Seis horas da
tarde. Uma chuva fina. Tomo um Terminal do Campo Limpo no começo da Paulista. O
motorista arranca e freia, eu perco o equilíbrio e, para não cair, dou um pulo
e aterriso sobre o pé do passageiro de trás. “Pisei no seu pé?”, pergunto-lhe
com ar jocoso. “Tá doendo pra caramba”, grunhe ele, sem me ofender. Quarenta
minutos depois, conseguimos nos desvencilhar da muvuca da avenida. O articulado
desce a Rebouças, rebolando feito uma taturana. Muitos metros de comprimento.
Dentro umas noventa almas.
Está quente e
úmido, estou de pé no último patamar da parte traseira, sob a entrada de ar do
teto, que está fechada. Vem um, abre-a, já que eu não me toco, insensível com
“O Guarani”, do Alencar, que leio de pé, alheio ao caos. Gotículas molham meu
livro, encontro outra posição, é melhor ler de pé do que sentado no ônibus, o
livro balança menos. Pelo celular, uma mulher instrui alguém em casa sobre o
jantar, outro celular toca na minha retaguarda, e mais outro lá, e acolá; um jovem alegre liga para dezoito amigos num
arco de quinze minutos, uma velha me abalroa para estacionar próximo ao banco
reservado aos idosos: e consegue e eu observo seu olhar de peixe morto mortiço
na direção da jovem que o ocupa, insensível e alheia, sonsa..., faz bem a
sonsice.
Não consigo ficar de mau humor nesta tarde trágica,
só tenho a segunda aula, continuo a observar a velha sonsa a observar a jovem
sonsa. O motorista funga e sofre, o cobrador enfeita. Com o advento do bilhete
único, ninguém mais paga passagem. Quer dizer, ainda paga, mas não ao cobrador.
A socialização total do preço da passagem é coisa de tempo. O cobrador sofre
com a obsolescência, o motorista sofre com a sobrecarga para controlar as
múltiplas e longínquas portas. Agora os ônibus embarcam e desembarcam ora de um
lado, ora do outro, possuem vários níveis, escaninhos, ficaram mais largos,
mais compridos e mais altos, é difícil controlar, o motorista sofre. Se o
cobrador serve para alguma coisa, é para ajudar o motorista a controlar.
Os passageiros
estão calmos. Em casa, encontrarão desconforto semelhante, em suas exíguas
habitações mal ventiladas. Em casa já não se exige mais pontualidade em São
Paulo. Os passageiros não estão tristes nem alegres; se incomodariam com moscas
- se houvesse -, bovinamente. Chove lá fora e o trânsito está parado. Vejo, ao
lado, a sombra de indivíduos dentro dos seus carros parados. O ônibus vai mais
rápido na faixa exclusiva, até empacar nos pontos, com gente querendo entrar no
espaço superlotado. No ponto o ônibus não sai enquanto o impasse não se desfaz.
No ponto o ônibus aguarda como uma vaca. Passam motoqueiros, passa um ciclista.
Começo mais um capítulo, leio de trás pra frente, comecei pelo epílogo, já
estou no “Peleja”, a velha sentou.
Uma hora e meia,
oito quilômetros, o articulado me deixa na Francisco Morato e sai rebolando,
feito um rebanho. Abro o guarda-chuva.
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