. Podiam, se quisessem, continuar na senzala, trabalhando no eito, tendo como pagamento a comida e o aluguel e ainda bem que os antigos senhores geravam empregos...
(muitos se rebelaram, saíram, exigiram salário com que compraram comida e pagaram aluguel...raros aprenderam a jogar bola, tocar violão, vender macumba ou fundar igreja ou arrombar o baú e ficaram brancos).
Em 1930, a família de Sabrina teve o primeiro tranco. Apareceram uns tenentes, uns gaúchos, um tal de voto secreto, um monte de preto e mulher votando; um monte de gente pobre, sem ter onde cair morta, votando, dois da família perderam as sinecuras da República Velha. Esse tranco não chegou à cozinha, onde ainda era fácil e barato alocar negras para sujar as mãos, lavar, passar, limpar, engomar, amamentar…
A família de Sabrina caiu mais um degrau em 1953, quando teve de fechar o açougue e a mercearia, por causa do primeiro supermercado aberto na cidade (ao qual, se o dono quisesse, a freguesia pagava até ingresso para entrar lá e comprar). Só se recompôs dez anos depois, quando saiu às ruas, em passeata, pedindo a volta da tradição, das quitandas e mercearias.
Mas não havia mais volta. O trem da história estava desembestado em lucros e salários e mercadorias. Em prejuízos e desempregos. Em sociedades anônimas e limitadas. Em empréstimos e prestações. Em Mappin e Casas Pernambucanas. Em bradescos e itaús e inflação e correção monetária. Em falências e arrestos. Em aluguéis e despejos. Em burocratas e juros compostos.
(o parágrafo anterior foi o modo mais resumido que achei para traduzir os percalços econômicos de seus ancestrais, que a Sabrina me contou em detalhes, sobre a perda da fazenda, o arresto da casa, o sumiço dos fregueses da mercearia, a demissão do pai engenheiro, que agora dirige um Uber, o salário de professora da mãe...)
Aqueles pomposos brancos do final do império geraram e importaram mais brancos do que cabia na economia. De lá para cá, vieram trombando, cambaleando, caindo pelas tabelas, sendo expelidos pelo ladrão até que, em 2013, disseram basta!
Disseram, estão dizendo: tudo através de um tal de voto secreto, pelo respeito de outrora, pela aristocracia! Mas não tem mais jeito, o trem continua destrambelhado, hordas diversas disputam as ruas, olhaí as gerações se igualando na praça.



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