sábado, 18 de março de 2023

A BÍBLIA EM CRÔNICAS LIVRES

 A BÍBLIA EM CRÔNICAS LIVRES  

 1ª Edição

2023

 Roberto Buzzo

 Copyright © 2023 by Roberto Buzzo

Todos os direitos reservados.

 Permitidos o armazenamento, a reprodução ou a transmissão de partes deste livro, mediante quaisquer meios, sem prévia autorização do autor, desde que citada a fonte.

 Contato: robertobuzzo@gmail.com

 Revisão:  Lucília Evangelista

 ISBN: 978-65-00-64574-3

  

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)

              

                   Buzzo, Roberto

B992b               A bíblia em crônicas livres [livro eletrônico] / Roberto

                   Buzzo. -- 1.ed. -- São Paulo :  [s.n.], 2023.

                         1 livro digital.

 

               ISBN 978-65-00-64574-

 

                         1. Bíblia. 2. Bíblia - Crônicas. I. Título.

 

CDU 22

Elaborada pela bibliotecária: Eliane M. S. Jovanovich - CRB 9/1250


 Sumário

Prefácio

Apresentação

Primeira parte: Antigo Testamento

Pentateuco

Bíblia, literatura e razão

Abrão no Egito

Abrão e Sarai: esses dois!

Jacó e Labão: difícil saber qual o mais ladino

Jacó luta com Deus

José

Moisés & Jesus

Nove pragas e uma barbaridade

Não desejar a mulher do próximo

O bezerro de ouro

A constituição divina

Funcionários públicos no país governado por Deus

O maná parecia coentro

Deus é amor e...

A responsabilidade coletiva, segundo Deus

Pentateuco: até aqui, tudo sob controle

Livros históricos

Não confunda Jesus com José, mas com Josué

A história de Sansão

Rute

A história de Davi

Davi & Micol

Davi & Betsabeia

Salomão e a mula pintada de zebra

Elias, o arrebatado

O deus da terra

Lepra em Ozias e Maria

A reconstrução do templo em Jerusalém

Sara & Tobias

Judite, a judia

Ester & Mardoqueu

Sara, Judite, Ester

Judeus, gregos e romanos

Confronto & conchavo: Judeus & Gregos

Cleópatra

Petróleo

Livros poéticos e sapienciais

Paciência e impaciência de Jó

O Eclesiastes

O bispo machista

A censura judaico-protestante

Livros proféticos

Os profetas

Isaías, o profeta maior

O pessimista

Jeremias, o chato da corte

Daniel salvou a cabeça dos pilantras

Daniel deixou Nabucodonosor louco

Dies Irae

Segunda parte: Novo Testamento

Os quatro evangelhos

Maria, grávida e solteira

Os três astrólogos

Jesus, moleque sabido

Jesus batizado por compadre João

A tentação do Diabo

Como surgiu o Pai Nosso

Discurso inaugural de campanha

Pedra sobre pedra

O perdão vai e volta

O diabo no porco

Jesus e a família

De pombas e serpentes

João ciumento e a concorrência

Os burocratas do templo

Parábolas, bolas!

O profeta em casa

Pão com peixe

Ensino fariseu: cego conduzindo cego

A fé seca figueiras

Como pagar impostos

Os eunucos da igreja

Jesus, um desorganizado

Sepulcros caiados

Duas parábolas sem graça

O nacionalismo judeu

O rico no céu

Tiago e João

Vigiai e Orai

A magdalena

Confusão entre fé e disciplina

O defunto de Naim

A lâmpada do corpo

Pedro e pedra

Dialética & Metafísica

Casamento, pão e vinho

Uma sacanagem do evangelista

Atos dos apóstolos

Final de semana

Antibabilônia

Arrependei-vos!

Esmola & aleijado

Ignorantes, mas intrépidos

Comunismo

Helenistas e Hebreus

Agora é Roma

No caminho de Damasco

Cristãos

Pedro se safou daquela

Paulo: o fiasco de Atenas

Cartas de São Paulo

Pedra de tropeço

A lei e o amor

Zelo esclarecido

Coleta

Da graça e do esforço

Moral doméstica

Conflito santo

Longanimidade na Parusia

Outro palavrão: apostasia

De hebreus e gentios

Cartas de outros

Irmãos de Jesus

O irmão de Jesus era rabino

Pedro, o imarcescível

São João: do foguetório ao fogo

A comédia do Apocalipse

Sobre o autor

 

Prefácio

 

Fazer a releitura de uma obra conhecida é um desafio e tanto. Exige muito estudo, conhecimento e sobretudo talento. Agora imagine a releitura de uma obra sagrada, considerada o livro clássico dos clássicos, pois Roberto Buzzo encarou o desafio de fazer a releitura da Bíblia Sagrada. Mergulhou no velho e no novo testamento, incluindo as notas de rodapé; o que não é pouca coisa. Foram mais de duas mil páginas lidas atentamente para extrair as crônicas reunidas neste livro.

Já que estamos no terreno do sagrado, podemos dizer que o autor operou um pequeno milagre ao transformar passagens da Bíblia Sagrada, que poderiam soar enfadonhas, principalmente a pessoas que não são religiosas, em histórias interessantes e divertidas. Para isso, usou uma boa dose de humor, além de ironia e linguagem coloquial. Outro recurso bem utilizado foi correlacionar fatos e personagens bíblicos com outros que fazem parte do momento atual.

Ao falar do princípio de tudo, em A responsabilidade coletiva, segundo Deus, ressalta: “Tudo começa com a sacanagem de Deus para conosco, só por causa da sacanagem da Eva (o Adão sempre foi um bobão, a sacana era a Eva…). Os dois furunfaram e nós sofremos as consequências até hoje. Não fora aquela libidinagem e estaríamos no bem-bom para sempre. Se bem que estaríamos no Paraíso, comendo, bebendo, passeando, livres de peste e patrão, mas… sem libidinagem!”

Em A história de Sansão, o autor questiona a gravidez de algumas mulheres estéreis por meio de anjos do senhor, que nunca aparecem sob a forma de uma pomba ou de um velho corcunda e decrépito ou de um anjo propriamente dito, com asas e insípido aspecto andrógino. “Os anjos chegam sempre como solitários e arrojados e famintos forasteiros, num figurino de galã. E conversam com a mulher quando ela está longe do marido. Aí, 9 meses depois, puft! Nasce o tal filho anunciado”.

Em algumas passagens, como em Davi & Micol, Roberto Buzzo insere as redes sociais, que só viriam milênios depois: “A pedrada do Davi viralizou. Viralizou também um meme que dizia: ‘Saul matou mil, mas Davi matou dez mil’ (1Sm 18, 7). Saul, o rei, pensou: pronto, taí um concorrente. E bolou um plano para destruí-lo (literalmente). Prometeu-lhe sua filha em casamento, desde que trouxesse cem prepúcios dos filisteus. Esperava que ele morresse, na colheita dos prepúcios. Mas Davi achou aquela exigência uma barbada. E colheu 200, ao invés dos 100 exigidos e se você acha que tô inventando, vá lá no primeiro livro de Samuel, ao capítulo 18, versículos 25 a 27 (Vá gostar assim de prepúcios lá no Oriente Médio!)”.

Em outras crônicas, o autor ironiza religiosos, consultores e coaches, que ganham dinheiro explorando incautos. É o caso de Salomão e a mula pintada de zebra, onde questiona a fama de sábio: “Eu queria muito saber como é que se adquire essa fama. Será que ele sabia a diferença entre um cedro e uma cabreúva? Ou será que ele sabia fazer pão de queijo? Ou será que ele sabia fazer tricô e crochê? Naquele tempo havia profeta em toda esquina, mas todos fajutos. Sabe esses caras que se anunciam e se vendem como palestrantes, consultores, coaches, arautos de novos paradigmas? Naquele tempo era a mesma coisa, uns caras que viviam em bandos e confederações e panelas e dioceses e denominações e dissidências e tendências e vaticanos, todos muito bem instalados nas respectivas sinecuras, uma corja de embusteiros”.

A Bíblia Sagrada foi escrita por homens e sempre conta uma história sob um olhar masculino e por vezes machista. Poucas mulheres ganharam relevância e conseguiram se sair vitoriosas em embates, quase sempre usando o sexo, como se essa fosse sua única habilidade. “Quer ver sacanagem? Leia a Bíblia. No bom sentido, com todo respeito. A libido aflora como pedra no cume. No varejo e no atacado. No particular, no paroquial e no nacional”, desafia Buzzo na crônica Sara, Judite, Ester.

Tirando o borogodó, o autor lembra, em Lepra no Ozias e na Maria, que naquele tempo, mulher só era nomeada quando fazia merda. “Foi o caso da Maria, irmã mais velha de Aarão e Moisés. (Aliás, essa Maria me parece mais decisiva para o Sistema Judaico-Cristão do que a Maria, mãe de Jesus, porque, não fora ela, a filha do faraó teria devolvido o bebê Moisés à correnteza do Nilo e, sem nada escrito, adeus história; ninguém hoje saberia dos israelitas e seus sucedâneos, como aconteceu com os filisteus, por exemplo)”.

Em Sara & Tobias, o autor também mostra que falcatruas envolvendo poderosos e dinheiro é coisa muito antiga. “Naquele tempo, como hoje, todo dinheiro que contava era guardado assim, escondido. Perto de morrer, chamou o filho, deu-lhe a senha e falou: vai lá sacar o dinheiro. E não havia google para ensinar o caminho, havia anjo. Foi então que aterrizou o Rafael para guiá-lo, disfarçado de segurança-banqueiro. Desde aquele tempo é assim: ninguém movimenta a grana do caixa-dois sem a ajuda de um banqueiro”.

Ao retratar Salomão, em O bispo machista, afirma que ele já era famoso por duas realizações: uma edificante e outra nem tanto: “a primeira, como incorporador imobiliário, conseguiu, pacificamente, incorporar todos aqueles terreninhos no centro velho de Jerusalém, pertencentes àqueles judeus que viviam do aluguel das respectivas casinhas desde Moisés, para construir seu famoso megatemplo que, de fato, valorizou muito o entorno. E a segunda realização, a façanha de ter tido 700 mulheres, fora as 300 concubinas”.

Em Dies Irae, argumenta que o medo é o maior trunfo de qualquer religião. “Como fazer esse povo incréu acreditar em Deus sem deixá-lo com medo? Aliás, isso é mais fácil do que chuchu na serra. Porque coisa mais fácil é amedrontar ignorante. E a nossa ignorância do mundo é incrível. Incrível de admirável, de notória. Assim como é notória nossa incredulidade. Já percebeu como descremos da humanidade, que é a maior obra de Deus? Já percebeu como trancamos a porta da casa, do carro, como tememos ser assaltados, roubados, atacados? Tenho quase certeza, por experiência própria, de que o populacho só paga o dízimo de medo do fogo eterno. Porque do fogo terreno eles sabem que não escapam, e que está próximo. É o que escutam desde o Sofonias, há 2.700 anos”.

E se Jesus vivesse hoje? Em Pedra sobre pedra, Roberto Buzzo imagina que ele nasceria em Itaquaquecetuba, ganharia a vida como ajudante de pedreiro e se deslumbraria ao conhecer a avenida Paulista, onde seria escorraçado da calçada por um segurança de shopping simplesmente por estar em frente ao estabelecimento com a sua indumentária de pobre, comendo um lanche trazido de casa.

E já que a imaginação é livre, imagino Roberto Buzzo lendo suas crônicas bem-humoradas na Praça da Sé, onde se inspirou a escrever este livro, observando os pregadores que diariamente marcam presença no local. Aposto que faria sucesso.

 

Sonia Nabarrete

Jornalista e escritora

 


 

Apresentação

 

Comecei a perceber que as histórias do Antigo Testamento faziam sucesso junto ao público consumidor, na boca dos pregadores da Praça da Sé, em São Paulo. É que passo ali ao menos uma vez por semana, de bicicleta. Sempre há uma roda de proselitismo religioso lá debaixo das tipuanas, entre a saída do metrô e a Rua Direita; os prosélitos, entretanto, variam, acho que alugam o espaço a hora, como se aluga quadras para jogar futebol.

Mas as seis ou sete palavras que eu ouvia, de passagem, falavam do Faraó do Egito, do rei Salomão, do profeta Elias, das tábuas da Lei... Minha percepção se deu ao mesmo tempo em que lia as tais antigas escrituras. Aí comecei a assuntar melhor. Por exemplo, as novelas da Record: Gênesis, Os dez mandamentos, A Terra Prometida... Tive a ousadia de assistir a alguns pastores na TV... De fato!

Percebi que os neopentecostais exploravam um nicho da Bíblia deixado de lado pela igreja católica, que é o Antigo Testamento. A palavra nicho é imprópria, porque subentende coisa minoritária. Ora, enquanto o Antigo Testamento tem 1.600 páginas, na edição em que o leio, o Novo Testamento tem 500. E há histórias e personagens deliciosos, lá naquelas 1.600 páginas “introdutórias”.

Em meus tempos de missa, que duraram até os 16 anos de idade, nunca ouvira falar em Ester, por exemplo. Ou em Judite, Rute ou Abigail. Nada das tretas do Sansão com seus cunhados, aliás eu nem sabia que Sansão e Dalila eram personagens bíblicos.

Nunca poderia imaginar uma história como a do rei Davi com a mãe do rei Salomão, a Betsabeia. Nada sabia das incursões psicanalíticas e dos sucessos administrativos de José no Egito e Daniel em Babilônia. E o que dizer da deliciosa história da Sara com o Tobias?

Tudo bem que esse quarto de páginas, que é o Novo Testamento em relação à íntegra da Bíblia, gerou metade de minhas crônicas, mas isso se deve à simpática figura de Jesus e à minha remanescente formação católica, creio eu. Dessas páginas, uma história saborosa, que passa batido nas lides eclesiásticas em geral, é a de Paulo, em Atenas, em que o apóstolo se deu mal no confronto ideológico com os finórios do Areópago.

E se nós, alfabetizados funcionais, torcemos o nariz para o Antigo e o Novo Testamentos (a Bíblia!), o que acontece? Os manipuladores da crendice e da ignorância populares nadam de braçada. Além do mais, a Bíblia é um clássico da literatura ocidental, não adianta negar. Até o advento da imprensa, ela realmente não existia, digamos. Eram, de fato, escritos independentes, ou melhor: manuscritos independentes, em pergaminhos ou outras bases, que a Igreja Católica guardava a sete chaves e com muito cuidado. Nem que os bispos quisessem, era possível popularizá-la junto aos fiéis.

E, então, qual a primeira providência do Gutenberg? Juntou tudo aquilo e fez o primeiro livro impresso. Mas a Igreja, acostumada demais com o sistema anterior, decretou que ele não devia ser lido pelo cidadão comum, isoladamente, porque era muito complexo/sagrado (e, cá entre nós, não estava de todo errada…).

Ao mesmo tempo, obrigou o tal cidadão a comparecer ao menos uma vez por semana ao pé do padre, para a leitura coletiva. E essa leitura coletiva consistia, e consiste, em o padre ler 10 linhas e fazer a interpretação durante trinta minutos. Mas só passagens do Novo Testamento, e enfatizando os Evangelhos!

E o livro, aquele de Gutenberg, barateou, mas continua pesado, com folhas muito delicadas, frágeis; melhor deixá-lo n'algum local nobre e de difícil acesso da casa, cuidando de desaconselhar até mesmo sua manipulação por algum membro mais ousado da família.

Não demorou muito e Lutero, ou Calvino, não sei, só para ser do contra, disse que todos — todos — deveriam ler ao menos um trechinho da Bíblia diariamente. Mas não somente isso: deveriam levá-la debaixo do braço para onde fossem e, se donos de hotel, deveriam deixar um exemplar em cada gaveta de criado-mudo dos seus estabelecimentos (daí por que ninguém poderá me acusar de banalizar nada).

Aí foi um deus nos acuda. O povo foi descobrindo cada coisa escrita lá! As desabonadoras varria-se para debaixo do tapete; as convenientes interpretava-se ao pé da letra. E o que aconteceu foi que não demorou para surgirem intérpretes independentes e interessados: os neopentecostais. E a leitura do trechinho diário foi dispensada, devendo ser substituída pelo repasse nos grupos do WhatsApp de uma passagem postada pelo pastor. Mas levar o calhamaço debaixo do braço para onde fossem continuou obrigatório.

E a Igreja Católica, o que fez – mas após quinhentos anos, depois que a vaca já tinha ido pro brejo? Fez uma primorosa edição crítica da Bíblia, por um grupo de franceses, que recebeu o título de La Bible de Jérusalem. Em português, no Brasil, publicada pela Paulus, editora católica, com o título Bíblia de Jerusalém.

E o fato é que eu, aproveitando a quarentena da COVID-19 e por livre iniciativa de livre pensador, andei com esse tijolo debaixo do braço por uns cinco meses… Foi a segunda vez que fiz isso. Na primeira, há 30 anos, li porque minha cônjuge a pôs na cabeceira da cama, do meu lado, e eu não resisto durante muito tempo a um clássico tão próximo assim, qualquer que seja a sua natureza. E a li muito rápido, nada restando do esforço. Agora, nesta segunda vez, restaram estas crônicas.

Em cada crônica, há ao menos uma referência a um versículo, recurso que permite ao leitor saber qual trecho me inspirou a tal crônica. Como a brincadeira vai do Gênese ao Apocalipse, é uma forma de provar ao leitor desconfiado que eu realmente passei pelas 2.206 páginas do livro, incluindo as extensas notas de rodapé.

Realmente me diverti muito enquanto as escrevia e digo-lhes que é um ótimo artifício para suportar leituras muito longas ou enfadonhas (porque eu lia um trecho e escrevia a respectiva crônica em seguida). Tomara que a leitura lhe seja prazerosa. Aliás, durante a leitura, recomendo manter uma Bíblia ao lado para conferências e outras descobertas.

 

O autor   


 

Primeira parte: Antigo Testamento

 

Pentateuco

 

Gênesis (Gn)

Êxodo (Ex)

Levítico (Lv)

Números (Nm)

Deuteronômio (Dt)

 


 

Bíblia, literatura e razão

 

Todo mundo conhece a estória do dilúvio e da arca de Noé. A Terra já era povoada, mas ninguém prestava. Então, Deus, o criador (e dono, portanto) daquilo tudo, pensou bem e decidiu: vou acabar com essa safadeza toda e começar de novo.

Em verdade, tudo ainda era muito novo, não fazia muito tempo que as coisas haviam sido criadas (sabe quando a gente começa a fazer uma coisa e, daí a pouco, vê que tá errado, desmancha e começa de novo?). Pois foi isso que Deus fez. Abriu as comportas que seguravam as águas de baixo e as de cima e inundou tudo. Matou tudo o que respirava e se movia sobre a terra.

Mas, para não ter de começar tudo do zero, passar pelo vexame de Adão e Eva novamente, Deus escolheu uma das suas criaturas melhorzinhas — o Noé — e a avisou do aguaceiro com antecedência, enfim, a estória da arca de Noé, que todos conhecem.

Quando as águas baixaram, na hora do desembarque, Noé e a filharada toda, e noras e genros, e netas e netos, família grande pra caramba, toda aquela animalama, tudo embolorado pela umidade de mais de 150 dias de chuvas ininterruptas, naquele ambiente fechado, sem nenhum furinho, o fedor deixado pelos animais confinados… um casal de cada bicho que vivia na terra, foi um perrengue danado.

E a enorme embarcação (130 metros de comprimento por 23 de largura por 14 de altura – Gênesis 6, 15-16), improvisada, construída às pressas, parou no seco e no alto – claro, longe de qualquer porto –, sem nenhuma infraestrutura de desembarque. Pensem no perrengue!

Ainda bem que não havia peixes, batráquios, crustáceos e anfíbios em geral, que se viraram por conta própria durante a inundação. Senão, não sei como fariam com eles no seco, sendo que nem geladeira havia naquele tempo. Deus, vendo a trabalheira, concluiu não ter sido uma boa ideia e disse: 

“Eu não amaldiçoarei nunca mais a Terra por causa do homem, porque os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância; nunca mais destruirei todos os viventes, como fiz. Enquanto durar a terra, semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não hão de faltar” (Ibidem, 8, 21-22).

Não mais ia repetir aquilo, nunca mais ia destruir a Terra, o bicho-homem não tinha jeito mesmo, era mau por natureza. Quer dizer, o coração do homem era mau; que fizesse besteira à vontade que Ele não destruiria mais a Terra.

E vejam que Deus não contava com a razão. A razão era a cobra ou o capeta. Deus queria manter o homem bem longe da razão. Inclusive, ela já havia sido devidamente tratada. Por causa dela, o homem perdera a moleza do Jardim do Eden, o Paraíso. (Parênteses tudo a ver: você, que tem filhos: eles já estão na idade de serem postos para fora do Paraíso?).

E, nesse negócio de “enquanto durar a terra”, será que Deus estava pensando na Bomba? Num meteoro? No derretimento das calotas polares? N'algum vírus? No consumismo? Na internet? Bom, parece que nesse propósito de nunca mais acabar com os viventes da Terra Deus reconsiderou, senão não tinha tanto profeta dando uma de Noé até hoje.

  

 

Abrão no Egito

 

Olha só, vai vendo como Abrão era sacana. Ele e Sarai, sua mulher, e toda a sua turma, viviam no território que, depois, veio a se chamar Líbano, Jordânia, Síria, Palestina. Houve uma fome danada, por causa da recessão e do desemprego provocados pelo neoliberalismo econômico, e Abrão pegou sua turma e se mandou para o Egito. Naquele tempo, o Egito era uma espécie de Estados Unidos de hoje. Economia desenvolvida, terra das oportunidades, cidade grande, faraós.

Só que a Sarai, sua mulher, era linda (nova ainda, naquele tempo não tinham filhos). E os egípcios não davam moleza. Quando chegava um retirante com uma mulher bonita, simplesmente matavam o sujeito e ficavam com a mulher. Mas se o homem fosse irmão da mulher bonita, aí era diferente. Os interesseiros egípcios cobriam-no de vantagens porque, na ausência do pai, era o irmão que concedia a irmã a quem melhor pagasse por ela.

Então, às portas da cidade, Abrão, escolado, falou para Sarai dizer que era sua irmã. E assim fizeram, e o faraó querendo agradar o “irmão” de Sarai de tudo quanto era jeito, e favorecendo-o nas concorrências estatais — acho que Abrão constituiu logo uma construtora. E enquanto Sarai distraía e prometia ao Faraó, Abrão trabalhava… e enricava (Gn 12, 11-16).

Eu sei que Abrão juntou um escarcéu de ovelhas, bois, jumentos, escravos, servas, jumentas e camelos. Porém, no bom da festa, Iahweh (Deus), vendo aquela pouca-vergonha no palácio, uma mulher casada tricotando com o faraó, enquanto seu marido ganhava dinheiro fornecendo ao estado, fez grandes pragas se abaterem sobre o país. Então o faraó se tocou e foi reclamar a Abrão, que ele — faraó — não sabia de nada, era inocente, fora enganado pelo próprio marido, que se dizia irmão…, mas era tarde, as pragas já comiam soltas e as burras de Abrão já estavam abarrotadas. De qualquer maneira, o faraó os expulsou, que fossem embora — sumissem — e, inclusive, que carregassem tudo o que haviam acumulado de riquezas, que ele não queria confusão com o Deus daquela gente; era um governo sério, nada de favorecer rufiões e feiticeiros.

Aí fiquei pensando: isso explica a existência de tanto proxeneta no mundo. Tudo bem, Abrão era gente boa, Sarai séria, queria apenas salvar a própria vida, mas a encenação foi longe demais, tanto que, não fora a intervenção divina, não sei quando e onde a festança ia parar. Porque, parece que, para ambas as partes, ou melhor, para as três partes, o arranjo estava bastante satisfatório.

 

 

Abrão e Sarai: esses dois!

 

Abrão mudou o nome para Abraão e Sarai para Sara. Em geral, quando ficam ricas ou importantes, ou ricas e importantes, ou se danam a participar de eleições democráticas, as pessoas moldam seus nomes conforme a conveniência. José Ribamar mudou para José Sarney; Luiz Inácio acrescentou Lula. FHC já era príncipe antes de se candidatar, não precisou mudar nada.

Abraão e Sara formavam uma dobradinha do barulho, de acordo com o que aprontaram com o todo-poderoso faraó dos Estados Unidos, quero dizer, Egito. De volta à terrinha, ricos e poderosos, começaram melhorando os próprios nomes, como vimos. Mas, como se sabe, a maior preocupação de uma família rica é a sucessão. A herança! E Sara era estéril. Não conseguia dar um herdeiro a Abraão.

Naquele tempo isso era um pouco mais importante do que hoje, porque não havia o truque legal e tributário das fundações para gerir heranças e porque o Estado – a coisa pública – ainda era incipiente, praticamente não havia opções de doar os próprios bens a uma universidade pública, por exemplo — como fez Raduan Nassar —, porque não havia universidade pública. A opção era doar para a Igreja, mas doar os próprios bens para a Igreja não tem tatu que aguente, daí por que Sara…

Bem, Sara chamou Abraão e lhe falou para se virar com Agar, sua serva egípcia; que naquele tempo isso podia legalmente, que quem não tem cão caça com gata e Abraão, que só se ocupava com grana, voto e poder, nem pensou duas vezes, foi logo negociando com Agar, que ficou grávida (Gn 16,4).

Mas, sabe como é, se ainda hoje, após décadas de firme atuação feminista, há mulheres que usam o próprio útero como ativo operacional, imagina naquele tempo. Agar, vendo-se grávida, começou a olhar torto, e por cima, para Sara. E Sara, confiante no próprio taco, encostou Abraão na parede: ou eu ou ela! Abraão, todo atribulado em tenebrosas transações com a bancada pragmática do parlamento, deu de ombros: tô nem aí, se vire com ela.

Vendo que perdeu, Agar fugiu, mas com o barrigão. Iahweh, vendo a cagada de Abraão, mandou um anjo-conciliador para resolver o imbróglio. Agar só se convenceu a voltar — por causa do seu instinto materno — quando ouviu do Enviado que seu filho seria um potro de homem (Gn 16,12); o que se verificou, mais tarde, ser conversa mole do anjo, mas aí a serva já havia caído em sua lábia.

O filho de Agar se chamou Ismael, e tanto não serviu que Deus acabou fazendo Sara parir, depois de velha, Isaac, que já foi nomeado com o conveniente duplo “a” desde o começo. Isaac, aquele que não foi morto pelo próprio pai porque Deus suspendeu o pedido na última hora, ao perceber que o homem era doido, ia mesmo matar o próprio filho.

 

 

Jacó e Labão: difícil saber qual o mais ladino

 

Jacó era irmão gêmeo de Esaú, filho de Isaac, que era filho de Abraão e Sara, aqueles que embromaram o presidente do Egito. Jacó tinha pra quem puxar: instado por sua mãe Rebeca, sacaneou seu irmão Esaú que, por ter saído primeiro no parto, era o primogênito.

A primogenitura valia muito naquele tempo. O primogênito simplesmente ficava com tudo, principalmente a autoridade. Não quero entrar nos detalhes da tremenda sacanagem, quem quiser que vá lá no capítulo 27, do Gênesis. O que sei é que Esaú ficou puto e Jacó teve de fugir, senão morria. E fugiu para a casa do seu tio Labão, irmão da sua esperta mãe.

(Quem foi lá no Gn 27 viu que o conflito fraternal foi por causa da baixa visão de Isaac. Dessa grande confusão, podemos deduzir que é um perigo delegar poder de bênção a alguém que não enxerga um palmo à frente do próprio nariz).

Acontece que Labão tinha duas filhas, da idade de Jacó e, mais ou menos, os três com os hormônios à flor da pele: Lia e Raquel. E, Raquel, a mais nova, era um docinho de coco, uma coisinha fofa, um tesão, segundo Jacó.

Enfim, conversa vai, conversa vem, Jacó concordou em trabalhar sete anos para Labão em troca de Raquel. No dia do casamento, aquela festança, os noivos foram dormir. Aí, noite de núpcias, aconteceu tudo de acordo com o previsto, no escuro, claro.

No outro dia, a claridade entrando pela janela, Jacó olhou para sua mulher, ali ao lado e quem viu? Lia. Logo Lia, a irmã mais velha, aquela chata! (Mas, pensando bem… recordando as sensações de poucas horas antes... até que ela não era de se jogar fora).

Mas não, isso não! O trato era casar com Raquel, aquela fofinha. Labão justificou a tramoia, dizendo que o costume era casar primeiro a mais velha. E Jacó ficou tão puto que contratou, para defender sua causa, um advogado português, que redigiu sua defesa curta e ritmada:

“Sete anos de pastor Jacó servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela;/ mas não servia ao pai, servia a ela,/ e a ela só por prêmio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia,/ passava, contentando-se com vê-la;/ porém o pai, usando de cautela,/ em lugar de Raquel, lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos/ lhe fora assim negada a sua pastora,/ como se a não tivera merecida,/ começa de servir outros sete anos”,/ dizendo “Mais servira, se não fora/ para tão longo amor tão curta a vida!”.

Lendo a defesa portuguesa, muito tempo depois, eu pensava que Jacó teve de trabalhar mais sete anos para se casar com seu grande amor, a Raquel. Mas agora, diante da fonte primária, vejo que não foi assim. Ele se casou com ela rápido, em uma semana.

Foi por isso que saiu com aquela lorota de que “mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida”. Sendo que o sacana continuou casado com a Lia, também! Eu, particularmente, acredito que ele não se teria dado tão bem, não fora os pretéritos mais que perfeitos de Camões.

 

Jacó luta com Deus

 

Como se sabe, Jacó sacaneou seu irmão mais velho, Esaú. Tanto que teve de fugir para a casa do tio Labão, senão morria, pois Esaú queria matá-lo. Nisso há um exagero do Esaú, pois eram gêmeos. Só porque estava mais perto da saída do útero, Esaú queria toda a herança. Pensando bem, até que foi bem-feito que tenha sido sacaneado pelo irmão.

Passou-se muito tempo, Jacó casou-se com Lia e com Raquel, teve filhos também com duas servas, num total de onze (fora as filhas, que naquele tempo não contavam…). Benjamim, o 12º, ainda não nascera nessa ocasião em que Jacó deixou a casa do sogro Labão para retornar à casa paterna. Sabemos também que Jacó ficou rico no trabalho de administração do rebanho de Labão, usando de artimanha, conforme relata o Gênesis, cap. 30, versículos 25 e seguintes.

No meio do caminho da viagem de volta, mensageiros disseram a Jacó que seu irmão Esaú estava perto, viria a seu encontro… acompanhado de 400 homens! Jacó pensou: tô lascado. Então, do rebanho que levava, separou um escarcéu de cabras e bodes e ovelhas e cordeiros e camelas e vacas e touros e jumentas e mandou seus servos irem à frente, oferecer a Esaú como presente, enquanto permanecia acampado à beira do rio Jaboc.

Mas estava tão preocupado que não conseguiu dormir. Então resolveu levantar acampamento em plena noite. Atravessou as mulheres e os filhos e toda a tralha para o outro lado do rio e voltou, ficando sozinho na margem deserta. A meu ver, Jacó estava mal-intencionado. Pensando em dar no pé, cair no mundo.

Porém, naquela noite de lua nova e escura feito breu, bateu-lhe um cansaço que o deixou zonzo. O estômago batia-lhe nas costas, estava só com o almoço do dia, morria de fome. E estava bêbado de medo, as pernas tremiam.

De repente começou a ventar um pouco mais forte. Jacó sacou da espada e começou a lutar com as sombras que lhe atacavam. Nunca uma espada pesou tanto… acho que Jacó desmaiou. Ou dormiu, sei lá. O certo é que sonhou. Mas Moisés, que escreveu a história, assegurou que foram de verdade o encontro e a luta com o estranho.

Mas pode ter sido Moisés o responsável pelo aumento. Os escritores gostam de aumentar. E quando o assunto é o sobrenatural, aí é que se esbaldam. Vejam o caso do Paulo Coelho. Num simples diário de peregrinação, encontrou um escarcéu de bruxo, mago, mensageiro, mestre, demônio, anjo, bode, cão, gato, urubu…, cada um mais misterioso do que o outro.

Os leitores têm orgasmos; no caso de Paulo Coelho, estão comprando tudo o que escreve até hoje. Até Guimarães Rosa entrou nessa, não ele propriamente, mas seu conhecido Riobaldo, que desafiou Cramunhão numa encruzilhada de veredas no grande sertão das Geraes. Por coincidência, também numa noite de lua nova e ventania…

Acho que esses caras do Além têm vergonha das rugas do rosto (são muito velhos), daí por que só aparecem ou com luz faltando ou com luz em excesso… Jacó, quando percebeu que o outro estava brincando, enquanto se esfalfava para se defender, sacou logo que o tal não era deste mundo.

Então, para ganhar tempo, se agarrou ao adversário, como fazem os lutadores de boxe, quando estão cansados. E aproveitou para pedir uma força: “Cara, tô vendo que você é extraterrestre. Me ajude aí com meu irmão, acho que ele vai me matar”. Aí o estranho pensou e sacou: ”E se você mudasse de nome?” Taí, a partir de hoje você passa a se chamar Israel!

E foi assim que Jacó morreu, pelas mãos de um estranho, e nasceu em seu lugar Israel (Gn 32, 23-33). Não sei se por causa de mais essa artimanha, ou por aquele despropósito de animais recebidos como presente, no outro dia Esaú estava cheio de saudade do irmão, quando se encontraram. Mas, pelo sim, pelo não, cada um foi para um lado após o abraço; cada um a construir sua própria nação.

À luz do que Israel faz com os Palestinos atualmente, é possível que Esaú tenha se arrependido desse gesto fraternal, estando em enorme superioridade bélica.

 

José

 

José. Não o carpinteiro, o da Maria. Nem o do Drummond. O José, do Gênesis, primeiro filho de Raquel com Jacó (aqueles de Camões). Jacó foi outro que também mudou de nome por causa do poder. Mudou para Israel. Israel teve filhos com Lia, com a escrava de Lia, com Raquel, com a escrava de Raquel; 12, no total.

Naquele tempo, quando a mulher não podia ter filhos (ou não gostava ou entrava na menopausa) e o marido gostava ou queria mais, a mulher lhe dava sua escrava, e os filhos continuavam valendo, legítimos. O senhor da casa grande brasileira só copiou a primeira parte desse costume…

José sempre foi muito puxa-saco. Sabe esses caras diligentes e entusiasmados e pacientes e otimistas? Começou puxando o saco do pai, em detrimento dos irmãos, claro. Porque todo puxa-saquismo é em detrimento dos demais interessados. Os irmãos mais velhos, sabe o que fizeram com José? Venderam-no como escravo para um imperialista do primeiro mundo.

No Egito, José foi logo puxando o saco do seu dono, o chefe do sistema penitenciário do faraó. E trabalhando como se o negócio fosse próprio. Ele puxava o saco e interpretava sonhos (é que, percebendo que a psicanálise era profissão de futuro, começou a estudá-la por conta própria, já que Freud ainda não havia nascido…).

Numa dessas, virou psicanalista do faraó. E nas longas conversas no divã, enquanto o paciente-faraó se desnudava a contar sonhos e sucessos e antecipar projetos do seu governo, José interpretava os sonhos do paciente com a típica lábia escorregadia da profissão e demonstrava sincera alegria com os bons resultados estatais (porque uma das características do puxa-saco autêntico é se alegrar sinceramente com os lucros do chefe/patrão).

Bom, após aquelas longas sessões, não restou alternativa ao faraó senão nomear José primeiro-ministro plenipotenciário. E então José buscou toda a sua família, que passava fome naquelas terras desérticas além do Mar Vermelho. O Egito tinha (e tem) a maior riqueza da Terra em meio àqueles desertos: o delta do Rio Nilo(grande extensão de terra). Pensem numa terra fértil e úmida! Era. É. Mas José surpreendeu: implantou o comunismo no Egito (Gn 47, 13-26). 

Foi. José, administrando o país, estocou grande quantidade de grãos, durante sete anos de grandes safras. Depois, vieram sete anos de safra nenhuma (acumulou na bonança para gastar na fartança). A coisa foi ficando feia, porque o povo gasta adoidado, muito mais na bonança. O dinheiro e as bugigangas se acabaram rápido, e então José fornecia os grãos em troca das terras, que iam para o faraó. Assim, as terras foram todas estatizadas e os antigos proprietários continuaram trabalhando nelas, pagando 20% do que produziam ao faraó (chamava-se corveia, e veio para ficar...).

A experiência de José nos ensina que, para fazer a Reforma Agrária ou implantar o comunismo, não bastam sete anos de terra arrasada, é preciso também muita reza e a ajuda de Deus.

 

 

Moisés & Jesus

 

Um recém-nascido boiava num remanso do Rio Nilo, dentro de uma cesta. Mas o menininho estava seco e quente quando foi resgatado pela filha do faraó. O bebê estava bem agasalhado e a cesta fora bem calafetada, não entrava água de jeito nenhum. Era mais um hebreuzinho, dentre tantos, jogado no rio, por determinação das autoridades egípcias.

Todos os recém-nascidos do sexo masculino nas famílias judias deveriam ser mortos. A filha do faraó pegou aquele bibelô, coisinha mais fofa. Olha só que estorinha boa pra contar pras crianças: enquanto a cesta com o bebezinho dentro ia navegando rio abaixo, uma sua irmã (é assim, indefinida, sem nome, que a irmã aparece na narrativa) ia acompanhando, de longe, para ver o que acontecia.  Quando viu que a filha do faraó pegou a cesta e ficou compadecida com o choro do nenê, essa anônima irmã chegou perto e, dando uma de maria sem braço, disse, “Cê qué qui eu vá chamar uma mulher dos hebreus para ajudar você a criar essa criança?”. A filha do faraó falou “boa ideia, vá!”. E então ela foi e chamou sua mãe, claro, que era também a mãe do boneco que estava dentro da cesta. Dessa forma, Moisés cresceu sob os cuidados da própria mãe. Quando o menino cresceu, ela o entregou à filha do faraó (Êxodo 2,1-10).

Moisés tinha cidadania egípcia, foi criado no bem-bom de família local e rica, estudou nas melhores escolas, fez faculdade, foi para a escolinha de inglês, aprendeu natação, equitação, esgrima, viajou pra Disney…  Mas era judeu.

Um dia, vendo um guarda açoitar um trabalhador judeu, matou o guarda. E teve de fugir. Fugiu para aquele deserto além do Canal de Suez, terra de ninguém, na época, aliás, terra de Iahweh. Foi lá que Deus o recrutou para agitar e organizar a população judaica no Egito.

Moisés não aceitou, alegando que não sabia falar em público. Sendo que naquele tempo não havia o curso de oratória de Reinaldo Polito. Mas Deus não se deu por achado, porque percebeu que ele estava era com medo. E falou para o Moisés chamar seu irmão, Aarão, que sabia falar muito bem. E, dessa forma, inventou o primeiro mandachuva de bastidor e associou, definitivamente, a lábia com a catequese.

O fato é que Moisés é o mandachuva dos judeus até hoje, assim como Jesus é o mandachuva dos cristãos. Interessante: quando Jesus nasceu, havia ordens de matar todo recém-nascido do sexo masculino. Da mesma forma, quando Moisés nasceu. Perceberam que, desde o princípio, quem determina e manda na bagaça é o sexo masculino? Deus, Adão, a costela de Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus, o papa, o bispo, o pastor, o sacristão, o coroinha... Eu realmente não compreendo por que há tanta mulher entusiasmada com essa religião de homens.

 

Nove pragas e uma barbaridade

 

A missão dada por Deus a Moisés era libertar os hebreus da servidão no Egito e levá-los para Canaã, a Terra Prometida a Abraão, muito tempo atrás. Assim, voltou para o meio deles, organizou sindicatos, associações, comitês, acho até que fundou um partido, organizou greves, passeatas… A coisa ficava forte, o faraó chamava para negociar e… nada! Compreende-se: era um movimento teleguiado do estrangeiro: Deus, do outro lado do Mar Vermelho, falava para Moisés, que na moita falava para Aarão, que negociava com o faraó. Se o faraó não libertasse os hebreus, Aarão, com sua vara mágica, transformaria todas as águas dos rios em sangue, para provar que seu deus era poderoso. O faraó disse não, e as águas se transformaram em sangue.

Mas os sacerdotes do faraó disseram que aquilo era um truque manjado e fizeram a mesma coisa. E tome mais mobilizações e passeatas e greves, até arrancar nova negociação. E outra negativa do faraó. Agora Deus mandava dizer que um exagero de rãs invadiria o Egito: ia ter rã até sobre a cama do faraó. Foi. Outro truque manjado, segundo os sacerdotes do faraó, que também sabiam produzir celeumas de rãs. E a agitação não parava mais. Quanto mais o governo negava, mais o povo ficava puto e ia pra rua. E novamente se sentavam para negociar: o faraó para negar e Aarão/Moisés para ameaçar com nova praga.

Dessa vez ia ser mosquito, na próxima, moscas; na seguinte, peste nos animais; em seguida, úlceras; depois, chuva de pedras; e a oitava, cuja fama chegou aos nossos dias, gafanhotos. Tudo em vão, os judeus continuavam o trabalho árduo, sob o tacão egípcio. Moisés ainda tentou mais uma: três dias de trevas. Nada!

Então Deus apelou para a ignorância e mandou matar todos os primogênitos. Não só dos homens, mas também dos animais: o primeiro bezerrinho que a novilha paria era imediatamente morto. Só não morriam os primogênitos em cuja frente da casa havia a marca de sangue do cordeiro da páscoa… (Ex 12, 13).

Depois dessa barbaridade, o faraó abriu o bico, e qualquer semelhança com Hiroshima e Nagasaki tem a ver com o mesmo deus Judaico-Cristão, com a civilizada civilização greco-romana. Os judeus não foram libertados, foram expulsos e até apressados pelos guardas do faraó. E é assim que começa o famoso êxodo, comandado por Moisés que aí sim, vitorioso, ficou bom de discurso.

 

Não desejar a mulher do próximo

 

Por um triz que os guardas egípcios não pegam os israelitas em fuga (gozados, esses egípcios: expulsam, depois correm atrás). Não fora a maré baixar, depois subir, em horas convenientes, e seriam capturados. E, na outra margem, o que os esperava? Deserto, seca e fome. Iahweh resolveu o problema da comida descarregando cargas de um enlatado da marca Maná. E o problema da água, perfurando poços profundos no deserto, com sondas emprestadas da Shell, da ExxonMobil, da ChevonTexaco, da BP, aquela que estivesse mais perto.

Só que naquele tempo a indústria alimentícia não era tão variada, ainda não se conhecia o milho nem a mandioca e nem existia ainda a Nestlé, nem a Unilever, e o povo teve de se contentar com aquele único enlatado durante 40 anos! Mas a água era boa.

A primeira coisa que Iahweh fez foi apartar o povo para fazer seu proselitismo sossegado, levando-o para longe dos opositores, do outro lado do Mar Vermelho. Estacionou o rebanho aos pés de um vulcão, para ele ficar amedrontado e aderir com entusiasmo. Então, chamou Moisés lá em cima, só ele, que aquilo não era democracia direta, era teocracia representativa, Ele comandava Moisés, que falava para o povo.

Porque Deus era esperto, sabia, como se viu lá longe no futuro, com o advento do WhatsApp, que o povo não estava, nem nunca estaria, preparado para receber a informação bruta, o joio e o trigo misturado. O povo precisava de representantes e interpretantes. 

Moisés, meio ressabiado, foi, mas já sacando, puto, que Iahweh deu aquela trabalheira danada para ele e seu irmão Aarão, com o povo, lá no Egito, só para não ter concorrência na hora da campanha eleitoral. Moisés era ladino, tinha afiado faro político, percebeu que aquilo nem era mais pregação, lavagem cerebral pura, porque, com o povo nas mãos de Deus, que dominava completamente o mercado dos fornecedores de água e comida, não havia alternativa.

Enfim, fazer o quê? A cagada tava feita, agora era ir em frente. Deus estava no comando, regulamento fixado na pedra. Eram dez regulamentos, que chamaram de Decálogo. A lavagem foi tão bem-feita que os cérebros continuam limpos até hoje.

Muito tempo depois, na passagem para o Latim, pelo que parece um tal Jerônimo, que depois virou santo, atualizou o título de Decálogo para Dez mandamentos, já prevendo o sucesso e antecipando a terminologia da literatura de autoajuda.

Eram dez proibições. Tudo começava com “não”, e a proibição que o povo mais lembrou, depois, por séculos e séculos afora, foi a última que dizia: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher de teu próximo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem a coisa alguma que pertença a teu próximo” (Ex 20,17).

Digo que é a que o povo mais lembra porque é a mais desobedecida.

Mas, observem que, naquele tempo, a mulher do próximo se equiparava ao seu escravo, ao seu boi, ao seu jumento, perceberam?

E, séculos depois, Vaticano construído, São Jerônimo ou Santo Agostinho, não sei, falou “não, isso não pode ser”. E desmembrou aquela última proibição da seguinte forma: 9º mandamento: não desejar a mulher do próximo; 10º mandamento: não cobiçar as coisas alheias. Porque onde já se viu equiparar a mulher a boi, jumento, escravo, automóvel?

E foi por isso que eu, quando criança, com sete anos de idade, tive de decorar, para fazer a primeira comunhão, os 10 mandamentos, dentre os quais um tal que dizia: não desejar a mulher do próximo. Mas os tempos estão se acelerando realmente. Precisaram atualizar novamente a redação do 9º mandamento.

A ideia era acrescentar a parte da mulher, tipo: não desejar a mulher do próximo nem o homem da próxima, o que seria justo, convenhamos. Mas então um gaiato assessor lembrou logo da sigla LGBT, e outro assessor disse que essa já era, agora havia outra, LGBTQIA+.

Então o septuagenário arcebispo que coordenava os trabalhos, lembrando sabiamente que o desejo não tem cerca, decretou o tucanês, no que todos acharam ótimo, e o 9º mandamento ficou assim: Guardar castidade nos pensamentos e desejos. Resolvido! Resolvido, mas sem graça.

 

O bezerro de ouro

 

Já escrevi anteriormente que Iahweh (ou IHWH ou Deus) não falava diretamente ao povo. Seu regime era representativo ao contrário: Deus quem elegia o representante do povo. Moisés, no caso. IHWH falava com Moisés. Talvez isso explique a impaciência do povo para com esse representante. Vira e mexe Iahweh tinha de acionar seus anjos-militares para castigar revoltas populares. Mas, pensando bem, é duro de amar Teresa e tratar diretamente com esse povinho…

O povo era obrigado a comprar água da Shell, porque o serviço era monopolizado; era obrigado a comer daquele enlatado único e regulado, da marca Maná, que naquele lugar era um deserto de verdade. E Moisés naquele vai e vem ao Monte Sinai, em intermináveis e secretas conversas com Deus.

Quer dizer, Moisés até repassava a Aarão [porque, além de ser um regime de representação invertida, essa representação era dupla, tinha duas camadas, o 1º representante (Moisés) falava para o 2º representante (Aarão) que deveria falar com o povo]. Mas, não sei se porque naquele tempo o serviço de comunicação era péssimo, ou se porque Aarão só ficava em seu gabinete – a meu ver, as duas coisas –, o fato é que o povo se sentia abandonado politicamente.

Então, alguns espertalhões começaram a organizar o povo em grupos de WhatsApp. E a coisa deu tão certo que, numa dessas intermináveis conversas de Moisés com Deus no cume do Monte Sinai, esses espertalhões convenceram o povo a adorar o bezerro de ouro. Deus, que tudo sabe, quando soube, foi um deus nos acuda. E tome trovões e ventanias e terremotos e pestes. 

Pelo que ouvi falar, foi assim: Deus ficou sabendo que havia no meio do povo uns agitadores pedindo uma constituinte para pôr as leis no papel, quer dizer, no papiro (porque até então as leis eram apenas orais). Eu acho que esses agitadores eram advogados… Mas, independentemente do interesse corporativo, o fato é que, para o mandachuva, quanto menos leis escritas melhor.

Então Deus se antecipou — porque ditador bom é aquele que não dorme no ponto —, chamou Moisés lá em cima (do Sinai) para discutir uma nova constituição, a ser outorgada por Ele próprio. E ficaram lá, discutindo os dois, enquanto cá embaixo a agitação comia solta: de um lado, os safados do Zapp e, do outro, os ingênuos do Estado democrático de direito.

Aarão era uma espécie de Rodrigo Maia, querendo agradar a Deus e ao Diabo. Nessa indecisão, apareceu um sábio tucano e sugeriu que moldassem um bezerro de ouro para o povo seguir, se distrair. O povo não suporta o vácuo ou a incerteza ideológica. E já fazia 40 dias que Moisés e Iahweh estavam lá em cima, naquela conversa que não acabava mais. Aliás, o povo pensou que o vulcão tinha engolido Moisés, que ele não mais voltaria; enfim, tratou de arranjar outro deus para adorar, um deus fajuto, no caso. Então Deus radicalizou: começando pelas novas leis que, em vez de escrevê-las em simples papiro, escreveu-as em tábuas de pedra. Eu sempre pensei que tábua era só de madeira; mas não, também pode ser de pedra.

Deu as pedras da Lei a Moisés e mandou: “corre, que a coisa lá embaixo tá feia. O povo tá viajando de avião adoidado, invadindo as lojas, enchendo as casas de bugigangas eletroeletrônicas, entupindo as ruas com automóveis, esquecido da vida e de mim. Vai lá e acaba com aquela festa!”. (E mais de três mil homens perderam a vida, na ponta das espadas dos Levitas, que aproveitaram a oportunidade para puxar o saco de Deus e ganhar a concessão de todas as igrejas, negocião!, conforme Ex 32, 25-29).

 

A constituição divina

 

Moisés ficou 40 dias discutindo com Deus a nova constituição a ser outorgada sobre os israelitas. Discutindo não, ouvindo. A coisa foi tão demorada que o povo, lá embaixo, esqueceu dos dois e passou a adorar o bezerro de ouro. Deus falava, Moisés ouvia. Direto, dia e noite, não paravam nem pra comer. Deus já não come mesmo e Moisés estava jejuando. Jejuando e ouvindo a ladainha divina. E o povo, na planície, se danando com outros deuses, porque tocar essa vidinha sem um ser transcendente para descarregar nossos pecados é insuportável.

Acho que, não fora a concorrência, os dois estariam lá em cima do Monte Sinai até hoje porque, Deus, tudo bem, além de não ter pressa, por ser eterno, era o lugar dele mesmo, mas Moisés… sabe como é, o cara vivia numa tenda, sem banheiro, água encanada, aí foi praquele palácio, porque Deus deve ter armado um palácio para essa tão importante conversa. Provisório, mas palácio, algo fácil para quem havia construído tudo o mais em seis dias. Gostou do conforto, foi ficando, esquecido do povo.

Enfim, Moisés desceu lá de cima com um calhamaço de leis, decretos, regulamentos, portarias de fazer inveja à nossa cidadã de 1988, uma coisa, assim, dumas 50 páginas tipo e padrão Bíblia. Mas, por escrito que é bom, só a merreca dos dez mandamentos, naqueles dois trambolhos de pedra que, naquele tempo — onde já se viu? — chamavam de tábua. O resto, ele teve de decorar.

Decorar calhamaços não era difícil como hoje, não havia redes sociais, Netflix, WhatsApp, contas de água, luz, gás, condomínio, banda larga, TV a cabo, IPTU, IPVA, boletos da escola, da prestação do apartamento, do carro, do laptop, da viagem de férias, do dízimo, do cartão, do convênio médico, não era preciso fazer a declaração do imposto de renda, revisar o carro, acompanhar a lição do filho, consertar o chuveiro, comprar presente pro aniversário da mãe, da sogra, da filha, da amante, da sócia, fazer  tudo novamente para a casa da praia e respectiva vizinhança.

Era um tempo de poucas distrações, a cabeça mais leve pra guardar dados. Apesar disso, Moisés esqueceu algum detalhe, ao repassar o calhamaço ouvido ininterruptamente durante 40 dias ao pobre do Aarão e seus filhos, que seriam os sacerdotes encarregados de executar e fazer observar as tais prescrições.

Tanto que, na hora que Iahweh baixou, para a solenidade de outorga, houve um incidente banal para Deus, mas fatal para dois dos quatro filhos de Aarão (Lv 10, 1-3). Os dois filhos mais velhos de Aarão — Nadab e Abiú —, ao fumegarem o altar com o incensório, fizeram algo diferente do prescrito, e Deus não perdoou: fuzilou-os ali mesmo, na frente de todo mundo e do próprio pai. Mas tudo bem, banal, a festa continuou, com pequena interrupção para remoção dos cadáveres.

Uma coisa boa que achei dessa constituição divina era o ano sabático e o ano do Jubileu (Levítico 25). O ano sabático consistia em um ano de folga a cada sete. E o ano do Jubileu era uma espécie de ano sabático especial a cada sete anos sabáticos normais, ou seja, a cada 50 anos.

No ano do Jubileu, até os escravos eram libertados, os devedores perdoados, as propriedades resgatadas; era uma anistia ampla geral e irrestrita, uma grande felicidade coletiva, exceto para a minoria dos previdentes bem-sucedidos acumuladores de capital.

 

Funcionários públicos no país governado por Deus

 

Adotado o critério de Deus no Brasil atual, teríamos 9,2 milhões de funcionários públicos. Segundo o escrito em Números, capítulos 1 a 4 (Números = 4º livro do Antigo Testamento e penúltimo livro da Torá judaica), os funcionários públicos seriam 4% da população (no país de Deus, Israel, funcionário público era quem cuidava do templo; a população era de mais de 600 mil pessoas e os sacerdotes e auxiliares chegavam a quase 25 mil).

Considerando que naquele tempo não havia escola pública nem hospital, nem exército profissional (era só igreja e polícia mesmo), os cerca de 11 milhões de funcionários públicos que há no Brasil atualmente estão, proporcionalmente, abaixo do que Deus empregava. Talvez essa informação ajude na argumentação contra os neoliberais, que vivem dizendo que gastamos muito com a Máquina Pública.

Mas nada de concurso público! Deus adotaria um critério arbitrário qualquer para escolhê-los (já vou sugerindo: que tal sorteio?). Acho que Deus não desprezaria de pronto essa sugestão, como acabam de fazê-lo vários leitores meus… Porque, cá entre nós, o concurso público escolhe muita gente obtusa, meu Deus!

Se Deus não fosse um cara que se atualizasse, se Deus agisse como essas mulheres que ainda usam véu para entrar na igreja e deixam o marido chefiar o domicílio sozinho, ele diria: todas as pessoas que têm Silva no nome serão funcionários públicos. Sei lá, deve haver uns 9.200.000 Silvas entre nós brasileiros.

Sim, porque, no país governado por Deus — os 650 mil israelitas que fugiram do Egito rumo a Canaã —, ele disse: todos da família Levita serão funcionários públicos. Quer dizer, disse que seriam sacerdotes, cuidariam da Tenda da Reunião, o nome que davam para o que hoje chamamos Coisa Pública e os analfabetos políticos e funcionais (pleonasmo?) chamam Coisa da Viúva.

Mas Deus, apesar de eterno, sabe que quem não se atualiza, atrasa. E não escolheria os Silva para nos atender na repartição porque conhecia a sacano-criatividade do povo que iria se formar no lado oriental da América do Sul três milênios depois. Em 25 anos (uma geração), noventa por cento dos recrutáveis teriam Silva no nome, todo mundo ia arranjar um jeito de enfiar Silva no nome dos filhos.

O emprego público, na maioria, é desinteressante e mal pago, mas ainda muito melhor do que enfrentar o patronato estilo casa-grande ou a uberização ou o desemprego estrutural de toda sociedade capitalista subalterna, dependente e subdesenvolvida.

Não sei se o sorteio melhoraria a qualidade do serviço. Mas o efeito positivo da distribuição equitativa das oportunidades entre a população certamente diminuiria a quantidade daqueles que tratam a Coisa Pública como Casa da Mãe Joana.

 

O maná parecia coentro

 

E creio que tinha o gosto do bdélio, uma resina amarga usada para imitar a mirra. Era uma espécie de grão, que caía do céu à noite junto com o orvalho. O povo rastelava aquela semente, juntando-a em montinhos, e atrás, vinham os abanadores, com peneiras grandes, de 80 cm de diâmetro e colocavam sobre elas aquela mistura de terra, gravetos, folhas e as tais sementinhas que caíam do céu.

Segurando-as com as duas mãos, na altura da cintura, davam-lhes um impulso para que esse conteúdo se elevasse a cerca de 1,5 metros de altura, contra o vento, e aparavam a queda de tal forma hábil que as impurezas, mais leves, separadas pelo vento, caíam no chão, enquanto as sementes caíam sobre a peneira.

Essas sementes eram colocadas em sacos de estopa de 50 litros e levadas para casa, onde eram despejadas em terreirões para secar ao sol. A semente era vendida em coco (com casca), ao dono da máquina de descascar, que as descascava e vendia a um terceiro, que exportava tudo através do porto de Santos…

Sobrava pouco pra vender; o povo comia quase tudo. Aliás, não sobrava nada, Deus mandava na medida, de acordo com a fome de cada um. Essa estória de vender é intriga minha. O povo recolhia a semente, moía em moinho ou pilava em pilão, assim como fazemos hoje com o trigo e o milho. Produzia uma farinha e com ela fazia bolos, pães, esfihas, pizzas, macarrão. Só não fazia bolacha porque não havia açúcar.

A massa resultante já vinha com um sabor de azeite da melhor qualidade, levemente amargo e, creio, já com sabor de coentro. Sendo que, naquele tempo, orégano era uma espécie de coentro, daí que a pizza feita com farinha de maná já vinha polvilhada com orégano e borrifada com azeite, digo, no gosto, deduzo eu.

Mas não havia carne. Nem seus derivados; nem as imitações, como os hambúrgueres do Méquidonaldes. Era mozzarella pura. Por isso que a pizza de mozzarella, hoje, é mais barata. Porque o povo enjoou. Mas, na época, o povo queria carne, já não aguentava mais comer maná.

Deus ficou puto e disse: “ah, vocês querem carne?! Pois terão carne”. E, ao invés das sementinhas, fez chover codornas. As codornas, extenuadas da travessia do Mediterrâneo, vinham voando e caíam, era só pegar e depenar. Em 30 dias, o povo pediu o maná de volta, porque é dose pra elefante e faz mal comer só carne o tempo todo.

É por isso que hoje a gente come arroz e feijão todo dia e não enjoa. Teve uns que, de tão enjoados, queriam voltar à escravidão no Egito, com saudade dos pepinos, melões, rúculas, cebolas e alhos (Nm 11,5), porque não gostavam nem de maná, nem de carne. Acho também que foi por causa dessa malvadeza com as codornizes que surgiu o movimento vegano.

 

Deus é amor e...

 

Sete episódios (e um lembrete) que saíram do saco de maldades de Deus, até agora:

 

1. Guerra santa contra Madiã (Nm 31). “(…) Fizeram a guerra contra Madiã, conforme Iahweh ordenara a Moisés, e mataram todos os varões (…) queimaram todas as cidades (…) tomaram todos os despojos (…) levaram cativas as mulheres e crianças e o gado”.  Moisés, vendo os soldados trazendo as mulheres, ficou puto: “quem mandou trazer todo esse povo? Pode matar todo mundo, só deixem as meninas e mocinhas que ainda não conheceram homem. Inclusive, podem ficar com elas. Matem as mulheres que já conheceram homem e os meninos”.

2. O castigo dos 40 anos pelo deserto (Nm 13-14). Iahweh mandou Moisés enviar um homem de cada tribo para explorar Canaã. Foram, e durante 40 dias viram como era a coisa. Voltaram e relataram: é uma terrinha até boa, mas o povo que a habita é poderoso e as cidades são grandes e fortificadas, têm uns homões grandões, não vai ser nada fácil vencê-los. Mas, pensando bem, essa terra não é grande coisa… (foram difamar logo a terra prometida por Deus…). Dos 12, só dois puxa-sacos disseram que tudo bem, que a terra era excelente e dava para vencer a guerra de conquista com a ajuda de Deus. Essa “ajuda de Deus” — o nosso atual e popular “se Deus quiser” — foi a chave da salvação desses dois: Oseias (que mudou o nome para Josué) e Caleb. Deus ficou puto com os 10 pessimistas e os matou, deixando vivos apenas Josué e Caleb. E disse que todos com mais de 20 anos, exceto os dois fiéis, jamais pisariam na terra prometida. Por isso, ficaram 40 anos zanzando no deserto, até morrerem todos. Aí sim, permitiu que tomassem posse de Canaã.

3. A décima praga do Egito – a morte dos primogênitos (Ex 11). “Assim diz Iahweh: à meia-noite passarei pelo meio do Egito. E todo primogênito morrerá na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que deveria sentar-se em seu trono, até o primogênito da escrava que está à mó, e até mesmo os primogênitos do gado. Haverá então na terra do Egito um grande clamor como nunca houve antes, nem haverá jamais. Mas, entre todos os israelitas, desde os homens até os animais, não se ouvirá ganir um cão, para que saibais que Iahweh fez uma distinção entre o Egito e Israel”.

4. Sodoma e Gomorra (Gn 19). Alguém dedurou a Deus que os habitantes de Sodoma e Gomorra eram todos depravados. Deus enviou dois anjos para averiguar. Confirmaram. Então, ele explodiu uma bomba atômica misturada com enxofre sobre as duas cidades, uma ficava perto da outra. Bastou uma bomba. Mas antes avisou Ló para que se arrancasse de lá com a mulher e as filhas e avisou que não olhassem para trás. Lá longe, a mulher de Ló, desobediente e curiosa, olhou para trás: puft! Virou uma estátua de sal.

5. A rebelião de Coré, Datã e Abiram (Nm 16). Esses três conseguiram amotinar uns 250 homens contra a liderança de Moisés e Aarão. Deus ficou puto e disse que ia acabar com eles e avisou: “Afastai-vos da habitação de Coré”. Em seguida, fez a terra se abrir e engolir vivos todos os rebeldes, incluindo suas mulheres e seus filhos e escravos e rebanho. O povo começou a protestar, dizendo que aquela tragédia era culpa de Moisés e Aarão. Iahweh ficou mais puto ainda e mandou uma Praga atacar todo mundo. Foram 14.700 mortos, até a Praga cessar, depois de muita reza e arrependimento.

6. A adoração do bezerro de ouro (Ex 32). O povo, pensando que Moisés os havia abandonado e sumido no alto do Sinai, enquanto conversava com Deus, passou a adorar um bezerro de ouro como ídolo. Avisado por Iahweh, Moisés desceu, puto, e soltou os cachorros em cima do povo. Então foi a vez do povo ficar puto e desenfreado. Moisés, ao ver a coisa feia, pediu socorro. Os puxa-sacos dos Levitas protegeram-no, salvando-o da ira popular. Após abafar a rebelião, Moisés mandou os mesmos Levitas: “Cingi, cada um de vós, a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo acampamento, de porta em porta, e matai, cada qual, a seu irmão, a seu amigo, a seu parente” (Êx 32,27). Naquele dia, morreram, do povo, uns três mil homens.

7. Deus fuzila Nadab e Abiú (Lv 10). Estes eram os dois filhos mais velhos de Aarão e o ajudavam nos serviços do templo. Numa das solenidades em que Iahweh estava presente, os dois “tomaram cada um o seu incensório. Puseram neles fogo sobre o qual colocaram incenso, e apresentaram perante Iahweh um fogo irregular, o que não lhes havia sido determinado. Saiu então, de diante de Iahweh, uma chama que os devorou, e pereceram na presença de Iahweh” (Lv 10,1-2) e de todo mundo, inclusive do próprio Aarão, o pai, que permaneceu calado, porque, se desse um pio, morria também.

Apenas essas sete maldades, para não falar da nossa expulsão do Paraíso pela miséria de uma maçã, logo de cara, sem um primeiro castigo educativo intermediário. Também fazendo de conta que Deus não matou afogado todo mundo, salvando apenas a família de Noé, só por causa dos muitos corruptos que havia entre a população. No mais, fiquem tranquilos. Deus é amor.

 

A responsabilidade coletiva, segundo Deus

 

Tudo começa com a sacanagem de Deus para conosco, só por causa da sacanagem da Eva (Adão sempre foi um bobão, a sacana era a Eva…). Os dois furunfaram e nós sofremos as consequências até hoje. Não fora aquela libidinagem, e estaríamos no bem-bom para sempre. Se bem que, estaríamos no Paraíso, comendo, bebendo, passeando, livres de peste e patrão, mas… sem libidinagem!

É claro que Deus foi clarividente e acertou em castigar as gerações vindouras por uma simples trepada inaugural porque aquele povo, naquela mordomia, faria da vida uma eterna bacanal. E seria insuportável, para Deus, uno e solitário, assistir eternamente àquela suruba coletiva.

Depois, Deus matou todo mundo (exceto quem sabia respirar debaixo d'água), salvando apenas a família de Noé, só por causa de alguns corruptos sacanas e outras safadezas mais ou menos generalizadas… Ora, sempre se salva alguém, há sempre um limpo em meio à sujeira; mas não, o castigo era coletivo, porque, no fundo, no fundo, todos temos alguma culpa pelo descalabro dominante.

Certa feita, chegando os israelitas à borda do deserto, próximos ao destino final, Moisés pediu aos chefes das 12 tribos que compunham o povo que fizessem um reconhecimento da área. Eles penetraram no território, disfarçadamente, para avaliar a topografia e as condições do povo que lá vivia, com vistas à futura invasão.

Ficaram por lá durante 40 dias. Na volta, apenas dois desses chefes relataram com otimismo a terra e as condições de conquista; os outros 10 avaliaram que o povo que lá vivia era muito forte, difícil de ser vencido e aproveitaram para dizer que a tal terra prometida não era lá grande coisa.

Iahweh ficou uma fera. Matou os 10 na hora e disse que todos, das respectivas tribos, com idade acima de 20 anos (em idade de lutar), não veriam a tal terra prometida, morreriam antes. De fato, Deus enrolou a turma durante 40 anos, a zanzar pelo deserto, até que o último morresse. Só então fez com que se apossassem da terra que prometera.

O castigo pela covardia de 10 se estendeu aos milhares, incluindo Moisés e Aarão. Um peca, todos pagam. Um suja, todos limpam. Um destrói, todos são obrigados a reconstruir. Um faz besteira, sobra pra todo mundo. Tá certo, somos responsáveis pelo próximo, pelo conjunto. Sofremos as consequências dos vícios e virtudes de quem elegemos. Achei razoável, essa do Iahweh.

 

Pentateuco: até aqui, tudo sob controle

 

Terminada a leitura do Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento da Bíblia cristã, também conhecido como a Torá judaica), percebo que Deus é um sujeito meio imprevisível, rigoroso às vezes, ou irritadiço, ou generoso, ou preso a detalhes, mas nunca brincalhão; um cara sistemático, como diria o caipira.

Sim, Deus é um cara meio exagerado, oito ou oitenta, parecido com esses medalhões (fodões) de hoje. Por exemplo, temos, de um lado, acadêmicos e cientistas e, de outro, bispos e pastores. Materialistas e espiritualistas. Estes não pensam quando sentem e aqueles não sentem quando pensam.

Uns estudam Hesíodo, Homero, Platão, Virgílio, Cícero e Sêneca. Outros vivem com a Bíblia debaixo do braço, esse calhamaço de literatura antiga, composto por mais de 70 livros escritos por dezenas de autores. Uns só estudam a civilização greco-romana; outros pensam que o mundo se resume à moral judaico-cristã. Sendo que esta e aquela regem o mundo ocidental. Uns e outros instrumentalizam a literatura para fins corporativos. Ambos não se dão conta do quão parciais são. Parciais e ridículos.

Por que não estudar Platão na igreja e Jeremias na academia?  Quem sabe uns e outros não seriam desmistificados e não teríamos papas na língua nem nas cátedras nem nos vaticanos?

Eu, no exercício da minha liberdade intelectual, estou lendo a Bíblia com o mesmo espírito que li a Ilíada, a Odisseia e a Eneida. E Proust. E constato, em continuidade à crônica anterior, uma contradição entre pai e filho: Deus é socialista de uma só nação, enquanto Cristo é individualista internacionalista.

Deus escolhe uma nação dentre várias, o que é mau. Mas, dentro dela, deus é coletivo, o que é bom. Cristo é individualista, com aquela de cada um que salve a própria alma, o que é mau. Mas é um cara tolerante, acolhedor universal, incapaz de matar uma barata, o que é bom. Deus e seu Filho, dois paradoxais.


 

Livros históricos

 

Josué (Js)

Juízes (Jz)

Rute (Rt)

Primeiro Samuel (1Sm)

Segundo Samuel (2Sm)

Primeiro Reis (1Rs)

Segundo Reis (2Rs)

Primeiro Crônicas (1Cr)

Segundo Crônicas (2Cr)

Esdras (Esd)

Neemias (Ne)

Tobias (Tb)

Judite (Jt)

Ester (Est)

Primeiro Macabeus (1Mc)

Segundo Macabeus (2Mc)


 

Não confunda Jesus com José, mas com Josué

 

Dizem que Jesus e Josué são homônimos em hebraico. O que sei é que Josué foi o general sucessor de Moisés, que subiu na vida porque discordou da maioria dos seus confrades para agradar ao chefe, que havia prometido certa terra, cuja qualidade não valia tanta labuta, segundo 10 dos 12 representantes das tribos, conforme já relatado.

E Jesus veio muito, muito depois, não como general do Sistema, mas como subversivo (não é palavrão, mas o que todos deveríamos ser, neste mundo injusto), que nossos militares chamam de terrorista e outros, mais desavisados ainda, acrescentam comunista. Entretanto, havia muita coisa em comum entre o general e o subversivo: o mesmo povinho e respectivo Deus e o rio Jordão.

Não sei bem a história de Jesus com o Jordão, ainda não cheguei lá, parece que, além de batizado, ele andou fazendo uns milagres nesse rio. Mas Josué simplesmente parou o rio para sua tropa passar. Quer dizer, não Josué, mas Iahweh, usando Josué.

Aliás, Deus era especialista nesse tipo de engenharia, já havia feito coisa semelhante na travessia do Mar Vermelho, lembram-se? Na ocasião, quem levou a fama foi Moisés, outro general que conversava com Deus. No Jordão, perto de Jericó, quem ficou com os créditos foi Josué.

Iahweh, além de grande arquiteto e engenheiro, era um autêntico cacique político também e, como tal, excelente marketeiro. Realizava a proeza, mas ficava na moita, deixando seu candidato levar a fama. Isso porque Deus não era um cidadão deste mundo, não podia ser candidato.

Porém, havia uma grande diferença entre Jesus e Josué. Este era um simples hebreu, fazendo carreira militar, esforçando-se para ser mais realista que o rei, aquele era simplesmente filho de Deus. 

Josué podia ter a cabeça cortada a qualquer momento, era só pisar na bola; ou fazia bem o que Deus mandava ou estava lascado. Nenhum espaço para ousadias ou criatividades, havia que se fechar na obtusidade dos subalternos.

Mas Jesus era filho de Deus! Ora, todo mundo sabe que filho pode tudo e algo mais. E raramente um filho é fiel ao pai, não digo no trato, mas nas ideias. O fato é que Jesus bagunçou o coreto, com sua prática subversiva, instituindo, assim, como que uma China continental, deixando para seu pai a ilha de Formosa, mas não quero entrar em detalhes, pois, como disse, ainda não cheguei lá. Por enquanto, fiquemos com Josué, indicado por Moisés.

Quando chegou do outro lado do Jordão, sua moral estava elevada. Afinal, parar a corrente do rio, deixando o leito seco, não é para qualquer um. Então ele danou-se a decretar Anátema sobre tudo quanto era cidade que encontrava pela frente. Em verdade, a terrível sentença era ideia de Deus, mas o general, querendo agradar, antecipava a carnificina.

Jericó foi a primeira vítima (Js 6,17), depois Hai (Js 8), e em seguida as cidades do sul, depois as do norte. E o que é anátema? Anátema sobre uma cidade quer dizer: invadi-la, matar todos os homens, mulheres e crianças e pegar tudo de valioso que há. Mas tudo com muito escrúpulo, devidamente destinado ao santuário.

 

A história de Sansão

 

Estamos acostumados com a dupla Sansão & Dalila. E também que Dalila foi a perdição de Sansão. Parece que Dalila foi apenas um detalhe na vida de Sansão. Um detalhe tardio. Gostoso. Fatal. Dalila era linda. Bem, isto não está na história, é dedução minha. É que acho que uma mulher com o nome de Dalila só pode ser linda.

A história de Sansão está na Bíblia, antigo testamento, livro Juízes, capítulos 13 a 16. De todo o antigo testamento até aqui, é a história mais longa de um herói israelita que não conversou com Deus, nem se meteu com os sacerdotes. Um marginal.

Deus também não se meteu com Sansão, mas com a mãe dele. É que a mãe dele era estéril, então um anjo de Deus apareceu para ela e lhe disse que teria um filho. Aquela conversa que já havia acontecido com Sara, mulher de Abraão, que, graças ao anjo, teve Isaac, que gerou Israel (Jacó).

São intrigantes essas histórias dessas mulheres estéreis com esses anjos do Senhor. Eles nunca aparecem sob a forma de uma pomba ou de um velho corcunda e decrépito ou de um anjo propriamente dito, com asas e insípido aspecto andrógino. Os anjos chegam sempre como solitários, arrojados e famintos forasteiros, num figurino de galã. E conversam com a mulher quando ela está longe do marido. E, então, nove meses depois, puft! nasce o tal filho anunciado. Foi o caso de Sansão.

No caso desse anjo que anunciou Sansão, ele apareceu duas vezes. A segunda a pedido do Manué, marido da mulher. Novamente, quando a mulher estava sozinha. Digo “mulher” porque não aparece o nome dela na história… (então, talvez o pejorativo “mané” não venha do português Manuel, mas do hebreu Manué, pai do Sansão).

“O menino será nazireu”, acrescentou o anjo, dedicado a Deus; coitado, nem o cabelo devia cortar, de tão largado. Largado, ingênuo e forte. Muito forte o Sansão, aquela força bruta dos inocentes. Acontece que, naquele tempo, as 12 tribos dos israelitas estavam dispersas, não havia uma federação que as defendesse. Vira e mexe eram atacadas por povos vizinhos e vencidas. Deus, de vez em quando, mandava alguém para liderá-las, que o povo, na época, chamava de juiz.

Sansão entrou nesse contexto, fazendo estragos nas hostes dos filisteus, povo safado, segundo os israelitas. Mas Sansão era um abusado, um bandoleiro, um inconsequente, a primeira mulher com quem foi casar foi justamente uma filha de filisteus. E, na festa do casamento, que durava sete dias, Sansão já foi, meio de brincadeira, tentando enrolar os cunhados, propondo-lhes um enigma, uma espécie de aposta da época.

Os cunhados já iam perdendo (e era uma boa grana), não fora a já esposa de Sansão, que, no sétimo dia, com jeitinho, naquela hora da fraqueza masculina, conseguiu dele a resposta ao enigma. Então ela contou aos irmãos, que ganharam a aposta. Sansão nem ficou tão brabo, apenas se desinteressou dela, dando-a a um seu acompanhante de honra.

Mas, voltando a Dalila. Dalila era um avião, deduzo, a julgar pelo que fez com o velho, mas fogoso Sansão. Acabou com ele, coitado. E, morto esgotado, foi atacado pelos filisteus. A cabeleira já estava rala, uma careca se anunciava, e aquele mulherão pra sustentar, não tem tatu que aguente. Foi dominado pelos filisteus que, imediatamente, furaram-lhe os olhos. Sansão, como sempre, não se abateu, como é normal entre os exuberantes. E a prisão não lhe foi tão hostil, tanto que seu cabelo começou a crescer de novo. E, descansado, recuperou as forças, após meses de solitárias, e regulares e disciplinadas sessões de musculação.

Pra comemorar a prisão do malfeitor, os príncipes filisteus organizaram um grande evento popular no maior ginásio de esportes da capital. Era uma dessas construções ousadas, parecidas com as de Niemeyer, sustentada apenas por duas colunas centrais, no meio do picadeiro, onde o espetáculo se desenrolava.

Sansão no meio do palco, sendo exibido aos puxa-sacos dos príncipes, a fina flor da sociedade. As colunas eram próximas, pois não é que Sansão, numa última demonstração de força, apoiou-se nelas e, com um tranco, deslocou-as, vindo tudo abaixo, toneladas de pedra e aço esmagando todo mundo. Herói incluso.

 

Rute

 

A discreta, eficiente e fiel Rute me lembra nossa notável antropóloga, a Dona Ruth. Mas deve ter havido uma diferença grande entre ambas: a nossa não gostava da sogra e a moabita gostava. Pense na sogra que deve ser, alguém que gerou um notório como FHC. Sei lá, tem tanto filho da puta de santa…

Já a nora da Noemi não quis largar a sogra nem depois de morto o marido. Nem depois de a própria sogra insistir. Noemi era gente boa. Insistiu com Rute “vai minha filha, você é nova ainda, nem teve filho, me deixa, vai arranjar outro marido!”. Mas Rute: “Não insistas comigo para que te deixe, pois para onde fores, irei também” (Rt 1,16). Vá gostar de sogra lá em Jerusalém! Rute encarnou na sogra, como se diz lá na minha terra.

Bem, acho que, ao contrário de dona Ruth, Rute era uma sonsa. Senão, vejamos. Olha só onde Rute foi respigar: atrás dos segadores do rico e importante e solteiro Booz (claro, com autorização da sogra… e mais! autorização e incentivo que, entre aquelas duas, era difícil saber qual a mais sonsa).

Respigar é colher as espigas que os colhedores (segadores) não conseguem recolher, no normal processo de colheita. Quem já colheu qualquer roça de grão, como milho, arroz, trigo, feijão, sabe como isso funciona.

Naquele tempo, as viúvas e outras categorias de desfavorecidos tinham esse direito. Era lei. Então, Booz, outro sonso, viu aquele pedaço de mulher, aquela viúva esvoaçante, ciscando na sua roça… A coitada tinha levado uma marmita, já tava fria. Acho que Rute foi a primeira boia-fria da história, mas o Booz disse: “nããão! Come lá junto com minhas servas, beba água da nossa moringa”.

E acho que esse tal Booz foi quem inspirou os italianos, um povo que surgiu uns dois mil anos depois, porque, em seu galanteio, incluiu até polenta (Rt 2,14). Booz fez o serviço completo. Pediu aos seus segadores: “ei, deixem a moça chegar mais perto”, “e cuidai também que caiam algumas espigas de vossos feixes, e deixai-as para que ela as ajunte e não a censureis” (Rt 2,16); “mas… o primeiro que fizer gracinha com ela, eu mato, depois demito!”.

Eu sei que, nessa brincadeira, Rute levou para casa um escarcéu de trigo e cevada, para alegria de Noemi. E, conversa vai, conversa vem, a sogra lembrou Rute que Booz era meio parente, que ela aproveitasse o entusiasmo do cujo e fosse, limpinha e cheirosa, mas bem coberta, deitar-se ao lado dele, quando estivesse descansando.

Ora, Rute já estava no prejuízo havia um bom tempo e, além do mais, foi a sogra quem mandou. Booz estava roncando, ela chegou de mansinho e se aboletou ao seu lado.

Alta hora da noite, Booz acordou com aquele calor de mulher, aquele cheiro de mulher, aquela respiração de mulher, mas… esse Booz era um panaca mesmo! Sonso, mas panaca. Acendeu a luz, quis saber do que se tratava. Vejam se isso lá são horas de claridade e esclarecimentos!

Tudo em pratos e lençóis limpos, Booz disse-lhe que, sim, estava na fila do resgate, um costume que consistia em que os parentes masculinos do marido morto deviam substituí-lo junto à viúva. Estava na fila, porque havia outro na frente.

Booz era um cara correto — até demais, pro meu gosto —, foi avisar e conversar com o tal, pra saber se ele ia exercer o direito de ficar com Rute. O tal nem estava sabendo, mas, informado por Booz, e tendo em vista a qualidade da viúva, disse: “claro! vou exercer o direito sim”.

Mas Booz, assim naquele jeito sonso, esclareceu-lhe: “só que, para isso, você precisa resgatar o terreno hipotecado da sogra”. Aí o candidato esfriou. Não tinha caminhão para tanta areia. Sendo assim, “deixo passar”, falou. Então Booz entrou com a grana e ficou com Rute.

E da conjunção carnal entre esses dois sonsos sabe quem surgiu? Obed, pai de Jessé, pai de Davi, aquele da estrela que aparece na fuselagem dos caças da Força Aérea Israelense. E querem mais? Essa Rute é uma das eneavós de Jesus. 

 

A história de Davi

 

Davi para leigos. Sim, o que faz dupla com Golias. O da estrela israelense, o da árvore genealógica de Jesus, o que foi ungido por Samuel, o segundo rei dos israelitas, mas que se catapultou ao trono, reinando inicialmente sobre Judá, uma das doze tribos. Mas a dupla que Davi formou e que quase ninguém divulga é a com Saul. Davi & Saul, cujo empresário — Samuel — foi um grande cacique político, fez dois presidentes.

O cinema e a literatura de entretenimento gostam muito de salientar a luta de Davi contra Golias, assim como a safadeza de Dalila com o cabelo de Sansão. O entretenimento não tem salvação. Lembram da cena do gigante Boagirus contra Aquiles, no filme Troia? Nem me lembro da existência desse Boagirus na Ilíada e lá está ele, naquela cena enorme, lutando contra o herói.

Porém, de fato, a luta de Davi contra Golias está, sim, narrada no livro de Samuel, no capítulo 17, no que chamavam de combate singular, com o mesmo caráter daquele entre Brad Pitt e o halterofilista. Dois campeões lutavam entre si na terra de ninguém, diante dos exércitos inimigos. A vitória/derrota valia para todos os combatentes.

Todo mundo sabe que Davi era um filhinho de papai, loiro, bonito, franzino, mas ágil e inteligente, enquanto Golias era um brutamontes, talvez um negão ou um talibã, ou um russo, ou um iraniano, ou um coreano do norte, ou um chinês, quem sabe até um cubano...

Todo mundo conhece o maniqueísmo de Roliúde, do mocinho bonito contra o bandido feio, fraco contra forte, bem contra mal. Não fora a habilidade de Davi com o estilingue e ele tava lascado, no mano a mano contra a brutalidade do gigante.

Mas, como para Sansão(Dalila) e Aquiles(Boagirus), para Davi o confronto com Golias foi apenas um detalhe. O confronto maior, decisivo e duradouro de Davi, que Roliúde não mostra, foi a disputa política com Saul, seu antecessor como rei dos israelitas.

Nunca estudei Ciência Política, não sei se essas páginas constam no currículo. Mas, se não constam, deveriam constar. E também no curso de formação de diplomatas. E de generais. Porque o embate entre Saul e Davi é uma sucessão de escaramuças e batalhas, frias ou quentes, abertas ou veladas; exílios, alianças com o estrangeiro, troca de recursos por simpatias políticas, recuos táticos, sempre sob o controle remoto de Iahweh.

Enquanto do outro lado do Mediterrâneo, Homero se submetia a uma carrada de deuses e deusas cheios de imperfeições, a se meterem no enredo da luta entre gregos e troianos, do lado de cá, no Oriente Médio, um único Deus decidia os desfechos. Um só, mas sem defeitos…

Davi, entretanto, foi chefe de bando antes de chegar ao palácio. Uma espécie de Lampião. Ao fugir do rei Saul, que queria matá-lo, Davi, para se proteger, teve de formar um bando e fugir para a caatinga. “Todos os que se achavam em dificuldades, todos os endividados, todos os descontentes se reuniram ao seu redor, e o fizeram seu chefe. Ele reuniu assim cerca de quatrocentos homens” (1Sm 22, 2).

Lampião, sim. Por exemplo, ele cobrava proteção dos fazendeiros, que chamava de impostos antecipados, e quem pagava chamava de bandidagem. Se não acredita que Davi extorquia os ricos, vá lá no episódio do Nabal e da Abigail, no capítulo 25 do Primeiro Samuel. Nabal estava tosquiando suas ovelhas, muitas, a maior fartura, quando emissários de Davi chegaram para cobrar-lhe o dízimo.

Claro, sempre aquela conversa melíflua, indireta, metafórica, a usada por toda bandidagem qualificada. Nabal era grosseiro, não entendeu, negou e se ferrou. Nabal é uma metáfora da nossa burguesia, a conhecida “Casa Grande”. E Davi virou rei.

 

 

Davi & Micol

 

Davi, além de pobre, era um zé ninguém. Aí apareceu o bombado e grosseiro (pleonasmo?) Golias, com aquela cara de tacho, a desafiar os soldados inimigos. Davi nem fazia parte do batalhão, estava ali por acaso, em visita a seus irmãos mais velhos engajados na batalha. Ele manjou aquela cabeçorra cheia de vento, apalpou o volume no bolso da bermuda onde estava seu estilingue, que usava para afugentar ursos que atacavam suas ovelhas. Ora, Davi acertava caga-sebos, um minúsculo passarinho, no último galho da copa de uma paineira, punha a pedra onde punha o olho. Vendo que o grandão botava banca, não se conteve e deu dois passos à frente. Não que quisesse enfrentá-lo, mas por impaciência juvenil.

Pra quê!? Todo mundo, aliviado, entendeu que havia um voluntário contra o gigante. Davi, vendo que a merda tava feita, deu de ombros. Escolheu um dos seixos rolados que trazia como munição, ajeitou-o na malha da arma e deixou o palerma se aproximar. Foi uma só no oco da fossa temporal!; o insensato embrulhou no chão como um jenipapo maduro.

A pedrada do Davi viralizou. Viralizou também um meme que dizia: “Saul matou mil, mas Davi matou dez mil” (1Sm 18, 7). Saul, o rei, pensou: “pronto, taí um concorrente”. E bolou um plano para destruí-lo (literalmente). Prometeu-lhe sua filha em casamento, desde que trouxesse cem prepúcios dos filisteus. Esperava que ele morresse na colheita dos prepúcios.

Mas Davi achou aquela exigência uma barbada. E colheu 200, ao invés dos 100 exigidos e se você acha que tô inventando, vá lá no primeiro livro de Samuel, ao capítulo 18, versículos 25 a 27. (Vá gostar assim de prepúcios lá no Oriente Médio!). 

Enfim, ele se casou com a filha do rei, Micol. Mas Saul, amedrontado e ciumento, só pensava em matar o genro, tanto que este teve de fugir, com a ajuda de Micol, que ficou. Enfim, já naquele tempo, o poderoso de plantão não suportava sombra.

Passou-se muito tempo, Saul arranjou outro marido para Micol, Davi virou guerrilheiro, depois constituiu o reino de Judá, constituiu família, harém, filhos. Saul morreu, foi deflagrada a guerra civil entre os partidários de seu filho e sucessor e os partidários de Davi pelo trono dos israelitas. Percebendo inevitável a vitória de Davi, o general do exército inimigo propôs-lhe negociações. Davi respondeu-lhe: “você pode vir, mas traga Micol. Não quero te ver em minha frente sem a Micol”. 

Enfim, Davi venceu a parada e passou a reinar sobre todos os israelitas. E, claro, voltou a viver com Micol, dentre outras. Certa feita, quando a Arca da Aliança chegava em Jerusalém (a cidade que ele estabeleceu como capital), Davi foi recebê-la em plena rua. Micol, da janela do palácio, viu o marido lá embaixo, dançando só de tanga, em meio ao populacho, e considerou-o ridículo.

Micol era danada. Quando o marido entrou em casa, já foi logo soltando os cachorros: “que coisa ridícula aquele populismo barato lá embaixo”. E eu, ingênuo, pensando que ela, pessoa fina e instruída, considerava apenas grosseiro aquele exagero no meio do povo, como se fora um pândego, mas não. Ela não gostou foi de ele estar seminu no meio das servas… Vejam vocês como são insondáveis os motivos dos desajustes entre marido e mulher.

Então Davi explicou para Micol que aquilo não era brincadeira. Que a arca era o próprio Deus e ele, frente a ela, não passava de um reles cidadão. Que estava cumprindo um grave cerimonial público e que sua pândega de tanga era um ritual previsto em lei, e que com Iahweh não se brinca. Mas Micol não quis saber e nunca mais trepou com ele e não teve filhos, portanto. Mas Davi teve uma penca… (e eu, cá longe no meu canto, fico pensando: onde vigora a poligamia, a mulher que faz greve de sexo, ou é muito burra ou é muito esperta...).

 

 

Davi & Betsabeia

 

Do terraço do palácio, Davi viu uma mulher nua tomando banho de sol no terraço da casa dela, do outro lado da rua (2Sm 11,2). Se a sua estrela estampa os supersônicos de Israel até hoje, 30 séculos depois, ele merece três crônicas. Naquele tempo, até os palácios possuíam apenas um pavimento, porém o pé direito do palácio era duas vezes mais alto do que o pé direito da casa da dona que tomava sol na laje, vizinha. De modo que o ângulo de visão do rei era perfeito.

Davi ficou doido com a beleza da moça. Imaginem que Davi não era um marido carente, considerando seu harém de 30 mulheres. Daí vocês podem deduzir que Betsabeia – esse era o nome da moça – era um mulherão para mais de 400 talheres. Só que era casada… e bronzeada, o que aumentava o valor da prataria, penso.

Claro que as noções de imagem e distância eram incipientes. Davi comparava o que via, lá longe, de modo furtivo, às trinta disponíveis, sem nenhum desconto às diferenças de foco e fotogenia e disponibilidade. E Davi agia como marido. Todo marido, ainda que de trinta, vai sempre achar uma graça inusitada na mulher do outro que toma banho pelada na laje ao longe.

Mas Davi era o rei, e não qualquer rei: um rei absolutista, sem parlamento ou supremo pra atrapalhar, só uns bispos pra encher o saco; hoje em dia, ainda há pessoas tão atrasadas que desejam voltar ao tempo dos bispos...

Claro que, nos bastidores, havia Iahweh, o cacique maior, mas fácil de tratar porque, além de não poder aparecer, ainda não era deste mundo, não exigia propinas, pois não tinha nem precisava, nem queria, amantes, helicópteros e mansões...

E sendo esse marido insatisfeito tão poderoso, mandou sua assessoria descobrir quem era a gostosa. Era Bet, filha de Eliam e mulher de Urias, que estava no campo de batalha. Dane-se! Tragam-na assim mesmo. A tesão descontrolada leva até um cara sábio como o pai de Salomão a fazer besteira… Bet chegou, treparam, e ela ficou grávida na primeira.

Rapidinho, Davi – espertinho – mandou o general dar folga a Urias (para vir fazer o filho já feito). Urias voltou para casa... não, passou primeiro em palácio, para agradecer. Davi a Urias: “vai, rapaz, o que tá esperando?! Vá pra casa, sô!”. Urias saiu, mas não foi para casa, dormiu na área de serviço do palácio, com os serviçais.

No outro dia, informado, Davi insistiu: “Ma rapá! Qui qui cê tá esperando, cara?! Um mulherão daquele e você aqui, dormindo sozinho nessa espelunca!”. Mas Urias: “Não, meu rei, sou fiel a Iahweh, não conheço mulher durante a guerra não sinhô”, que a continência era lei religiosa da guerra (1Sm 21,6).

O cara era mais ortodoxo do que o farmacêutico Teodoro Madureira, da dona Flor e seus dois maridos. Davi desistiu e mandou Urias de volta à frente de batalha, um escorreito assim só matano... E, ao mesmo tempo, mandou uma carta ao comandante instruindo-o a escalar o cara no ponto mais perigoso do combate… Pense se há melhor maneira de matar alguém!!

Urias morreu, Davi chamou Bet para enriquecer seu harém. Parecia tudo bem, não fora a ira de Iahweh, que viu tudo desde o começo, lá da sua laje muito mais alta. Deus ficou puto com Davi, mandou o profeta Natã avisá-lo de que aquela safadeza não ia passar em branco. Disse que suas mulheres iam trepar com outros na laje durante o dia, que a espada iria fazer um estrago em sua descendência e, de fato, seus filhos Amnon, Absalão e Adonias morreram de morte matada, e o nascituro feito com Bet também morreu. Deus não deixou barato.

Mas nem tudo foi prejuízo, na aventura da laje e do binóculo com Betsabeia: em seguida, ela concebeu e pariu Salomão, que sucedeu ao pai no trono; no que fico pensando, se era muita competência de Bet ou incompetência das outras trinta.

 

Salomão e a mula pintada de zebra

 

Dizem que Salomão tinha 700 mulheres. Fui lá confirmar e é verdade. Fora as 300 concubinas. Que que posso fazer, tá tudo lá na fonte primária e sagrada!! Fico pensando: ele devia ter um almoxarife para manutenção do estoque de mulheres.

Agora, avaliem a qualidade da vida desse cara, à luz da sabedoria popular segundo a qual numa casa, um é pouco, dois é bom e três é demais. E aquela outra que diz quanto à propriedade de mulheres, quem tem uma, tem uma, quem tem duas, não tem nenhuma.

Quanto ao seu famoso e replicado templo, e à luz da magnitude do seu mulherio, eu pensava que o tal se destacava mais pelo tamanho do que pela opulência. Tinha o preconceito de que era uma igrejona, marcando presença mais pela grandeza do que pela riqueza.

Esse meu preconceito aumentou após a construção da dita réplica, pelo Edir Macedo & Companhia, lá na Avenida Celso Garcia, no Brás, da qual já passei em frente. É um teatrão muito grande, tem o formato de um tijolão de mais de 100 metros de comprimento por mais de 100 metros de largura por uns 50 metros de altura.

Mas não. É o contrário. Acho que o Templo de Salomão ficou famoso por causa da opulência, tudo era revestido em ouro, como aquele marido que tem uma e única mulher de 400 talheres. Nas medidas, era cerca de um quarto do tamanho do caixotão da Universal brasileira (60x20x30 côvados; C x L x A; 1 côvado = 0,45 cm, conforme 1Reis 6,2). Sabe aquelas igrejas famosas de Ouro Preto, acanhadas por fora e esplendorosas por dentro? Acho que o Templo do Salomão era por aí.

Aliás, coisa estranha esse judaísmo cristão de Edir Macedo, não? Tá bem, tá bem, longe de mim qualquer profundidade teológica, mas pelo que já vi até agora em minhas incursões bíblicas, Jesus basicamente virou do avesso o Judaísmo.

Essa neomistura do neobispo e neoempresário de comunicações brasileiro tá me cheirando a uma jacarana – mistura de jacaré com caninana –, que os teólogos chamam sincretismo. Tipo uma mula pintada de zebra. Bom, deixa pra lá…

Salomão tinha fama de sábio. Eu queria muito saber como é que se adquire essa fama. Será que ele sabia a diferença entre um cedro e uma cabreúva? Ou será que ele sabia fazer pão de queijo? Ou será que ele sabia fazer tricô e crochê?

De modo que a divisão em classes, dos saberes — uns mais privilegiados do que outros — vem, no mínimo, desde Salomão. Sabe conjugar a segunda pessoa do subjuntivo? Opa! Esse é sábio...

Tudo bem, Salomão podia ser sábio, mas, com relação às mulheres, ele deixava a desejar. Como pode ser sábio um sujeito que tem 700 mulheres princesas e 300 concubinas (1Reis 11,3), se uma só já toma todo o tempo da gente? Eu fico pensando no potencial de chifre que esse cara tinha para levar. Vá gostar de chifre assim lá no Reino de Judá!

Inclusive, esse exagero de mulheres soava como provocação ao seu padrinho, Iahweh, que não tinha nenhuma. Aliás, creio que esse deva ter sido o principal motivo para que Deus não se empenhasse na reeleição e ele não tenha feito seu sucessor. Mais! Iahweh, por baixo do pano, articulou o candidato da oposição (1Reis 11,30).

 

Elias, o arrebatado

 

O profeta Elias era danado! Certa feita, Iahweh lhe avisou: “Vai-te daqui desta alta e seca terra, procura um brejo, uma beira de corgo, levanta um ranchinho lá, porque a jiripoca vai piar e o trem vai ferver, ou melhor, secar. Vai haver uma seca medonha, se vira por lá enquanto pode”.

Naquele tempo havia profeta em toda esquina, mas todos fajutos. Sabe esses caras que se anunciam e se vendem como palestrantes, consultores, coaches, arautos de novos paradigmas? Naquele tempo era a mesma coisa, uns caras que viviam em bandos, e confederações, e panelas, e dioceses, e denominações, e dissidências, e tendências, e vaticanos, todos muito bem instalados nas respectivas sinecuras, uma corja de embusteiros.

Mas Elias não. Vivia sozinho. Esperto, sabia que Iahweh não aparecia para bandos. O fato é que a seca foi tão braba que chegou até o brejo onde Elias se refugiou. E ele teve de fugir para a Síria, onde não havia seca, porque não fazia parte da jurisdição de Iahweh. Mas a escassez do vizinho se refletia na cidade da fronteira e a miséria comia solta também ali.

Uma viúva o socorreu, mas não tinha farinha e azeite nem para si e o filho. Já percebeu como esses viajantes famintos e solitários são sempre socorridos pelos seus iguais, os mais necessitados? Elias tranquilizou-a: “não esquenta a cabeça, vai fazendo, faça primeiro um pão pra mim, depois faça para vocês, não se preocupe com a farinha nem com o azeite”.

E, de fato, aquela merreca de farinha e azeite nunca se acabava, enquanto a viúva, dia após dia, ia fazendo seus pãezinhos. Então ela entendeu que aquele era um homem de Deus. Enquanto isso, seu filho ficou doente e morreu. Aí ela lamentou: “Isso que dá hospedar cupincha de Deus. Ele vê nossas falhas e deda a Ele. E Ele nos castiga”.

Então, Elias conversou com Deus e reclamou: “Pô, cara! Desse jeito você queima meu filme”. Deus falou: “Tá bom, vai lá e ressuscita o moleque”. Mas a seca continuava. Elias só não fazia chover…

Mas espetáculo midiático dos bons dado por Elias foi a aposta do Monte Carmelo. Ele chamou os capachos do deus Baal e os desafiou: “tomemos dois novilhos, vocês escolhem um e o outro fica para mim. Vocês oferecem o seu ao seu deus e eu ofereço o meu ao meu deus. Ninguém leva fósforo, nem isqueiro, nem binga, nem acendedor elétrico. Só lenha. Aquele que conseguir acender a lenha, para assar o novilho, não só come a carne assada, mas ganha a concessão exclusiva do cultivo das almas do rebanho inteiro”.

E foi. Cada um destrinchou seu boi. Ajeitaram a lenha, colocaram umas mantas com sal grosso sobre as grelhas. Os charlatães de Baal se danaram a dançar e invocar seu deus, que acendesse o fogo, porque a aposta consistia em ver qual dos deuses era capaz de acender o fogo, por si só, remotamente. Elias ali, parado, sem pressa, esperando a fome bater mais forte para iniciar os procedimentos de churrasqueiro.

Sabe como é, gente esfomeada não repara muito no estado do assado… E, confiante no próprio taco, mas mais ainda no taco do seu deus, ainda esnobou, enquanto os adversários se esfalfavam em cânticos e orações e danças e feitiçarias e despachos e truques diversos e nenhuma labaredazinha pra assar um amendoim!

Mandou molhar a lenha, “podem molhar a lenha!”. Acho que molharam a lenha com um líquido que tomaram por água suja, encontrado numa poça próxima, de caráter viscoso, cheiro forte e cor escura… Eu só sei que foi a maior moleza para Iahweh, lá de cima, com seu laser, incendiar aquela lenha molhada, para gáudio do confiante Elias e exultação da patuleia que assistia, já morta de fome.

Enfim, Elias era tão ladino, tão liso, tão hábil, que nem a terra conseguiu comê-lo. Passou direto desta para melhor, conforme nos conta o segundo livro dos Reis, em seu capítulo 2, versículo 11.

 

O deus da terra

 

Amigas e amigos, acho que encontrei uma chave nessa literatura toda. Ela está no versículo 26 do capítulo 17 do segundo livro de Reis: “Disseram, pois, ao rei da Babilônia: 'As populações que deportaste para fixá-las nas cidades da Samaria não conhecem o ritual do deus da terra, e ele mandou leões contra elas. Os leões as matam porque elas não conhecem o ritual do deus da terra'” (2Rs 17, 26) [grifos meus].

Notem que é deus da terra, tudo em minúsculas, não se trata do Deus Nosso Senhor, Criador do Céu e do Planeta, mas o deus daquela terra, daquela cidade, daquele bairro, daquela floresta.

É que os medo-persas invadiram a Palestina e não deixaram pedra sobre pedra. Quer dizer, removeram toda a população, substituindo-a por outra. Mandaram todos os judeus para a Babilônia e mandaram babilônios e gente de outras regiões para substituí-los. (Assim como o capital-consumismo trouxe os caipiras para a cidade, mudar povos de lugar sempre facilitou a vida do governo. Os povos ficam tontos, ao perderem seu referencial ideológico, ou seja, seu deus da terra natal).

A nova população não conhecia a terra, tudo era novidade, inclusive os leões, que faziam a festa; nunca foi tão fácil comer gente. Ninguém conhecia a terra e não havia ninguém que conhecia para avisar dos perigos, das ciladas, dos truques, dos macetes, dos segredos da natureza. Por exemplo, ninguém sabia o que era mandioca, nem que ela dava polvilho, que dava tapioca. Jabuticaba, nunca tinham visto, era de comer? Quando viam um boi no pasto ou na estrada, pensavam que era um leão, e vice-versa.

Os babilônios que passaram a viver em Israel não conheciam Iahweh, o deus do lugar, entenderam? Por isso, se ferravam, porque Iahweh os castigava. Então o rei da Assíria mandou de volta alguns sacerdotes do Templo de Salomão, para ensinar aos novos moradores as manias, os rituais, preconceitos, mandamentos e idiossincrasias do sistemático Iahweh, o deus da terra.

É por isso que, ainda hoje, tudo que fazemos depende da boa vontade de Deus. Foi daí que surgiu o nosso famoso bordão “Si Deus quisé”.

Porque toda terra, quero dizer, todo lugar específico, no espaço, ou no tempo, ou na cultura, tem um deus específico. Por exemplo há o deus dos matemáticos, dos médicos, dos literatos... E quem duvida que há um deus dentro de cada computador, se meu neto semianalfabeto navega num como um peixe e eu, superletrado, morro afogado? Não há um deus para cada profissão? Por exemplo, o deus dos motoristas não é São Cristóvão? A deusa que nos protege dos raios não é Santa Bárbara?

Observem as recorrentes fórmulas bíblicas: “Her, primogênito de Judá, fez o mal aos olhos de Iahweh, que lhe tirou a vida” (1Cr 2,3); “abandonarei (Iahweh) os restos de minha herança, entregá-los-ei nas mãos de seus inimigos, e eles servirão de presa e de espólio a todos os seus inimigos, porque fizeram o mal aos meus olhos e provocaram minha ira...” (2Rs 21). “Saul pereceu por se ter mostrado infiel para com Iahweh (1Cr 10,13).

Sempre que alguém não observa uma lei de Deus (da Natureza), é castigado (se dá mal).

Vejam a fórmula bíblica para a falta de habilidade técnica: “(...) Oza estendeu a mão para a Arca de Deus e a sustentou, porque os bois a faziam tombar. Então a ira de Iahweh se acendeu contra Oza: e ali mesmo Deus o feriu por essa loucura, e ele morreu, ali, ao lado da Arca de Deus” (2Sm 6, 6-8). (Os filhos de Aarão, Nadab e Abiú, acenderam um fogo irregular perante Iahweh), “saiu então, diante de Iahweh, uma chama que os devorou, e pereceram na presença de Iahweh” (Lv 10, 2).

O não especialista, ignorante dos “segredos” de algum procedimento ou mecanismo, ao operá-lo, põe o dedo onde não deve e, puft! leva uma descarga elétrica, ganha uma hérnia de disco, pega uma doença…, e morre ou fica ferido.  

O que é a experiência, senão o conhecimento do deus específico, o deus da terra? O conhecimento da natureza da coisa, da nuance que não aparece em nenhum manual? O pulo do gato, a tecnologia de como fazer, o costume do lugar, nunca escrito, nunca explícito?

Ora, deus é o subentendido, que ninguém de fora ou que não é do ramo entende. Por isso, os forasteiros precisam ter cuidado enquanto não avisados; as crianças precisam ser ensinadas; os operários, treinados. 

Quer saber? Acho que esse “deus da terra”, de 2Rs 17, 26, foi um ato falho (ou sincericídio?), na linguagem totalmente figurada dos sacerdotes-pastores, usada para não desinquietar o rebanho. No mínimo, foi uma concessão ao politeísmo greco-romano.

 

Lepra em Ozias e Maria

 

Naquele tempo, mulher só era nomeada quando fazia merda. Foi o caso de Maria, irmã mais velha de Aarão e Moisés. (Aliás, essa Maria me parece mais decisiva para o Sistema Judaico-Cristão do que a Maria mãe de Jesus porque, não fora ela, a filha do faraó teria devolvido o bebê Moisés à correnteza do Nilo e, sem nada escrito, adeus história; ninguém hoje saberia dos israelitas e seus sucedâneos, como aconteceu com os filisteus, por exemplo).

O que me lembrou isso foi a lepra no rei Ozias, alguns séculos depois. No saco de maldades de Iahweh, havia essa da lepra, modo mais besta de castigar alguém. Mas, depois dessa de Ozias, comecei a desconfiar de Aarão (que, acho, sacaneou sua irmã Maria), senão vejamos:

Nesse último episódio aconteceu o seguinte: Ozias, filho do rei de Judá, Amasias, com Jequelias, tinha 16 anos quando sucedeu a seu pai no trono e reinou por longos 52 anos (2Cr 26). No começo, tudo bem, aquela lambeção entre ele e o padrinho; destruiu as estátuas dos concorrentes do padrinho, aumentou o número de dizimistas, conquistou dizimistas de alta renda…

Com o avanço da idade e da experiência, e da sabedoria, e o prolongamento do mandato, Ozias foi-se esquecendo do padrinho e pensando que era deus. À medida que o mandato vai-se prolongando, os assessores vão aumentando em quantidade e ficando cada vez mais bonitos por fora e feios por dentro. (A overdose de linguagem figurada está fazendo efeito...).

O resultado é que o protocolo fica cada vez mais sofisticado, e as solenidades mais pomposas. E o titular, desavisado, confunde Jesus com José e passa a pensar que berimbau é gaita. Pensa que é deus. Foi o caso de Ozias.

Não, Ozias não pensou que era deus, mas bispo, ou ministro. Num dia de reunião, arranjou uma beca e adentrou o salão do STF, querendo presidir a sessão. Pra quê!? Os juízes ficaram fulos: “Não é a ti que compete incensar Iahweh, mas aos sacerdotes descendentes de Aarão consagrados para esse ofício. Sai do santuário!!!!...” (2Cr 26,17). 

Ozias encolerizou-se… já tinha mais de 60 anos, já reinava há quase meio século, quem eram aqueles parentes de Aarão para lhe desrespeitarem assim, não estavam vendo com quem estavam falando? Ora, é normal que uma pessoa de pele branca, quando colérica, fique vermelha ou pálida, ou ambas, uma depois de outra. Foi o caso de Ozias. E foi o caso de Maria, irmã de Aarão, alguns séculos antes, lá no meio do deserto, quando os antepassados de Ozias fugiam do Egito.

Naquele caso, era Aarão em carne e osso que estava presente; neste, eram seus herdeiros. Vamos recordar: Maria e Aarão não gostaram quando Moisés, o irmão mais novo, casou-se com uma africana. Começaram a boicotar a cunhada e murmurar contra o irmão, preferido de Deus. Em verdade, não se conformavam com o protagonismo do irmão mais novo. “Falou, porventura, Iahweh, somente a Moisés?” (Nm 12, 2).

Iahweh, antecipando-se à merda no ventilador, chamou os três para uma reunião: “Escutem aqui, vocês dois (para Maria e Aarão). Qui qui cêis tão pensando? Moisés não é um profeta! É meu procurador legal e sacramentado. Com profeta eu me revelo por enigmas ou sonhos, numa linguagem dúbia e ele que se vire, como se fora um astrólogo. E quem quiser, que acredite. Mas com Moisés não. Para ele, eu apareço em carne e osso, ops, nuvem e fogo, e falo claramente”.

Diante da cólera e da ênfase divina, Maria ficou vermelha, depois perdeu a cor. Aarão, oportunista, olhou para ela e, dando uma de desentendido, gritou: “olha só pra ela, está com lepra, castigo de Iahweh!”. E, sabe como é, naquele tempo, leproso era sumariamente segregado, fora da cidade e dos semelhantes, e esquecido; o pior castigo que alguém podia receber.

Então, Aarão, dando uma de sonso, foi chorar com Moisés: “coitada da Maria, fala com Iahweh, você que tem moral com ele, para perdoar nossa irmã”. Moisés falou, Iahweh perdoou, mas, enquanto isso, ela ficou lá, no ostracismo, por sete dias.

E só agora que fiquei sabendo o nome da irmã mais velha de Moisés, agora que ela fez merda. Lembram de quando Moisés nasceu, de que “sua irmã mais velha” (Ex 2,4) seguiu o cesto no Nilo, que deu a sugestão à filha do faraó? Bom, Maria não tinha lepra coisa nenhuma, mas ficou com o estigma, enquanto Aarão ficou com o cargo.

E a encenação se repetiu com Ozias, coitado. O sacerdote-chefe, vendo-o vermelho, depois pálido, começou a gritar: “Lepra! Lepra!”. “Expulsaram-no imediatamente e ele mesmo se apressou em sair, porque Iahweh o havia castigado” (2Cr 26, 20). E, enquanto os 80 ministros mantiveram suas prerrogativas e regalias e cargos, Ozias foi excluído e trancafiado num quarto, até morrer.

Ainda hoje, tem gente que pensa que não foi golpe.

 

A reconstrução do templo em Jerusalém

 

“Ihhh! Ferrou. Esse povo é muito encrenqueiro”, disseram os colonos babilônicos em Jerusalém quando viram os judeus de volta. E quando começou o buchicho de que iriam reconstruir o templo, se indignaram: “Nem pensar! É um povo que reza pra guerrear, daqui a pouco começam a construir bombas, e mísseis, e submarinos, e caças, e feicibuques para espionar os corações e as mentes...”.

Reuniram-se e escreveram uma carta ao rei Artaxerxes, que havia substituído Ciro, da Pérsia, que autorizara o retorno dos judeus. Carta bem-educada, na qual perguntavam se o rei não conhecia o que havia feito aquele povinho em tempos passados; e, se não sabia, que pesquisasse a história, que se informasse junto aos vizinhos… pois havia sido por causa daquela beligerância que Jerusalém havia sido destruída; e aquele povinho iria usar o Templo para organizar seu povo contra seus vizinhos novamente.

Artaxerxes leu a carta, pesquisou e ficou assustado. “Pelamordedeus, mande suspender essa reconstrução imediatamente!”. É que, como se sabe, os israelitas tocaram o terror na região desde a época de Moisés, Josué e, em especial, na época de Davi, ajudados pela guerra santa de Iahweh e o famoso anátema. Até que chegou uma hora que Nabucodonosor, rei da Babilônia, foi lá e destruiu tudo, trocando inclusive as populações: exilando os judeus para a Babilônia e substituindo-os por colonos próprios, de outras regiões.

Uns 70 anos depois, o Irã (Pérsia) invadiu o Iraque (Babilônia) e, vejam vocês, foram tolerantes com os judeus. Ciro, o rei, disse que eles podiam voltar, reconstruir o templo…

Mas então Ciro logo foi substituído pelo opositor Artaxerxes, deu aquele quiproquó relatado acima. Os judeus suspenderam a reconstrução, se aquietaram, mas não esqueceram (os judeus não esquecem, porque anotam tudo...). Quando Dario substituiu Artaxerxes, eles voltaram à carga. “Por favor, majestade, reiniciamos a reconstrução do templo, foi o Ciro que autorizou, não acredita, pesquise no arquivo morto”. Dario mandou pesquisar. De fato, tava lá a ordem, dada havia uns vinte anos: “O templo será reconstruído para ser um lugar onde se ofereçam sacrifícios...” (Esd 6, 3).

Dario, então, para honrar a palavra de Ciro, falou “tudo bem, o Ciro autorizou, fazer o quê? Agora é ver a merda que vai dar. Mas já tem bastante gente nossa lá, acho que eles não vão conseguir retomar aquele belicismo teocrático. Além do mais, temos de respeitar o estado democrático de direito”.

Os colonos (os que haviam substituído os judeus, na época da deportação) estrilaram, Dario não gostou: “o primeiro que transgredir este edito, arranque-se de sua casa uma viga de madeira; ela será erguida e nela seja empalado; e sua casa seja convertida num montão de imundícies”... (Esd 6,11). Isso é que é falar grosso. Naquele tempo era assim, só se entendia o bruto. Ou talvez as minúcias não passam à posteridade, por serem mais difíceis de relatar.  

A meu ver, diante de uma ordem tão peremptória, e vendo o quartel-general de Iahweh sendo reerguido com tanta diligência, os mais esclarecidos trataram rapidinho de arranjar outra freguesia onde viver…

 

Sara & Tobias

 

Bom, Sara, apesar de ter se casado sete vezes, ainda era virgem. É que ela matava seus maridos, na noite de núpcias, antes de trepar. Para o pai e o delegado, ela dizia que fora o demônio Asmodeu. Naquele tempo, o que não havia de avião de carreira no ar, havia de anjos e demônios. Vocês vão ver que daqui a pouco aterriza um anjo na história.

Mas não vão pensar que Sara era assassina. Não, o pré-marido (só virava marido após trepar, ora!) morria de emoção nas preliminares. O fato é que ele não aguentava o ritmo de Sara, ou melhor, o ritmo e o método e a criatividade dela. Ela pegava o cara lá embaixo, elevava-o até o teto, depois soltava, figuradamente... Fazia isso várias vezes, de forma cada vez mais lenta, no contrapé do contrafluxo do coração do contramacho.

Quando esse coração estava saindo pela boca, naquele ritmo cardíaco intervalado e longo, só suportado por maratonistas treinados, sabe o que ela fazia? Tirava toda a roupa dele, depois tirava toda a roupa própria, e acendia a luz. Puft! O cara explodia. Literalmente. Tinha um ataque por, digamos, três motivos: pelo ineditismo e qualidade do material em si, pelo desespero de não saber o que fazer e pelo tamanho do pecado.

Porque uma libidinagem daquela monta, à luz da luz, era um passaporte especial para o Inferno, com direito a cruzar nadando o Aqueronte. O cara ficava lá estendido, peladão, enquanto Sara, decepcionada e insatisfeita, vinha com aquela cara de santa, dizendo pra todo mundo que fora o demônio Asmodeu.

Para todo mundo não, para o pai, que o casamento era uma transação de interesse mútuo entre o pai e o marido. E o pai acreditava, depois a mãe, depois o delegado, a vizinhança. Fazer o que se foi Asmodeu quem matou?

Asmodeu todo mundo conhecia, ou melhor, sabia da existência; nunca o tinham visto, mas sabiam que ele vinha voando, entrava pelo telhado… E o primeiro que ousasse duvidar, era excomungado como pessoa sem fé. Porque a fé amolada corta dos dois lados: quem acredita em deus, acredita no diabo, e vice-versa. E desconfio que foi daí que surgiu a expressão: ela está com o diabo no corpo.

Acho que Tobias era medroso, tanto que seu pai teve de contratar um segurança para ir com ele tirar dinheiro no banco, conforme veremos. Mas quando viu Sara, ficou valente. Todo homem fica corajoso diante de uma mulher em flor; quando ficou sabendo de Asmodeu, deu de ombros: por aquele pedaço de mulher, enfrento até o capeta!

E é aí que o sujeito quebra a cara e acaba no mau caminho. Eis a origem da expressão “pedaço de mau caminho”. Não era o caso de Sara. Ao contrário: moça bem formada, família boa, sabia lavar, passar, cozinhar, costurar. Mantinha sempre juntos os joelhos, abaixava os olhos diante de homem. O problema era na hora do vamovê. Baixava-lhe o santo, ou melhor, o demônio. O Asmodeu.

O único jeito de combater um demônio é contrapor-lhe um anjo. E foi isso que Iahweh fez. Mandou Rafael entrar na história. O pai de Tobias tinha um dinheiro guardado no banco num paraíso fiscal pra lá de Bagdá. Todo paraíso fiscal é de difícil acesso e fica longe (Tb 4, 1).

Naquele tempo, como hoje, todo dinheiro que contava era guardado assim, escondido. Perto de morrer, chamou o filho, deu-lhe a senha e falou: “vai lá sacar a grana”. E não havia google para ensinar o caminho, havia anjo. Foi então que aterrizou Rafael para guiá-lo, disfarçado de segurança-banqueiro. Desde aquele tempo, é assim: ninguém movimenta a reserva do caixa-dois sem a ajuda de um  entendido (banqueiro, lobista, agente, anjo...).

Durante essa viagem, Tobias encontrou Sara e foi amor à primeira vista. De ambos os lados, senão ele teria morrido também. Mas quem deu apoio moral foi Rafael que, isento dessa terrível necessidade humana, disse a Tobias: “pode ir que eu garanto”. De tal modo que Tobias entrou autoconfiante na empreitada.

Só que Raguel, pai de Sara, não havia percebido a tramoia e, pelo sim, pelo não, já foi logo abrindo a oitava cova, enquanto os noivos se trancavam no quarto de núpcias(era um tempo em que os mortos eram enterrados no quintal). Mas aí Sara, amando, tava sábia-submissa. E Tobias, amando, tava safo, doce e paciente. E penso que foi daí que descobriram que a junção da doçura com a sabedoria dá liga. E inventaram o tal do amor conjugal.

E sabe quanto Rafael cobrou pelo serviço? Nada. Apenas que Tobias contasse a história para todo mundo. É que o valor da narrativa já era conhecido pelos de cima, pela gente que chega voando.

 

Judite, a judia

 

Se você pensou que Sara era competente só porque, nas respectivas noites de núpcias, derrubou sete maridos ainda nas preliminares, é porque você não conhece Judite. Judite fez o comando e o comandante inimigo perderem a cabeça só com os ombros à mostra.

Corria o mandato de Nabucodonosor, na Babilônia, quando o general Holofernes, comandante do seu exército, resolveu atacar a frente ocidental da eterna guerra do oriente médio. É uma terra de muitos deuses; onde há muitos deuses, há guerra (muitas verdades absolutas entrelaçadas a serem intransigentemente defendidas...).

Tudo indicava que ia sobrar para os judeus. O general e seu exército rumavam para a capital Jerusalém, mas, no meio do caminho, encontraram Betúlia, uma espécie de Belo Horizonte da época em relação a Jerusalém/Brasília.

Acamparam e se prepararam para o ataque. Desviaram as fontes de água, e a cidade sitiada seria obrigada a se abrir, quando a sede e a fome apertassem. Naquele tempo, as cidades eram muradas, não havia avião, nem canhão, nem satélite.

Mas, olha só a ingenuidade militar da turma. Protegiam-se com muralhas enormes e deixavam as fontes de água do lado de fora e a descoberto! Resultado: todo mundo em Betúlia ia morrendo de sede, já haviam decidido se entregar, quando entrou em cena a viúva Judite.

Judite fora linda, mas com a morte do marido, ninguém mais tinha certeza, porque vivia coberta, em luto fechado. “Nãnãninanão! Se entregar?! Nem pensar! Dêxa comigo”, comandou a viúva.

Judite suspendeu o luto e, de dentro dele, explodiu uma morena cor de jambo e brilho estonteantes. Não sei se os lábios dela tinham gosto de mel, mas sei que eram vermelhos como tomates e seus cabelos não eram negros como as asas da graúna, mas castanhos. Enfim, ela estava maquiada para seduzir, quem pode saber as cores reais de uma mulher com essa intenção?

Quando Holofernes viu aquela assassina (no bom sentido) dando sopa nas imediações do acampamento (junto com uma criada), chamou-a para dentro, na maior gentileza. Homem é tudo burro. Burro e primário. E sujo. E tosco. “Vem cá, querida, tá com sede? Quer comer? Descansar, ir ao banheiro?”.

Judite entrou e não negou: sim, era judia, e disso se orgulhava, mas fugia da cidade porque seu povo comera, por causa da fome, até as primícias do trigo e os dízimos do vinho e do azeite, “coisa imperdoável, serão entregues a ti pelo Iahweh em poucos dias, é só esperar...”. Tanto continuava judia que trouxera a própria comida kosher, e pedia permissão, para uma vez por dia, sair na escarpa voltada para o templo da cidade, para rezar.

“Tudo bem, pode ir, minha filha!”, concedeu o comandante. E já fazia três dias que estavam nessa lenga-lenga. Impaciente, Holofernes mandou seu ordenança providenciar um banquete e convidar a hebreia. “Seria uma vergonha para nós deixarmos essa mulher partir sem termos relações com ela. Se não a seduzirmos, rirão de nós!” (Jt 12, 12).

E foi. Muita comida, muito vinho, música lenta, Holofernes encheu a cara. De madrugada, seus oficiais saíram discretamente, naquela cumplicidade masculina, deixando só os dois no aposento. Acontece que o comandante caiu na cama e dormiu, de bêbado. E Judite, com o próprio alfanje dele, cortou sua cabeça.

Ela e a criada embalaram direitinho o troféu, colocaram-no num embornal, e saíram para rezar.

Não, os babilônicos não as estão esperando não até hoje, porque, assim que viram o chefe sem cabeça, perderam também as deles e saíram em debandada, deixando tudo para trás, enquanto eram acossados pelos ex-sitiados que, com a cabeça como estandarte, ficaram corajosos e partiram para o ataque. E Judite ficou tão importante e tão famosa que nunca mais conseguiu arranjar marido.

 

Ester & Mardoqueu

 

Olha só como é antiga e até onde vai a esperteza humana. Sabe quem cuidava do almoxarifado de mulheres do rei? Os eunucos! Não é uma sábia solução? O eunuco é um homem castrado. Justamente: eunuco, em grego, significa vigilante da cama. Algum rei iria pôr um homem ou uma mulher, íntegros, com os devidos hormônios, para vigiar a própria cama? Era problema na certa. Não com um capado…

Quando o rei se casava, a mulher era preparada durante um ano, para a noite inaugural. Num tô falano que havia um almoxarife — e esse é um termo bem apropriado — só para administrar essa quantidade e essa rotatividade! Esse consumo!

Enfim, ela (a mulher) era inaugurada e, na maioria das vezes, nunca mais usada. “Ela não mais retornava ao rei, salvo se o rei a desejasse e a chamasse pelo nome” (Est 2, 14). De vez em quando, o rei inaugurava uma e ficava doido. Então ela virava rainha — a preferida.

Vasti era a preferida de turno. Mas já estava com o ovário cheio do rei. Um dia se negou a atender ao chamado dele (Est 1,12). Ele ficou puto e mandou o almoxarife abrir concorrência para substituição da rainha rebelde. Apresentou-se um escarcéu de adolescentes candidatas ao harém do rei. Entre elas, uma judia disfarçada, de nome Ester, criada pelo porteiro do rei, o judeu Mardoqueu.

Tudo isso acontecia em Susa, cidade próxima a Babilônia, onde o rei persa Assuero possuía um palácio de inverno. Naquele tempo, esse império dominava tudo, da Índia à Etiópia, passando pelo Egito e a Palestina.

Passado um ano de preparação, lá estava Ester às portas da sua noite de núpcias. Para Assuero também, porque para ele toda noite era noite de núpcias… Ester nem era lá grande coisa, do ponto de vista estético. Mas tudo que ela não tinha de concreto, devia ter de abstrato, porque o rei não quis saber de outra depois de conhecê-la.

Eu sei que, para encurtar a história, Ester era tão habilidosa que, certa feita, fez o chefe da casa civil de Assuero ser enforcado na forca que o próprio mandara construir só para enforcar o seu padrinho Mardoqueu, por causa de uma antiga intriga palaciana.

E, nessa embrulhada, todos os judeus do império teriam o mesmo destino de Mardoqueu. Então, Ester reverteu tudo, seu povo deu a volta por cima, e aproveitaram para decretar mais um feriado: a festa dos Purim.

 

Sara, Judite, Ester

 

(Bem, os livros de Tobias, de Sara dos sete maridos, e de Judite – que fez um exército inteiro perder a cabeça – não aparecem nas Bíblias dos judeus e dos protestantes. Ou foram censurados ou seus autores só pagaram o direito autoral reverso aos católicos e aos ortodoxos. Daí por que só nas Bíblias destes é que foram publicados. Pelo mesmo motivo, o livro de Ester é mais resumido nas Bíblias dos judeus e protestantes).

Deduzo, pelo que li no livro de Judite, do Antigo Testamento, que puro é sinônimo de limpo. E que pecado é sujeira. Como já dito, Judite refugiou-se no acampamento inimigo, fingindo traição ao próprio povo. E todo dia saía para rezar. Então, “depois de purificar-se (depois de rezar), voltava e permanecia em sua tenda até o momento em que, à tarde, lhe traziam o alimento” (Jt 12, 9).

Ela saía para rezar e voltava purificada. Purificar é limpar. E sujar é pecar. Não é à toa que, em muitas situações, os epítetos “sujo” e “porco” são sinônimos de infiel ou pecador.

Sara, Judite e Ester estão para Raquel e Lia assim como as feministas de hoje estão para as donas de casa de 1920. Mas tanto estas como aquelas desnudam a sensualidade bíblica. Quer ver sacanagem? Leia a Bíblia. No bom sentido, com todo respeito. A libido aflora como pedra no cume. No varejo e no atacado. No particular, no paroquial e no nacional.

Conhecemos o xaveco de Jacó (Israel) pra cima de Raquel e Lia.

Antes, já sabíamos do papelão de Eva pra cima de Adão, que sobrou para todos nós. Sara, com seus sete maridos mortos, provocou pequenas tragédias individuais, até resolver sua vida particular. Jacó envolveu toda a paróquia em sua saga amorosa. Judite salvou uma cidade, graças a seus encantos visuais e sensoriais. E Ester livrou a barra dos da sua raça do mundo inteiro, da Índia à Etiópia, só com seu molho.

Na Bíblia, o macho faz a guerra e o sacerdócio. E a fêmea faz amor e cultiva a casa. Por isso, na solidão da alcova, é o macho que faz feio. Começa com Adão, envolve Jacó, passa por Sansão, resvala em Booz, suja Davi e lambuza Salomão. E agora, esse general iraniano que cai feito um pato na conversa da judia.

Mas é possível algo como feminismo judeu ou sensualidade bíblica? Parece improvável que encontremos uma coisa e outra na Bíblia. Violência, tudo bem…

Entretanto, estão aí as histórias, ou melhor, estão lá escritas, faz tempo. Começa pelos nomes deliciosos: Sara, Rebeca, Lia, Raquel, Bet, Rute, Abigail, Noemi, Micol, Judite, Ester, Dalila… Dizem que Ester não é nome judeu, e Dalila era palestina. Isso porque ainda não cheguei em Suzana nem em Magdalena. Naquele mundo, todo homem que se prezava tinha harém. Quem cuidava dos haréns  eram os eunucos...

Afinal, sensualidade é sujeira? A meu ver, não, mas nunca se sabe o que pensa Iahweh. A julgar por suas heroínas, até que ele aceita bem. Claro que é um assunto que ele não domina… Ora, se um padre não deveria dominar tal assunto (por falta de prática), por que Iahweh deveria? Mas que pecado é sujeira está lá escrito, ainda que indiretamente. E Deus é uma espécie de lixeiro ou faxineiro.

 

Judeus, gregos e romanos

 

Finalmente, os judeus encontram os gregos e os romanos. É que cheguei em Macabeus. Entraram para a reunião, que não acabou até agora… Quero dizer, nós, aqui no nosso mundinho ocidental, ainda estamos sob o guarda-chuva do moralismo judaico-cristão e do pensamento greco-romano. Enquanto, de um lado do Mar Mediterrâneo, pontificavam os profetas, de outro, pontificavam os filósofos.

Enquanto, no lado oriental do mar, Isaías e Jeremias contavam seus causos sob a batuta de Iahweh, no lado oposto, Hesíodo e Homero faziam a mesma coisa. Só que estes últimos, em vez de apenas um deus, tinham de tolerar um Olimpo de deuses e deusas. A vantagem destes em relação àqueles é que eram deuses parciais, sem a sabedoria totalitária daquele único da outra margem.

O encontro se dá por volta de 200 anos antes do nascimento de Jesus. E quando digo “mundinho ocidental”, quero dizer que ignorávamos tudo — tudo — que acontecia da Índia até o Havaí na direção do sol nascente. Então, grosso modo, nosso mundinho era dividido entre o Império Selêucida, que ia do Paquistão ao Mar Egeu, e o Império Romano, que ia do Mar Adriático a Los Angeles, passando por Nova Iorque.

O Império Selêucida, com capital em Antioquia, na Turquia, foi o que restou das enormes conquistas do greco-macedônio Alexandre Magno. Ele dominou tudo que ficava entre os persas e os egípcios, passando por um povo e um território minúsculo chamado judeia.

Alexandre teve como mestre-escola sabe quem? Aristóteles. Pense no contato entre um cara educado por Aristóteles e outro educado pelos sacerdotes de Aarão.

Quando Alexandre morreu, seu mundo foi dividido entre seus generais; que não pensavam muito diferente dele. Mas a festa durou apenas cerca de 100 anos, quando os romanos chegaram e dominaram tudo. Os romanos que, para chegarem ao oriente médio, tiveram de passar pelos gregos e aprender com eles.

Entretanto, entre 160 e 134 a.C., o livro Macabeus, do Antigo Testamento, conta as aventuras guerrilheiras de Judas Macabeu e seus irmãos Jônatas e Simão, que deram muita dor de cabeça às forças do império ali naquele pequeno território. Quem lê, e se baseia apenas na Bíblia, tem a impressão de que havia apenas duas forças em luta, mocinho contra bandido, judeus versus gregos. Mas havia centenas de pequenas nações sob o império dos herdeiros de Alexandre, dentre as quais, a Judeia.

Os gregos, imperialistas, usando porta-aviões, ou filmes de Roliúde, ou redes sociais monitoradas de Atenas, impunham novos costumes e levavam à perdição até os sacerdotes do templo. Tiveram a cara de pau de destronar o deus Tupã e converter os índios ao catolicismo; invadiram a basílica de Aparecida e botaram um buda no lugar da santa. Dedicaram o Santuário de Jerusalém ao Zeus Olímpico (2Mc 6, 2).

Aliás, foi por essa época que a guerrilha israelita enviou representantes a Roma.

Em termos de logística, equivaleria hoje a negociar na Lua; e isso na locomoção; na língua, equivalia a negociar com os chineses em chinês… Negociaram. Mas os romanos deram um chapéu nos israelitas e forjaram as condições para o surgimento, pouco mais de 100 anos depois, de uma liderança mais carismática do que Moisés... São perigosos esses chineses!

 

Confronto & conchavo: Judeus & Gregos

 

Transcrevo um trecho longo do capítulo 4 do segundo livro dos Macabeus, do Antigo Testamento (2Mc 4). A meu ver, merece:

 “Jasão, irmão de Onias (um falecido sacerdote judeu, muito querido), começou a manobrar para obter o cargo de sumo sacerdote (Junto ao rei Antíoco, um dos herdeiros de Alexandre). Durante uma audiência, prometeu ao rei trezentos e sessenta talentos de prata e ainda … mais oitenta talentos, se lhe fosse dada a permissão, pela autoridade real, de construir um ginásio e uma efebia, bem como de fazer o levantamento dos antioquenos de Jerusalém. Obtido… o consentimento… começou a fazer passar os seus irmãos de raça (os judeus) para o estilo de vida dos gregos. (…) E, abolindo as instituições legítimas, introduziu costumes contrários à Lei (de Moisés). Foi, pois, com satisfação que construiu a praça de esportes justamente abaixo da Acrópole e, obrigando os mais nobres de entre os moços, conduziu-os ao uso do pétaso. Verificou-se desse modo, tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros, por causa da exorbitante perversidade de Jasão (…) que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar. Antes, desprezando o Santuário e descuidando-se dos sacrifícios, corriam a tomar parte na iníqua distribuição de óleo no estádio, após o sinal do disco. Assim, não davam mais valor algum às honras pátrias, enquanto consideravam sumas as glórias helênicas” (2Mc 4, 7-16).

Algumas notas, para tornar o texto claríssimo: Ginásio, de esportes, claro. Efebia: instituição para moços de 18 a 20 anos que aprendiam a manejar armas e se dedicavam aos exercícios corporais e a alguma cultura literária; “conduzir para debaixo do Pétaso” era levar alguém aos exercícios de atletismo, durante os quais se usava esse chapéu de abas largas, típico de Hermes, o deus das lutas e das competições; “distribuição de Óleo no estádio”: o óleo com o qual os atletas se massageavam e que lhes era oferecido pelos ginasiarcas. Essas notas são da Bíblia de Jerusalém, que estou lendo.

Não lhes parecem familiares esse conchavo de Jasão e esse conflito de costumes e essa disputa de deuses?

E a gente que pensava que eram inocentes idiossincrasias essas preferências pelas coisas do corpo ou da mente. Depois, que se tratava de características pessoais, uns atletas, outros intelectuais… sempre no campo laico da filosofia…

A gente nem desconfiava que, na raiz dessa dualidade maniqueísta, estivessem, de um lado, o nacionalismo judeu e, de outro, o imperialismo grego. Mas, daqui umas mil páginas, veremos que deram um jeito de conciliar as duas coisas: os filósofos greco-romanos abdicaram do cultivo do espírito, em prol dos sacerdotes judaico-cristãos.

Isso por cima, no conchavo de gabinetes. Aqui embaixo, a problemática continua. Somente o povo lá dos cafundós, que ainda não viu nenhum grego e desconhece seu sistema teológico cheio de deuses e deusas, especialistas, mas falhos, continua firme na submissão ao deus único, macho e infalível dos judeus.

 

Cleópatra

 

Se você acha que a Cleópatra do Júlio César e do Marco Antônio era ousada, é porque não conhece sua eneavó Cleópatra Teia que, por sua vez, era filha de Cleópatra II. Isso quer dizer que havia a Cleópatra I… E, depois, houve outras Cleópatras, antes de Elizabeth Taylor, aquela que se suicidou deixando-se picar por uma jararaca.

Não sei bem se se pode chamar de ousadia a de Cleópatra Teia. Era mais uma descarada. Ou melhor, testa de ferro de seu próprio pai, Ptolomeu VI Filometor, rei de Alexandria, no Egito. Este, nos negócios com os gregos de Antioquia, ofereceu sua filha a Alexandre Bala, rei do império Selêucida.

Mas não passou muito tempo e, quando Ptolomeu percebeu que Demétrio II iria desbancar Alexandre — que ficou sem bala na agulha —, anulou o casamento e deu a filha ao novo rei, Demétrio. Ousada ou descarada (ou vítima do próprio pai), essa tal Cleópatra Teia devia ser um avião, a julgar por sua capacidade de definir um negócio.  

Daí pouco tempo, durante uma batalha contra os persas, Demétrio caiu prisioneiro do rei Arsaces. Cleópatra não se fez de rogada e — por iniciativa própria, pois seu pai já havia falecido — substituiu o marido preso pelo irmão dele, Antíoco VI, que ocupou o lugar do irmão na cama e no trono. 

Não, isso não escandalizava os israelitas não, com seus haréns; quer dizer, os israelitas ricos…  A meu ver, essa pouca-vergonha foi um dos motivos do surgimento, uns cento e poucos anos depois, de uma rebelião de pobres judeus, cujo líder chegou com uma conversa besta de paz, amor e monogamia.

 

Petróleo

 

Essa é para quem achou que forcei a barra na insinuação de que se tratava de um líquido inflamável muito comum no oriente médio, que aflora à superfície, a água com que Elias impressionou os pagãos do deus Baal e ganhou a aposta do Monte Carmelo (1Rs 18, 20-40), e consequentemente a concessão do manejo exclusivo do rebanho.

Aconteceu no tempo de Neemias, há uns cinco séculos antes de Cristo. Como se sabe, os judeus foram deportados para a Pérsia. Na correria, os sacerdotes esconderam o fogo sagrado (o próprio Iahweh, que nunca se apaga…) num poço seco. Passados muitos anos, Neemias voltou a Jerusalém, com a anuência do próprio rei da Pérsia, para reconstruir, recuperar, arrumar, retomar a vidinha dos judeus (sob a Lei de Moisés).

No Templo, aquela bagunça, teias de aranha e muito pó, pois estivera abandonado por muito tempo… Alguém se lembrou de que um seu bisavô, sacerdote, escondera o fogo sagrado, ao sair às pressas para a Babilônia décadas atrás. Neemias mandou procurá-lo. Após fuçar em tudo quanto era canto, encontraram o tal poço seco.

Mas, em vez de fogo, encontraram apenas uma água espessa. Neemias, com a certeza da fé absoluta, afirmou que aquela água era o fogo sagrado do altar de Iahweh que nunca se apaga e mandou o ajudante molhar toda a lenha da churrasqueira com ela. Este, incrédulo, pensou que o velho tava gagá, mas, fazer o quê? Gagá ou não, ainda mandava. E molhou toda a lenha.

Então, enquanto tomavam umas brejas, o sol foi esquentando e a lenha lá, naquele mormaço, debaixo do solão. De repente, puft!, incendiou-se. Mas de uma forma tão violenta que as picanhas ficaram inaproveitáveis de tão torradas, praticamente viraram cinzas. E gostaram tanto da brincadeira que derramaram a tal água espessa sobre umas pedras e puft!, novamente outro fogaréu luminoso. E Neemias: “Tão vendo!?!! Seus incréus!!!”.

Claro que o fato foi noticiado no mundo inteiro. Ao ficar sabendo, o rei da Pérsia, “cercando o local, declarou-o sagrado, depois de haver comprovado o fato” (2Mc 1, 34). E “os companheiros de Neemias deram a esse líquido o nome de neftar, que quer dizer 'purificação', mas por muitos é chamado de nafta” (2Mc 1, 36). Pelo sim, pelo não, o rei já iria reservar o lote para quando fosse inventado o motor à explosão e a matéria plástica…

 

Livros poéticos e sapienciais

 

Jó (Jó)

Salmos (Sl)

Provérbios (Pr)

Eclesiastes (Ecl)

Cântico dos cânticos (Ct)

Sabedoria de Salomão (Sb)

Eclesiástico (Eclo)


 

Paciência e impaciência de Jó

 

Satanás conversa com Deus, no único boteco da Vila Extraterrestre, onde ambos moram. Aquela conversa mole de fim de tarde. Como se sabe, Satã é um provocador por excelência, não perde uma oportunidade. E mais: vive procurando modos de provocar e tirar a paciência do interlocutor. Porque toda derrota começa com a impaciência.

“E aí, Iahweh, e aquele seu criado, o Jó? O cara já tá ficando famoso com sua paciência”… Iahweh só mexeu os beiços, concordando, enquanto examinava a cor da caipirinha. De fato, Jó era um sujeito muito compreensivo para com os atos de Deus, um espécime diferenciado do seu rebanho, um exemplo de judeu.

Lúcifer retomou a carga: “Ser paciente com a conta bancária recheada é fácil. Queria ver se esse tal Jó continuaria com essa compreensão toda se ficasse pobre” (Jó 1,10).

Deus, com a autoconfiança que lhe é característica, e sem tirar os olhos do copo que segurava na altura da boca, disse ao Diabo: “Tudo bem, veremos. A fortuna do Jó lhe pertence” (Jó 1,12).

O Capeta nem tomou toda caipirinha, saiu dando pinote de felicidade. E, em coisa de semanas, Jó ficou pobre. Inexplicavelmente, empresas sólidas onde Jó investia quebraram; o banco onde deixava o grosso da grana disponível sofreu drástica intervenção do Banco Central e não sobrou nada para nenhum correntista; uns quatro edifícios desabaram naquela semana, justo onde Jó concentrava sua carteira de imóveis, incluindo a mansão onde morava, soterrada por um dos edifícios, que ficava ao lado.

Jó ficou sem renda, sem dinheiro e sem casa. Mas, paciente, declarou: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. Iahweh o deu, Iahweh o tirou, bendito seja o nome de Iahweh” (Jó 1,21).

Dois meses depois, novamente Demo e Deus se encontraram na saideira, no boteco da vila. “E aí, colega, já atazanou a vida do meu servo Jó?”. Claro que Deus já sabia; sabia, inclusive, da reação compreensiva de Jó. E não perguntou para provocar, longe de Deus qualquer provocação, provocar é um verbo só conjugado pelo Mal. Perguntou pra puxar conversa.

Era um assunto do qual o Cujo não queria tratar, decepcionado com a passividade daquele energúmeno lá da Terra. Mas já que Deus insistia… “Pele por pele. Para salvar a vida, o homem dá tudo o que possui. Mas estende a mão, fere-o na carne e nos ossos; eu te garanto que te lançará maldições em rosto” (Jó 2,4). Aí Deus falou: “Feito! Você pode fazer o que quiser com a saúde dele. Só não pode matá-lo” (Jó 2,6).

Imagina só a felicidade do Demônio. Eu sei que o coitado do Jó ficou, em poucas semanas, todo esculhambado, pereba, inflamação, reumatismo, calvície, hérnia de disco, miopia, surdez, impotência sexual… Antes do Sem Nome, a própria mulher foi a primeira a provocar: “E aí, o que você acha do seu deus, ainda o considera bonzinho?”. Jó ainda defendeu a bondade de Deus.

A meu ver, as pessoas só leram até essa parte do livro do Jó, para saírem por aí propagandeando sua infinita paciência, a ponto de transformá-la em ditado popular. Mas eu o li até o final e digo para vocês: Não foi bem assim.

Jó não desancou Iahweh para não dar o braço a torcer à mulher. Sabe como é, Jó era machista e a sua própria mulher era machista. No machismo, a fala da mulher não deve ser levada em conta nunca. Por isso, as mulheres machistas ficam martelando suas reclamações do, e/ou para o marido, conformadas com o fato de que nunca serão ouvidas. Intimamente satisfeitas, cozinham, lavam e passam direitinho e educam seus filhos para que reproduzam o machismo vigente.

Já com seus amigos Elifaz, Baldad e Sofar, Jó soltou os cachorros: “Pereça o dia que me viu nascer” (Jó 3,3). E os três: “Tenha confiança em Deus; Deus sabe o que faz”. E Jó: “Levo cravadas as flechas de Shaddai” (Jó 6, 4). E seus amigos: “Cara, Deus é justo; não fala tanto assim não, rapaiz”!

Só sei que Jó apenas sossegou quando Iahweh restaurou tudo que o Capiroto lhe havia tomado; isso depois que Jó disse diretamente a Deus que se retratava, que faria penitência. É que Deus interferiu na conversa mole dos três amigos e, acho eu, aliviou as dores de Jó que, esquecendo a própria desgraça e diante da Sumidade, disse sem jeito que havia falado coisas que não entendia…

Enfim, o banco onde Jó tinha conta foi recuperado pelo governo, as empresas das quais era sócio levantaram a concordata e até o cabelo dele voltou a crescer e, claro, ele voltou a frequentar a igreja e pagar o dízimo direitinho.

Iahweh aproveitou a visita para dar uma comida de rabo nos três amigos falastrões, cujos discursos convencionais só fizeram aumentar a impaciência de Jó. E passou um tempo sem tomar uma no boteco para não encontrar o colega Cão.

 

O Eclesiastes

 

Melhor não ler o Eclesiastes se estiver triste ou numa maré baixa da vida. Eu fiquei meio depressivo quando li. Quem melhorou meu astral foi a necessidade de escrever esta crônica. Porque ele começa e termina com a seguinte bordoada: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2; 12, 8).

Dizem que o autor desse livro do Antigo Testamento foi Salomão — filho de Bet com Davi —, aquele que reinou em Israel depois do pai. Pode ser. Um cara que tem 700 mulheres e 300 concubinas não tem nenhuma. É um solitário, no sentido negativo do termo. Então, pessimista, veio com esta: “Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu” (Ecl 3,1).

Mas claro! Vê se quem tem apenas uma mulher vai se preocupar com agenda. Porque esse negócio de tempo de plantar, tempo de colher, tempo de abraçar, tempo de atirar pedras, tempo de amar, tempo de buscar, tempo de gemer, tempo de falar, tempo de guardar, é coisa de gente que controla seu tempo numa agenda, por causa das muitas e múltiplas tarefas.

O cara tem casa na praia, casa no campo, quatro carros na garagem, conta em cinco bancos, dois gatos, três cachorros, 11 cartões de crédito na carteira, um cavalo, amante na praia, amante no campo, um barco, pensa na quantidade de IPTU, IPVA, banda larga, gás, eletricidade, água, condomínio, convênio médico, escola, dentista, o escambau. Para dar conta, tem de dividir o tempo direitinho, anotar tudo…

Como se sabe, além do numeroso harém que possuía, Salomão era muito rico. E dizem que era muito sábio também. Eu tenho minhas dúvidas. Mas pode ser, se controlasse direitinho. Me parece que, ao final, ele se embananou, não elegeu seu sucessor e, pior, viu seu reino se dividir.

De todo modo, ele sabia a enrascada em que havia se metido e como gerenciá-la: controlando rigorosamente as coisas e os respectivos tempos. Nessa, sobrou tempo até para escrever provérbios. Enfim, de que Salomão era bem-afamado não resta dúvida. A meu ver, foi precursor, com seus conselhos, dessa pandemia de consultores e palestrantes e coaches e aspones em geral de hoje em dia.

Pelo sim, pelo não, parece-me que ao menos seu editor é sábio, além de discreto. Ao final e sem alarde, deixou-nos o seguinte conselho: “fica atento: fazer livros é um trabalho sem fim, e muito estudo cansa o corpo” (Ecl 12, 12).

 

O bispo machista

 

Se o Eclesiastes (Ecl) é sábio demais, por isso triste demais, por isso chato, porque gosta de dar conselhos demais, o Eclesiástico (Eclo) é descaradamente moralista, desses de pouca imaginação, nenhum espírito e muito moralismo primário para cima do rebanho. Sabe aquele pastor chato que fica gritando com o rebanho ao menor balido fora do tom, à menor bocada num capim mais longe do trilho? É o eclesiástico.

Diz-se que o Eclesiastes era o próprio rei Salomão, o cara mais sabido do pedaço, segundo seus contemporâneos… Não, sei lá, tenho dúvidas, para mim esse epíteto foi-lhe cunhado meio milênio depois, durante o lançamento do Eclesiastes, por sua editora. Sabe como é, vende mais um livro escrito por alguém reconhecidamente muito sabido… ou famoso.

Salomão já era famoso por duas realizações, uma edificante e outra nem tanto. A primeira, como incorporador imobiliário, pois conseguiu, pacificamente, incorporar todos aqueles terreninhos no centro velho de Jerusalém, pertencentes àqueles judeus que viviam do aluguel das respectivas casinhas desde Moisés, para construir seu famoso megatemplo que, de fato, valorizou muito o entorno. E a segunda, a façanha de ter tido 700 mulheres, fora as 300 concubinas.

De todo modo, algo que Salomão não precisava ser, para ganhar dinheiro e prestígio, era pastor ou bispo; porque já era rei. E, sendo rei, ao dar uma de pastor, podia se dar ao luxo de não ser tão moralista.

Mas o Eclesiástico não. Este era pertencente à carreira eclesiástica de malas e cuias. Desses padres que, além de usarem batina até na praia em pleno século 21 e não casarem nem em pensamento, ainda se orgulham disso e arvoram-se o direito de aconselhar e perdoar os pecados dos homens casados que usam calças.

E, como todo moralista empedernido, esse pastor do cabelo escovinha, autor do Eclesiástico, era machista. Meu deus, como era machista! Não, juro que não vou transcrever nenhum trecho, porque me deixa constrangido. Mas se você gosta de conferir, vá lá nos capítulos 9, 23, 25, 26, 36 e 42. Sim, porque além de verborrágico, ele é insistente. Pretende aconselhar sobre tudo e tenta vencer pelo cansaço.

E era inseguro também. Talvez essa insegurança seja indício da sua única virtude: a consciência da própria mediocridade. Escreveu um texto medíocre, percebeu que aquilo não ia dar em nada e engavetou. Engavetou, mas não destruiu, indício de que acreditava no poder da acumulação e da passividade das gerações vindouras.

Então, um século depois, na Alexandria, seu neto, tradutor juramentado de hebraico-grego, desempregado, desengavetou o manuscrito do avô, traduziu-o e o ofereceu ao mercado de editoras por uma bagatela.

Os judeus, que já conheciam bem o autor, não quiseram nem de graça. Aos protestantes, ele nem ofereceu, porque na época eram muito pobres. Mas os católicos e os ortodoxos o compraram e deu no que deu. Na Bíblia dissidente, o livro não consta. Na minha, católica, consta.

 

A censura judaico-protestante

 

Ainda não fui conferir nas Bíblias hebraicas e protestantes se, nos espaços dos sete livros censurados, colocaram receitas de bolo. Mas acredito que não porque isso só aconteceria se essa ausência, que gerou o espaço vazio, fosse provocada por uma força externa e não por vontade e convicção dos próprios editores.

Então as tais Bíblias devem ter ficado um pouco mais finas apenas; o que veio se mostrar, dois milênios depois, muito útil no lançamento de edições de bolso, apropriadas aos milhões de irmãos que portam a Bíblia como o smartphone, levando-a consigo para todo lado; no bolso, naturalmente.

De fato, os livros Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico e Baruc constam apenas nas Bíblias católicas e ortodoxas. São os chamados livros deutero-canônicos, canonizados numa segunda rodada, quando os judeus, mais eficientes, já haviam fechado sua edição.

Os protestantes os excluíram para marcar posição contra os católicos. Martinho Lutero, querendo conciliar, manteve-os em apêndice. Mas então entraram em cena os literais de ambos os lados; e as fogueiras crepitaram de um lado, e, do outro, o apêndice foi literalmente destacado e queimado.

Mas pode ser que os gregos tenham sacaneado os judeus. É que esses sete livros (que naquele tempo eram rolos), ou foram escritos diretamente em grego, ou fizeram sucesso no mercado editorial já na tradução grega, como o caso do Eclesiástico pelo menos.

Então, ou os gregos não avisaram os judeus a tempo, ou tentaram transformá-los em best-sellers junto aos leitores israelenses com traduções baratas para diminuir os custos. E os exigentes leitores as rejeitaram. Enquanto isso, os judeus aproveitaram e lançaram suas edições em autêntica língua nacional e fizeram sucesso. E como estava vendendo bem, deixaram por isso mesmo: e a Bíblia dos judeus (o Antigo Testamento) saiu sem os tais livros e assim está até hoje.

Muitos séculos depois, os protestantes ressuscitaram essa rixa para desgastar os católicos e, de quebra, fortalecer a indústria do turismo em Israel, com excursões das agências de viagem com cristãos que lançaram a moda de se batizarem no rio Jordão e trazerem para casa pedaços do muro das lamentações, comprados de estratégicos camelôs. 


Livros proféticos

 

Isaías (Is)

Jeremias (Jr)

Lamentações (Lm)

Baruc (Br)

Ezequiel (Ez)

Daniel (Dn)

Oseias (Os)

Joel (Jl)

Amós (Am)

Abdias (Ab)

Jonas (Jn)

Miqueias (Mq)

Naum (Na)

Habacuc (Hab)

Sofonias (Sf)

Ageu (Ag)

Zacarias (Zc)

Malaquias (Ml)


Os profetas

 

Na Bíblia, sei bem quem são os profetas menores: Amós, Oseias, Miqueias, Sofonias, Naum, Habacuc, Ageu, Zacarias, Malaquias, Abdias, Joel e Jonas. Quanto aos maiores, alguns dizem que são Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Há controvérsias.

Acredito que essa classificação vale só para os profissionais (os canônicos). Aleijadinho misturou tudo, em Congonhas, Minas Gerais, deixando de fora Miqueias, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias e introduzindo Baruc, que só consta nas Bíblias católicas. Mas essa classificação não se dá pela fama do profeta ou pela quantidade de profecia confirmada, mas pelo tamanho do livro que cada um escreveu ou ao qual deu o nome. Quanto mais verborrágico, maiores o tamanho e a fama…

Entretanto, quase todos concordam que o maior profeta, em prestígio, foi Moisés. Só que este não era profissional, era um contestador da ordem egípcia que foi recrutado por Iahweh para promover a rebelião dos pobres que, como os pretos de hoje, naquele tempo eram quase sempre judeus.

E, a rigor, Moisés não profetizava. Ele apenas transmitia o que Iahweh lhe falava. Aí era covardia, não tinha como errar. Daí me vem uma desconfiança de que só Moisés era autêntico, e todos os que vieram depois eram falsos. 

Quando a vida social dos israelitas começou a ficar muito complicada, que eles precisaram instituir um governo central, ou seja, escolher um rei, forjaram primeiro um profeta para que ungisse o rei. É que naquele tempo não havia TSE nem urna eletrônica… Isso aconteceu uns 500 anos após chegarem à terra prometida, levados por Moisés.

Samuel foi esse cara que ficou conhecido por falar com Deus. Adquirida a fama, o resto foi fácil. Samuel apontou para Saul e disse: “É este”. Saul virou rei, pisou na bola durante seu governo, Samuel não gostou e arranjou outro para substituí-lo: apontou para Davi. Moleza: se ele conversava com Deus, tudo que ele dizia era lei!

Outro cara que fez sucesso na profissão foi Elias. Mas Elias foi atípico, porque isolado, sem participar do sindicato dos profetas. Adquiriu legitimidade durante um programa de TV gravado sobre o Monte Carmelo. Mas esse isolamento, que a corriola corporativa chamava de individualismo, não passou impune, porque, segundo as más línguas, ele foi arrebatado, subindo ao céu em carne e osso. Eu tenho dúvidas, desconfio que foi enterrado como indigente no Vila Formosa, ou caiu de gaiato n'alguma vala comum num cemitério de Perus.

Porque a vida de um profeta consistia em fazer profecias, deixando-as semipúblicas. Publicava, mas as liam apenas seus pares da associação dos profetas; assim como se faz hoje com certas publicações burocráticas nos diários oficiais… só para constar e, quem sabe, serem usadas no futuro, se convenientes.

Ora, o futuro, para um profeta, é fundamental. O cara passava a vida inteira fazendo previsões, oito horas por dia, vinte e cinco dias por mês. Uns 30 anos depois, o serviço de arquivo da associação de profetas ia lá no arquivo-morto e desenterrava somente as previsões que deram certo… E então era hora de o profeta confirmado deitar e rolar e ungir e destronar reis e o escambau. É por isso que todo profeta famoso tem aquela barba grande e senil naquele sépia de madeira oca. 

Mas, para o povo acreditar que Deus baixava aqui na Terra e conversava cara a cara com um humano, era preciso passar mil anos. Foi por isso que, mil anos depois de Moisés, Isaías teve de arranjar outra forma de receber a palavra de Deus: o sonho! Sonhava, contava ao povo, e dizia: “Palavra de Iahweh”. Claro, depois de ficar famoso, usando o esquema da associação... que, acho eu, surgiu por essa época.

Sem dúvida, os profetas eram pessoas sábias, cultas, por isso visionárias, segundo o senso comum. Atualmente se dizem intelectuais… Porém, para que seus palpites e opiniões fossem respeitados pelos amigos e parentes, e pessoas próximas ou contemporâneas, precisavam arranjar uma fórmula que desse a um estranho a autoria do palpite, sendo eles meros intermediários porque, desde aquela época, já sabiam que santo de casa não faz milagres.

Mas, ao contrário de Jesus, foram profetas em sua própria casa. Ao menos foi o que os cânones disseram meio milênio depois. Porque, se é o futuro que faz o profeta, é o passado que o confirma. Tudo bem, reconheço que minha profecia está confusa…

 

Isaías, o profeta maior

 

Isaías é o craque da literatura bíblica. Dizem que era um grande poeta. Claro, quando se junta um profeta com um poeta só pode ser esse o resultado. Ou seria redundância alguém se dizer profeta e poeta? Porque não são os profetas e poetas que se expressam por metáforas? Ou por outras figuras mais cabulosas? Não é a linguagem figurada que nos deixa mais cabreiros com os poetas?

Entretanto, no caso dos profetas, a linguagem figurada era uma necessidade prática. Imagina se um profeta, “vendo” que o fiel em sua frente seria atropelado por um ônibus logo mais, ao atravessar a Celso Garcia fora da faixa, a ele dissesse claramente: “Você será atropelado por um ônibus daqui a pouco, após o término do culto, quando for atravessar a avenida”. No mínimo, o fiel faria um escândalo em plena liturgia. E, no máximo, para a ruína do profeta, deixaria de atravessar a avenida e a profecia não se concretizaria.

Mas a linguagem enviesada dos poetas, essa não se explica. Nem se vende. Mas serve para marcar posição. É o cartão de visita do literato. Numa crônica, qualquer um mete o pau. Num poema, é muito mais arriscado. Aquela substância nova de gosto doce pode ser veneno, e manuseá-la é como se se brincasse com uma jararaca, pensando ser uma minhoca. No mais, quanto aos direitos autorais, profetas e poetas não se diferenciam. É que ambos escrevem livros. Não interessa se o direito autoral do profeta resulta em grana e o do poeta é apenas uma quimera editorial. Mas, de vez em quando dá zebra e um poeta faz sucesso, normalmente lá pela hora da morte: o dinheiro só chega quando o cara já morreu.

Não tem gente ganhando dinheiro com Camões até hoje, editando suas obras, escrevendo ensaios e biografias etc.? Quem garante que, no meio duma dessas edições, algum espírito exaltado e tímido não meta um soneto próprio, em nome do famoso, só para gozar em silêncio a ignorância coletiva?

Mas no caso do profeta Isaías, aconteceu algo mais corriqueiro, para não dizer rasteiro, parecido com o que algumas bandas de rock e duplas sertanejas fazem: trocaram seus componentes, mantendo os nomes consagrados. Sim, estou dizendo que o livro do Isaías teve três Isaías.

O que fez o nome escreveu até o capítulo 39; dois séculos depois, alguém se assumiu Isaías e acrescentou os capítulos 40 a 55; e, bem depois, um terceiro comprou a marca “Isaías” e acrescentou os capítulos 56 a 66. E, graças a esse jogo comercial, o verdadeiro Isaías ganhou fama de profeta maior. Não pela qualidade, mas pelo tamanho da obra.

 

O pessimista

 

Algumas crônicas atrás, escrevi que o Eclesiastes era sábio e o Eclesiástico, moralista. Agora, digo que Isaías e Jeremias são chatos. E todos são pessimistas. O Eclesiastes anunciava verdades corriqueiras, da vida comum, com crueza e despretensão. O Eclesiástico falava e vociferava contra os costumes correntes, as safadezas do cotidiano. E os profetas falam de um tempo vindouro, para compensar as desgraças do presente.

Coélet (o Eclesiastes) observa as opressões todas que se cometem debaixo do sol. As lágrimas dos oprimidos, a força dos opressores, e não há quem os console. Felicita os mortos mais que os vivos (Ecl 4, 1-2). O mesmo destino cabe a todos: para o justo e o ímpio, para o bom e o mau, para o puro e o impuro, para quem sacrifica como o que não sacrifica (Ecl 9, 2-3).

Jesus Ben Sirá (o Eclesiástico) vem com a patetice de que a altura do céu, a amplidão da Terra, a profundeza do abismo, quem as poderá explorar? Diz que Ele fez chover a ciência e a inteligência e exaltou a glória daqueles que a possuem. Anuncia platitudes do tipo: “aquele que respeita o pai encontrará alegria nos filhos”, e seria hipócrita não fora simplório ao dizer que “quanto mais fores importante, tanto mais humilha-te para achares graça diante do Senhor”.

Isaías, esnobado pelos reis e os sacerdotes de carreira, vocifera que haverá um dia de Iahweh dos Exércitos contra tudo o que é orgulhoso e altivo. Lembrei aqueles caras que ficam lá na Praça da Sé falando aos mendigos, com uma Bíblia na mão, ameaçando o diabo e o mundo, para desdizer a própria insignificância. Maldiz e prevê o caos para atrair audiência. A desgraça, real ou imaginada, dá ibope, faz sucesso.

Jeremias nada mais faz que continuar as maldições de Isaías. É que eles vivem numa era em que o tempo fechou sobre Jerusalém. Nabucodonosor, o rei de pra lá de Bagdá, caiu sobre a cidade e não deixou pedra sobre pedra, principalmente o famoso templo de Salomão.

Não havia como ser otimista debaixo daquele bombardeio. Mas tudo por tua e minha culpa: “ainda que te laves com salitre e aumentes para ti a potassa, a mancha de tua culpa permanecerá diante de mim”, oráculo do senhor Iahweh (Jr 2,22).

Mas sabe o que mais irrita o deus único dos judeus? A rebeldia. A infidelidade. A adoração de outros deuses. Esse deus único não suporta a ousadia, a independência. É um deus que não suporta o individualismo, portanto. Até que…

Até que algum ou muitos gaiatos começaram a questionar: “que que adianta a gente observar direitinho todas as leis de deus se, só por causa de alguns infiéis, que ficam por aí adorando aos ídolos, todos nós nos fodemos?”.

E então Jeremias já começou a se adaptar aos novos tempos: “todo homem que tenha comido uvas verdes terá os dentes embotados” (e só ele terá dor de barriga, deduzo). Isso para reformar o provérbio que corria: “os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados”.

Mas Ezequiel, já lá entre os escravizados na Babilônia, chutou o pau da barraca: “Querem saber? É cada um pra si e Deus pra todos, e salvem-se quem puder”, conforme escreveu lá no seu livro, capítulo 18.

Foi, portanto, simples acabar com o pessimismo. Foi só trocar o socialismo pelo individualismo. E organizar as rezas direitinho. Mas, aos recalcitrantes que continuavam a apontar toda aquela gente justa que morria na miséria, disseram que não se preocupassem, pois seriam os primeiros a serem atendidos lá no Céu.

 

Jeremias, o chato da corte

 

Chatíssimos, os profetas em geral eram sempre do contra, pessimistas, apocalípticos, messiânicos. E não tinham desconfiômetro! Vejam só essa de Jeremias:

Numa das assembleias dos judeus — era assim que chamavam a missa ou o culto lá deles —, no templo (o templo era a igreja ou a sinagoga lá deles), o profeta Jeremias tomou a palavra (sabe aqueles caras da oposição, excelentes oradores, que falam em toda assembleia? O Jeremias!) para...

Jeremias aproveitou seus dois minutos regulamentares, religiosamente cronometrados pelos sacerdotes (os que compunham a mesa diretora da assembleia), para dizer, entre outras coisas, que Iahweh mandara-lhe dizer que faria de Jerusalém maldição para todas as nações da Terra (Jr 26, 6). Falou assim, abertamente, para todo o povo ouvir.

Mas, enquanto estavam reunidos, Nabucodonosor, da Babilônia, estava às portas da cidade com seu terrível exército. E os capa-pretas de todos os poderes constituídos, que também estavam presentes, prenderam-no imediatamente: podia falar o que quisesse na frente do povo, menos as informações estratégicas… podia falar abobrinhas à vontade, mas dizer que o inimigo venceria, porque era muito mais forte, espalhava o desânimo na tropa e o pânico na população.

Claro, desde aquele tempo, nenhum país suporta uma guerra sem censura braba às opiniões e informações reais. Só que Jeremias, quando viu os aspones todos pedirem sua cabeça ao rei, fez até Deus se arrepender, ou melhor, prometeu que Deus poderia se arrepender se o povo da Terra melhorasse seus caminhos e seus atos e escutasse os apelos de Iahweh (Jr 26, 13). Vejam que Jeremias era um procurador tão forte que tinha a liberdade de prometer uma mudança grave de conduta de seu poderoso outorgante.

Diante dessa amplitude de poderes, os burocratas tremeram. Porque se tem uma coisa que burocrata entende é uma procuração bem assentada.

Então, Aicam, filho de Safã, um magnata do petróleo, creio eu, que estava presente (o filho, não o pai, que não perdia tempo com assembleias…), aproveitou o titubeio da mesa para tomar o microfone e resolver a parada: “Deixa comigo, que eu dou um jeito no homem”. Os funcionários deixaram, seu pai era um dos maiores financiadores de campanha… E rapidinho arrastou o profeta bocudo e ingênuo pelos bastidores, enquanto a massa pedia sangue, instigada pelos leões de chácara da direção.

Agora, cá entre nós, tô desconfiando do Jeremias. Vejam essa:

No ano de 587 a.C., o iraco-iraniano Nabucodonosor perdeu o restinho de paciência com os judeus e invadiu Jerusalém para não deixar em pé nem pedras, nem gente sobre elas. Tacou fogo em tudo e levou o que podia, incluindo a mão de obra, para enriquecer ainda mais Bagdá, subúrbio de Babilônia.

Enquanto o pau comia solto, o rei invasor chamou seu comandante da guarda e recomendou-lhe: “Mete o pau, mas não toque em Jeremias!” (Jr 39, 12). Não é para desconfiar? Porque em meio à batalha, Jeremias estava em pleno centro do comando da defesa, no pátio da guarda de Sedecias, o rei judeu, dizendo para quem passasse que Iahweh cumpriria contra a cidade sua palavra de desgraça e não de salvação (Jr 39, 16).

O fato é que, vencidas as tropas judaicas, todo mundo acorrentado para a deportação, Nabuzardã — o tal comandante da guarda — chegou esbaforido a tempo de alcançar Jeremias, já acorrentado e pronto para o embarque. Afoito, arrebatou o chaveiro do guarda e ele mesmo abriu o cadeado que prendia o profeta. E, inclusive, convidou-o para acompanhá-lo à metrópole, e acredito até que lhe ofereceu um cargo, mas Jeremias não aceitou. Disse que preferia ficar por ali mesmo.

Vendo que o profeta estava meio desnorteado, Nabuzardã lhe disse: “Olha, a cidade vai ficar vazia, você poderá escolher o espaço a ocupar, onde mais lhe agradar.  Mas eu sugiro que você se junte a Godolias, filho de Aicam, filho de Safã (Aicam, aquele que salvou Jeremias na Assembleia, lembram?). Não se preocupe, nós fizemos aliança com o conglomerado da família, Nabucodonosor nomeou-o governador das cidades de Judá” (Jr 40, 2-6).

 

Daniel salvou a cabeça dos pilantras

 

Como Daniel é o herói desta conversa, aviso a todos que desconfio de duas coisas desse herói: era eunuco e vegano. Eunuco, porque entrou para o serviço público do rei da Babilônia através de concurso feito por Asfenez, exatamente o chefe dos eunucos do palácio, pois, dentre outros, era requisitado aos candidatos que tivessem boa aparência e fossem sutis, duas coisas difíceis de encontrar em machos completos (Daniel 1, 3-5). E vegano porque, não querendo, por ser judeu, comer as iguarias pagãs nem beber o vinho servidos em palácio, era obrigado a comer ali, enquanto jovem servidor do rei, mas pediu ao chefe para comer em separado. O chefe até concordou, mas temia que a fisionomia abatida de quem não comia a carne nem bebia o vinho oferecidos pelo rei denunciasse a desobediência.

Daniel propôs que ele e os demais judeus, que entraram pelo mesmo concurso, comessem só legumes e bebessem só água durante dez dias e, ao final, comparassem suas fisionomias às dos demais jovens alimentados com a comida comum (Daniel 1, 12). Claro que, para nós, dois mil anos depois, ele conta que, ao final da prova, estava mais bonito do que os demais. É ou não é conversa de vegano?

Mas Daniel — como José, filho de Jacó, muitos séculos antes, no Egito — virou governador da Babilônia graças às suas artes psicanalíticas de interpretar sonhos. Sua ascensão meteórica na burocracia palaciana começou quando interpretou um sonho de Nabucodonosor, agradando muito ao rei e mais ainda à concorrência, como veremos:

Nabucodonosor reuniu no palácio os magos e adivinhos da cidade para que interpretassem um sonho que havia tido. Os adivinhos, cheios de pose, pediram ao rei para contar o sonho e eles diriam o significado. Mas Nabu, esperto, retrucou: “Nada disso! Vocês devem, antes, adivinhar qual foi o meu sonho”.

Claro, os adivinhos não esperavam por essa e ficaram sem palavras, sendo desmascarados. E eu fico pensando que foi genial essa sacada de Nabu. Imagina se toda a pilantragem fosse assim tratada? E naquele tempo a coisa não era brincadeira não, o rei condenou todos os pilantras à morte. Inclusive Daniel, que pertencia à categoria dos magos, adivinhos, caldeus e conexos.

Só que Daniel entrou de gaiato na embrulhada, porque nem presente estava na fatídica sessão. Quando o chefe da guarda foi buscá-lo para a execução, e comunicou-lhe o motivo, disse-lhe: “Péra aí, eu resolvo isso; peça ao rei que suspenda a sentença e me dê um tempo”. O tempo foi dado, Daniel se reuniu com Ananias, Misael e Azarias, colegas judeus do mesmo concurso, discutiram todas as possibilidades e concluíram que Nabucodonosor só podia ter sonhado com uma estátua. Lógico! A maior obsessão de todo rei é uma estátua! Já passava da meia-noite, Daniel falou aos seus companheiros: “Descobrimos o essencial, o resto deixa comigo”.

No outro dia, disse ao chefe da guarda que estava pronto para conversar com o rei. Na presença do rei, foi logo dando uma de sonso: “O mistério que o rei procura desvendar, nem os sábios, nem os adivinhos, nem os magos, nem os astrólogos podem dá-lo a conhecer ao rei. Mas há um Deus no céu que revela os mistérios…” (Dn 2,27). “Eu também sou um pobre coitado, apenas um… profeta! Um mensageiro desse Deus. Tiveste, ó rei, a visão de uma estátua”.

O Nabu ficou estupefato. E não é que era mesmo! E os poucos assessores presentes pensaram na hora: “Puta merda! Como não fomos pensar numa coisa tão óbvia!”. Mas Nabucodonosor era duro na queda e voltou à carga: “E?”. “E era uma estátua enorme, brilhante, composta de vários diferentes materiais para cada parte, sendo que a cabeça era de ouro e representava o seu reino”, respondeu Daniel. Depois dessa, Daniel pôde compor a sua estátua sem maiores preocupações, pois o rei já estava satisfeito. Peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze, pernas de ferro e pés de barro…

Quanto à interpretação, também era muito fácil. Cada uma das partes correspondia a reinos vizinhos que poderiam lhe suceder, sendo essa, depois da estátua, a maior preocupação de todo rei. E, como todas elas eram partes subalternas e de materiais mais mequetrefes do que o fino ouro que envolvia o cérebro daquilo tudo, que era ele próprio, o rei relaxou e nem ouviu quando Daniel completou que uma enorme pedra desgarrada viria rolando a esmo, derrubaria a estátua e passaria por cima dela, triturando tudo, não importando a nobreza do material.

 

Daniel deixou Nabucodonosor louco

 

Nabucodonosor teve outro sonho, mas então ele tinha à disposição, já contratado, o maior interpretador de sonhos da paróquia, justamente seu assessor principal, Daniel. Por isso não perdeu tempo, foi direto a ele e não deu uma de difícil, para alívio da picaretagem toda do ramo, que ainda se lembrava da enrascada em que entrou no episódio da estátua compósita.

No outro dia cedo, antes do expediente, já foi logo contando o sonho ao colega; os psicanalistas já haviam se empoderado, nem os reis folgavam com eles. “Sonhei com uma grande árvore, aí desceu um cara do céu e pôs fogo nela, sobrou só as raízes e o toco”. Daniel era velho de casa, estava à vontade:

“A árvore é o senhor e o cara que desce do céu é o enviado de Deus. O senhor vai levar uma boa chapuletada, mas não se preocupe, seu reino não vai desaparecer” (E Nabu, que já estava pra se levantar do divã para chamar seus generais e decretar a morte do psicanalista, relaxou porque tudo que um velho governante quer ouvir é que vai manter seu governo). É só se converter ao Cristianismo e tudo bem, o toco, ainda ligado às raízes, voltará a brotar.

Um ano depois dessa sessão, numa tarde de domingo, dessas sem futebol na TV, o rei zanzava inquieto pelos labirintos do palácio, chutando tudo que aparecia na sua frente, devido a essa raiva difusa que sentem os poderosos quando confrontados com a própria solidão. Sem expediente, o palácio estava deserto. Ao passar num corredor que servia a obscuros gabinetes, ouviu uma poderosa voz vinda do Além que lhe dizia:

 

“É a ti que se fala, ó rei Nabucodonosor!

A realeza foi tirada de ti;

serás expulso da convivência dos homens

e com as feras do campo será tua morada.

De erva, como os bois, te nutrirás,

e sete tempos passarão sobre ti

até que reconheças

que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens

e ele o dá a quem lhe apraz” (Daniel, 4, 28-29).

 

Claro que Daniel, com a ajuda de Ananias, Misael e Azarias, uns subalternos seus cupinchas, armou a arapuca que já vinha montando desde a sessão em que interpretara o sonho da árvore, instalando caixas de som em locais convenientes...  Mas foi o que bastou para Nabu ficar doido. Saiu correndo e gritando que ouvira a voz de Deus. Pronto! Foi o que bastou para ser grampeado numa camisa de força e trancado no porão, porque o que os sócios do poder mais vigiam é a sanidade mental do chefe.  Em todos os tempos e lugares e regimes, os burocratas imediatos ao chefe são todos racionais: “Viu ou ouviu Deus, tá louco”! E nenhum governo suporta um louco.

Claro, não estou falando da loucura fingida, expediente muito usado para disfarçar mudanças bruscas de orientação, assessoria, fornecedores ou para impressionar a legião de eleitores realmente loucos.

Mas Daniel, como todo bom monoteísta, só queria que Nabu se convertesse. Tenho minhas dúvidas se ele se converteu de verdade, mas ao menos o declarou de própria voz em cadeia de rádio e TV e também em sua página no Twitter, e voltou a se sentar na cadeira presidencial até o final do mandato, numa negociação que os jornais noticiaram como o ato de perder os dedos para ficar com os anéis.

 

Dies Irae

 

O dia da ira está próximo, e não adianta correr ou rezar, porque vai sobrar pra todo mundo. Se bem que não faço a mínima ideia da noção de grandeza dessa proximidade, já que tal anúncio foi feito lá no século VII antes de Cristo. Pois ele destruirá, sim, ele exterminará todos os habitantes da Terra. Ele, Iahweh malvado. Conversa de Sofonias. Tá lá no livro dele, no último versículo do primeiro capítulo. Está próximo o grande dia de Iahweh! Ele está próximo, iminente! Isso é o começo da profecia, o versículo 14. A palavra próximo aparece duas vezes e, insuficiente, é reforçado por um iminente. E dois pontos de exclamação.

Dois mil anos depois (século XIII d.C.), alguém do Vaticano tratou de renovar essa iminência, compondo, em latim, o Dies Irae, cujo canto faz tremer ainda hoje os incréus.

Tudo bem, Deus vai matar todo mundo, inclusive você, que vai à missa todo domingo e reza todo dia antes de dormir, mas… aha! Aí está o pulo do gato! Depois que você for fritado pelo fogo de Iahweh aqui na Terra, você irá para o bem-bom da vida mansa e eterna. Você não, que restará esturricado por aqui, mas sua fama, ops, sua alma. 

Mas só se você fez tudo direitinho aqui na Terra, sequer pensou na mulher do vizinho e nunca, nunca, amassou a namorada em apalpadelas libidinosas no escuro artificial do banco da praça (artificial porque você quebrou a lâmpada…). Tudo bem, você pode ter tido lucro com base no trabalho de 26 semelhantes, lá na sua padaria, mas isso no máximo lhe vai render um estágio no Purgatório, coisa rápida duns 700 anos…

Fico pensando. Como fazer esse povo incréu acreditar em Deus sem deixá-lo com medo? Aliás, isso é mais fácil do que chuchu na serra. Porque coisa mais fácil é amedrontar ignorante. E a nossa ignorância do mundo é incrível. Incrível de admirável, de notória. Assim como é notória nossa incredulidade.

Já percebeu como descremos da humanidade, que é a maior obra de Deus? Já percebeu como trancamos a porta da casa, do carro, como tememos ser assaltados, roubados, atacados? Tenho quase certeza, por experiência própria, de que o populacho só paga o dízimo de medo do fogo eterno. Porque do fogo terreno eles sabem que não escapam, e que está próximo. É o que escutam desde Sofonias, há 2.700 anos.

O padre, e o pastor, e o rabino e o equivalente de Maomé que não usarem desse expediente da iminente desgraça terrena não sustenta seu templo financeiramente. Digo por experiência própria porque era assim que padre Joaquim — que depois casou — trazia-me no cabresto dominical.

Porque, com a preguiça e a gula desse povo cético que somos todos, não tem paulada que resolva. Só mesmo deixando esse povinho no escuro e soltando um fantasma ansioso, para aquietá-lo. Não era assim que nossas piedosas mãezinhas faziam para nos controlar e nos educar? Até eu ainda exorto o bicho papão a descer do telhado, para deixar minha neta sossegada!

Agora, água fria na fervura dos religiosos catastrofistas e anunciadores do fim do mundo: “Eu não amaldiçoarei nunca mais a Terra por causa do homem, porque os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância; nunca mais destruirei todos os viventes, como fiz”. Palavra de Iahweh, conforme Gênesis, capítulo 8, versículo 21.


 

Segunda parte: Novo Testamento

 

 

 


 

Os quatro evangelhos

 

Evangelho segundo São Mateus (Mt)

Evangelho segundo São Marcos (Mc)

Evangelho segundo São Lucas (Lc)

Evangelho segundo São João (Jo)


 

Maria, grávida e solteira

 

Não sou eu que digo, está escrito em minha Bíblia: “Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida...” (Mateus 1,18). Não digo que José ficou puto, diria que ficou brabo, chateado. É que ele podia ser rude, mas não bronco. E já havia extirpado a urgência dos moços e adquirido a sabedoria dos velhos.

Sim, já era velho, enquanto Maria era mocinha nova. Nova e linda, a mais linda do pedaço. José era simples, mas não cego, tinha noção de que era muita areia para sua carriola. Aliás, parece que a velhice dele foi escolhida a dedo. Más línguas espalharam por aí que um comando de anjos desceu do céu especialmente para encontrar um esposo para Maria, já sabendo o que ia acontecer.

Havia uma carrada de impetuosos jovens interessados na moça e também aquele senhor de idade…  É claro que os anjos escolheram o senhor de idade.

Todo mundo sabe que quanto mais jovem a cabeça, mais dolorido o chifre. Quanto mais jovem a cabeça, mais barulhento o escândalo. Além do mais, José era um operário respeitado. Sabiam que depois de tudo passado ele foi homenageado com o patronato dos trabalhadores?

O fato incontornável é que a barriga de Maria começou a crescer. E,  naquele tempo, a Amazônia nem era conhecida e nem havia boto por perto. A moda de anjo engravidar mulher era coisa do passado remoto, ninguém se lembrava mais. E desse tal de Espírito Santo ninguém sequer ouvira falar.

José, apesar de sensato, era um legítimo judeu do sexo masculino, machista que só. Tudo bem, não ia contar pra ninguém, muito menos ao rabino, continuava gostando muito de Maria, que via quase como uma filha, não queria nem pensar em submetê-la ao processo público que fatalmente a lavaria à lapidação, que era a pena de morte por apedrejamento. Uma coisa que José tinha de sobra era compaixão. Mas ele a repudiaria, sem dúvida. Não iria acobertar, com seu nome, um filho de pai ignorado.

Na noite seguinte, um anjo baixou para fazer a cabeça de José. Em sonho, claro, eis que José não tava com essa bola toda de receber o mensageiro acordado. Mas, no sonho, a conversa foi clara: “José, dêxa di sê bêsta! Aquilo foi obra do Espírito Santo, rapá! A moça é uma santa, vai por mim. Além de linda, sabe lavá, passá, cozinhá, costurá… Cê já tá véio, cara! Tá pensando que berimbau é gaita? Desde quando o ouro vem puro, sem areia?”. José acordou meio ressabiado, pensou bem e falou consigo mesmo: “acho que esse anjo tem razão”.

E enfim se casou com Maria numa boa, pagou o ginecologista, acompanhou-a ao postinho nas visitas do pré-natal, contratou a melhor maternidade para o parto (isso de manjedoura também é conversa, segundo Mateus), mas não relou naquela barriga nem em suas imediações enquanto o filho do Espírito Santo estava lá dentro.

 

Os três astrólogos

 

Quem disse que eram três e quem disse que eram reis os astrólogos que quase puseram tudo a perder, com seus diletantismos astronômicos? Magos, talvez, pois viviam da fé popular, a comparar o caminho das estrelas com o caminho dos homens e mulheres. Sim, astrólogos. Astrônomos ainda não havia, Galileu Galilei ainda não havia inventado o telescópio.

E que se chamavam Belchior, Gaspar e Baltazar já é uma sofisticação de minúcias de algum colunista social enfastiado ou necessitado de material para completar seu espaço na revista. Mateus só sabe que um grupo de turistas bateu na porta do rei Herodes, alegremente, perguntando pelo rei dos Judeus, se era ali que havia nascido, pois a estrela os guiara até ali…

Herodes, todo pimpão, diante daqueles abonados turistas do oriente – um grupo heterogêneo, tinha gente da Pérsia, da Babilônia, das Arábias… –, foi logo se apresentando, que era o rei dos Judeus, embora não tivesse nascido nem ontem nem exatamente ali no palácio… Mas os turistas estrangeiros, festivos, procuravam um recém-nascido, de cuja notícia tiveram conhecimento durante o curso de literatura em que leram as escrituras sagradas do povo local, para onde planejavam a viagem no verão seguinte…

A crônica social, a meu ver, registrou, para a posteridade, que eram reis e eram três porque vestiam as melhores roupas da moda, apresentavam-se com muita pompa e pose, e só deram três presentes ao menino Jesus, quando o encontraram: ouro, incenso e mirra.

O fato é que Herodes ficou de orelha em pé, porque o que um rei mais teme é o surgimento do seu sucessor, ainda que bebezinho. E o temor triplica quando esse bebezinho nem é seu filho. Pediu aos turistas para esperarem, foi lá dentro, consultou uns burocratas da Lei, que lhe informaram: “De fato, está previsto, sim, nós estávamos para marcar uma audiência para falar do assunto… deve nascer em Belém da Judeia”.

Herodes correu lá fora, informou aos turistas a vilinha onde o menino deveria nascer, e pediu-lhes que, na volta, passassem de novo no palácio, que ele teria prazer em oferecer-lhes um café da tarde… (Mt 2, 8).

Os magos saíram alegres e ao primeiro que passou perguntaram como chegar a Belém. “Tão vendo aquele morro lá longe, com aquela fogueira queimando? Pois é lá”, informou o passante. Foram. Era uma casa pobre. Pobre, mas limpinha… dessas casas de periferia, onde o povo cria no quintal galinha, porco, carneiro. E o turista relator da viagem se aboletou num cocho no quintal que, depois, no seu relato, chamou de manjedoura e imaginou o bebezinho lá para impressionar melhor os leitores.

Visita feita, obrigação cumprida, iam voltando para dar a notícia a Herodes, quando, numa esquina, um grupo de mal-encarados os abordou, informando-os que se abrissem o bico sobre as quebradas do bairro e qualquer um de seus habitantes, morreriam. Apavorados, bateram direto pro aeroporto, deixando Herodes esperando sentado com seus bolinhos.

Herodes, quando percebeu que os turistas haviam desdenhado do seu convite, ficou uma fera. E, pelo sim, pelo não, mandou matar todo molequinho com menos de dois anos de idade, que esses escribas gostam de repetir as narrativas como grandes novidades, como se todos tivessem esquecido a história de Moisés lá no Egito (Ex 1, 22).

 

Jesus, moleque sabido

 

Quando Jesus era bebezinho, seus pais não tinham parada, moraram no Egito e depois na Síria. José, como carpinteiro autônomo, tinha de ir para onde houvesse serviço. Com o tempo, o casal foi se afirmando economicamente, depois de muito trabalho e muita economia, de tal forma que puderam se estabelecer definitivamente na terra natal quando Jesus ainda era bem pequeno.

Assim, o moleque cresceu em Nazaré, na Galileia, em meio a muitos amigos, nadando no rio, caçando de estilingue, jogando bola e pião e bolinha de gude e chupando manga no pé na época da safra, além de tâmaras, comuns na região. Não lia, porque naquele tempo Gutenberg ainda não havia nascido, não havia livros, só rolos de papiros, que ficavam trancados a sete chaves dentro da igreja.

Cá entre nós, acho eu que Jesus era analfabeto, porque naquele tempo só sacerdote sabia ler, e se tem uma coisa que Jesus não foi nem nunca quis ser é sacerdote. 

Não lia, mas ouvia com muita atenção todas as histórias contadas pelos mais velhos. E naquele tempo isso acontecia quase toda noite, não havia TV nem smartphone. Não só ouvia, como interrogava os contadores de causos, discutia com eles – tios, avós, vizinhos –, queria explicações, detalhes; tanto que granjeou a alcunha de curioso.

“Êta muleque curioso”, diziam os mais velhos. Quando discordava de alguma história ou argumento, ou ordem, encasquetava, negava, teimava, desobedecia. Então tinha fama de curioso e teimoso. E, assim, com essa curiosidade militante, foi crescendo mais sabido do que os outros. Sabido, saudável e forte.

Ia a Jerusalém apenas uma vez por ano, sempre com sua família e a vizinhança, para participar da procissão da sexta-feira santa. Nesse dia era uma festa. Ele se desgarrava dos pais e, numa corriola de amigos, virava o comércio pelo avesso, fazendo traquinagens e comendo paçoquinhas. Quando percebia que a missa, que era rezada após a procissão, havia terminado, procurava os pais para voltar para casa, até porque a essa altura do campeonato o dinheiro contado dado pelo pai para a paçoquinha já havia acabado.   

Quando o menino completou 12 anos, prolongaram a estada na cidade durante a visita anual, ficando até o Domingo de Páscoa, para submetê-lo às formalidades da Lei, uma espécie de alistamento militar da época. Encerradas as solenidades, voltavam para casa.

No meio do caminho, deram pela falta do garoto. É que naquele tempo as famílias eram grandes e o povo andava em caravana, onde ia um, iam todos. Toda viagem era uma muvuca de gente. E nem as crianças e os velhos ficavam, ia todo mundo, até os cachorros.  

Quando foi na hora de distribuir a merenda, cadê o Jesus? Só então deram pela sua falta. Procuraram nas moitas próximas e até nas bruacas e cestos que acompanhavam a comitiva, e nada! Maria começou a ter ataques de desespero com o desaparecimento do filho: “eu quero meu filho! Eu quero meu filho!!”.

Mas realmente não encontraram o menino em parte alguma. E nisso já haviam andado quase o dia inteiro. Claro que todo mundo só viajava a pé, e os poucos jumentos que havia levavam os velhos e doentes, na velocidade do pedestrianismo humano.

Nessa hora a idade avançada e o sangue de barata de José fizeram a diferença: “Vamos voltar a Jerusalém, acho que aquele muleque safado ficou zanzando por lá”, disse José, olhando calmo pra Maria.

Na cidade grande, ficaram três dias procurando. Maria, passada, mantinha-se à base de calmantes. E sabe onde foram encontrar o fulaninho? Na igreja! Óbvio, onde mais poderiam encontrar Jesus?

Estava lá o mocinho, todo pimpão, na maior palestra com todo o Estado-Maior da clericalidade. Conversando de igual para igual com eles, é óbvio. A bispaiada toda admirada com a vivacidade do imberbe. E o imberbe se achando, pensando que era gente…  

Mas Maria, da porta de entrada, quando viu o filho vivíssimo lá no fundo, esqueceu toda promessa de surra e vara verde e correu para ele toda terna: “meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos” (Lucas 2, 48). O menino, provocante no português castiço: “por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar sempre na Igreja?”

O carinha, enfim, meio a contragosto, voltou para casa com os pais, fazer o quê? Criança sofre. Parecia um jovem precoce, mas não é que o tal só foi criar coragem para largar a moleza da casa paterna e cair no mundo aos 30 anos de idade!?

 

Jesus batizado por compadre João

 

João Batizador e Jesus formavam uma dupla afinada. Começa que Isabel e Maria, as respectivas mães, eram muito amigas, talvez até parentes. E tinham praticamente a mesma idade. João foi concebido apenas seis meses antes de Jesus. Se jogassem num time de futebol, João seria o camisa 10 e Jesus o camisa 9, centroavante matador. Ambos bons de bola. E mais: craques.

Mas João começou a trabalhar antes de Jesus. Aliás, não fazia mais do que a obrigação, eis que a função daquele era preparar a jogada para este, deixá-lo com a bola dominada na frente do gol, segundo profetizara Isaías, alguns séculos antes. Grosso modo, João deveria batizar todo mundo antes de o Cristianismo ser inaugurado, para ninguém morrer pagão.

A cerimônia era ao ar livre, nas águas do Rio Jordão, numa coreografia que, de longe, parecia que todos estavam se refrescando num divertido banho de mar. Isso porque a coisa era mais ou menos clandestina, pois as seitas dos fariseus e dos saduceus, que dominavam o templo, não gostavam nem um pouco daquele drible dado por João em suas instâncias eclesiásticas.

Parecia um banho de mar, mas não era mar, era rio. E não qualquer rio: era o Jordão, aquele de Iahweh e de Josué, lembram?

O cidadão chegava, confessava os pecados e se arrependia, rezava como penitência uns 18 salmos e, com roupa e tudo, era empurrado para debaixo d'água por João Batizador, sujeito forte duns 30 anos de idade. A brincadeira era concorrida, até alguns fariseus apareciam para se batizarem, o que deixava João puto: “Raça de víboras!”, sibilava. (Mt 3, 7)

Sabe esses caras que cobram o escanteio e correm para cabecear a bola? Esses caras que estão em todas, e servem a todos os senhores de plantão? Esses caras que, pelo sim, pelo não, pagavam o mico da pajelança popular, vai que esse tal messias cuja vinda estava próxima viesse de verdade e queimasse os ímpios… esses caras inseguros pela ignorância agravada pela burrice? João não negava o batismo, mas pensava: “deixa estar…”

Lá de longe, Jesus observava a festa. Ainda bem que João resolvera trabalhar, já era tempo. Porque o seu trabalho dependia do dele. Ali pelo meio do dia, quando a água já havia quebrado o gelo, Jesus foi-se aproximando da divertida turma do banho de roupa comandada por João. Lá de longe já foi gritando “ei, João, também quero me batizar”.

João, ao ver o amigo, correu ao seu encontro, dizendo: “olá, cara!” e já foi colocando o pé de Jesus sobre os joelhos, agachado, simulando lustrar as chuteiras do craque amigo, para demonstrar respeito e, ao mesmo tempo, deixar claro aos demais que tinha chegado um craque melhor do que ele.

Mas Jesus não achou muita graça. “Levanta, João, não estou brincando, quero me batizar”. João se levantou meio sem graça: “poxa, chefe, quem sou eu para te batizar?! Sendo que nós estamos fazendo isto aqui exatamente por causa da tua chegada! Além do mais, esse mergulho aí que você viu é para limpar os pecados do cabra e você não tem pecado!”.

Então Jesus chegou mais perto de João e abaixou a voz: “cara, deixa estar por enquanto, pois assim nos convém. Eu não recrutei nenhum apóstolo ainda, o movimento praticamente não existe, precisamos manter as aparências” (Mt 3, 15). Aí João entendeu e consentiu e limpou mais aquele pecador nas águas do Jordão. Já tava pela hora do almoço, acho que fizeram uma sardinhada na praia para comemorar.

 

A tentação do Diabo

 

O fato é que, para Jesus, o jogo começou de verdade com seu batismo de mentira. Primeiro foi a pomba que cagou em sua cabeça. Mateus diz apenas que ela voou sobre ele, mas, considerando que a pomba é uma ave cagona, caga ao menos uma vez por metro de voo, é muito provável que Jesus tenha sido sorteado sim.

Depois foi aquela trovoada longa fora de hora, que fez todo mundo sair correndo, com medo dos raios naquele descampado, abandonando as sardinhas com a fome pela metade. O povo já tava entrado na cerveja, teve gente que jura até hoje que ouviu, em meio ao bombardeio, um carro de som anunciar: “este é o meu filho amado, em quem me comprazo”. (Mt 3,17)

Jesus, emocionado pela consciência de que fora dado o pontapé inicial da partida, que não havia mais retorno, saiu sozinho, meio aéreo, e quando viu estava no meio do deserto; ali naquele pedaço não precisa andar muito para estar no meio do deserto. Então, já que estava no meio do deserto, aproveitou para jejuar.

Dizem que ficou por ali uns 40 dias sem comer; o que sei é que quando o Provocador chegou, ele estava com fome, muita fome. “Uai, sô! Por que você não transforma estas pedras em pão, se és Filho de Deus?” Aí Jesus: “rapaiz, não me enche o saco, não só de pão vive o homem”.

O Diabo, então, querendo ajudar, pegou Jesus pela mão e falou: “tá bom, mas você precisa comer, vamos para o centro de Jerusalém, quem sabe a gente encontra um Méquidonaldes lá que te apeteça”. No centrão, subiram até o mirante da torre do Banespa.

Lá em cima o Mui Amigo falou a Jesus: “se você é mesmo o Filho de Deus, pule daqui que um esquadrão de anjos te apara na queda”. Aí Jesus, cansado do jejum e da caminhada falou, assim meio desanimado: “ô meu, me erra, para de me atentar”.

Mas Jesus continuava prostrado, o Demônio começou a ficar preocupado: “Se esse cara morre assim, de bobeira, no anonimato, eu vou acabar perdendo o meu emprego, porque o meu trabalho só tem sentido com o sucesso do trabalho dele”. E continuou conduzindo Jesus pela cidade.

Foram até a torre de TV, o ponto mais alto da região. O Demo segurou Jesus de pé, pelo ombro, e falou: “tá vendo todo esse mundão”, e mostrou o mundão, fazendo com que seus corpos girassem uma volta completa. “Tudo isto te darei, se você se ajoelhar pra mim, aqui, agora”. O Três Caras contava com a sonolência do Filho de Deus para subjugá-lo. De fato, Jesus já tava largado no chão, mais morto do que vivo. Mas quando ouviu aquela conversa de “ajoelhar pra mim”, quase teve um piripaque. Pulou feito uma pipoca e estacou de pé, na frente do Mintiroso: “Seu Amanhecido Safado Filhadaputa, tá pensando que eu sou mais um da tua laia?! Suma da minha frente, antes que eu te quebre na porrada!”. “Vai-te, Satanás!!” (Mt 4, 10). Diante de tamanha ferocidade, o Cujo deu um pinote e escafedeu-se. Então Jesus, admirando o seu mundão, apalpou a barriga e decidiu: “tá na hora de comer, porque saco vazio não para em pé”.

 

Como surgiu o Pai Nosso

 

“E agora vamos rezar a oração que Jesus nos ensinou”. Segundo minha memória auditiva, essa era a frase da missa em que o padre mais caprichava na doçura da voz. Uma voz cálida, compassada, melíflua.

É incrível como esses caras não se cansam de ser solenes. Se solenidade não cansasse, a gente se batizaria várias vezes, se casaria várias vezes (com o mesmo cônjuge, quero dizer), os presidentes tomariam posse várias vezes… Mas pouca gente sabe como surgiu essa história do Pai Nosso ensinado por Jesus.

Jesus estava fazendo a apresentação do seu programa de governo. Ou melhor: do programa de governo do seu Pai. Escolheu para isso o cume de uma montanha, onde só os mais fanáticos chegariam para ouvi-lo, porque para chegar ao cume de qualquer montanha é preciso perseverança (porque não é adequado apresentar o programa de governo diretamente às massas).

Claro que todo político, quando vai apresentar seu programa, o faz recheado de críticas aos concorrentes. E os piores concorrentes de Jesus eram os fariseus.

Sabe esses caras e essas donas que conhecem todas as regras da missa, do terço, do culto, do calendário religioso? Que rezam adoidado quando levantam, quando deitam, quando comem, quando viajam? Que rezam rápido, porque conhecem todas as orações de frente, de lado e de trás pra frente? Pois então, são os fariseus. Que Jesus, naquela ocasião — acho que para não reforçar o nome do adversário — chamou de hipócritas (Mt 6, 5) e gentios: “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes” (Mt 6, 7).

“Então, rezem com palavras próprias, simples, poucas, peçam coisas básicas, sempre lembrando, é claro, de reafirmar o voto nEle, pedir pão, perdão e abaixar a crista. Se tem uma coisa que Meu Pai não suporta é arrogância, vaidade, e ousadia e independência para, eventualmente, mudar de candidato. Por exemplo, façam assim (vejam bem, é só um exemplo, não vão decorar isso pelamordedeus e ficar repetindo ad aeternum, porque aí será trocar seis por meia dúzia e replicar o farisaísmo que tanto me combate): ‘Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu Nome...’”.

E a prova de que fizeram exatamente como ele não queria é que até você, ó cética leitora, dois mil anos passados, repete de cor as tais palavras sugeridas por Jesus rapidamente naquele discurso inaugural, a título de exemplo. Tudo bem, talvez você possa apresentar a atenuante de ter ensaiado alguma oração de própria lavra…

 

Discurso inaugural de campanha 

 

Dois mil anos atrás, discurso se chamava sermão. E os apaniguados já eram fiéis discípulos. Mas olhem só como Jesus foi certeiro: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 3). A pré-condição de sucesso para todo líder é conhecer o seu público. E essa primeira frase do primeiro discurso de Jesus explica seu sucesso posterior.

Felizes os mansos, os aflitos, os puros… vocês serão a mão de obra da terra, pau pra toda obra, burros de carga. Mas não se preocupem, porque será grande a vossa recompensa… nos céus!

Claro que a patuleia não esperou o complemento da frase. Enfim, seriam recompensados e ponto final. Havia uns mais radicais pedindo constituinte já. Jesus disse (o que comprova que era um reformista e não um revolucionário): “Gente, a Lei é boa! Só precisa ser cumprida” (Mt 5, 17). Os mais exaltados se entreolharam até que um gaiato falou um pouco mais alto: “I num é qui é mémo!” Pronto, aí Jesus soltou os cachorros: “Não basta só não matar; porque chamar seu irmão de cretino também é uma espécie de assassinato. Se encolerizar contra um amigo ou um vizinho, chamá-lo de fiadaputa, renegado, é tão grave quanto matá-lo”.

Essa história de adultério. Cêis tão pensando que adultério é só quando chegam às vias de fato com a mulher alheia? Não senhores! “Todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério” (Mt 5, 28).

“Mas mestre!? O olhar não tem cerca e o desejo não tem dono!”.

“Ora, se virem! Se não conseguirem segurar, furem os olhos. É melhor ser cego do que adúltero”. Outra coisa, cuidado com as mulheres divorciadas, que quem se mete com elas também comete adultério (tudo bem… mil perdões às mulheres, mas está lá escrito, no versículo 32 do capítulo 5 do livro do Mateus no Novo Testamento da Bíblia cristã).

Procurei atentamente, li de novo, mas não encontrei nada correspondente para o sexo feminino, tipo toda aquela que olha para um homem com desejo libidinoso já cometeu adultério, portanto vejam vocês, mulheres, que o machismo judaico-cristão tem suas vantagens…

Não vou me alongar nessa, mas Jesus disse que esse costume de jurar por deus para afirmar a verdade é coisa de gente boba, não deve ser feita nunca. “Basta a sua palavra” (Mt 5, 33-37).

E esse negócio de olho por olho, dente por dente é coisa de gente primária. Se um truculento lhe bate na cara, dê-lhe a outra face (e anote na cadernetinha, para dar o troco da forma adequada na hora oportuna).

Também essa coisa de amar o amigo e odiar o inimigo é fisiologismo, além de redundante. O certo é aplicar a lei aos próximos e aos distantes, igualmente, e dar as mesmas oportunidades aos pretos e brancos, e mulheres e homens.

E o costume de ajudar alguém e sair contando pra todo mundo é sacanagem: ajudar sim, mas sem estardalhaço. Porque esse negócio de fazer caridade e deixar alguém ficar sabendo é coisa de gente hipócrita (Mt 6, 2).

Da mesma forma, a religiosidade aparente. Sabe esses caras que dizem acreditar em deus e batem no peito, trombeteando a própria fé? Hipócritas! (Mt 6,5). Da mesma forma esses caras que fazem sacrifícios carregando cruzes, jejuando, com cara de vítimas: Hipócritas! (Mt 6, 16).

Gostei dessa: “Não ajunteis para vós tesouros na terra...” porque os bens materiais as traças e os carunchos corroem e os ladrões arrombam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, que lá ninguém mexe e aí entendi que, para Jesus, céu é a saúde, e o intelecto, e a reputação, e o conhecimento, e a solidariedade, e o bem-comum, que levam à paz.

Ou você serve a Deus ou ao Dinheiro. Daí que o Dinheiro é o capeta da desigualdade e do individualismo. Se você quer enricar, saiba que ninguém pode servir a dois senhores: ou você escolhe enricar ou escolhe a comunhão com a vizinhança.

Então Jesus disse que você não precisa se preocupar com o dia de amanhã. Eu ponho um reparo: tudo bem, nada de paranoia, porque as coisas costumam se arranjar, mas vigiai e orai, porque desconfiômetro e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

Outra coisa: com a medida com que medis sereis medidos. Nada de sentar sobre o próprio rabo e ficar caçoando do rabo alheio. E não atireis vossas pérolas aos porcos, evidente! Quem desperdiça, passa fome. E se você estiver com fome e não tiver nada para comer, peça. Não tenha vergonha de pedir.

E siga a regra de ouro da empatia: não faça a ninguém aquilo que não quer que façam a ti. Reforçando: trate todo mundo do jeito que gostaria de ser tratado. Essa é a regra de ouro: na rua, na chuva ou na fazenda…

Mas se alguém lhe propuser um negócio da China, desconfie. Um bilhete premiado, um rendimento estupendo, uma boa pirâmide financeira… Quando o milagre é muito grande, desconfie do santo, porque “largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição” (Mt 7, 13).

O mundo tá cheio de falsos profetas, lobos em pele de cordeiro. Pelos seus frutos os reconhecereis: o cara pede donativos e dízimos para ajudar os pobres e necessitados, mas mora no Leblon e vai a Paris todo verão? Desconfie. (Taí uma boa contradição da nossa classe média progressista).

Enfim, os falsos discípulos. Sabe esses caras que chegam mais perto, atropelando, afoitos, quando o candidato ganha a eleição, se dizendo correligionários desde criancinha? Fisiológicos! Oportunistas! Carreiristas!

Depois dessa, a multidão ficou extasiada. Foi um tremendo sucesso o discurso inaugural de Jesus, o famoso Sermão da Montanha. Uma carrada de gente saiu daí entusiasmada, praticando uma militância ferrenha pela vida afora e o resultado foi que o partido cresceu. Cresceu, assumiu o poder e se degenerou…

 

Pedra sobre pedra

 

Jesus mora em Itaquaquecetuba e é pedreiro. Pedreiro não, servente de pedreiro. Isso quer dizer que ele trabalha para um pedreiro, que trabalha para um empreiteiro, que trabalha para um engenheiro, que trabalha para uma imobiliária, que constrói ou reforma casas.

Jesus não coloca tijolo sobre tijolo, mas assiste à colocação de tijolo sobre tijolo, prepara a massa que liga os tijolos. Foi por isso que ele saiu com aquela de que não restaria tijolo sobre tijolo, quando foi barrado na entrada daquele shopping novo da Avenida Paulista.

Fazia uns 33 anos que Jesus havia nascido na periferia de Itaquá quando endoideceu na Paulista. Tudo bem que lá onde nasceu é outro município, mas pode-se considerar prolongamento da zona leste da capital. Então, pode-se dizer que São Paulo é a cidade natal do Jesus. No entanto, era a primeira vez que ia à Avenida Paulista. Era um domingo, estava a passeio. Acho que ganhou a passagem numa rifa da igreja… Levantou muito cedo, pegou o ônibus, depois o trem, depois outro trem, depois o metrô, depois outro metrô, depois outro metrô.

Na calçada, em frente ao shopping, almoçou o pão com ovo que trouxera na mochila. Acho que foi por isso que o segurança invocou com ele. Além de preto e pobre, era periférico e porco, comendo sem guardanapo, lambendo os dedos, limpando os beiços com a costa da mão. Turista sim, mas farofeiro... O chefe gostaria de saber que ele, o segurança, tivera a iniciativa de barrar aquele não-consumidor.

Jesus não conseguiu metabolizar a afronta. Não havia aberto a boca desde que saíra de casa, acuado pelo vocabulário estranho da multidão calada. Então explodiu em impropérios desconexos e tudo que os passantes atônitos entendiam, da sua espumante e copiosa fala, era essa do tijolo, de que não restaria tijolo sobre tijolo, mal sabendo ele, coitado, de que ali a estrutura era só cimento, pedra e aço.

Mas no palácio da FIESP, ali pertinho, ele acertou. Vendo um estufado, e insolente e enorme pato todo garboso passeando na calçada, não teve dúvidas: sacou de sua faquinha de fatiar salame e esfaqueou a patológica ave. No mesmo instante, ela embrulhou impotente no chão a seus pés, sem nenhuma arrogância.

Enquanto se debatia entre as garras dos seguranças do palácio, antes de ser levado lá para dentro — agora sim, não só podia entrar, mas era levado —, Jesus ainda teve tempo de falar para todo passante que queria ouvir: “estão vendo este templo? Em verdade vos digo: amontoará no chão como este pato; não ficará aqui pedra sobre pedra: tudo será destruído”, Mateus capítulo vinte e quatro, versículo dois.

Tudo bem, viajei aí nesse Jesus de Itaquaquecetuba. Mas a cena do Jesus original foi assim: ele teve um arranca-rabo com uns sacerdotes, uma discussão acalorada, enquanto distribuía panfletos numa esquina perto da estação do metrô que se chamava, exatamente, Templo de Salomão, pela proximidade com o Templo. Acusavam Jesus de querer ser mais realista do que o rei, de ser ignorante quanto à Lei e, ainda assim, querer subvertê-la. Aí, acabaram-se os panfletos, ele e os apóstolos estavam indo embora; quando passavam numa praça ampla, André exclamou admirado: “olhem!”. Era o templo reformado, enorme, majestoso.

Então Pedro, Tiago, todos eles, pararam para admirar a faraônica, ops, salomônica obra. E, ao mesmo tempo, cutucavam Jesus: “olhe, mestre, que grandioso!”. Jesus só olhou assim, meio de esguelha, e tascou: “grande merda, não vai ficar pedra sobre pedra dessa porcaria”. De fato, trinta anos depois um general romano bombardeou o templo e passou com os tanques por cima. Só deixou uma pequena parte do muro em pé, para os fariseus se lamentarem para todo o sempre. 

 

O perdão vai e volta

 

O perdão não vem se não for. E vice-versa. Perdoar é um caso sério, para ambas as partes. Para que haja perdão, é preciso que haja ao menos duas partes. Sendo mais claro, o perdoador não é nada sem o perdoado.

A gente às vezes pensa que quem pede perdão depende da boa vontade de quem perdoa. Mas a recíproca é verdadeira: quem perdoa depende da boa vontade de quem pede perdão. E essa transação de mão dupla tem o poder de purificar quem tomou parte dela, seja de que lado for.

Isso de perdoar e ser perdoado é uma das ideias do famoso Pai Nosso de Jesus. Como se sabe, está escrito em Mateus 6, 9-13 e os padres nos lembram em todas as missas que se trata da oração que Jesus nos ensinou.

Mas Jesus estava nos ensinando a rezar, não a decorar um texto e muito menos repeti-lo ad aeternum, mas sobre isso já falei em alguma página aí atrás (sim, Jesus era daqueles caras que achavam mais importante entender do que decorar…).

Eu acho que foi com essa conversa de pregar perdão de dívidas e devedores que Jesus impossibilitou qualquer perdão da parte dos fariseus: “perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12).

Jesus veio com uma conversa muito perigosa para os banqueiros e comerciantes de Jerusalém, que poderia inviabilizar todo o sistema de crédito do país e, pior, mandar todos os credores para o Inferno.

Olha o que Jesus emendou, logo após aquela ideia-força do Pai Nosso: “Pois, se perdoardes aos homens os seus delitos, também vosso Pai Celeste vos perdoará; mas se não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará vossos delitos” (Mt 6, 14-15).

Então é o seguinte: você, banqueiro ou comerciante, pode executar e azarar a vida daquele seu cliente caloteiro, despejá-lo, sujar seu nome, tomar-lhe o bem, o diabo, mas com isso perde qualquer direito de perdão divino. Ah! Você não erra, você é honesto, você observa rigorosamente as regras, as leis e, principalmente, paga todas suas dívidas!

Bem, se você conseguir caminhar a vida inteira sem pisar fora do trilho ao menos uma vez, tudo bem. Não sendo de carne e osso, humano, quem sabe você consegue…  Agora, cá entre nós, se você conseguir essa improvável vitória, na hora do vamovê será reprovado por antipatia. “Ah! Mas além de honesto, sou simpático”. Não, para entrar no Paraíso, não basta ser honesto e simpático. É preciso também ser empático.

(Péra aí, no meu Pai Nosso não há as palavras Dívida e Devedores. Há “ofensas” e “ofendidos”. Verdade. Digamos que com o advento do crediário e da Tabela Price e do SPC Serasa, foram necessários alguns ajustes… ajustes estes operados no Brasil em 1970, com as resoluções do Concílio Vaticano II. Sim, me lembro bem. No Pai Nosso que minha mãe me ensinou era “dívidas” e “devedores”).

 

O diabo no porco

 

Jesus caminhava por uma estradinha, ladeando a praia.  Ao longe, a cidade de Gadara, onde pretendia fazer campanha. À medida que ia chegando perto da cidade, ia aumentando o lixo na beira do caminho, havia até geladeira e colchão de molas abandonados, pra não falar das garrafas pet e sacolas plásticas e mais um estabano de lixo da indústria do consumismo.

Até Jesus, com sua infinita paciência, já quase a perdeu toda, quando viu, em meio ao lixo, um porco enorme, morto de três dias, com o ventre estufado prestes a explodir.

Além do lixo, havia, nessa periferia, muitos desocupados perambulando, alguns adolescentes em bicicletas velhas. De vez em quando, passava um carro barulhento e caindo aos pedaços. Alguns jumentos pastavam o capim da via pública e havia muitos porcos soltos. Era uma região de criadores de porcos.

De repente, apareceram-lhe dois inconsequentes a lhe provocar. Jesus estava acostumado com esse tipo de gente, e tentou ignorá-los, mas eles insistiram, cada vez mais agressivos: “Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” (Mt 8, 29).

Jesus se tocou na hora que se tratava do Satanás e acho que foi aí que forjou aquele bordão que faz sucesso ainda hoje, nos comícios dos anacrônicos, apesar do surgimento da psiquiatria, do desenvolvimento da psicologia, da psicanálise, da clozapina, do citalopram, que é o “Sai, Satanás!”.

Claro que poderiam ser dois simples drogados ou arruaceiros, como é o normal, mas aquela conversa “Filho de Deus” e “nos atormentar antes do tempo” foi reveladora.

Jesus ainda não havia se revelado, somente o Satanás, seu velho conhecido, sabia que aquele forasteiro era um dos integrantes da santíssima trindade. E sabia também que ainda não chegara a hora da sua expulsão definitiva do mundo, eis que isso só ocorreria no Juízo Final, daí ter reclamado da vinda antes do tempo.

Mas, vendo que era Jesus em carne e osso que estava em sua frente e conhecendo a fera, foi logo se rendendo: “tá bom, se quer me expulsar, que me mande para aquela manada de porcos, e apontou uma manada que passava ao longe”. Aí Jesus falou: "tá bom, você pediu, pode ir”.

Acontece que o Mintiroso assumia, aí, a forma coletiva e tinha o nome de Legião (Mc 5,9). Foi por isso que a manada inteira de porcos foi possuída e, doida, se atirou no mar próximo e morreu afogada. Claro que tudo isso gerou muito ruído, porque o Capeta é bicho escandaloso.

A população da cidade acorreu em peso, mas quando viu aquelas toneladas de porcos se perdendo no mar, aqueles criadores — de porcos, de doidos, e de porcos doidos —, ficaram possessos com o prejuízo e pediram que Jesus se retirasse do seu território, senão iriam à falência.

 

Jesus e a família

 

Sabe aquela conversa da Tradição, que diz que a Família é o esteio da Propriedade? Acho que está certa, mas não tem nada a ver com Jesus, a julgar pelo jeito que ele tratava sua própria família. Ou a julgar pelas recomendações que eventualmente fazia a respeito.

Certa feita, um de seus discípulos pediu-lhe uma licença para ir enterrar seu pai. Sabe o que Jesus respondeu? “Deixa pra lá, cara, algum parente inútil cuida disso” (Lc 9, 60). Segue-me, que nós temos coisas mais importantes e urgentes a fazer. Outro queria se despedir da família: “nem pensar, pra frente é que se anda”, vam'bora! (Lc 9, 62).

Falando a respeito de quando a revolução estourasse, Jesus, em instrução aos seus discípulos, disse: “não adianta, gente, o jeito é tomar cuidado, porque o populacho é traíra”. Quando a jiripoca piar, “o irmão entregará o irmão à morte e o pai entregará o filho. Os filhos se levantarão contra os pais e os farão morrer” (Mt 10, 21).

Na hora do aperto, nego pisa no pescoço da própria mãe… Eu não sei se ele havia assistido recentemente ao Parente é Serpente, do Mario Monicelli, para estar tão pessimista assim.

A respeito da família, Jesus não dava moleza aos seus discípulos: “aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim”. “E aquele que ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10, 37). Mas, justiça seja feita: esse mesmo rigor ele empregava a si próprio.

Certa feita, durante um comício, enquanto estava lá em cima do palanque, sua mãe e seus irmãos chegaram e mandaram um assessor avisá-lo de que queriam falar com ele. O assessor cochichou em seu ouvido: “sua mãe e seus irmãos estão aí, querem falar com você”. Aí ele, puto (ou você não ficava puto quando alguém da sua família ia lá no campinho com algum recado, durante a pelada?). Aí ele, puto: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” (e vejam que a mãe dele não era qualquer uma, era a Virgem Maria!). E, apontando para os correligionários em volta, respondeu: “aqui estão minha mãe e meus irmãos!” (Mt 12, 46-50). E deve ter mandado o assessor despachar a mãe e os irmãos, dizendo que estava ocupado, que esperassem em casa.

Não, Jesus não era grosseiro nem insensível não. Apenas tinha a clareza política e social de dar mais importância ao público do que ao privado. Se isso é novidade e inaceitável no seio familiar ainda hoje, imagina naquele tempo!

 

De pombas e serpentes

 

Olha só como Jesus era esperto. Passou mais tempo instruindo seus apóstolos do que perdendo tempo diretamente com o populacho. Assim como todo grande capitalista, que não se mistura ali com os executivos da diretoria, mas fica lá longe, no sossego e no controle do conselho de administração.

Jesus controlava e treinava; não fazia, ensinava a fazer. Por exemplo — ensinava ele —, “quando chegarem numa cidade, não vão se hospedar na casa de um João ninguém. Procurem alguém influente. Mas se ninguém quiser recebê-los nessa cidade, não percam tempo com ela, vão na próxima”. Porém, “antes de deixarem a cidade hostil, sacudam bem as roupas, batam os pés, que nem o pó desse povo vale a pena levar” (Lc 10, 10-12).

E não percam tempo em maldizer e rogar praga, porque deus tá vendo. Sabe aquilo que deus fez com Sodoma e Gomorra? Vai ser pior. Se não possuírem essa grandeza de manter o silêncio no desaforo, sibilem, no máximo, esse deus tá vendo, que eles vão entender.

Aí, diante desse rigor prometido, superior ao dirigido à putaria de Sodoma e Gomorra, que Mateus garante lá no versículo 15 do capítulo 10, fico pensando que, para Deus, a falta de hospitalidade é mais grave do que a falta de compostura. Uma certa libidinagem até passa, mas tratar mal uma visita é intolerável.

Enfim, caros treinandos, a vida é dura. Mando minhas ovelhas tratar com lobos. Mas, para o sucesso da empreitada, é assim que tem de ser. Aquela história de olho por olho, dente por dente do meu pai, já vimos que não deu certo. Olha aí as víboras que foram criadas. Aquele belicismo do meu pai, os exércitos de Iahweh, aquelas legiões de anjos guerreiros que desciam dos céus cuspindo fogo, já vimos que não funcionam, ainda mais contra esses generais modernos dessas legiões romanas.

A gente tem de pegar esses caras no contrapé. Desarmá-los com nossa pele de cordeiro e estapeá-los com luvas de pelica. Endurecer, mas sem perder a ternura.

Não dá para falar grosso diante dos tanques, mas nunca desistam de imobilizá-los. Sorrateiramente, desapertem um parafuso da sua esteira, depois outro… Vocês precisam ser sacanas e inocentes ao mesmo tempo. Usem a criatividade. Sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas (Mt 10,16).

 

João ciumento e a concorrência

 

João chegou da rua esbaforido e foi logo contando: “mestre, tinha um cara que a gente não conhece distribuindo nosso panfleto na porta do metrô. Tomamos o pacote dele e o botamos pra correr”. Jesus então, surpreso, respondeu: “mas João, deixasse ele lá fazendo o proselitismo em nosso nome; quem não é contra nós, é por nós” (Mc 9, 40).

“Se ele estivesse promovendo o candidato adversário, ou até mesmo fazendo propaganda das Casas Bahia em plena véspera da eleição, aí ele estaria contra mim ou, nesse último caso, sendo dispersivo; o que, para nossa causa, é tão nocivo quanto apoiar o adversário, porque quem não está a meu favor está contra mim, e quem não ajunta comigo, dispersa (Lc 11, 23) e então teríamos de ser intransigentes”.

“Mas se alguém quiser fazer milagres em meu nome, expulsar demônios em meu nome, tudo bem. No nosso negócio, é mais importante a fama do que o produto. Aliás, estou até pensando em criar uma franquia, o cara usa nossa tecnologia, recolhe o dízimo e nos repassa um percentual, o que que cêis acham?”

Ninguém fica rico trabalhando sozinho, fazendo ele mesmo as coisas. Tampouco alguém fica rico sendo condescendente o tempo todo. Ou intransigente. O sujeito de sucesso é aquele que sabe a hora de morder e a hora de assoprar (não encontrei esse versículo na Bíblia, mas acho que foi por sacanagem dos tradutores…).

Gente, pelamordedeus, se manquem! Não estão vendo aí que o segredo de ajuntar dinheiro é colocar gente para trabalhar para a gente? Contudo, há um detalhe que vou revelar aqui para vocês: um empresário de verdade, bem-sucedido, é aquele que tem gente desconhecida trabalhando para ele. Porque gente conhecida tem filho para levar à escola, fica doente, pega ônibus, tem de pagar aluguel; gente desconhecida não tem nada disso, é número, insumo, mão de obra. Entenderam?

Se os apóstolos entenderam, não sei, mas se mantiveram entusiasmados, o que resolve tudo.

 

Os burocratas do templo

 

No tempo de Jesus, para os judeus, o Templo de Jerusalém era uma espécie de Congresso Nacional misturado com o Supremo Tribunal Federal. Daí vocês imaginem a quantidade de burocrata bem remunerado e pouco ocupado que havia lá dentro. E, claro, zelosos de suas prerrogativas.

Por isso, quando ficaram sabendo que havia um cidadão que conversava com deus diretamente, nas praças, nas portas do Templo, por fora das instâncias eclesiásticas e sem qualquer ritual, e de graça, sem exigir nenhum carneiro ou rolinha que seja, ficaram de orelha em pé.

E, pior, com maior eficiência: enquanto os custosos e escolados escribas e sacerdotes levavam o dia inteiro ou até a quaresma inteira para expulsar um pacato demoninho do corpo de um freguês, esse cidadão, chamado Jesus, deixava o freguês limpo e lúcido num estalar de dedos, ainda que fosse sábado.

Os burocratas não trabalhavam no sábado de jeito nenhum (no que eu acho que estavam certos), mas Jesus que, além de diletante, era trabalhador informal, trabalhava sábado, domingo, feriado. Coitado do Jesus, uma coisa que ele nunca teve na vida foi carteira assinada, eis que pertencia à maioria do populacho.

Nunca bateu um cartão ou assinou um livro de ponto na vida. Mas, em compensação, trabalhava por gosto, daí por que não se desgastava tanto. Só se desgastava quando aparecia a guarda do Templo enchendo o saco: “Pô, cara, você fica aí em nossas portas fazendo concorrência desleal com a gente! Os homi lá de cima tão querendo falá com você, vamo lá pra dentro”.

Aí Jesus entrou para falar com a chefia da casa. Todo mundo de paletó e gravata, só ele de chinelo de dedo, bermuda e camiseta. Todo mundo cheiroso, barba escanhoada, alguns de bigode, ele com uma barba de nazareu abandonado. Sozinho e mal pago contra uma equipe de doutores da lei. Mas Jesus, nem aí: “quê que cêis querem comigo?” (também, com um sistema aéreo celestial dando cobertura!, até eu fico insolente).

Aí os doutores: “cidadão, fizemos um levantamento, sabemos que você não estudou em nenhuma das nossas universidades, não tem registro em nenhum conselho profissional, com que autoridade fazes estas coisas?” (Mc 11, 28). “Onde foi que você aprendeu a profissão?”

Tranquilo, Jesus se lembrou de seu compadre João Batizador, de quem corria um buchicho de que se tratava da reencarnação de Elias, ídolo dos escribas que lhe questionavam. Ele sabia que por aí era fácil embananar a burocracia incompetente e arrogante. E respondeu à pergunta com outra pergunta: “o batismo de João era do Céu ou dos homens?”

Os engravatados perceberam a areia movediça, a sinuca de bico. Não poderiam dizer “do Céu”, porque eles mesmos haviam condenado João por heresia; não poderiam dizer “dos homens”, porque ficariam mal nas pesquisas junto à opinião pública, que acreditava em peso que João era profeta de verdade.

Mas todo poder autoritário silencia, quando não convém falar. Dessa forma, disseram que não iriam responder. Então Jesus, insolente, retrucou: “nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas”. (Isso foi o que anotou Marcos, no último verso do capítulo 11. Eu, a julgar pela ousadia, insolência, ironia e informalismo de Jesus, acho que ele respondeu curto e grosso: “esse conhecimento me caiu do céu”).

 

Parábolas, bolas!

 

Não sei se ainda é assim, mas no meu tempo, em que as palavras “dívidas” e “devedores” ainda não haviam sido substituídas por “ofensas” e “ofendidos”, no Pai Nosso, o padre lia ou pedia para alguém ler uma das famosas e manjadíssimas parábolas de Jesus, sempre curtinhas, Jesus era craque da síntese.

Aliás, não resisto ao devaneio: Jesus é sintético, fariseu é prolixo; Jesus é pá pum; fariseu é falastrão enrolador; Jesus é direto, fariseu é finório. Como ia dizendo, alguém lia, em trinta segundos, a parábola, e o padre fariseu ficava meia hora explicando em seu sermão.

À multidão, de cima do palanque, Jesus só falava em parábolas. Após um longo comício de várias parábolas, uma encadeada na outra, seus assessores não resistiram e perguntaram: “mestre, por que lhes falas em parábolas?” (Mt 13, 10). Jesus respondeu:

“Se eu falar normalmente, esse povão não vai entender nada mesmo. Pior, vai embora e me deixa aqui falando sozinho, porque é chato. Então falo em parábolas, que eles também não entendem, mas gostam da historinha”.

Os assessores ficaram putos, porque perceberam que a coisa funcionava assim também com eles. E mais putos ainda ficaram quando Jesus, dando uma de desentendido, rebateu:

“Mas felizes os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem” (Mt 13, 16). Vocês não fugiram da aula de literatura nem de linguística, entendem a linguagem figurada, sabem ler nas entrelinhas. O povão lá embaixo não sabe ler nem a linha propriamente dita. Vocês entendem, o povão sente. Uma bela historinha toca o coração do povão; não é o caso de vocês, que exigem toque no cérebro.

Estão vendo o povão embasbacado, lá embaixo? Eles ouvem, mas não entendem; enxergam, mas não veem (Mt 13, 13). E digo mais: é melhor deixar que assim seja, porque o dia em que esse povão ver o que lhe vai pela fuça e entender o que lhe embota o cérebro, nóis tamos lascados. Não sobra um aqui para nos ouvir, vai todo mundo virar fariseu e cuidar da própria vida.

Conhecem aquela conversa da meritocracia? Só funciona enquanto poucos a conhecem, como vocês.

Aí foi que o apostolado perdeu as estribeiras de vez. “Mestre, pelamordedeus, não brinca. Nós também não entendemos porra nenhuma das suas historinhas engraçadas”. Jesus, sonso, pediu: “qual delas vocês querem que eu explique? Qual delas!?”. “Ora, todas! A do joio, a do fermento, a da rede, a do tesouro e da pérola, a do grão de mostarda, a do semeador…”

E acho que foi aí que começou esse costume de um sermão de meia hora para explicar um causo de 30 segundos. Porque Jesus, só de sacanagem, destampou a falar e a explicar até anoitecer. Lá pelas tantas, um assessor estrilou. Jesus então redobrou a carga:

“Eu sei, você quer metáfora fácil, de futebol, né? Pois fique sabendo que, para trabalhar comigo não pode ser simplório. Comigo, o cara tem de ser bom entendedor. Se queres o prato feito e mastigado, corre lá pra baixo. Mas aguenta as consequências, o tratamento destinado ao gado”.

E um adendo final, mas não menos importante, nesse assunto de parábolas. Jesus devia também ser um grande piadista. Todo comunicador que usa fábulas e parábolas e metáforas, para se comunicar, usa também piadas.

Tudo bem, não consta nenhuma piada nos evangelhos, mas isso se deve, certamente, a que, uns 50 anos após a morte de Jesus, quando os 12 da época, sucessores dos sucessores dos apóstolos originais, reuniram-se para discutir a narrativa unificada da nova religião, consideraram então que não pegava bem para um membro da Santíssima Trindade ser humorista. Ainda mais sabendo que a maioria dos potenciais seguidores era mal-humorada. 

 

O profeta em casa

 

Vocês devem se lembrar das peripécias do Jesus menino. Parecia precoce, mas, quando chegou a hora de arrumar emprego, ficou enrolando pra sair da casa dos pais e só foi se mancar com 30 anos de idade. Mas aí já era muito velho para começar de baixo, ganhando o piso, por isso virou sindicalista combativo (ou coisa que o valha). Mas logo percebeu que sindicato era engrenagem do sistema e partiu para a política.

Porém, muito mais sagaz do que a maioria, sacou que, se entrasse no jogo normal da política partidária oficial, seria engolido pelo monstro. Por isso, fundou um partido, sim, mas nunca concorreu ou permitiu que algum correligionário concorresse a qualquer cargo no Templo. Não ficou perdendo tempo com aluguel de sede, tribunal eleitoral, legislação pertinente, prestação de contas.

Montou uma estrutura enxuta e informal de 12 membros e botou pra quebrar. Em três anos, pôs o farisaísmo de joelhos e negociou diretamente com o centro do império, libertando-se do mundinho da limitada terra prometida de Moisés para todo o mundo ocidental, da Turquia ao Havaí, da Rússia à Etiópia.

Nesse interregno, já poderoso, logo após o congresso que escolheu os doze, tirou uns dias para descansar junto à família, em Cafarnaum, na Galileia. Porém, vazou a informação de que o cara estava ali e a multidão se apinhou na porta da casa de Maria e José e seus irmãos. Foi uma muvuca danada, a família não tinha sossego nem para comer, nem para dormir.

E Jesus, como todo político bem-sucedido, gostava da muvuca. Ia lá fora conversar com a turba, aproveitava para expulsar alguns demônios, eventualmente devolvia a visão a algum cego, fazia algum paralítico andar, só para não perder o costume e pelo gosto mesmo do cheiro de povo.

Aí, acho que Tiago e Judas (irmãos de Jesus), chegando do trabalho, cansados, e vendo aquela bagunça, com o irmão lá no meio, como se nada estivesse acontecendo, pensaram: “Enlouqueceu!” (Mc 3, 21).  Jesus percebeu que o espaço privado da família era inadequado a qualquer movimentação pública e transferiu a pajelança para a sinagoga.

Na sinagoga, muito mais espaçosa, muito mais segura, com aqueles tocos de concreto na calçada para proteger do ataque até de tanques, Jesus expandiu o discurso. Discorria brilhantemente sobre todos os assuntos, atendia com presteza a todo mundo, tudo com uma fineza de gestos digna do mais ilustrado escriba.

A população, maravilhada, perguntava:  “Mas esse aí não é aquele moleque filho do carpinteiro!? Onde foi que aprendeu essas coisas?  A sua mãe não é a Maria, ele não é irmão do Tiago, do José, do Simão e do Judas? (Mt 13, 55). E as suas irmãs não vivem todas entre nós? Donde então lhe vêm todas essas coisas?” E não acreditavam, e se escandalizavam.

Foi então que Jesus chegou à seguinte conclusão: santo de casa não faz milagre. Quer dizer, até faz, mas ninguém vê. Se vê, não acredita. Se acredita, não espalha.

Uns dizem que o que realmente ele falou foi que ninguém é profeta em sua própria casa. É semelhante àquele rompante artístico do filho, do cônjuge, do irmão, que lhe é mostrado e você não vê nada de mais, uma perda de tempo; você não consegue impressionar quem te viu crescer ou escovar os dentes.

Mateus escreveu que o profeta é recebido em todo canto com muitas honras, menos em sua cidade (Mt 13, 57). Então Jesus, sujeito prático e inteligente, não perdeu mais tempo ali em demonstrações de sabedoria e habilidade. Porque toda sabedoria e toda habilidade carecem da credulidade da audiência.

 

Pão com peixe

 

Tempos depois da famosa multiplicação dos pães, que fez um sucesso danado, e o povo gostou tanto que, até hoje, repete a cena em toda santa missa, Jesus voltou ao assunto, quando percebeu que a coisa podia virar festa.

É que, numa outra viagem, os discípulos simplesmente “esqueceram” de levar pães. Ou melhor, levaram só uns dois ou três. “Qualquer coisa, o mestre multiplica isso”, pensaram, lembrando de uma recomendação recente dele de ter cuidado com o fermento da padaria. Na hora do vamovê, ou seja, na hora de comer, vieram com a manjada choradeira, pra cima dele: “Mestre, não temos pães para todo mundo…”

Jesus, que não era bobo, além de ter ótima memória, começou a rir. “Ah é, é!? Não tem pão pra todo mundo, é? Ora, se não tem pão, que comam brioches!” Mas não dava para comer brioches, porque o brioche só foi inventado 1789 anos depois, na França. “Para vocês, tudo é festa, né? Oh, meu pai do céu, vocês não entenderam nada da coisa, mesmo, da história da multiplicação dos pães”.

“Vocês estavam pensando que eu falava de pães, quando avisei vocês para terem cuidado com esse fermento vendido aí nas padarias dos fariseus? Eu não estava preocupado com pães ou com fermento, mas com os próprios fariseus, com aquela conversa deles, cheia de sotaque e sovinice. Porque o fermento leveda a massa, mas pode também corrompê-la. Oh raça de massa rala, vocês!”

Mas vamos ao episódio: uma multidão participava de um piquenique com Jesus e seus doze assessores num lugar retirado. A hora do almoço se aproximando e o povo inquieto — Jesus inclusive —, percebendo que não havia estrutura de fornecimento de alimentação para todo mundo. Por fim, chamou um deles e perguntou: “Escuta, vocês não providenciaram infra de comida?”

Aí outro respondeu: “Bem, trouxemos aí 5 pães e dois peixes, para nós. Melhor dispensar esse povo, para que cada um providencie sua própria comida”. Jesus ficou puto. “O quê!? Se a gente fizer isso, nunca mais eles comparecem em um evento nosso. Oh incompetência, meu pai!” Sendo que quando Jesus falava “meu pai”, falava com propriedade, com sentimento; ainda que não estivesse, parecia enfático. 

Vendo que a merda já tava feita, pensou: “Quero ver agora até onde vai meu poder de convencimento”. E pediu aos discípulos que trouxessem lá os 5 pães e os dois peixes. É, naquele tempo era pão com peixe, só muito depois foi que inventaram o hambúrguer. Quando viu o tamanho dos pães e dos peixes, ficou menos apreensivo.

É que os pães eram daqueles de semolina, que a gente compra nos postos de beira de estrada, enormes, com quase um quilo cada. E os peixes, além de grandes, eram secos, parecidos com essas pranchas de bacalhau que a gente compra no mercadão na véspera do Natal, o que aumenta as possibilidades de repartição…

Aí, de cima do palanque, que naquele tempo se chamava altar, tomou do pão e do peixe e, mostrando-os à multidão, falou: “Se vocês tiverem fé, isso aqui vai dar pra todo mundo. Claro que não é para ninguém encher a barriga, mas todo mundo vai ao menos sentir um gostinho e posso garantir que o pão está fresco e o bacalhau é da Noruega”.

E, então, organizou o povo em filas e, ele em pessoa, assessorado por coroinhas embasbacados, ia pegando um tiquinho de cada pão e colocando diretamente na boca de cada um para não desperdiçar.

Um pedacinho de pão, um pedacinho de peixe; havia uns que não gostavam de peixe, ele só dava pão; outros estavam fazendo regime, ele só dava peixe. Ao final, todo mundo comeu e ficou satisfeito. Os estômagos nem tanto, mas os espíritos, que é o que importa, ficaram saciados.

E aquela informação de que, ao final da refeição coletiva, ainda recolheram doze cestos cheios das migalhas que sobraram (Mt 14, 20) é pura ironia de Mateus. Ora, por mais indisciplinado e afoito que seja o povo, nenhuma multidão desperdiça tanto, ainda mais num contexto de tamanha escassez e rígido controle como aquele. 

 

Ensino fariseu: cego conduzindo cego

 

Alguns turistas fariseus, em viagem pelo interior, depararam-se com a comitiva de Jesus. Ficaram de longe, espiando. Viram que ele e seus discípulos trabalhavam enquanto comiam. Obravam com uma mão e seguravam o sanduíche com a outra, às vezes trocavam de mãos, tudo sem guardanapo e sem lavar as mãos.

Acredito que foi nessa passagem bíblica que os seriados estadunidenses se inspiraram, ao reproduzirem aquelas cenas de trabalhadores fanáticos segurando seus hambúrgueres do méquidonaldes enquanto trabalham.

Os fariseus ficaram horrorizados com tamanho desrespeito às leis de Moisés. Por isso que aqueles homens eram todos impuros, onde já se viu comer sem lavar as mãos!? Bem-intencionados, com o propósito de ajudar, chamaram Jesus do lado e explicaram-lhe a parte da lei que falava da impureza de se comer com as mãos sujas. “Isso é pecado, cara, o quê que custa lavar as mãos antes de comer?”

Ora, custava que ali na praça não havia sequer uma torneirinha, como ainda sucede em quase todas as praças das cidades desse hemisfério, que dirá um lavatório e um mijador. Mas Jesus olhou bem praqueles turistas e não aguentou: “Mas como vocês são hipócritas, não?! Fazem uma celeuma com um simples pedaço de pão e obrigam um nazireu a desamparar pai e mãe, só por causa da tradição (Mt 15, 3 – o nazireu era alguém consagrado a Iahweh, que devia destinar bens ao templo, ainda que em prejuízo de pai e mãe, segundo a excessiva interpretação farisaica). Querem saber? Vão lamber sabão!” E acho que logo em seguida Jesus inventou um bordão muito usado até hoje, embora não conste nos evangelhos: “O que não mata, engorda”. E deve ter emendado, baixinho, só para si: “no máximo pode provocar uma diarreia”.

Não é o que nos entra pela boca que nos torna impuros, mas o que sai dela. Os impropérios que vocês amplificam, à guisa de lição de moral, as maldições e lacrações que vocês promovem por qualquer besteira, isso sim, que brota no coração e sai pela boca, em forma de palavras, tornam impuro o homem.

O que adianta serem limpinhos e cheirosos, ingerirem alimento puro e vomitarem prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância, insensatez? (Mc 7, 21-22).

“Vocês são como cegos tentando conduzir outros cegos. Sabe o que acontece quando um cego conduz outro cego? Ambos caem no buraco (Mt 15, 14). E tenho dito!” E tascou mais uma mordida no naco de pão que segurava com uma mão, enquanto atendia a outro grupo de turistas que lhe pedia informações.

 

A fé seca figueiras

 

Conhecem essas figueiras enormes das calçadas e parques de São Paulo, cuja função social é dar sombra aos andarilhos e abrigo aos passarinhos, mas produzem uns figuinhos mixurucas, que acho que nem os passarinhos comem? Pois, no tempo de Jesus, esses figos eram razoáveis e alimentavam os viajantes.

Mas Jesus chegou numa delas, cansado e com fome, e não havia unzinho sequer. Aí ele ficou puto e falou pra ela (é, quando estamos muito cansados e com fome, falamos até com as árvores): “pois que você seque agora e suas descendentes não saciem mais seus pretendentes”.

Claro que a figueira não secou coisa nenhuma, porque aquilo é praga, com aquele sistema radicular que vai buscar água até na Amazônia, se preciso, mas seus figuinhos ficaram mixurucas para sempre, por mais adubo que se acrescente à terra, em volta da planta.

Mas os evangelistas disseram que a figueira secou na hora, sabe por quê? Para introduzir o famoso bordão de que a fé remove montanhas. Secar aquela figueira só com um fervoroso olhar é uma boa metáfora para introduzir a metáfora de remover uma montanha com a vontade.

Tudo por causa de um menino desmiolado, que os apóstolos não conseguiram curar. Jesus chegou e, pá pum! Devolveu os miolos do rapazinho ao seu devido lugar (Mt 17, 18). Então os discípulos, em particular, perguntaram-lhe: “Diabos, por que não conseguimos?”

Aí Jesus: “Porque vocês são muito distraídos. Sabem qual o segredo do negócio? A determinação. Tanto que, escrevem isto que vou dizer, daqui uns dois mil anos, os cristãos conservadores vão abusar, nas redes sociais, de um bordão equivalente: foco, fé e força! Aquele menino, sabem o que eu fiz? Dei atenção a ele. Individualizei ele no mundo. Primeiro, me coloquei ao lado dele de corpo e alma. Em seguida, olhei dentro dos seus olhos. Não tem demônio que resista a um tratamento desse. Em verdade, em verdade vos digo: a atenção remove montanhas” (é, eu acho que Jesus falou atenção, mas os tradutores, os tradutores...!). Aí, acho que Simão (que depois que virou papa assumiu o nome de Pedro), ou Tiago, ou João, não sei, chiou: “Lá vem você outra vez com essas metáforas!”

Porque, coitados, eles sofriam com essas metáforas. Porque o repertório de metáforas de Jesus não era pobre e fácil como o de Lula não, com suas tiradas de futebol que até os adeptos do basquete entendem. Era mote inédito sobre mote inédito, o caudal do homem não tinha fim. O povão, que não sabia que não sabia, divertia-se com as fábulas e parábolas e demais figuras de Jesus, mas seus discípulos sofriam porque sentiam nelas a própria e humana mediocridade.

Continuava Jesus: “A fé remove montanhas. Claro que ninguém vai remover uma montanha só com a vontade, viu Pedro, se bem que, daqui uns dois mil anos, estou vendo lá na frente, os chineses vão remover prédios, assim, numa boa, sem nenhum truque, tirar um predião daqui e colocá-lo ali, inteirinho, acho que até com os moradores dentro. Mas o que eu quero de vocês, que são profissionalizados no Partido, é que tenham determinação. Porque com um grupo determinado, ainda que pequeno, ninguém pode, nem a burocracia de Jerusalém, nem as legiões romanas”.

 

Como pagar impostos

 

Num belo dia, os fiscais da Receita Federal baixaram na sede da igreja de Jesus para cobrar os atrasados. Naquele tempo, como hoje, somente as igrejas oficiais eram isentas. As igrejas de fachada, essas que funcionam como se fossem uma mercearia ou uma construtora, ou um banco, ou uma petrolífera, pagavam um imposto maquiado, ajeitado.

E as igrejas de fato, encarnadas num determinado cidadão, tinham de pagar imposto normalmente, quer dizer, o cidadão titular tinha de pagar.

Pedro recebeu os fiscais. Porque Jesus era humilde e se expunha somente com suas ovelhas, em praça pública. No privado, e ainda mais com a burocracia em geral, Jesus era marrento. Ficava lá dentro, recolhido; para falar com ele, era preciso passar por Simão Pedro, por Tiago, por um escândalo de assessores.

“E, então, seu chefe é sonegador?”, perguntaram a Pedro os fiscais, porque os fiscais, em geral, chegam assim, pressionando as vítimas. Pedro, inexperiente nos negócios, ficou alarmado. “Rapazes, sabem que nunca pensei nisso!” E correu lá dentro esclarecer a questão com Jesus, que falou: “Sonegador, eu!? Cê tá doido!? Fala lá pros fiscais que sou um cidadão de bem, cumpridor de todos os deveres e pagador de todos os impostos devidos”.

Claro que Jesus conhecia muito bem a problemática dos impostos e do Estado e como os recursos públicos eram injustamente carreados. Por vontade própria, não só não daria nenhum centavo àquele Estado, como queimaria os eventualmente entesourados junto com o próprio Estado.

Mas, diante dos fiscais da Receita, com aquela frota de camionetas estacionada na calçada, não era hora de criar caso, nem discutir política. Ao contrário, devia evitar escândalos e aparentar a maior normalidade possível. Até porque, no seu caso, a coisa era fácil.

Enfim, Jesus mandou Pedro perguntar aos fiscais quanto devia. E os fiscais fizeram o devido lançamento, estabeleceram o devido prazo, e foram embora.

Jesus chamou Pedro e instruiu-o: “Faz o seguinte, vai pescar. O primeiro peixe com mais de cinco quilos que pegar, abra a barriga dele, e encontrará um invólucro de plástico. Dentro, você encontrará um maço de notas verdinhas do legítimo dólar estadunidense. Será suficiente para pagar os impostos. Aproveita e paga o seu também, que o dinheiro vai dar” (Mt 17,27). E acrescentou — pedindo antes que Pedro desligasse o gravador — que fazia daquela forma porque desaforo com desaforo se paga.

 

Os eunucos da igreja

 

Volto ao tema dos Eunucos. Numa crônica aí atrás, disse que, na Babilônia (e em todos os reinados da época), os reis possuíam haréns. E que esses haréns eram administrados por eunucos, e isso fora uma sacada genial dos reis. Aliás, não só os haréns, os eunucos comandavam todos os serviços do palácio.

Por esse motivo, todos os palácios possuíam um batalhão de eunucos, havia um serviço de recrutamento deles, ou melhor, recrutamento de jovens que se tornariam eunucos. Escrevi da conveniência de tais serviços serem controlados por eunucos, pessoas sem desejos e sem interesses extraordinários.

Pois bem. Pensava que isso era coisa da arca de Noé, já superada no tempo de Jesus, mas olha o que achei, bem pertinho do famoso “o que Deus uniu, o homem não separa” (Mt 19, 6) que tenho de ouvir toda vez que vou a um casamento na igreja.

Vou criar coragem e, no próximo, pedirei ao padre que continue lendo mais os seis versículos seguintes apenas, dentre os quais se lê: “Com efeito, há eunucos que nasceram assim, do ventre materno. E há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens. E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus. Quem tiver capacidade para compreender, compreenda!” (Mt 19, 12).

Porque, diante dessa besteira de Jesus, que nunca fora casado, seus discípulos disseram: “Desse jeito, não vale a pena casar” (Mt 19, 10). Porque quase todos seus discípulos eram casados, conheciam bem o que era dividir uma casa com outra pessoa em regime de casamento.

Enfim, tiraram o atraso em cima da inocência de Jesus, e tanto estavam certos que até os italianos, tão católicos e às barbas do papa, não demoraram em aprovar o divórcio, que Moisés já aprovara lá muito antes dessa conversa.

Mas Jesus de inocente não tinha nada. Ele não estava pensando nessa corriqueira injunção física e social entre homem e mulher, ou entre dois cidadãos ou cidadãs que resolvem fazer um teretetê particular e duradouro entre si, quando saiu com aquela de que o que deus uniu o homem não separa. Ele estava pensando lá na frente, em Roma, no Vaticano e no império eclesiástico, nas administrações dos múltiplos palácios desse império. Aquilo, pra funcionar, só com eunucos.

Perceberam que há um ponto de exclamação ao final do versículo que fala dos eunucos?

Querem saber? Acho que nem Mateus e muito menos Jesus passaram perto dessa conversa. Isso deve ser coisa de Constantino, que entendia de palácios e conveniências. Mas por que essa proximidade entre casamento indissolúvel e eunuco? Acho que por causa da conveniência. Algum psicanalista poderia responder: “é que o palácio do casamento indissolúvel só funciona quando administrado por eunucos”. E aproveito para perguntar: há na psicologia moderna o conceito de eunuco emocional?  

 

Jesus, um desorganizado

 

Interessante, Jesus era tão metódico com umas coisas e tão desatento com outras. O contrário de Moisés.

Por exemplo, Moisés negociou previamente com Iahweh a água que brotaria das rochas e o maná que cairia do céu, para alimentar e matar a sede do seu povo durante a travessia do deserto. Jesus tinha de improvisar, fazer mágica, para multiplicar os pães, para alimentar seus correligionários.

Moisés organizou os dez mandamentos — dez, um número bonito e redondo —, cercando todas as safadezas possíveis dos homens, nos campos público, privado, libidinoso e religioso e, mais!, mandou gravar tudo na pedra. E mais!, mandou fazer um baú de excelente madeira para guardar a pedra e mandou construir uma igreja monumental para guardar o baú.

Queria ver qual o mosaico que alegaria ignorância dos mandamentos!

Mas Jesus? Jesus, nem na hora que foi diretamente questionado a respeito dos mandamentos, soube dizê-los completos. Vejamos: um rapaz das redondezas, desses bem preocupados, chegou para Jesus e perguntou: “Mestre, o que devo fazer para ir para o céu?” Acho que Jesus não esperava tão bisonha preocupação, daí sua resposta chinfrim, meia boca. “Ora, deve cumprir os mandamentos”. Claro que ele se referia aos mandamentos de Moisés, mas, para dizer a verdade, nem ele sabia de cor aquele palavreado. Aí o rapaz, pernóstico, quis saber quais. E é aí que critico a distração de Jesus. Em vez de mandar o cara ir caçar sapo com bodoque ou responder simplesmente “todos”, passou a relacionar os tais mandamentos necessários.

E o resultado foi que os dez de Moisés viraram seis em Jesus: “Não matarás, não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honrarás pai e mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 19, 18).

E, com esse improviso, acho que Jesus levou uma chamada do Pai, porque esqueceu de relacionar o mandamento mais importante: amar a Deus sobre todas as coisas. Por outro lado, para nós, ficou mais fácil entrar no reino dos céus.

 

Sepulcros caiados

 

“Serpentes! Raça de víboras! Hipócritas!” Isso era Jesus para os fariseus. Porque se havia uma raça que Jesus não engolia era a dos fariseus. Porque fariseu é uma raça que há em todas as raças. Mas veja se ele não tinha razão. O fariseu queria que o fiel fosse à missa de paletó e gravata. Cabelo bem aparado, penteado e curto. Bigode podia, desde que bem cuidado, mas barba de dois dias, jamais. Também não podia ir de chinelo.

A mulher deveria cobrir a cabeça e os ombros com véu e jamais usar calça comprida. Deveria ir à missa todo domingo, confessar os pecados periodicamente, não comer carne durante a quaresma inteira, guardar os dias santos, rezar um pai nosso e três ave-marias todo dia antes de se levantar, ante de se deitar e antes das refeições, trepar só para procriar e a mulher não podia gostar da coisa. Chamar os mais velhos de senhor e pedir bênçãos aos tios e avós. Quanto a amor, amizade, justiça, misericórdia, tolerância, fidelidade, solidariedade, que é o que realmente importa, nenhuma palavra. E ainda ficavam na porta, ticando todos os itens numa lista, para ver se o cidadão ia ou não para o céu! Tinha cabimento!?

“Vocês escondem a podridão da violência e da competição e da desigualdade e do racismo e do preconceito e do privilégio com essa camada de vestes de grife muito bem passadas e engomadas, com esse bom-mocismo de vitrine, com essa limpeza ostensiva, com essa caridade programada, com essa igreja-máfia que mais se parece com um cartório para garantir primazias. Vocês são como os túmulos que guardam seus mortos, revestidos de granitos limpos e brilhantes por fora e podres e fedorentos por dentro. Seus hipócritas, vocês e seus cupinchas auxiliares, os tecnocratas, os juízes, implacáveis com as picuinhas dos de fora, dos não incluídos, e indulgentes com seus compadres e agregados. Seus burocratas menores, que fazem caso de um mosquito e engolem um camelo!” (Mt 23, 24).

Não me canso de chamar vocês de hipócritas, nunca uma palavra só foi tão categórica, tão exata, mas gosto mais, segundo meu estilo metafórico, do “sepulcro caiado” que cunhei na hora do sangue quente. Na ocasião, eu ia ser popular e usar o “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”, mas, num rompante de felicidade criativa, me caiu do céu esse “sepulcro caiado”, uma das minhas melhores sacadas.

“Comigo não, seus hipócritas, sepulcros caiados “(Mt 23, 27), acabou a era da perfumaria, das aparências. Não basta falar e parecer. Tem de praticar e ser. Abaixo a ditadura da forma! Vida longa à substância e ao conteúdo! De agora em diante, quem dita as regras para entrar no céu sou eu, ouvidas as partes, sempre que possível.

 

Duas parábolas sem graça

 

Refiro-me às parábolas dos talentos (Mateus 25, 14-30) e das minas (Lucas 19, 11-27). Trata-se, essencialmente, da mesma parábola, apenas que, no tempo de Mateus, o dólar lá deles se chamava talento, enquanto no tempo de Lucas se chamava mina. Só essa divergência já é suficiente para a gente desconfiar da autenticidade do autor. Grosso modo, trata-se de um homem rico que sai para uma longa viagem (naquele tempo era impossível administrar e aplicar a fortuna remotamente, como hoje) e distribui seu dinheiro para seus empregados administrarem.

Na narrativa de Mateus, o homem rico distribui cinco milhões de reais a um, dois milhões de reais a outro e um milhão de reais a um terceiro. Na volta, o que recebera cinco milhões devolve-lhe dez, significando que fez a grana dobrar de valor, teve um rendimento de 100%. O mesmo aconteceu com o que recebeu dois milhões: devolveu quatro, rendimento também de 100%. E o que recebeu um milhão devolveu o mesmo um milhão, rendimento zero. Claro que o ricaço cagou na cabeça desse último, coitado, demitindo-o sumariamente, enquanto gratificava e promovia os outros dois.

Na narrativa de Lucas, o homem rico que vai viajar talvez fosse argentino, ou talvez vivesse no tempo do nosso Cruzeiro, sei lá, digamos que tinha dez milhões de pesos argentinos. Distribuiu um milhão de pesos para cada um dos dez empregados.

Na volta, um dos empregados que recebera um milhão de pesos devolveu-lhe 11 milhões de pesos, fazendo com que o capital investido tivesse um retorno de 1000(mil)%; um outro devolveu-lhe seis milhões de pesos, rendimento de 500%. E um terceiro devolveu-lhe o mesmo um milhão de pesos, rendimento zero.

Pronto! O primeiro foi promovido a diretor-superintendente do conglomerado; o segundo virou presidente de uma subsidiária; e o terceiro foi transferido do financeiro para a portaria.

Eu, cá distante no tempo e no espaço, e macaco velho de certas mutretas, tenho quase certeza de que, no caso da historinha de Mateus, os dois primeiros eram cupinchas um do outro e se juntaram e aplicaram o dinheiro no mesmo fundo de capital de risco. Isso foi possível graças à bolada de sete milhões, resultante da soma do que os dois receberam. Não tivessem feito isso, não poderiam aplicar nesse rentável fundo, cujo valor mínimo de aplicação era de seis milhões.

Já o terceiro, coitado, com a merreca de um milhão, teve de se contentar com a taxa SELIC, num banco de segunda linha, e, ao final, considerando imposto de renda, IOF e taxa de administração, não sobrou nada além do investimento original. Ora, já naquele tempo, em todos os tempos, dinheiro gera dinheiro: quanto mais dinheiro, mais rendimento.

Na historinha de Lucas, houve real competição entre os empregados, porque estava em jogo o cargo de superintendente, único, impossível de dividir.

Então o primeiro, que era insider na bolsa, nadou de braçada; o segundo devia ser parente de algum banqueiro e conseguiu, também, um bom retorno; e o terceiro, coitado, fez como o terceiro lá de Mateus e mal e parcamente manteve o valor investido. Quem tem muito ganha mais; quem tem pouco perde tudo.

De fato, está muito estranha essa cantilena aí de cima de premiar os primeiros, o lucro, a acumulação. Jesus era sinônimo de desprendimento. “Muitos dos primeiros serão últimos, e os últimos serão primeiros” (Mc 10, 31).

 

O nacionalismo judeu

 

Como é sabido, os judeus sempre foram muito nacionalistas; daí por que sonhavam com um rei poderoso, nos moldes de Davi, que reunificasse e fortalecesse o país. Boa parte deles esperava o tal Messias, que seria descendente de Davi, com essa terrena finalidade.

Acontece que Jesus, cujos correligionários diziam ser o rei dos judeus, não queria conversa com burocracia nenhuma, com cargo algum, porque sabia que era uma tarefa inglória essa de ser político honesto e bem-intencionado numa terra de hipócritas. Acho que foi por isso que Jesus adiou o máximo possível o início de sua militância. Mas quando começou, foi desde o começo para subverter aquela bandalheira toda. Entretanto, o populacho pensava que Jesus era apenas mais um deles, que queria o poder pelo poder.

Se soubessem que já era o rei, se conhecessem seu poder de fogo, esse populacho viria em cima e ele não teria mais sossego. Porque o povo sempre gostou muito de um bom caudilho.

Jesus sabia que essa informação secreta podia vazar de duas maneiras: pelos apóstolos e pelos demônios. Pelos apóstolos, especialmente da parte de Pedro, Tiago e João, os mais chegados, ainda mais depois que os quatro atravessaram juntos a parte mais alta da Mantiqueira. Lá no cume, metade do caminho, as mochilas, de 18 quilos, pareciam pesar quarenta. Todos mais mortos do que vivos de tão cansados, exceto Jesus que, além de ter o melhor preparo físico dos quatro, ainda levava uma mochilinha pequena e leve, que ele não era besta.

Nem forças para armar a barraca tinham, dormiram ao relento. Fazia frio, aproveitaram para abrir a garrafa de conhaque que haviam levado. Pedro, Tiago e João secaram a garrafa, enquanto Jesus só tomava água. O que aconteceu foi que não demorou para os três pândegos verem Moisés e Elias baixarem do céu numa asa delta e baterem o maior papo com Jesus, que se transfigurara numa roupa alvíssima e resplandecente, em forma de batina. Inclusive, juram até hoje que ouviram uma voz do Além, bem grave, dizendo: “Este é o meu filho amado; ouvi-o” (Mc 9, 7). Por ser uma voz bem grossa, só podia ser de Deus.

O pileque foi violento de tal forma a proporcionar uma visão e um som tão nítidos, que nem Jesus conseguiu convencê-los, no outro dia, quando já estavam sóbrios, de que aquilo tinha sido efeito da droga e do cansaço. Vendo que não tinha jeito, Jesus então explicou-lhes: “Claro que sou o filho de Deus, mas não contem para ninguém. Esses deserdados da terra só podem saber depois que eu morrer e ressuscitar. Então, bico calado”. Mas, sabe como é, os três, além de analfabetos, eram pescadores, que costumam falar e mentir muito; Jesus sabia disso e temia.  

Outra possibilidade de vazamento era pelos demônios que Jesus vivia enfrentando. Lembram de que o demônio Legião reconheceu Jesus assim que o viu? De que pediu que fosse incorporado nos porcos? E o pior é que esses endemoninhados eram muito escandalosos e sempre havia algum parente perto, de olhos e ouvidos bem abertos, cuidando. É por isso que a primeira coisa que Jesus fazia quando se deparava com o demônio incorporado num humano era mandá-lo ficar quieto, calar a boca. Claro que o poder de Jesus nesse particular era absoluto, semelhante àquele do diretor de som dos estúdios, de desligar o microfone do falante que atravessa a fala.

O Satã doido para cumprimentar o compatriota, porque no estrangeiro até os adversários se comprazem no mútuo reconhecimento, e a garganta entalada, sem possibilidade de um simples olá.

De vez em quando, numa roda informal, alguém chegado que conhecia o segredo interpelava Jesus: “E aí, cara, quando é que você vai botar pra quebrar? Eu tô nessa, conta comigo!” Jesus desconversava, porque o maior problema do eleito que vai assumir o poder em breve é se livrar dos puxa-sacos: “Que nada, cara, meu reino não é deste mundo…”

 

O rico no céu

 

Sobre a dificuldade de o rico entrar no céu, o que Jesus quis dizer — com as minhas palavras, é claro — foi que o único jeito de o rico subir ao céu seria entrando dentro da viola do urubu. Creio que essa minha figura é melhor do que aquela do camelo passar no buraco de uma agulha.

Mas olha o perigo. Quem sobe ou entra no céu não é o corpo, é a alma. E alma, além de não ter cor, não tem peso! Nem forma. Diria que a alma é um vaporzinho assim, infinitamente mais leve do que o ar; logo, ela pode se transformar num filete de nuvem e passar pela agulha, até a do rico. E pode subir ao céu sozinha, é só se soltar, eis que é mais leve do que o ar.

Mas a alma pode ser uma ideia. Nesse caso, o rico volta a levar desvantagem. Porque, considerando que, para que haja um rico, são necessários 900 pobres, todo rico é culpado pela miséria do mundo. E, não adianta, lá no céu não entra gente culpada.

E, sim, Jesus perdoa os culpados, desde que eles peçam perdão. E o único jeito de um rico pedir perdão é doando toda a sua riqueza. Então, pegando o gancho de Jesus, adiciono: é mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico abrir mão da sua riqueza.

Então, ficamos assim: o rico usufrui do paraíso aqui na Terra e o pobre lá no Céu. Eu, particularmente, acho que tem dedo de rico nessa formulação, baseado na máxima de que mais vale um pássaro na Terra do que dois no Céu.

Mas Jesus efetivamente disse ao rico, que garantira que cumpria todos os mandamentos necessários: “Uma só coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu” (Mc 10, 21). Atentar para o detalhe: dá aos pobres, não a Deus(igrejas).

Para Jesus, os humildes tinham preferência. Como os ricos são ousados, vaidosos, arrogantes, autoritários, Jesus passa reto. Passa reto, mas deixa o recado: “Lá no Céu a gente conversa”. Na porta do Céu, quero dizer, do lado de fora. Porque, “com efeito, aquele que no vosso meio for o menor, esse será grande” (Lc 9, 48).

Entretanto, informam os editores da minha Bíblia, riqueza e prosperidade eram tidos, nos livros sapienciais, como sinais da bênção divina. Jó, depois de passar por todas aquelas atribulações, ficar doente, perder a fortuna, teve sua sorte restaurada por Iahweh: “Então Iahweh mudou a sorte de Jó, e duplicou todas as suas posses” (Jó 42, 10). O Salmo 16: “diz Iahweh, és tu que garante a minha porção”.

Em Provérbios 3, 1: ”Meu filho, não esqueças minha instrução, porque te trarão longos dias e anos, vida e prosperidade”. Eclesiastes 7, 11: “A sabedoria é boa como uma herança”. E não nos esqueçamos de que Iahweh simplesmente tomou Canaã dos povos que lá moravam e entregou-a aos judeus, através da mais descarada guerra de extermínio, para ocupação territorial.

Pelo que vi até agora, o Pai era partidário dos ricos e poderosos, admirava as pessoas bem-sucedidas aqui na Terra e, se preciso, fazia até guerra para conquistar um pedaço de terra. Já o Filho gostava dos pobres e humildes, compreendia os fracassados e não gostava de violência. Se alguém lhe chutava a canela, ele só ficava olhando, com aquele olhar de tristeza. Preferia morrer a fazer uma guerra. Mas mandava Simão Pedro anotar todos os desaforos num caderninho, para cobrar lá na porta do Céu.

 

Tiago e João

 

Já disse que, dos doze apóstolos, havia três mais chegados a Jesus: Pedro, Tiago e João, tanto que fizeram juntos aquela travessia da Mantiqueira, lembram? Tomaram aquela bebedeira, lembram?

Bom, desses três, Jesus escolheu Pedro para chefiar sua igreja. Mas isso foi posteriormente. Na ocasião em que se sucedeu o que vou narrar, o cargo estava em disputa. E, para essa disputa, os filhos de Zebedeu fizeram uma dobradinha.

Sim, Tiago e João eram irmãos, filhos de Zebedeu. Agora, fico pensando: se eles tivessem vencido, hoje teríamos dois papas?

Porque, de fato, os dois, na maior cara dura, chegaram para Jesus e disseram: “Mestre, concede-nos, na tua glória, sentarmo-nos, um à tua direita, outro à tua esquerda” (Mc 10, 37). Tiago e João ao menos têm atenuante: fizeram o pedido às claras, durante uma reunião em que os demais participavam.

É claro que os demais ficaram putos com a desfaçatez dos dois, exceto Pedro, creio, que já devia ter sido sondado por Jesus e ficou na dele.

Jesus, entretanto, considerou o pedido dos dois irmãos mais como uma ingenuidade decorrente do desconhecimento e da pouca experiência de ambos do que por ambição propriamente. E encerrou o assunto rapidamente, dizendo que essa atribuição não lhe cabia.

Houve um leve espanto da parte de todos com essa revelação de limite de poder da parte de deus, e acho que foi aí que Jesus teve de começar a explicar o difícil arranjo da Santíssima Trindade. Ele explicou e até hoje não sei se convenceu.

E talvez, para soterrar o assunto, emendou por cima que os chefes devem servir. “Aquele que, dentre vós, quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro, dentre vós, seja o servo de todos (piscando para Pedro).

E finalizou com aquela máxima posteriormente popularizada pelos populistas: “pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10, 41-45).

Bem, o indício de que restou um pontinho de dúvida nessa argumentação divina foi a posterior traição de um dos então presentes.

 

Vigiai e Orai

 

Começo com uma introdução burocrática, para vocês terem a dimensão do quanto é necessário vigiar e orar, desde o dia em que nossos pais nos entregam a chave da porta até o dia que ela nos é tirada por uma filha, uma neta ou uma cuidadora.

No Getsêmani, que Lucas chama de Monte das Oliveiras e João apenas de Jardim e mais nada, esteve Jesus junto com Pedro, Tiago e João (os três da travessia da Mantiqueira, lembram?), que Lucas não individualiza, mas diz apenas “discípulos” e João, como dito, não diz nada.

Subiu lá para orar junto ao Pai, porque estava muito angustiado. Estava com medo, para falar o português claro. “Pai, se queres, afasta de mim este cálice!” Gil e Chico preferiram Marcos e Lucas: afasta de mim este cálice, porque a sonoridade de Mateus era mais pobre: que passe de mim este cálice.

Lá em cima, pediu aos três companheiros que vigiassem, enquanto ele se afastava, para conversar com o Pai, ou seja, orar. Na volta, encontrou os vigilantes dormindo: “Belos vigilantes eu tenho”, caçoou ele dos três dorminhocos. “Se minha segurança dependesse de vocês, eu tava lascado”. Mas isso é uma injustiça que cometemos contra Pedro, Tiago e João.

Em verdade, eles foram vítimas de uma combinação entre Pai e Filho, que armaram a cena apenas para que Jesus pronunciasse um de seus mais criativos bordões: “Vigiai e orai!” Marcos e Mateus, mais rápidos na anotação, transcreveram direitinho, com a musicalidade e a concisão exatas, tal qual o publicitário criou: Vigiai e orai!

Mas Lucas passou do ponto: Levantai-vos e orai.

Agora, estava pensando: Jesus e os três chegaram a um determinado ponto. Jesus lhes disse: “Vigiai, enquanto vou ali orar”. Quer dizer então, para minha decepção, que uns vigiam, enquanto outros oram? Porque sempre achei genial essa dialética jesuíta de fazer o crente assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.

Ainda bem que durante a conversa entre Pai e Filho, acho que o Pai, mais experiente, alertou Jesus: “Escuta, você armou a cena de maneira contraditória ao planejado. Não era para você, daqui a pouco, dizer, solenemente: vigiai e orai?” Era. “Então como é que só eles vigiam e só você ora?”

Graças a essa sagacidade do Pai, a cena não azedou. Mas acredito que, se não fosse isso, Jesus ia, mais uma vez, repetir aquela história de dar o outro lado da face, de que seu reino não era deste mundo, de que só Jesus (aquele que ora) salva. Você pode conferir em Mt 26,41, Mc 14,38 e Lc 22,46.

Ah, antes que me esqueça. Essa beligerância toda enquanto reza é tudo por causa da carne. Se você bestar, a carne desanda, desatenta.

 

A magdalena

 

Era magdalena porque vinha da cidade de Magdala, essa Maria de quem vamos falar. Essa magdalena era discípula de Jesus, exatamente como Simão e André (irmãos), Tiago e João (irmãos), Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Tiago (filho de Alfeu), Tadeu, Simão (o Zelota) e Judas Iscariotes, que depois da cagada que fez foi substituído por Matias.

Mas, como naquele tempo os homens não contavam as mulheres…

Maria, de Magdala, ou Maria, a magdalena, é uma personagem muito famosa na Bíblia, não tanto pela qualidade e intensidade da sua atuação explícita, mas pelo fato de ser, praticamente, a única mulher independente a se relacionar com Jesus. Alguns dizem que ela era prostituta, antes de conhecer Jesus. E outros vão mais longe, considerando-a mulher de Jesus. Sua fama, portanto, decorre mais do que ela teria sido, das deduções que se fazem com base no que realmente está registrado.

A magdalena era prostituta? Eu acho que sim. Onde já se viu uma mulher sem pai, sem mãe, sem marido, sem filhos, ficar saindo pela rua com um bando de homens, incluindo ao menos um solteiro? Só podia ser puta… no mínimo era uma assanhada. E mais, uma puta ativa, possessa, que tinha o diabo no corpo!

Não, não era uma simples puta endiabrada não. Era sete vezes endiabrada, derrubava qualquer cristão. Mas aí, num encontro fortuito, encontrou aquele rebelde galileu — que não era qualquer Cristão —, que a deixou mansinha: expulsou os sete demônios do corpo dela (Mc 16, 9).

Foi porque, como sabemos, nessas situações, um é pouco, dois é bom e três é demais; imagina nove (ela, ele e os sete demônios). Vocês devem se lembrar de que os demônios incorporados nos corpos dos humanos não só reconheciam Jesus como conversavam com ele. Impossível, portanto, qualquer diversão sem antes repatriar os sete para o Inferno.

Mas aí, sem o diabo no corpo, ela virou apóstola… Eu acho que foi aí que Jesus começou a entender de dialética.

A magdalena era mulher de Jesus? Acho que sim. Claro, casamento informal e aberto. Atuavam no mesmo partido, no mesmo diretório, ela gostava dele, ele gostava dela… Senão vejamos:

Primeiro, tiveram o teretetê acima descrito.

Segundo, era a única mulher “solteira” dentre as três citadas — Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e José (mãe de Jesus, também) e Salomé, mãe dos apóstolos Tiago e João — que acompanhavam de longe o calvário de Jesus na cruz (Mt 27, 56).

Terceiro, ela que foi cuidar do túmulo no primeiro dia da semana após o sepultamento. Ora, quem, senão o cônjuge, vai cuidar dessas questões práticas quando morre seu parceiro, ainda mais em pleno domingo de páscoa?

Bom, o resto é conhecido. Jesus, já ressuscitado, apareceu para ela.   Ela foi contar aos demais apóstolos e aí foi aquela zoeira, que não parou até hoje.

 

Confusão entre fé e disciplina

 

Ou fé e hierarquia. É porque pintou um militar na história, que naquele tempo se chamava centurião. Porque desde aquele tempo é comum entre os militares a confusão entre fé e disciplina. Não só entre os militares, mas, igualmente, entre os sucessores de Jesus. De fato, é difícil saber em qual dos Estados-Maiores a hierarquia é mais rígida: o eclesiástico ou o militar. Não para Jesus, que abominava a hierarquia.

O fato é que esse centurião era o chefe militar da pequena cidade onde Jesus estava. Ele tinha um empregado de quem gostava, que estava muito doente. Mandou então uns velhos conhecidos pedirem a Jesus que salvasse seu empregado.

Os velhos, também conhecidos de Jesus: “Vai lá, jovem, esse centurião é militar, mas é gente boa”. Esse “jovem” aí é porque era a cidadezinha onde Jesus havia crescido, os velhos o conheciam desde criancinha. “Então, como estávamos dizendo, ele ajudou a gente a construir a sinagoga, ajude-o, ele merece” (Lc 7, 4-5). Aí Jesus: “Tá bom, vamos lá ver o que posso fazer”. (Se for qualquer demônio, minha simples presença resolve…).

Quando o militar soube que Jesus se dirigia à sua casa, ficou alarmado. Aquela raposa subversiva vai entrar aqui em casa, vai que descobre certas coisas… Aí mandou um jipe com um cabo e dois soldados ao encontro da comitiva: “Oi, mestre, meu chefe mandou dizer que não é digno de que o senhor entre na casa dele, inclusive ele não se achou digno de ir ao seu encontro, só mandou o recado. E ele estava pensando, aliás, que, como ele resolve seus problemas à distância, bastando para isso que dê a ordem no devido elo da cadeia de comando, que o sistema do senhor fosse igual e, nesse caso, bastava o senhor ordenar a cura, mesmo de longe”, arengou o cabo.

Aí Jesus se interessou: “Como é que isso funciona com ele?” Aí o cabo explicou: “O general comanda o coronel, que comanda o major, que comanda o capitão, que comanda o tenente que comanda o sargento, que comanda o cabo, que comanda o recruta, que vai lá e faz”.

Jesus ficou admirado: “Mas isso funciona? Ninguém dessa cadeia questiona ou modifica a ordem?” Aí o cabo: “ô se modifica! Se o senhor soubesse cada jacarana que sai… Mas o lá de cima sempre assume a obra realizada porque, para ele, o comando é mais importante do que a obra”.

Jesus: “E essa obediência, não tem ninguém nessa cadeia que desobedece?” O cabo: “Cê tá doido! Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Jesus: “E as pessoas vivem bem, são felizes, vivendo debaixo desse bombardeio de ordens?” O cabo: “Ah, a gente se acostuma, se conforma; simplesmente acatamos o que vem de cima. Ao fim, o que conta é o dindim ao final do mês”.

Acho que foi por causa desse “acatamos o que vem de cima” que Jesus confundiu disciplina com fé. E pensou: “Acho que vou recomendar a Pedro, quando ele estiver no Vaticano, que implante um sistema parecido. Mas bem depois da minha morte, que eu não vivo num empurra-empurra desse nem que a vaca tussa”.

E, para encerrar o assunto e mostrar ao general romano que ele também comandava de longe, mandou Daniel, ou Miguel, ou Gabriel sobrevoar a cama do enfermo e curá-lo. Só que para Jesus era diferente e fácil; ele tinha real controle, era como comandar um drone. O general romano gostou de ter o ajudante curado, mas ficou com a pulga atrás da orelha com o poder de comando daquele civil.

 

O defunto de Naim

 

“Os homens desta geração são como crianças sentadas numa praça, a se desafiarem mutuamente”. Isso foi Jesus, esconjurando sua geração (qualquer semelhança com a nossa não é mera coincidência). Se Deus-Pai manda João Batista, vocês falam que é safado. Se Deus-Pai manda seu próprio filho, vocês falam que é safado. Cêis querem o quê? Milagres? Tá bom, então esperem pra ver.

Aí Jesus pensou, “vou arrebentar a boca do balão com esse povinho, só pra ver a reação”. E planejou: “o primeiro enterro que passar em minha frente, paro o cortejo, mando depositarem o caixão no chão e faço o defunto levantar e sair andando. Aí quero ver quem vai duvidar de mim”.

O primeiro enterro depois disso foi na entrada de Naim, na estrada que dá para o cemitério. Naquele tempo os cemitérios ficavam fora das cidades, o povo tinha muito medo de defuntos. Jesus ia chegando e o féretro ia saindo, em direção ao cemitério. Jesus mandou parar tudo.

Quando soube que se tratava do filho único de uma viúva, exultou: “Putz, perfeito! Mato três lebres com uma só paulada”. Porque naquele tempo era quase uma obrigação religiosa ajudar as viúvas e os órfãos. Fazendo o defunto ressuscitar, ajudava o órfão, que era o próprio defunto, ajudava a viúva, que era a mãe do defunto, e demonstrava seu poder aos descrentes.

Mandou abrir o caixão e, da mesma forma, mandou o jovem defunto se levantar. Levantar-se e falar, que era para não haver nenhuma dúvida. Claro que todo mundo que estava acompanhando o corpo acreditou que Jesus era realmente um profeta dos bons, daqueles com ligação direta e sem ruídos com deus.

Eu, se estivesse ali em carne e osso, também acreditaria. Mas de ouvir falar, de saber pelo amigo, que ouviu do vizinho, que ficou sabendo pela irmã, que soube pela cunhada, que ouviu duma colega de trabalho que leu no evangelho? Assim, fica difícil. Até João Batista pediu confirmação, ao saber do boato.

João Batista enviou uns emissários a Jesus, perguntando-lhe se, de fato, era ele o filho de deus (Lc 7, 19). Porque uma coisa é curar doentes e outra é ressuscitar um morto.

Curar doente é fácil, ainda mais naquele tempo, em que praticamente todas as doenças eram causadas por demônio no corpo. Nem precisava ser Jesus, bastava ser alguém mais firme, com um olhar mais penetrante, que desse um chacoalhão adequado no enfermo, que o Mintiroso saía dele, ia baixar em outra freguesia, porque o Satanás é esperto e Covarde. “Pra que criar confusão, se tem tanto corpo dando sopa por aí?”

Mas não vá pensar que Jesus era como esses apresentadores e pastores de TV de hoje em dia. Essa de fazer o morto se levantar foi uma exceção, para impressionar os patrocinadores, num momento crítico da negociação.

Em geral, Jesus era discreto. No máximo, ele pedia para o povo não espalhar a notícia de eventual cura. Claro que aí era que o povo espalhava… Afinal, expulsar demônios, para Jesus, era algo tão corriqueiro quanto dar esmolas. E vocês sabem o quanto Jesus odiava essas pessoas que alardeiam a própria caridade.

Aliás, Jesus vivia sendo cobrado a esse respeito pelos escribas e fariseus: “Mestre, queremos ver um sinal” (Mt 12, 38). Ou seja, se você tem parte direta com deus, faça um milagre em nossa frente, aqui e agora. Mas milagre de verdade, não aquela enrolação de tirar capeta do corpo de gente encapetada. Aí Jesus: “Oh povo sem fé, cêis tão pensando que isso aqui é ciência, é? Isso aqui é religião! A graça da coisa é essa: o mistério, o imponderável, o utópico”. E tem mais: “Eu até faço alguns prodígios de vez em quando, mas nunca na frente de vocês, seus descrentes!” Mas, dúvidas à parte, o bordão “levanta até defunto” começou com Naim.

 

A lâmpada do corpo

 

A lâmpada do corpo é o teu olho. Se teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará também iluminado; mas se ele for mau, teu corpo também ficará escuro (Lc 11, 34).

Entretanto, vê bem se esse teu olho estralado não é de ódio, ressalva Jesus: “Por isso, vê bem se a luz que há em ti não é treva” (Lc 11, 35). Vê bem se esse teu olhar brilhante não é de inveja, em que o olho fica tão evidente que apelidaram esse tipo de luz de olho gordo.

Interessante, aqui a gente fica sabendo que treva é um tipo de luz. Aquela luz mortiça dos puteiros seria treva? O escurinho do cinema? Enfim, a luz pode estar acesa ou apagada, ser quente ou fria, ser colorida e aí se abre um leque de possibilidades… Luz vermelha, luz azul, luz verde, luz amarela, luz negra.

Analisemos o olho do cidadão na via pública. Em nossa análise, olho é sinônimo de luz. Olho de deboche, olho de reprovação, olho de superioridade, olho de arrogância, olho de isolamento, olho de não me toques, não se aproxime, mantenha a distância, não sou da tua laia, ponha-se no teu lugar. Olho de pobre, mas limpinho…

Ora, aí o cidadão recebe um petardo de volta, sob a forma de violência urbana (assalto, roubo, estupro, agressões diversas), e reclama, sem levar em conta a luz repulsiva que havia em seu olhar. Porque essa luz preconceituosa do olhar tem a capacidade de ferir tanto quanto o ferro do assaltante.

Há o chavão que diz que os olhos são o espelho da alma. Eu diria que é a tela, com uma câmera acoplada. Através do olhar, o cidadão vê e é visto. E é sempre arriscado. Desde o momento que o cidadão abre o olho, está exposto.

Acho que, por isso, Jesus disse que quem não abre (ou desvia ou esconde) os olhos é covarde ou, no mínimo, insensato: ninguém acende uma lâmpada para colocá-la em lugar escondido (Lc 11, 33). Sabe aquele olhar oblíquo e dissimulado? Sabe essa gente que olha atravessado, de rabo de olho, de esguelha, de soslaio? Jesus não gostava nem um pouco dela.

 

Pedro e pedra

 

Aos Pedros do mundo lhes digo: Pedro é igual a pedra, em grego e aramaico. No começo de sua atuação, quando Jesus foi apresentado a Simão, enquanto recrutava os primeiros apóstolos, disse: “Tu és Simão, filho de João; chamar-te-ás Cefas” (que quer dizer Pedra), João, capítulo 1, versículo 42.

Sei lá, acho que Jesus estava pensando na construção dos palácios do Vaticano, na quantidade de pedra que seria preciso, aí vieram com aquela conversa de que Pedro seria a Pedra sobre a qual edificaria a sua igreja. Pedra, base, alicerce, fundação. 

Interessante é que foi André, irmão de Simão, que descobriu Jesus, avisado por João Batista. Então foi procurá-lo. Conversa vai, conversa vem, André falou que tinha um irmão que era porreta e isso e aquilo. Aí Jesus: “Bom, então traga esse teu irmão aqui, que quero conhecê-lo”.

No outro dia, foi lá Simão. Quando os dois, Simão e Jesus, se encontraram, foi amor à primeira vista. Simão ficou embasbacado com a presença do galileu: “É esse mesmo que vou seguir, com esse carisma a gente nunca mais vai perder eleição, sigo-o até debaixo d'água”.

Não, não foi nessa passagem que Jesus debochou da exagerada fidelidade de Pedro, isso foi lá no fim, após uns três anos de forte amizade e militância conjunta, quando disse a Pedro para deixar de exagero, que antes que o galo cantasse, lhe negaria três vezes.

Já Jesus, quando bateu o olho no irmão de André, pensou: “É exatamente esse que eu procurava para alicerçar a minha igreja: duro e imutável como uma pedra”. E não teve dúvidas, já via a devoção nos olhos do subalterno: “Tudo bem, sei que você se chama Simão, André me falou, mas vou te chamar de Pedro”. Aí Simão: “Mas esse nome nem consta na relação dos rabinos, será que vai dar certo?” Aí Jesus: “Oxe, se vai dar certo!” E Pedro ficou petrificado ante tamanho peso.

E está aí um dos primeiros motivos por que a Igreja só atualiza suas posições depois que até as pedras as consideram anacrônicas.

 

Dialética & Metafísica

 

Cerca de cinquenta anos antes do nascimento de Jesus, uns crentes começaram a atravessar a sinagoga. Por exemplo, João Batista começou a batizar diretamente no rio Jordão, sem necessidade alguma da família doar um boi, ou uma pomba, em sacrifício, nem fazer roupa nova, bastava um calção. O povo começou a abrir lojinhas de reza. Ficavam na calçada, com megafone, chamando os consumidores.

Os escribas e fariseus ficaram apavorados: “Daqui a pouco vamos comer só arroz e feijão”. Quando os guardas do Templo baixavam nas lojinhas de reza, para reprimir a ilegalidade, os rezadores que aí estavam, açulados pelo dono e seus seguranças, gritavam em coro contra eles: “Cristo vem aí! A vinda de Cristo está próxima, arrependei-vos!”

Esse contra-ataque mortificava os fariseus. Era o correspondente, na época, ao nosso contemporâneo “trabalhador unido jamais será vencido”. Daí que a vinda de Cristo, ou do Messias, ou do Rei dos Judeus, era o terror dos fariseus.

Era por isso que podia aparecer qualquer profeta, ainda que de qualidade, com efetiva ligação com Deus, que os fariseus tachavam de falso. Até Jesus, que levantava defunto, tacharam de falso, para vocês terem uma ideia do reacionarismo do sistema jurídico-legislativo-eclesiástico da época. Quando não conseguiam comprar ou desmoralizar o profeta, matavam. Foi assim com João Batista e com Jesus; sem contar aqueles cujas execuções não saíram no jornal, porque o sistema conseguiu abafar.

Em todos os embates entre Jesus e os fariseus, a pauta não fugia disso: “Você é o filho de deus? Você é o Messias? Você é o chefe do reino de deus?” Jesus tergiversava, “vocês é que estão dizendo”… e tome ataque: “você é um impostor, um falso, um charlatão”… e a polêmica misturada com mistério e disputa dava muita audiência e visualizações e curtidas a ambas as partes.  

A TV descobriu o filão da audiência e programou várias entrevistas, dessas em que fazem de conta que são isentos e plurais e chamam um representante de cada partido. Era Jesus de um lado e mais de um fariseu do outro. Mas o ramerrão estava ficando chato, os homens da lei atacando e Jesus saindo pela tangente. Porque, afinal, Jesus não podia negar, Deus estava vendo. Também não podia confirmar, que ia direto ao apedrejamento. É, os judeus gostavam de matar na pedrada, quem matava na cruz eram os romanos. 

Pode ter sido nesses embates televisivos que Jesus desenvolveu o método dialético. Questionado sobre a data em que baixaria o Reino de Deus, Jesus, inicialmente, perdeu as estribeiras: “Mas como é possível vocês serem tão burros assim, hein!? Tão rasos, tão primários!? Isso aqui não é física, isso aqui é metafísica! Querem saber: a vinda do Reino de Deus não é observável (Lc 17, 20). Há muito mais coisas entre o Céu e a Terra do que supõe vossa vã Legislação. De repente, o Reino de Deus pode já estar no meio de vós” (Lc 17, 21). Claro que, engambelados pelas palavras dialética e metafísica, os escribas nem desconfiaram de que Jesus estava sendo literal. 

 

Casamento, pão e vinho

 

Não fossem as habilidades de Jesus, e o dono do casamento teria passado vergonha. Isso porque, no melhor da festa, acabou o vinho. E naquele tempo não era como hoje, em que a gente pode pedir uma entrega rápida em domicílio. Aliás, naquele tempo pouca gente vendia ou comprava vinho. Quase todo vinho que se tomava era de fabricação própria. E ainda não haviam inventado a cerveja, para distrair e empanzinar os convidados a baixo custo.

Mas acontece que a Virgem Maria estava nesse casamento, assim como toda a família de Jesus e ele próprio, e era amiga da mãe da noiva, acho, tanto que foi uma das primeiras a saber do fim da bebida, antes que o vexame se espalhasse. Porque acabar o pão ainda passa, mas acabar o vinho é o fim da picada. De qualquer maneira, Jesus era especialista em multiplicar tanto este quanto aquele.

Em sendo pão, o verbo é multiplicar, que tem a ver com fermento, ingrediente vital para sua fabricação. Em sendo vinho, o verbo é transformar ou mudar, por causa daquele ditado popular que diz, quando algo muda drasticamente, que mudou da água para o vinho.

A Virgem Maria, discretamente, só deu um esbarrão no filho e não disse mais do que “eles não têm mais vinho”. Jesus, que era excelente entendedor, só retrucou: “Oh, minha nos’sinhora do rosário! Esse povo num mi dá sossego! Ninguém me conhece ainda e estou bem assim, no anonimato”. 

É que Jesus ainda não havia demonstrado suas habilidades para ninguém, só a Nossa Senhora que sabia até então. Aliás, nem Nossa Senhora tinha certeza, só desconfiava, daí por que provocou Jesus, vendo-o alegre, com o último copo de vinho na mão. Mas, diante da resposta brejeira do filho, que conhecia desde criancinha, já foi logo dizendo aos serventes: “fazei tudo o que ele vos disser” (João 2,4).

Jesus pediu aos serventes que enchessem um barril vazio que estava próximo, com água, mas estava tão impaciente que acelerou até esse enchimento, aumentando artificialmente (milagrosamente) a disposição dos pachorrentos serviçais. Nunca um barril foi enchido tão rápido. Aí Jesus mandou novamente, dispensando qualquer encenação: “pronto, pode levá-lo pra cantina”.

Tudo aconteceu muito discretamente, o mestre dos vinhos, o que servia, simplesmente passou de um barril vazio para o cheio, que acabara de chegar, e, não fora sua mania de avaliar antes todo vinho que servia, a maracutaia teria passado em branco. Porque, quando provou, levou um susto. Era um vinho dos deuses!

Então, chamou o noivo: “Meus parabéns, rapaz! Você realmente não é um trapaceiro, como todo mundo, que serve primeiro o vinho bom, e deixa o sangue de boi por último, quando todos os paladares já estão embotados. Você deixou o bom para o final”. E o ingênuo e inocente noivo, em vez de ficar quieto, disse, bem alto, que não somente oferecera pouco vinho, como de um só tipo. Aí o mestre dos vinhos foi investigar e descobriu a trapaça toda e, no final das contas, creio que Jesus teve de sair correndo, diante dos conhecidos que acorreram, pedindo que também seus estoques fossem renovados.

 

Uma sacanagem do evangelista

 

Bem, como é de amplo e antigo conhecimento, Deus deu a Terra a Jesus. Explico: Deus já vinha se estressando com seu povo havia muito. Logo de cara, com Adão e Eva. Depois, com os filhos de Caim, de cuja raça Deus deixou só Noé. Com os herdeiros de Moisés, Deus teve desgostos seguidos, tanto que destruiu Jerusalém várias vezes, exilou-os várias vezes, e quanto mais castigava, mais insolentes ficavam, até forjarem uma classe dirigente da qualidade dos escribas e fariseus do tempo de Jesus.

Diante dessa tragédia reiterada, Deus desistiu deste planeta e entregou-o a seu Filho: “Filho, você toma conta da Terra. Faça o que você quiser com ela e com seus ocupantes. Passo-lhe uma procuração com plenos poderes, por toda a eternidade, sem cláusula de revogação. Não quero mais ouvir falar daquele povinho, ele é todo seu. Pode, inclusive, mudar completamente o modo como tratei seus ocupantes até hoje, em lugar do olho por olho dente por dente, pode propor paz e amor, pode até mudar o dia de descanso de sábado para domingo, não vou ficar ofendido. Escolha o modo como você quer tomar posse daquilo”.

Aí Jesus falou: “Tudo bem, ando meio ocioso mesmo, pode deixar que dou um jeito naquele povinho. Mas quero começar do começo. Quero nascer e crescer lá, para, quando chegar a hora, falar com propriedade”. Aí Deus: “Tá bem, é você que tá pedindo. Só te dou um aviso: cuidado com aquele meu povo!”

Era por isso que Jesus não podia ver um escriba, ou um fariseu que logo falava (ou pensava): “Hipócritas! Raça de víboras!” Aliás, não só Jesus, como João Batista. Claro, quando Deus mandava um profeta, o primeiro aviso que dava era esse: “Cuidado com aquele meu povo, quer dizer, com seus representantes”. Em conversa com aquela raça, mais uma vez Jesus avisou-os: “Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (Jo 5, 23).

E, então, diante da insistente dúvida burocrática do fim do mundo, do final dos tempos, da vinda do Messias, da hora do vamovê do Juízo Final, os escribas viviam questionando Jesus, e este lhes disse: “Querem saber? Quem me escuta e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a julgamento. Não se preocupem com esse tal Juízo Final: a hora é agora, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que o ouvirem viverão” (Jo 5, 24-25).

Como Jesus vivia complicando a linguagem, com suas firulas linguísticas, os escribas não entenderam que Jesus estava sendo literal. O julgamento acontecia naquele instante. Para ser julgado, basta estar vivo.

Tudo bem: vai vendo. Informados de que o Juízo Final é uma figura complexa de algo que pesa sobre todo vivente pela sua condição intrínseca de ter nascido, e que o cidadão nasce e vive dentro de um tribunal, os escribas não se conformaram e reafirmaram, logo depois da fala de Jesus, a velha cantilena de Daniel (Dn 12, 2): “Vem a hora em que todos os que repousam nos sepulcros ouvirão sua voz e sairão” (Jo 5, 27-29).

Oh, meu pai do céu, pois o próprio chefe da comitiva não havia acabado de afirmar que a hora é agora!? Só mudara o jargão: antes Deus descia com seus exércitos, agora Jesus descia com sua comitiva. Pois é, companheiras e companheiros, escriba e fariseu são osso duro de roer.


Atos dos apóstolos

 

Atos dos Apóstolos (At)


 

Final de semana

 

Só agora me dou conta de uma coisa: é sábado de sétimo; sábado é o sétimo dia da semana; logo, o último. Claro, o dia em que o Criador descansou. Trabalhou de segunda a sexta e descansou no sábado, após o trabalho realizado. Aí que está o detalhe. Não foi de segunda a sexta, mas de domingo a sexta. Sim, domingo é o primeiro dia da semana, portanto, antes do arranjo posterior, de que vou falar, domingo era dia de trampo, trabalhava-se de domingo a sexta.

Aí, não sei se por bronca dos judeus, que consideraram Barrabás melhor do que ele, ou se de birra dos escribas, que viviam censurando os milagres que realizava no sábado, ou se por ter ressuscitado nesse dia, o fato é que Jesus determinou que a gente trabalhasse de segunda a sábado e descansasse no domingo.

Mas acontece que esse negócio de guardar o sábado era um costume tão forte que grande parte do povo continuou trabalhando só até sexta, apesar de começar na segunda, conforme Jesus determinara. Aí, considerando que Jesus já estava no céu e não fazia mais milagres em nenhum dia da semana, Pedro e Paulo, procuradores de Jesus aqui na Terra, acharam melhor deixar por isso mesmo e aceitaram a semana judaico-cristã, que poderia ser chamada também de semana inglesa.  

Entretanto, essa pendenga durou quase dois milênios. Durante todo esse tempo, permaneceu essa estranha divergência entre cristãos e judeus: estes, seguindo a lógica, descansavam após trabalhar; aqueles, incompreensivelmente, descansavam antes de trabalhar.

Só podia ser desfeita, birra contra fariseu. Mas vejam que o farisaísmo dos escribas acabou prevalecendo: o sábado junto com o domingo passaram a ser chamados de fim de semana. Agora, sinceramente, desconfio que esse arranjo bom para ambas as partes foi coisa de uma terceira parte, neutra. Desconfio dos chineses.

 

Antibabilônia

 

O ícone Torre de Babel lembra confusão de línguas, certo? E o Pentecostes é uma espécie de antibabel. A coisa aconteceu mais ou menos assim:

Na Torre de Babel, Deus, puto da vida com a ousadia e a arrogância dos homens, que queriam se igualar a Ele, fez baixar do céu uma ventania, que não derrubou a torre, como os engenheiros estavam esperando, mas confundiu os operários, que não mais se entendiam entre si. O pedreiro pedia cimento, o servente servia-lhe brioches.

De tal maneira que não foi possível concluir a pretensiosa construção, porque os construtores não mais conseguiam sincronizar o trabalho: cada um ia para um lado, obedecendo à vontade própria, o que eu acho que, se hoje, seria chamado individualismo. Mas Deus, no Gênesis, preferiu a linguagem figurada, porque se fosse explicar, estaria falando até hoje sem ser entendido: os homens não mais se entendiam porque cada um passou a falar uma língua diferente.

(Mas parece que ninguém atentou para outro aspecto da lição da Torre de Babel: o contra-ataque, em geral, vem por um flanco inesperado; enquanto os construtores esperavam tempestade de vento, veio tempestade de línguas).

Já o milagre de Pentecostes, resumidamente, foi uma ventania que baixou sobre os homens, num momento em que eles estavam bem desorientados, se achando a titica do cocô do cachorro do dono do cavalo. Estavam juntos, queriam estar juntos, mas não sabiam o que fazer. Entendiam-se no trivial e se desentendiam no estratégico. A ventania lambeu os homens, que passaram a falar e a entender a língua de todos os homens.

Fico pensando... Por que, até hoje, nunca apareceu uma escola de línguas, dessas que prometem fluência em dois meses, mediante módica mensalidade, com o nome de Pentecostes? Ou Espírito Santo, que seja?

Porque, como está escrito lá no capítulo 2, do Atos dos Apóstolos: “Apareceram-lhes línguas como de fogo, que se repartiram e que pousaram sobre cada um deles. E todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas” (vs. 3 e 4).

Mas isso não foi para toda a população não, senão o que seria dos que investiram tempo e dinheiro na aprendizagem de outros idiomas? Foi só para os onze apóstolos (Matias ainda não havia sido sorteado para substituir Judas, o traidor) e algumas mulheres, dentre as quais a Virgem Maria, e também os irmãos de Jesus.

Exatamente aqueles que iriam animar o congresso dos católicos dispersos pelo mundo, que se encontrava reunido em Jerusalém; e a situação se avizinhava desesperadora, porque havia judeus de todas as partes do mundo, cada um falando uma língua diferente (sendo que naquele tempo não havia serviço de tradução simultânea).

E a prova de que o Espírito Santo, por essa época de multinacionalização do cristianismo, era uma espécie de professor de línguas pode ser encontrada também em At 19, 6: “E quando Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo veio sobre eles: puseram-se então a falar em línguas e a profetizar”.

Apesar de que esse negócio de entender línguas estrangeiras é muito relativo. Por exemplo, imagine um coreano num teretetê com uma finlandesa. Ou uma índia com um astronauta. É claro que vão se entender direitinho...

Você pode ser o monoglota mais empedernido, mas se for peregrinar pelo Caminho de Santiago, não só não vai sentir dificuldade nenhuma com as diversas línguas que terá de enfrentar, como vai se divertir.

Se você for participar de um congresso de sindicalistas revolucionários na Noruega, com delegados do mundo todo, também entenderá o que rola por lá, o espírito da coisa, apesar das diferentes línguas dos discursos.

Da mesma forma, ninguém deixava de se compungir com a missa, até os anos 1960, só porque era rezada em latim. O que determina o entendimento é o Espírito da Coisa. Entre Espírito da Coisa e Espírito Santo, foi um pulo...

De mais a mais, aqueles mascates de Jerusalém, relatados no milagre de Pentecostes, já deviam entender a língua de todo mundo havia tempos, considerando os êxodos e contraêxodos que haviam sofrido, transitando do Egito à Babilônia, passando por Alexandria, sofrendo ataques de gregos e romanos, tendo de enfrentar turcos e persas e filisteus, e, de quebra, tendo de entender as vontades da freguesia, cada uma em sua própria língua.

Porque um mascate que não entende a língua alheia não tem futuro; e, da mesma forma, um pregador sem lábia e com língua lerda.

 

Arrependei-vos!

 

Ia eu de bicicleta pela Praça da Sé, quando em minha retaguarda esquerda explodiu um “Sai Satanaiz!” Mais adiante, um homem muito magro e muito alto parecia que ia levantar voo, com o seu “Aleluia, irmão!” Mais umas pedaladas e uma mulher de olhos, cabelos, peles e roupas castanhos garantia a dois ouvintes que Só Cristo Salva!

E, do outro lado da mesma tipuana enorme, na borda da sua sombra, um homem negro empertigado, de paletó e gravata, anunciava para três que Cristo vem aí!

Mas o que me impressionou foi o mendigo que quase atropelei sobre a faixa de pedestre, aquela no canto da praça que dá para a rua Direita e a 15 de novembro.

O homem descalço e pálido de pele, calça, camisa e sujeira capengava, não sei se por algum problema no sistema locomotor ou se por causa do desequilíbrio provocado pelas cinco sacolas bem grandes, de conteúdos e tamanhos variados, que segurava com uma mão, enquanto com a outra segurava a calça larga e sem cinto que teimava em cair. Quando viu minha bicicleta inerte a cinco centímetros das suas canelas, soltou no chão tudo que segurava, empertigou-se em minha direção, como se fosse jurar bandeira, e me tascou um “Arrependei-vos!” com pronome e tudo.

Essa enorme introdução que tem a ver só com a minha pessoa e com o tempo presente foi por causa do discurso de Pedro ao povo de Jerusalém, logo após o milagre de Pentecostes. Quer dizer, o povo não sabia do milagre, que se operou a portas fechadas só para os apóstolos e mais alguns, como vimos na crônica anterior. O povo babava perante Pedro por causa da sua desenvoltura linguística.

O populacho gosta de uma língua falastrona e enrolada, de desentendê-la. Pedro, nos bastidores do congresso, despachava com ucranianos, costa-riquenhos e moçambicanos com a desenvoltura de um papo de boteco, e os seus conterrâneos só ficavam assuntando de longe.

Aproveitando o campo magnético gerado, danou-se a lembrar a patuleia de que aquele que preferiram na cruz a Barrabás, se é que eles quisessem saber, era tão inocente que nem os bichos puderam comer a sua carne: subiu aos céus em carne e osso etc. Ouvindo isso, eles sentiram o coração traspassado. “Tá bom, e agora, o que devemos fazer, então?” Aí Pedro: “Arrependei-vos!” Sim, mas não é só isso. Arrependei-vos e, em seguida, formem fila ali na sacristia, para pegar a ficha do batizado e pagar a taxa.

Só sei que naquela tarde foram cerca de três mil pessoas batizadas (At 2, 37-41). E estava sacramentada a fórmula de terminar sermões e pregações com essas exortações apocalípticas ou escatológicas, que os comunistas copiaram, no encerramento de seus manifestos, vinte séculos depois.

 

Esmola & aleijado

 

Esse “aleijado” aí é de São Lucas, não meu.

Pedro e João (só faltava Antônio, para virar uma festa junina) se dirigiam ao templo, para fazerem a oração das três da tarde. Aí um aleijado profissional, que fazia ponto na passagem do caminho que ia dar na porta em que eles costumavam entrar, esticou-se todo na direção dos dois, pedindo uma esmola pelo amor do deus dos católicos, porque o homem era aleijado, mas não alienado.

O esmoler sabia que então havia dois deuses: o dos judeus e o dos católicos. E que, depois da safadeza que os judeus fizeram com o deus dos católicos, havia uma animosidade entre as partes, a coisa estava politizada e polarizada. Lembrando sempre que essa polarização se dava dentro do mesmo partido, o partido de Iahweh, cuja sede era o templo ao lado. Havia pouco tempo que a facção dos fariseus condenara o líder da facção contrária, e as feridas estavam vivas na memória da militância em geral. O esmoler, como todo bom profissional, agradecia em nome de um ou de outro deus, conforme os doadores.

Diante do pedido, Pedro parou e olhou bem para o sujeito estrebuchado no chão; que um bom pedidor de esmolas sabe se estrebuchar no chão. “Escuta, cara, você quer que eu te dê um peixe ou que eu te ensine a pescar?” O aleijado titubeou, como quem não tivesse entendido. “Você quer esta nota de 50 ou quer andar?”, perguntou Pedro, que devia estar recebendo já alguma grana adiantada, por conta do futuro papado. Aí o aleijado ficou atônito. Como velho profissional da via pública, pensou rápido e negociou: “Não pode ser as duas coisas?” Pedro olhou para João e cochichou: “Eu não te falo que esse povo é de amargar”. E para o aleijado: “Não, é um ou outro”. E o aleijado pensou: “O que que adianta poder andar, se não tem emprego?” E escolheu os 50 paus, cunhando, creio, o famoso ditado: vale mais 50 paus na mão do que um salário mínimo voando. 

Bem, o livro dos atos dos apóstolos diz que Pedro nem esperou a resposta do aleijado, e já foi ordenando que ele se levantasse e andasse e não enchesse mais o saco. O autor era linear e cartesiano em sua esquemática fé e não dava espaço para tergiversações. O senso comum, numa situação dessa, nem imagina que o aleijado possa preferir os 50 reais; o senso comum acha que, sim, ele escolheria andar.

Andar, ficar feliz e contar para todo mundo, que imediatamente fez uma roda em volta dos dois milagreiros. Pedro, então, como todo bom papa, aproveitou para dar uma lição de moral: “Milagroso, eu? Não, quem fez essa proeza foi Jesus, aquele que vocês mataram”.

É claro que os circunstantes retrucaram: “Putz, que besteira que fizemos, não? E agora, o que será da gente?” Pedro já estava craque nessa cena: “Ora, não se preocupem, vocês podem ser perdoados”. Como? “Ora, arrependei-vos! (At 3, 19) e convertei-vos!”

 

Ignorantes, mas intrépidos

 

Pedro e João contavam a quem quisesse ouvir da sacanagem dos fariseus contra Jesus.  Porque, naquele tempo, Jesus não era famoso como hoje. Pouca gente ficou sabendo da sua condenação e execução.

Estão lembrados de que eram três cruzes para suspender três bandidos? Mais precisamente: dois ladrões e um subversivo. E essa conta só não ficou empatada em dois a dois, porque Pilatos perdoou Barrabás, lembram? Era um tempo de miséria e agitação e, sim, Jesus foi apenas mais um…

Lembram dos falsos profetas? Sim, não era muito diferente de hoje, havia profetas de várias tendências e Jesus era mais um, assim como João Batista. Acontece que Jesus era iletrado e desclassificado, mas não era bobo. Percebeu que, por mais milagre que fizesse, ele sozinho não tinha futuro. Percebeu que era necessária uma luta de longo prazo e toda luta de longo prazo só pode ser feita pela via coletiva.

Tratou logo, então, de organizar seu partido. Organizou uma executiva com 12 membros, porque os judeus eram invocados com esse número desde Jacó, com seus 12 filhos.

Jesus, além de não ser bobo, era sagaz. Porque, às vezes, a gente não é bobo, mas também não é esperto, sabe como é?

Quase todos somos assim, a gente não faz grandes besteiras, só pequenas… Jesus não fazia besteira nenhuma, aí que está a diferença. E, por isso, preencheu os 12 cargos com gente da sua laia, entenderam? (Tudo bem, Paulo tinha instrução e posição social, mas só entrou no partido depois que Jesus morreu. E, vai saber, pode ser que a Igreja resultou mais parecida com Paulo do que com Jesus).

Sim, Pedro e João eram homens iletrados e sem posição social (At 4, 13), mas, diante do Sinédrio – para onde foram levados, após terem sido presos em frente ao templo enquanto contavam a todo mundo da sacanagem contra Jesus –, pareciam grandes advogados, tamanha a desenvoltura com que reafirmavam a inocência e o programa de Jesus, enquanto discorriam sobre as Escrituras.

Raramente alguém do povão se metia a falar na frente dos sabichões, ainda mais numa sessão solene. O Sinédrio era o Congresso Nacional deles, em que pontificavam escribas e sacerdotes e anciãos, ou seja, juízes, rabinos e deputados. Dentro do sistema de partido único chamado Judaísmo, havia a tendência dos saduceus (a elite) e dos fariseus (a classe média). E Jesus ousou formar uma terceira tendência — a dos pobres —, para disputar esse butim.

O fato é que Jesus escolheu a dedo e deixou 12 decididos dirigentes, cuja intrepidez deixava esses tais saduceus atônitos. Como pode essa fluência toda nesses ignorantes?

Mas é que a injustiça que fizeram com Jesus foi tamanha que não tinha como. Jesus havia aberto os olhos ao menos daqueles doze. O fato é que alguém esclarecido e indignado fica com o espírito no corpo. Os saduceus não entenderam. Era mais que intrepidez, era obstinação. Era uma comichão atravessada no corpo, não havia como ficar quieto.

 

Comunismo

 

Claro que Jesus havia mostrado e demonstrado por A mais B aos seus seguidores a tremenda injustiça social reinante ali e alhures, mas longe dele, imagino, dizer que a solução para aquela safadeza era o comunismo. No máximo um socialismo democrático, talvez.

Mas a turma do bem-bom era tão empedernida que nem um moderado aceitaram, e acabaram com a raça de Jesus. Mas não com a de seus seguidores. Aliás, nem com a raça de Jesus acabaram: Tiago, seu irmão, foi chefe da Igreja em Jerusalém, em substituição a Pedro, e até contribuiu para a Bíblia com uma epístola.

Enfim, os do andar de cima radicalizaram primeiro, crucificando o líder popular. Por sua vez, não restou outro caminho aos remanescentes, senão a radicalização contrária: o comunismo! E daquele comunismo mais ortodoxo: sabe aquela história do “a cada um segundo a sua necessidade”? (At 4, 35).

Era! “A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4, 32). Um cipriota de nome José, que os apóstolos cognominaram Barnabé, vendeu sua terra e pôs o dinheiro na caixa comum.

Porém… sim, a coisa era bonita, mas Ananias e Safira foram os primeiros de muitos poréns. Esses dois, marido e mulher, venderam uma propriedade e puseram o dinheiro na caixa comum. Beleza!, mais que bonzinhos, heróis! Acontece que não depositaram tudo, ficaram com uma parte. Declararam, entretanto, que a doação era tudo. O problema não era dar ou não dar o dinheiro, mas mentir. Eles poderiam não dar nada, mas nesse caso não seriam chamados de comunistas. Poderiam dar apenas uma parte, declarando-o, entretanto. Nesse caso, seriam chamados no máximo de simpatizantes.

Mas não, pretendiam ficar com um pé em cada canoa. Deram uma parte e saíram se vangloriando de que ficaram sem nada, de que o que havia sido deles agora era de todos. Então, Pedro, esperto que só (não foi à toa que Jesus o nomeou para ficar lá na porta do Céu, checando a ficha de cada um), foi logo encarando Ananias: “Cara, você é safado!” Ananias nem esperou pelo resto do sermão, já foi logo caindo e morrendo. Inclusive, pelo que parece, havia uns rapazes especialmente destacados só esperando para levar e destinar o corpo.

Daí a pouco, lá vem a mulher de Ananias, Safira, com a mesma cara de sonsa do marido. Pedro: “Então, Safira, por quanto mesmo venderam o terreno?” A resposta dela bateu com a dada pelo marido, cerca de três horas antes. Aí Pedro: “Quer dizer que vocês dois combinaram direitinho, né! Minha filha, mentir para nós é feio, mas para Deus, além da feiura há a tolice, eis que Ele tudo sabe. Tá vendo aqueles jovens que vêm entrando, lá? Então, eles vêm voltando do cemitério, aonde foram enterrar seu marido; eles levarão também a ti” (At 5, 9). Diante de tão peremptória notícia, não restou alternativa à Safira senão estrebuchar no chão e expirar. Os rapazes levaram-na e a enterraram junto ao corpo do marido. Vejam que não é de hoje que os dirigentes comunistas são clarividentes e implacáveis…

 

Helenistas e Hebreus

 

Escrevi lá atrás sobre o choque entre o monoteísmo hebreu e o politeísmo grego. Isso começou quando o primeiro navio grego aportou no litoral da Palestina (o contrário é improvável, sabe como é, judeu gostava de deserto, não de mar; até então, basicamente, a única experiência de navegação era a da arca de Noé).

Então houve o choque entre o helenismo grego, com seus filósofos e protagonismo civil, e o judaísmo hebreu, com seus profetas (teólogos) e sacerdotes. Em Atenas, a Ágora; em Jerusalém, o Templo. E esse costume de judeu se espalhar pelo mundo, depois voltar para Israel, já era comum muito antes de Jesus. Tanto que em Jerusalém havia sinagogas onde se lia a Bíblia em grego e sinagogas onde se lia a Bíblia em hebraico.

Grosso modo, não se misturavam. De um lado, os judeus cosmopolitas, que haviam viajado e vivido em outras partes do mundo e, ainda que morando em Jerusalém, só falavam em inglês e até o chocolate importavam de Miami; estes eram os helenistas. De outro lado, o povinho da terra, que nem sabia direito onde ficava o Aeroporto de Cumbica e mal pensava e falava em aramaico; eram os hebreus.

E, nas primeiras missas católicas, os helenistas tentaram reproduzir o costume da divisão das sinagogas (At 6, 1). Porque os helenistas, apesar de em menor número, estavam em toda parte – até entre os partidários de Jesus – e eram influentes, impressionavam e muitas vezes se impunham com uma palavra estrangeira bem-soante entremeada na falação.

Só que, nessa época, o padre era sempre um dos batutas escolhidos por Jesus; no primeiro buchicho que houve, Pedro, ou talvez João, sei lá, um dos doze, chamou a turma de lado: “Escuta, gente, aqui não é a sinagoga não. Aqui é a Igreja de Roma, que tal, então, para agradar a gregos e hebreus, se a gente falasse latim?”

Mas depois de muita gente reclamar do péssimo ensino de latim nas escolas e do ótimo ensino de latim nos seminários, decidiram que falariam em português, mas a missa seria rezada em latim. Porém Pedro sabia que não bastava gastar o latim, era preciso dar expressão organizativa àquela diferença real. Sugeriu, então, que esses “estrangeiros” se organizassem, com um representante de cada país onde haviam morado.

Deu sete; dentre eles Estevão, que ficou tão entusiasmado que saiu pregando em praça pública adoidado e foi logo convocado a dar explicações no Sinédrio; seu longo discurso lá deixou os parlamentares tão possessos que nem esperaram pelo julgamento formal, já o arrastaram para fora e o mataram a pedradas (At 7, 59), sendo considerado o primeiro mártir católico (Jesus nunca foi católico).

 

Agora é Roma

 

E não é que os anjos começaram a atacar os romanos? Atacar não, assediar. Cutucar. Inspirar. Avisar. Até então, anjo só aparecia para judeu. E judia, claro. Mas, pela época em que os apóstolos de Jesus começaram a contar para todo mundo do acontecido, da safadeza de terem crucificado um inocente, apareceu um anjo para um romano, o centurião Cornélio (At 10, 3). O anjo mandou Cornélio chamar Pedro, para ouvir dele o que tinha a dizer. Imediatamente, Cornélio enviou mensageiros a Pedro, para chamá-lo, contando o acontecido.

Claro que Pedro foi, porque quem está iniciando uma empreitada não escolhe freguês. Lá chegando, havia uma pequena assembleia de parentes e amigos de Cornélio, para ouvi-lo. Pedro ficou animado: os imperialistas e politeístas querendo ouvir um monoteísta? E danou-se a falar: “Dou-me conta, em verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça, lhe é agradável” (At 10, 34-35). Eis o pulo do gato, o ovo de Colombo da nova religião!

Eis o real motivo da bronca dos dirigentes do templo judaico para com os seguidores de Jesus. Eram diversionismo as acusações de profanar a Lei, trabalhar no sábado, comer em casa de gentios, afirmar que Jesus era o Cristo.

No fundo, percebiam que se tratava de uma dissidência grave, a caminho do cisma: aqueles capiaus queriam fundar uma nova religião! Era um movimento separatista, enfim. (A Tendência interna dos jesuítas foi denominada O Caminho pelos judeus tradicionais.)

Do outro lado, Deus articulava os romanos. Ora, que outro nome poderíamos dar, senão articulação, ao envio do anjo ao militar romano? Sim, Deus articulava um expansionismo sem precedentes. Nada de se restringir aos judeus, em detrimento dos demais.

Aliás, Deus já tinha essa estratégia desde quando fez os judeus condenarem seu próprio filho, desencadeando nos outros povos, em momentos específicos e convenientes, um ódio que nem Ele poderia suspeitar. Claro, eram os efeitos colaterais do antagonismo, crucial para mobilizar e consolidar a nova religião. Daqui a pouco Deus vai sugerir Roma como sede, quer apostar?

 

No caminho de Damasco

 

Havia em Jerusalém um tal Saulo de Tarso, que era bate-pau dos fariseus, uma tendência interna ao famoso partido de nome Judaísmo. Saulo, de Tarso, da cidade de Tarso. Esse tal Saulo era mais que bate-pau. Era pau pra toda obra. Jogava de goleiro e de centroavante. Cobrava o escanteio e corria pra cabecear. Ele argumentava e dava porrada. Discutia e prendia e era tão bom numa quanto noutra modalidade.

Na parte civilizada, usava não só passagens da Torá como ia mais longe. Citava de cabeça de Pentateuco a Malaquias, passando pelos históricos e sapienciais. Ajudava a condenar e depois a crucificar. E era certeiro nas pedradas. São raras as pessoas eficientes nesses dois terrenos, porque em um é preciso sutileza e paciência, além de conhecimento e perspicácia, e, no outro, basta truculência; sendo que, em geral, uma coisa exclui a outra. Mas Saulo de Tarso era brilhante em ambos.

Saulo era brilhante e atuante. Tinha energia, iniciativa, ousadia, tanto que foi destacado para perseguir os partidários de Jesus em Damasco (At 9, 1). Isso foi logo após a morte a pedradas de Estevão, quando o tempo fechou em Jerusalém. A hierarquia judaica passou a perseguir até a sombra da memória de Jesus.

Então os apóstolos e os diáconos (os seis representantes – Estevão estava morto – dos helenistas entusiastas de Jesus), e todo mundo que estava se destacando como memorialista ou agitador junto ao populacho teve de se mandar dali. E se espalharam pelas cidades da região, sendo Damasco uma das mais próximas. Assim, estava infestada de subversivos, na visão de Saulo e seus chefes. Saulo e um destacamento de arapongas-bate-paus dirigiram-se para lá, para prender e levar para Jerusalém aqueles terroristas.

Acontece que Jesus, sentado à direita do Pai, lá de cima acompanhava a caravana e havia decidido levar Saulo para seu time. Ora, se tá cheio de palmeirense que, mediante um bom contrato, faz muitos gols pelo Corinthians, era possível fazer aquele craque jogar para Ele. Porque craque é craque, não importa a posição nem a agremiação.

E Jesus não tinha dinheiro, essa versão deveras humana de poder. Jesus tinha a luz do raio e a voz do trovão. E foi com elas que impressionou Saulo: “Saul, Saul, por que me persegues?” (At 9, 4); “quem és, senhor?”; “Eu sou Jesus”… Saulo, além de impressionado com a tecnologia, foi tocado pela intimidade de Jesus, com aquele Saul, que, parece, só era chamado em família, pela mãe, os irmãos, os primos.

Ora, que Jesus era um mestre da empatia todo mundo sabe. Jesus convencia e seduzia e, com Saulo, chamou-o a pôr a mão na consciência, reconhecer o ridículo de ser um entusiasta daquela aristocracia vagabunda, corrupta e sanguinária, e se colocar na pele de seus irmãos fugitivos. Mais, se juntar a eles.

Bem, o fato é que, com aquela tempestade de relâmpagos diretos na cara de Saulo, ele teve suas vistas ofuscadas, tanto que não enxergava um palmo à frente do nariz. Aí Jesus aproveitou o titubeio e falou: “Vai, amigo, entra na cidade e lá já vai ter alguém dos nossos te esperando, para lhe dizer o que fazer, além de te devolver a visão”. Jesus foi tão hábil no convencimento, tão certeiro, tão sucinto, que Saulo nem se lembrou de contra-argumentar, tampouco dos milhares de capítulos e versículos que trazia à ponta da língua.

Saulo aderiu a Jesus de tal forma que acho que nunca nem parou para pensar na mudança, tamanha a urgência com que saiu Império Romano afora a converter gentios. E o cartola retribuiu, dando a ele o status de apóstolo, apesar de não o ter conhecido pessoalmente. 

 

Cristãos

 

Quando ficou claro que aquela ralé atrevida e insolente era mais entusiasta de Jesus do que de Moisés, a luz vermelha acendeu e a aristocracia cheirosa da zona sul levantou e rasgou todos os véus, baixou a ditadura e tocou o terror na patuleia. A primeira vítima foi Estevão, morto a pedradas sem qualquer julgamento formal, à porta do Congresso Nacional e sob as vistas dos ministros do supremo.

E sabem quem entre eles, acho que até gritando “lincha! Lincha! Lincha!”? Um tal Saulo, da cidade de Tarso. Saulo de Tarso. Isso mesmo, o nosso Paulo. São Paulo, isso! É, entre os judeus, era moda isso de chamar as pessoas por um apelido nada a ver. Por exemplo, Simão era chamado de Pedro, o nosso São Pedro! E Saulo era chamado de Paulo.

Mas em Antioquia, Saulo já era Paulo, já havia passado pelo Caminho de Damasco e para o outro lado. Antioquia, então capital da Síria, província romana, às margens do rio Orontes, hoje é a moderna Antáquia, território da Turquia. Era a terceira cidade do Império Romano, depois de Roma e Alexandria. Situava-se no vértice norte do fundão do mar Mediterrâneo, enquanto Alexandria, no delta do Nilo, dominava o vértice sul.

No meio dessa linha imaginária entre as duas metrópoles, Jerusalém e Damasco, a Síria, a Fenícia, a Palestina. No mar, perto, a ilha de Chipre. Mais lá longe, Atenas. E muito longe, por mar, Roma. E o Mediterrâneo e o Egeu e o Adriático, com suas águas impassíveis e navegáveis, lambendo as praias.

Antioquia, além de grande e importante, situava-se numa posição geográfica intermediária aos principais centros de poder do Império. Paulo assuntou bem e, junto com Barnabé, fundou uma grande filial da Igreja de Jesus, destinada a ser sua base operacional para toda a região, da Síria a Roma, passando pela Macedônia e a Grécia.

Aí, não sei se escreveram na placa “Igreja dos Cristãos” ou se o substantivo-adjetivo surgiu da boca do povo, o fato é que ali, pela primeira vez, os partidários de Jesus receberam o nome de Cristãos (At 11, 26). Uma marca forte, digamos.

 

Pedro se safou daquela

 

Bem, como já dito, o mar não estava para peixe, nem para seguidor de Jesus, em Jerusalém, depois que a alta hierarquia eclesiástica se desiludiu de vez com aquela terceira tendência de caráter popular que começava a nascer dentro do esquema judaico.

Herodes já havia mandado matar o apóstolo Tiago, irmão de João; Estevão já havia sido morto a pedradas; o eficiente Paulo já havia desertado para as lides dos insurretos.

E tudo isso sob a batuta de Pedro, que a cada dia que passava mais esquecia o pescador que fora e mais lembrava o papa que seria.

E sabe quem era um dos mais eficazes auxiliares de Pedro? Tiago. Não o Tiago apóstolo, que fora passado no fio da espada de Herodes, mas o Tiago irmão de Jesus. De fato, o irmão de Jesus era chefe dos hebreus, aqueles que, em conjunto com os helenistas, integralizavam o partido dos seguidores de Jesus em Jerusalém.

Claro, então, que Pedro era caçado por Herodes. Esse Herodes era o neto do outro Herodes, aquele que havia mandado matar o bebezinho Jesus, aquele dos reis magos, lembram? Pois naquele tempo, em Jerusalém, havia dois poderes: o local e o imperial. Herodes era o rei local e o poder imperial era do procurador romano. Em todas as províncias do Império Romano, o esquema era esse.

Os imperialistas não mudam nunca…

Sim, havia uma certa divisão de competências entre esses dois poderes, para não virar bagunça e também para livrar a cara da subalterna aristocracia local. Mas na hora do vamovê, quem tinha os tanques e os soldados decidia, e quem decidia era o procurador romano (só para se situarem, Pôncio Pilatos, aquele que lavou as mãos, era procurador romano).

Esse perene e latente conflito se manifestava frequentemente nas prisões. Porque as prisões eram guardadas por soldados romanos, mas os presos, em geral, eram mandados para lá pelos escribas e sacerdotes e seu rei (o poder local).

Se o preso soubesse explorar esse conflito, não era incomum que um anjo, altas horas da noite, baixasse na cela e o libertasse. E foi isso que aconteceu com Pedro, que finalmente fora preso por Herodes, que aguardava apenas a passagem da Páscoa para acabar com ele.

Alta hora da madrugada, Pedro, livre, bateu na porta do aparelho, que funcionava na casa de Maria, mãe de João Marcos, aquele do segundo evangelho. A criada, Rode, coitada, quando foi atender a quem batia e ouviu a voz de Pedro, nem abriu a porta de tão assustada, certamente pensando que Pedro voltava do Além… (At 12, 13). Mas, enfim, Pedro entrou, relatou o acontecido aos que se encontravam reunidos, e saiu de cena por um tempo.

Porém, vejam como a turma de Pedro já era forte, rogaram tanta praga misturada com as rezas, por ocasião da prisão do futuro papa, que o Herodes da vez não demorou a partir desta para pior, roído pelos vermes.

 

Paulo: o fiasco de Atenas

 

Você já deve ter ouvido algo do tipo: nosso mundo ocidental é greco-romano no civil e judaico-cristão no religioso. Bem, acho que, de fato, isso vem desde Adão e Eva, considerando que essa história começou numa das beiradas do Mediterrâneo, berço da tal civilização.

Na Bíblia, salvo engano, a civilização grega é pela primeira vez confrontada no livro de Macabeus, que se refere às lutas dos judeus contra os sucessores do império de Alexandre da Macedônia, cerca de dois séculos antes do nascimento de Jesus.

Enfim, Paulo chegou em Atenas e se pôs a revelar a nova verdade, como se estivesse em Jerusalém ou na Turquia. Não sei se ele se fazia de desentendido ou se não tinha noção mesmo de onde estava pisando. Paulo, acostumado com um deus único e invisível, desde os tempos de judaísmo ferrenho, via deuses pra todo lado em Atenas, em sólidos ouro, ou bronze, ou barro, cada um diferente do outro; havia deuses para todos os gostos e necessidades e, pasmem, havia até deusas! Claro que Paulo ficou escandalizado com tamanha heresia.

Paulo começou a desconfiar de algo muito estranho naquela gente quando percebeu que até os judeus da sinagoga eram meio filósofos… Na Ágora, então, era epicureu pra cá, estoico pra lá, e ninguém, nenhum teólogo. Profeta, nem pensar! Eram tão desinformados que tomaram a Ressurreição, que Paulo vivia citando, como uma deusa companheira de Jesus (At 17, 18).

Mas o palrador o fazia com tanta ênfase, tamanha convicção, que alguém o tomou pela mão e falou: “Tudo bem, cara, parece que você tem algo novo a dizer, vamos lá no Areópago, que aqui na praça é desconfortável, lá tem cadeiras, sistema de som e intelectuais, para ouvir e avaliar. Lá é bom, acho que até filmam, pra passar no Youtube”. 

Paulo, culto orador e polemista de primeira, gostou do profissionalismo dos bastidores do Areópago. E, para mostrar àqueles finórios que manjava também de certa filosofia, misturou à sua arenga traços de algum helenismo pescados nas histórias de Antíoco Epífanes e Simão Macabeus e alguma coisa que havia pesquisado de última hora na Wikipédia, acho.

Mas, quanto mais falava, mais a plateia achava graça. Paulo estava acostumado com o rancor saduceu, com o literalismo fariseu, com a oposição ferrenha, mas de mesma natureza, que encontrava no Sinédrio. À crítica aos ídolos de barro ou de ouro, um ou outro da plateia respondia com Homero, ou Hesíodo, Platão, ou Aristóteles.

Ao argumento de deus verdadeiro, criador do céu e da terra, o filósofo de plantão respondia com uma estranha conversa de Literatura e Personagem, Figura e Símbolo. Quando Paulo encasquetou com a tal Ressurreição, aí que o auditório veio abaixo em gargalhadas.

(Enquanto isso, num canto, o cidadão que havia levado Paulo para discutir com os filósofos balançava a cabeça, creio, pensando que deveria saber que sempre será improdutiva uma discussão entre um crente e um cético.)

Eu sei que Paulo saiu de lá debaixo de vaias e jurou nunca mais sair da sua praia, na hora da disputa ideológica. De agora em diante, tomaria mais cuidado com o ambiente e a excessiva informalidade. Evitaria os ambientes civis e só argumentaria com Cristo vem aí, Arrependei-vos, No final dos tempos, todos ressuscitarão para serem julgados e Jesus ressuscitou, e Pecado, e Batismo, sem nunca sair da conhecida ladainha escatológica e apocalíptica, apimentada com alguma notícia policial… sempre com voz empostada, muita ênfase e razoável solenidade.

Que povo mais besta: nenhuma ameaça de morte, nenhum ranger de dentes, só galhofas. Mas, ao final, apesar do fiasco, não é que Paulo conseguiu converter Dâmaris! (At 17, 34).


 

Cartas de São Paulo

 

Romanos (Rm)

Primeira aos Coríntios (1Cor)

Segunda aos Coríntios (2Cor)

Gálatas (Gl)

Efésios (Ef)

Filipenses (Fl)

Colossenses (Cl)

Primeira aos Tessalonicenses (1Ts)

Segunda aos Tessalonicenses (2Ts)

Primeira a Timóteo (1Tm)

Segunda a Timóteo (2Tm)

Tito (Tt)

Filêmon (Fm)

Hebreus (Hb)


 

Pedra de tropeço

 

Acho que descobri onde Carlos Drummond de Andrade achou a pedra que tinha em seu caminho. Foi no versículo 32 do capítulo 10, da Carta aos Romanos, de Saulo, o nosso popular São Paulo.

Quer dizer, essa exata palavra – tropeço – acho, sim, que é ali que aparece pela primeira vez, ao menos na edição em que estou pesquisando. Já foi chamada de Pedra de Alicerce (Isaías, 28, 16) e Pedra Angular e até Pedra de Escândalo, mas Pedra de Tropeço é a primeira vez.

Fiquei sabendo, dos meus tempos de moleque, que alguns punham quatro tijolos dentro de uma caixa de sapato e a deixava dando sopa num local de passagem. Era um tempo em que as pessoas andavam com a alma e os pés descalços e todo par de sapatos vinha da loja dentro de uma caixa de papelão.

Alguém de alma leve taca pedra, caça borboleta e chuta tudo que é chutável que se apresenta. E uma caixa de sapato largada na via pública é um objeto chutável. Claro que é uma molecagem, porque muita gente quebrou o dedão ao chutar a caixa pensando que estava vazia.

Da mesma forma, a Pedra de Tropeço é colocada em nosso caminho sabe por quem? Por Deus! Lembram do coitado do faraó ante Moisés, que Iahweh não deixava esmorecer, só para exercitar sua artilharia de pragas (Ex 9, 12)?

Iahweh oferecia o petardo a Moisés, ensinava-o a usar, e já adiantava que seria fatalmente usado – fazer decolar um caça de milhões de dólares e voltar sem nem um tiro é desperdício – porque endureceria o coração do faraó, que não negociaria e, daí, seria castigado. Porque Deus faz misericórdia a quem quer e endurece a quem quer (Rm 9, 18).

Evidente que uma pedra no meio do caminho será sempre passível de tropeço, especialmente pelos indolentes; sabe esses caras que, de tão relapsos, andam arrastando os pés, sem disposição para elevá-los minimamente na hora de trocar os passos? Também aos afoitos, aos desatentos, uma pedra escandalosa costuma provocar um atraso de vida. Tubo bem, mas, se o cidadão tem fé, não tem perigo.

Sim, essa conversa de pedra de tropeço de São Paulo, cuja ideia por trás foi explicitada lá no começo do mundo, quando quase não havia caminhos, que dirá metrópoles, é para dizer pra gente que não adianta andar prestando atenção no terreno, devidamente calçado, se a gente não tiver fé. Porque, de repente, uma pedra cai do céu e vai se postar ali em sua frente, depois que você já tirou o olho daquele ponto…  

Não adianta folgar no sábado o ano inteiro rigorosamente, só comer comida kosher, operar da fimose, se Iahweh manda Jesus Cristo todo liberal nos costumes para atravessar seu caminho. Grosso modo, nesse negócio de pedra marota para nos derrubar, ou paraíso a conquistar, Deus prefere um cara distraído e descalço, mas entusiasmado, a um metódico pedestre todo equipado e cheio de razão e marasmo.

 

A lei e o amor

 

Mas claro que, se um inocente matar a mãe, continuará inocente. Alguém que ignora a norma elementar de que não se deve matar um semelhante pode matar a própria mãe sem culpa. Isso quer dizer que basta ser normal para estar debaixo do tacão da Lei, quero dizer, da norma, do costume, do correto. Não é preciso lei.

Aquela máxima de que não há crime sem lei anterior que o defina é conversa de advogado. O cidadão sabe o que é certo e o que é errado, independentemente da lei. Mas, se ainda assim, resolvem baixar a lei, devidamente escrita e, pior, acompanhada dum batalhão de juízes e tribunais, e promotores, e advogados, isso só vai piorar as coisas, só vai provocar e avivar, e lembrar aos potenciais criminosos.

Mal comparando, a polícia desarmada de Londres é menos provocativa do que a Rota na Rua de São Paulo, capital. A lei produz a ira; onde não há lei, não há transgressão. Onde arranjei tamanha sandice? Tá lá em Romanos, 4, 15: “Mas o que a lei produz é a ira, ao passo que onde não há lei, não há transgressão”.

Essa arenga de Paulo foi para se contrapor aos seus patrícios judeus, com a conhecida mania de obedecer à Lei de Moisés até debaixo d'água. Paulo dizia que aquela Lei fria e rígida, além de desatualizada, só servia para gerar pecados, ou seja, existia para ser desobedecida e fazer a festa dos operadores do direito da época.

Inclusive, muita gente que olhava para a vizinha com olhar sonhador ficou sabendo, depois que viu escrito na Lei, que aquilo era concupiscência e pecado, portanto. Outra vez não sou eu que invento, mas Paulo que afirma, em Rm 7, 7. Aliás, o santo Jesus foi processado e condenado por essa Lei.

Eu sabia que ia dar nisso, falar de Lei e de Amor: Moisés versus Jesus, judeu contra grego, burocrata contra apóstolo.

Os guardiões da Lei dormiram no ponto e, de repente, descobriram que estavam por baixo da carne seca, tudo por causa de uns malucos que se danaram a pregar o amor. Ora, para os beligerantes sacerdotes do templo e seus ciosos escribas, embalados pelos exércitos de Iahweh, o amor era transgressivo porque, sei lá, onde já se viu guerra e amor?

Eu particularmente acho que pura e simplesmente os da Lei acharam uma afronta aquele bando de iletrados ignorantes quererem falar de igual para igual com eles. Mas, grosso modo, o que estava em disputa ali era se mais valia uma lei sem alma ou uma alma sem lei. Aqueles subversivos estavam dizendo que bastava a fé. A boa-fé.

Certamente não é um detalhe, porém, o fato de que os da Lei queriam-na circunscrita ao povo eleito de Deus, enquanto os do amor queriam-no universal.

 

Zelo esclarecido

 

Sabe aquele zeloso e esforçado horticultor, todo dia de sol a sol cavoucando, e plantando, e transplantando, e limpando, e regando, e aparando, e catando as pragas?

A sua horta não vai para frente se, apesar do esforço, fizer tudo errado. Plantar de semente o que deve ser plantado de estaca e vice-versa, não observar as épocas propícias de plantio, regar demais ou de menos, não usar esterco, deixar as galinhas entrarem.

Sabe aquele funcionário que é o primeiro a chegar e o último a sair, que não para um minuto para descansar, por isso não tem tempo para pensar? Aquele zagueiro impecável em seu uniforme, mas perna de pau e fora de forma? Aquele evangélico praticante que diz que todo pobre é pobre porque não se esforçou ou que bandido bom é bandido morto?

Então, quem me lembrou esses tipos foi Paulo, em Romanos 10, 2, em que diz, a respeito dos judeus, em relação a Deus serem zelosos, sim, mas zelosos não esclarecidos. Guardam o sábado, não comem frango destroncado, cortam o prepúcio dos bebezinhos, rezam na hora certa e, na hora do vamovê, desprezam os gentios.

Tá certo que isso nem seria pecado se os gentios tivessem a mesma conotação dos gentios brasileiros, mas, naquela época, esses gentios a que me refiro eram os mandachuvas imperialistas.

Os marajás da Lei dormiram sobre o calhamaço e não perceberam que Deus mudou de opinião. Quando pensavam estar sendo zelosos, estavam fazendo pouco caso da nova ordem. Zeloso, sim, mas qualificado. Além de esforçado, é preciso saber quando sai o Faraó e entra César.

 

Coleta

 

Nesse negócio de coleta, parece que não houve evolução. Não na forma, mas no argumento, digo. Olhem só o argumento de Paulo e vejam se não tenho razão: quem semeia com parcimônia, com parcimônia também colherá, e quem semeia com largueza, com largueza também colherá (2 Cor 9, 6).

Claro que Paulo devia arrecadar bem menos do que os apóstolos atuais, porque argumentava por carta e os atuais o fazem pela TV, sem intermediários, diretamente na casa do desavisado fiel. Isso fazia e faz muita diferença. Começa que a carta era escrita num pergaminho, que naquele tempo ainda era em rolo. Imagina o trabalho do correio para enviar um rolo tão delicado.

O rolo chegava ao destinatário, que o guardava a sete chaves, senão estragava. Se fosse rico, pagava um copista para copiar e afixar na porta da igreja. Mas isso em geral não era feito, porque até o pergaminho era difícil de encontrar, que dirá o copista.

Então ele transmitia seu conteúdo verbalmente. E, nessa transição, muito da verve literária de Paulo se perdia. Paulo, de tanto trabalho, foi para o céu; esses arrecadadores atuais, de tanta facilidade e tanto sucesso, irão lá para dentro do fundo da treva do chão da cova do capeta. 

Mas o argumento não tem que tirar nem pôr: cada um dê como dispôs em seu coração, sem pena nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá com alegria (2 Cor 9, 7). E dar bastante ainda tem a vantagem de que o contribuinte pode contar para todo mundo. E como está dito lá em cima, a retribuição é proporcional.

Tem fiel que todo domingo pinga na sacola de coleta uma reles nota de dois reais e aí, na hora da precisão, quer exigir. Dá dois reais por semana e, na hora do pedido, pensa como todo pequeno-burguês: “Tô pagando, tenho direito!” Claro que tem direito! Tem direito ao retorno equivalente a dois reais. Não, quatro reais. É que Deus sempre dá em dobro…

Então, se você fica constrangido quando o padre ou o pastor vêm com aquela cantilena, pedindo dinheiro na maior cara dura, fica sabendo que isso não é novo. Vem, no mínimo, desde Paulo. E Paulo queria dinheiro para quê? Eu acho que era para construir um templo de Salomão bem grandão na degradada avenida Celso Garcia e chamar a presidenta da república e o governador para a inauguração e se cacifar como grande ator político, mas ele dizia que era para ajudar os santos de Jerusalém.

Claro que, entredentes, devia dizer que era para aqueles vagabundos de Jerusalém…  Mas mandava o dinheiro com gosto; aliás, foi levá-lo, pessoalmente, mais para colher os aplausos do prestígio do que por falta de meios eletrônicos de remessa. Claro que, durante o Congresso que se realizava então, ele pôde falar um pouco mais grosso…

 

Da graça e do esforço

 

Nesta altura de minha leitura bíblica, estou preocupado e confuso. Sabe expressões do tipo: fui agraciado por Deus, ou, com a graça de Deus, ou esse nosso corriqueiro Graças a Deus? Tudo isso porque Deus nos concede a graça. Em tradução mais comercial, Deus concede seus benefícios de graça, sem nada cobrar. Numa dessa, a meritocracia foi pras cucuias.

De fato! Paulo escreve: “Não é pelas obras; do contrário, a graça não é mais graça”. (Romanos 11, 6). Deus, sabe-se lá por quais insondáveis critérios, escolhe. Lá no começo do mundo, Deus escolheu os judeus. Deus mesmo, depois, declarou que o fez meio aleatoriamente, de graça (Dt 7, 7; 9, 6).

Naquele tempo já havia esquimós na Rússia e aborígenes australianos, e samurais no Japão, e até os ancestrais dos nossos tupiniquins. Eu duvido que os ancestrais dos tupiniquins não eram mais inocentes do que os judeus. Entretanto, Deus escolheu os judeus. E, no Egito, reafirmou a escolha, em detrimento de um povo muito mais maleável.

Não tem problema, até porque Deus reavaliou. Seria problemático se Deus fosse inflexível para todo o sempre, mas Deus colocou uma pedra de tropeço no caminho dos judeus e… eles tropeçaram. Crucificaram Jesus. Foi a pior viagem. Deus refez sua escolha e escolheu os romanos.

É uma escolha bem aleatória. Mil e quinhentos anos depois da mudança para os romanos, Deus escolheu os portugueses, neste lado da América, só para se contrapor àquele costume tropical de os americanos (que Deus chamou de índios) ficarem olhando para o céu nas noites de Lua cheia ou ficarem adorando aquele sol das areias de Copacabana.

Enfim, eu acho que está certo esse critério de se escolher pela graça e não pelo esforço.

Uma mulher graciosa, por exemplo, não se fabrica em horas de salão de beleza. Já uma mulher bonita, sim.

Um agricultor que cultiva a terra no sistema agroflorestal contribui com a alimentação e a saúde das pessoas e preserva o planeta. Um empresário do agronegócio produz toneladas de grãos que só alimentam navio e desgraça com o solo e seu equilíbrio fitossanitário.

E Deus, como dono do mundo, está certo em preferir a mulher espontaneamente graciosa e o pequeno agricultor agroflorestal. Bom, sendo assim, ficarei mais confuso se Deus, em face da presente revolução – e como tudo indica –, escolher os chineses.

 

Moral doméstica

 

É impossível falar de moral doméstica, à luz de São Paulo (o apóstolo), sem usar o verbo fornicar ou o substantivo fornicação. Aliás, até pouco tempo, eu achava que fornicação era palavrão, mais escabroso do que fudeção ou foda, por exemplo. Mas não, é palavra bíblica!

Tem duas coisas que São Paulo não gosta nem recomenda: fornicar e casar. Todavia, se você não pode viver sem tocar em mulher, então case. Dos males o menor: antes casar do que fornicar. Porque, se você não está sabendo bem, fornicar é fazer sexo ilícito.

Sexo ilícito!? Sim, normatizaram até o sexo, como outro negócio qualquer. Naturalmente, isso não se aplica às mulheres, que passam muito bem sem tocar em homem… Não!? Não reclame comigo, reclame com São Paulo. Paulo disse, ressalvando que isso era por conta própria e não conversa de Jesus, que casar era arranjar sarna para se coçar, recomendação válida para o homem e para a mulher.

Se o cidadão ou cidadã já for casado, tudo bem, permaneça casado, não se separe de jeito nenhum, aguente o tranco. Mas se você não tiver mulher/marido, não arranje um, porque é fatal que terá tribulações na carne; “é algo que eu vo-las (as pessoas) desejaria poupar” (1 Cor 7, 27).

Se a sua mulher ou seu marido forem ateus, não tem problema (não, nem o conceito “ateu” existia na época, que dirá a palavra). Em lugar de “ateu”, usar “não cristão”. Se for o caso, permaneça com ele/ela, não se separe. Não se preocupe com os eventuais filhos desse casamento, que não serão batizados, mas serão puros (1Cor 7, 13-14). Se ele morrer, fique viúva. Mas se quiser casar de novo, não cometa a besteira de se casar com outro ateu.

O certo mesmo seria ficar virgem (homens e mulheres), não entrar nessa seara tão delicada, tão dialética… Eu creio que, se Paulo dissesse uma coisa dessa na frente de Jesus, levaria uma bronca: “Cara, você tá querendo melar aquele meu mais genial bordão, aquele do crescei-vos e multiplicai-vos?!”

Agora vejam só a motivação de Paulo: quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Senhor. Quem tem esposa, cuida das coisas do mundo e do modo de agradar à esposa. Da mesma forma, a mulher não casada agrada ao Senhor e a mulher casada agrada ao marido (1 Cor 7, 32-34). Paulo deve ser o padroeiro dos padres.

Ah, mulher, você estava achando Paulo um amor de equidade de gênero, é? Segura então os versículos 21 a 24, do capítulo 5, da Carta aos Efésios: “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres o sejam a seus maridos, como ao Senhor, porque o homem é cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da igreja e o salvador do Corpo. Como a Igreja está sujeita a Cristo, estejam as mulheres em tudo sujeitas aos maridos”.

 

Conflito santo

 

Sim, sim, vou tratar de uma briga santa. Uma briga de santo. Entre santos. Uma briga entre São Pedro e São Paulo.

Tudo bem que eles ainda não eram santos, na época em que isso se deu, mas já estavam se esforçando bastante para se credenciarem à santidade e, além do mais, foi às barbas do Pai. Foi, então, uma briga entre o papa e um arcebispo. Aliás, não vejo motivo de escândalo, o que mais ocorre neste mundo, desde que inventaram o catolicismo, é briga entre papa e arcebispo.

Logo após o bafafá de Jesus em Jerusalém, todo mundo que tinha tino comercial viu claramente o novo filão: meter o pau nos judeus e elogiar os seguidores de Jesus dava muitos views e likes. E aqueles comerciantes já sabiam, apesar de Adam Smith ainda não ter nascido, que o que faz sucesso dá dinheiro.

Aí devem ter sondado Pedro, que era a maior liderança dos seguidores do crucificado, devem ter sondado João também quando viram que Pedro era meio lerdo e, enfim, concluíram que, se dependessem daqueles doze, não teriam futuro.

Acho que foi então que perscrutaram um tal de Paulo, judeu meio sistemático. Jesus, lá de cima, já havia chegado à mesma conclusão dos headhunters e adiantou o trabalho, nem esperou Paulo chegar a Damasco.

Bom, resumindo, juntaram uns especialistas romanos para assessorar a turma, como juristas, economistas, publicitários, incluindo alguns gregos na parte cultural propriamente dita, notadamente uns editores, e estruturaram a hierarquia católica.

Deixaram para eleger o papa só quando o Vaticano ficasse pronto, principalmente aquela lareira e respectiva chaminé de onde sai a fumaça branca, e aquela varanda de onde anunciam o nome do escolhido. Mas já dividiram o mundo em dioceses, Pedro ficou com a arquidiocese de Jerusalém, onde estava o filé dos fiéis, e Paulo com o osso: a arquidiocese do estrangeiro (mas com grande potencial...).

O que Pedro fazia numa só cidade, Paulo tinha de viajar o mundo inteiro para fazer. Retardatário e arrependido sofre.

Acontece que no território de Pedro só tinha judeu, enquanto no território de Paulo só tinha gentio. Na época, gentio era tudo que não fosse judeu. Até aí tudo bem, acho que Pedro – assim como Fidel Castro – não botava muita fé no estrangeiro, não estava muito interessado em implantar o comunismo no mundo inteiro e aquele arranjo de manter Paulo fora de Cuba foi bem providencial, aquele chato…  

Mas Paulo, mais que um arcebispo, era um general; não, um eficaz guerrilheiro, um guerrilheiro do evangelho. Evangelho era a boa nova, a Notícia Nova. Pregar e propagar o Evangelho consistia simplesmente em sair mundo afora, contando as safadezas dos judeus para com Jesus e, de quebra, a falar do estilo de vida dele e de como agiria nessa ou naquela nova situação.

Paulo, como todo vira-casaca, era um ardoroso defensor do evangelho. Ardoroso e incansável, destampou a conquistar fiéis e fundar filiais em meio mundo – para provar que realmente havia virado a casaca, Antioquia, Éfeso, Corinto, Filipos, Colossas, Galácia, Tessalônica –, só em Atenas foi que ele deu com os burros n'água (por isso não existe nenhuma Carta aos Atenienses no Novo Testamento!). Ainda, cobrava o dízimo e mandava uma parte para Roma, de tal maneira que, num congresso em Jerusalém, chegou todo cheio de moral; quem financia fala grosso.

Pedro, que já se sentia eleito papa, ficou com a pulga atrás da orelha. Mas Paulo, hábil, percebendo a ciumeira de Pedro, convidou-o para ir com ele a Antioquia. Ora, todo cacique fica desarmado diante do convite de um emergente cabo eleitoral para visitar suas bases. Ainda mais quando lá é recebido com honras de chefe. Foi o que Paulo preparou para Pedro, lá em Antioquia. Acontece que Paulo era uma raposa velha. E Pedro, coitado, era um santo.

Pedro, diante da ousadia e do informalismo de Jesus, também era informal. Mas, diante do legalismo dos judeus, depois que Jesus se fora, passou até a defender a operação de fimose para todo mundo, sem nem esperar o pinto crescer.

Mas sobre isso, Paulo era intransigente. Ora, se Paulo fosse obrigar os gentios a operar da fimose até aqueles que não precisavam, juntaria meia dúzia de gatos pingados e o povão baixaria noutra freguesia, em que não houvesse essa idiossincrática exigência.

Aí, lá em Antioquia, Pedro à vontade no meio dos gentios, comendo até carne de porco, que dirá as picanhas da friboi, lembrando os bons tempos de Jesus, quando chegam seus assessores, judeus, claro.

Aí Pedro se retrai, diz que só come alimentos kosher, durante os batizados recomenda às mães que operem o pintinho do bebê. Aí Paulo sobe nas tamancas (e isso em alto e bom som, amplificado pelo teto alto da igreja, bem na hora que ela estava cheia de fiéis): “Se tu, sendo judeu, vives à maneira dos gentios e não dos judeus, por que forças os gentios a viverem como judeus?” (Gálatas, 2, 14). Tudo bem, se você quiser ser hipócrita, pode, mas não aqui. Vá ser hipócrita lá em Jerusalém!

O fato é que, dessa contenda, sabe qual foi o resultado? Pedro conseguiu ser eleito papa, acho que Paulo não viu problema nisso ou a maioria dos eleitores estava de acordo com o que ele foi ser em Jerusalém, mas Paulo conseguiu levar o Vaticano para Roma, sede da sua arquidiocese e do mundo gentio.

 

Longanimidade na Parusia

 

Nem sei se é vantagem conhecer Longanimidade e Parusia. Mas acho que a única maneira de as conhecer é lendo a Bíblia. A palavra aparece, você faz de conta que não viu e continua. Daí a pouco, outra vez. Você continua sonso, deixando-a pra lá. Mas a tal é tão insistente que chega uma hora que você se rende e vai ao dicionário. Longanimidade é, essencialmente, a qualidade de quem tem saco sem fundo. Sim, saco sem fundo, aquele que não enche nunca.

Sabe essas pessoas que pegam ônibus, trem, dois metrôs e outro ônibus e chegam ao trabalho duas horas depois para ir, e outro tanto para voltar, todo santo dia? E no sábado, se algum amigo pergunta, responde que a vida até que é boa? Então, esse é um sujeito longânimo. Sim, se quem pratica a magnanimidade é magnânimo, quem nunca fica com o saco cheio é longânimo. O longânimo sempre é magnânimo, mas o inverso nem sempre é verdadeiro.

O longânimo é uma rocha de firmeza em seus propósitos, mas toda vez que me deparo com um espécime dessa categoria fico com a pulga atrás da orelha. Porque a longanimidade é coisa de gente santa. E santidade me lembra alma: Um longânimo seria um santo com alma de pedra. Porque o sujeito é tão paciente e tão altruísta que até sua alma não se abala. Seria então uma alma fixa. Ou alma rígida. Uma alma tão evidente, tão palpável, que chega a pesar. Ora, se pesa, não é alma, e o cara é um desalmado calculista dos infernos!

Já Parusia só não aparece escrita com destaque na parede de toda igreja porque faria os pernósticos saírem para consultar o dicionário. Porque o que ela significa é o único motivo da religiosidade daquele povo: o retorno majestoso de Jesus.

O cidadão pode justificar sua prática e fé religiosa com mil argumentos, todos plausíveis, mas no fundo, no fundo, ele só está querendo salvar sua alma do fogo do inferno (nem sei por que tanta preocupação, considerando que, no inferno, tem até gelo para contrabalançar, segundo Dante).

Sim, porque nessa segunda visita que Jesus fará a nosso planeta, a coisa vai ser diferente: já vai nascer numa família bilionária de pais que, além de podres de ricos, dominam boa parte do poder mundial. Se a Parusia fosse no próximo ano, era bem capaz que um anjo baixasse do céu e fizesse Hillary Clinton parir Jesus.

Se Sara pariu Isaac depois de velha, Hillary, com os recursos atuais, o faria com mais facilidade. Mas se demorar uns três anos, acho que Jesus vai preferir algum casal chinês da alta cúpula do Partido, Deus não teria problema algum com o partido único.  

Na Parusia, Jesus vai chegar arrebentando e julgando, sem dó nem piedade, daí por que nascer rico. Espero que ele não venha com aquela mania dos antigos, de lembrar como foi no seu tempo quando a gente reclamar de algum castigo.

Quanto à Teodiceia, é sua vez de ir ao dicionário. Mas, de repente, a palavra me esclarece por que Deus, apesar de bom e, ao mesmo tempo, todo-poderoso, permite o Mal. Por que não acabar logo com o Diabo, o Deus que tudo pode? Ora, porque se o mocinho matar o bandido no começo, o filme perde a graça.  

 

Outro palavrão: apostasia

 

A Apostasia precederá a Parusia. Legal, né? Tudo bem: Apostasia é o abandono da fé. Vamos falar claramente sobre a tática de Paulo – mais do que qualquer outro apóstolo – para conquistar tantos fiéis. Ele chegava no meio dos ímpios e já ia expulsando algum satanás.

Ora, o que não falta onde tem muitos ímpios é satanás. Vai ali na Praça da Sé pra ver o tanto de gente encapetada zanzando por lá. Ímpio para Paulo era gente sem rumo, gente sem Deus. Gente encapetada, para nós, é gente sem rumo, guiada pelo capeta.

Em geral, os capetas mais fracos são os mais escandalosos, Paulo os botava pra correr rápida e facilmente. Em seguida, Paulo lançava a ideia central, sem meias-palavras: “Cristo vem aí! Venha para a igreja enquanto é tempo. Quando ele já tiver chegado, será tarde. Enquanto ele não tiver chegado, sempre será possível perdoar seus pecados, é só confessá-los”.

Em todas as epístolas de Paulo, a conversa é essa: aos Tessalonicenses ele escrevia que Cristo só não havia chegado ainda por causa dos políticos reformistas, esses com preocupações sociais, que estavam segurando as maldades do Satanás (2 Ts 2). Por exemplo, um político que boicota o combate à Covid-19 apressa a Parusia… (Quem espera com ânsia a Parusia tende a gostar de quem atrapalha o combate à pandemia).

Escrevia: quando os neoliberais de índole fascista dominarem tudo, Satanás aparecerá, com toda sorte de portentos, milagres e prodígios mentirosos (2 Ts 2, 9).

Quando você começar a ver mais de 20% de cidadãos declarando ao Censo que não têm religião na maior cara dura, o Congresso aprovando o divórcio e o aborto, as mocinhas descobrindo a cabeça e usando minissaia, filósofos e físicos substituindo padres em esclarecimentos à população pela TV, capetas e descrentes por toda parte à luz do dia, pode saber que o fim tá próximo, Cristo não demora.

Aí, a primeira coisa que você deve fazer é ficar longe desse povo (2 Ts 3, 6). E rezai, irmãos. E rezai mais ainda para que Cristo esteja de bom humor, quando chegar! E rezai, irmãos, para que aquela humilhação lá de Jerusalém ainda não lhe esteja atravessada na garganta.

Eu sei que, depois das ameaças de Paulo, pouca gente tinha coragem de voltar para casa sozinho e isso explica a conversão de meio mundo ao catolicismo (a outra metade do mundo não se converteu porque Paulo não passou por lá com as ameaças da Parusia…).

De fato, Jesus voltaria rápido mesmo, não fora os romanos destruírem Jerusalém, uns 30 anos depois da sua morte. Vendo Jerusalém pegar fogo, Jesus se acalmou.

Sorte nossa. Se ele voltar agora, vinte séculos passados, acho que vai voltar bonzinho. O perigo é essa quantidade de cruzes com a estátua dele pregada reavivar sua memória. A sorte é que aquele cara pregado lá é um europeu – ele não vai entender nem se reconhecer –, porque se fosse um árabe, estaríamos ferrados.

 

De hebreus e gentios

 

Já contei sobre as arquidioceses de Pedro e de Paulo. A de Pedro era pequena, mas densa. A de Paulo era extensa, mas rala. Densa e rala de gente, de fiéis em potencial.

Pedro parecia um burocrata, tamanha a facilidade de acesso ao rebanho; acho até que se podia dar ao luxo de ir almoçar em casa todo dia. Além do mais, seu rebanho era constituído por ovelhas acostumadas com pastor desde Moisés, no mínimo, para não nos estendermos antiguidade afora.

Paulo, porém, tinha de viver viajando, arregimentava uns gatos pingados na Síria, embarcava num barco a remo até a Macedônia, por sabe-se lá quantas semanas de viagem, arregimentava mais uns gatos pingados em Tessalônica, mais outras tantas semanas até Corinto... Vê se isso é vida!? Certa feita, seu barco naufragou, ele só não morreu porque Deus tava atento.

Mas Paulo tinha uma vantagem: pregava aos gentios, aquele povo ingênuo nas idiossincrasias de Deus. Enquanto Pedro tinha de argumentar exaustivamente com gente que não só conhecia a Lei, mas a burocracia toda, e não podia nem pensar em consertar a torneira de casa no sábado tampouco comer um torresmo no boteco, Paulo vivia pelo mundo sem nenhum judeu no cangote a cagar mesquinhas regras.

Porém, à medida que Paulo foi ficando famoso, graças ao seu sucesso de público, mais os judeus esparsos pelo mundo iam lhe atravessando o caminho, em censuras e contra-argumentos. O pior era quando aparecia um judeu desgarrado no meio dos ímpios, aí entrava areia na engrenagem de convencimento de Paulo.

Vejam se tinha cabimento: enquanto Paulo dizia que Jesus voltaria, poderoso, para castigar os pecadores, o judeu retrucava que Jesus estava mortinho e enterrado lá em Jerusalém.

Chegou uma hora que Paulo resolveu escrever uma carta aos hebreus. Mas, diferente das outras cartas, nessa ele caprichou mais.

Aos coríntios e aos efésios, aqueles ignorantes, bastava o catecismo básico; Timóteo e Tito eram seus subalternos físicos e intelectuais, podia escrever-lhes qualquer coisa que eles engoliam. Mas aos hebreus era diferente, aquele povinho manhoso, cheio de zelo com seus rolos de pergaminho de sabe-se lá quais priscas eras.

Na arenga com os judeus, Jesus era sacerdote, a igreja virava templo, a conversa com Deus era aliança, e não havia cruz, havia sacrifício. Passava ao largo de apóstolo, corpo, cemitério ou sepulcro e já colocava Jesus lá em cima, do lado direito do Pai.

Não adianta nada vocês se empaparem com sangue de boi e de carneiro, Iahweh não dá a mínima para isso, escrevia ele; sacrifício pra valer foi o nosso: o sangue do seu filho, num oferecimento único e eterno, que limpou o mundo numa tacada só.

Enquanto vocês ficam aí todo sábado nessa matança de animais, parecendo um frigorífico, nós oferecemos nosso cordeiro para salvar o mundo. Enquanto vocês se esfalfam nessa sangrenta e semanal lavagem literal, nós resolvemos a parada numa única e asséptica, e seca, lavagem figurada.

Antes, Paulo só se alongara tanto com os coríntios, por causa de uns filósofos que também lhe enchiam o saco; agora, com os hebreus, era diferente: encheu a carta de citações bíblicas e passagens proféticas para impressionar aquela cambada.

Cansado de argumentar no varejo, tentava convencê-los no atacado e por escrito, trabalhando com a linguagem e a simbologia deles. Chegou a ter a cara de pau de lhes escrever que Jesus poderia lhes ser agradável.


 

Cartas de outros

 

Epístola de São Tiago (Tg)

Primeira epístola de São Pedro (1Pd)

Segunda epístola de São Pedro (2Pd)

Primeira epístola de São João (1Jo)

Segunda epístola de São João (2Jo)

Terceira epístola de São João (3Jo)

Epístola de São Judas (Jd)


 

Irmãos de Jesus

 

Realmente, não fica bem uma virgem com uma penca de filhos. Quanto a uma virgem ser mãe do filho de Deus, tudo bem porque, como sabemos, a Deus tudo é possível. Mas, quem diria, as epístolas de Tiago e de Judas… Esse Tiago e esse Judas são irmãos do Senhor Jesus! Aliás, havia também José e Simão, fora as irmãs… (Mateus 13, 55 / Marcos 6, 3). Irmãos de sangue!

Esse Tiago – São Tiago –, além de escritor bíblico, foi arcebispo de Jerusalém, figura maior da Igreja naqueles primeiros tempos. Quanto a Judas – São Judas –, acho que era um escritor diletante, sem querer conversa com a hierarquia em que seu irmão (não o crucificado) se dava tão bem.

Então, alguém da Igreja, muitos séculos depois, numa espécie de nepotismo póstumo, para agradar seus dois irmãos bambambãs (Tiago e Jesus – que já haviam morrido, mas continuavam ativos e muito vigilantes, lá de cima), incluiu um seu escrito de pouco mais de uma página, no cânone católico, e temos a Epístola de São Judas, penúltimo livro do Novo Testamento, imediatamente antes do Apocalipse.

Bem, esse negócio de cultuar pessoas mortas, transformá-las em santas, é uma coisa muito séria, para não dizer ridícula. Dia desses estava eu passando por dentro do Cemitério da Consolação, em São Paulo (faço isso, às vezes, em minhas caminhadas de 10 quilômetros pela cidade), quando vi algumas pessoas em trajes vistosos próximas a um túmulo.

Curioso, vi que se tratava do túmulo de Plínio Correa de Oliveira que, quando vivo, cultuava sua mãe como santa. Agora, os fiéis cultuam sua mãe e ele próprio como santos. Quem sabe, daqui a uns 200 anos, esses fiéis, se forem bem-sucedidos, não façam vitoriosa a narrativa de que Plínio foi o próprio sucessor de Jesus Cristo? (Claro, se os outros deixarem eles contarem a história sozinhos.)

Então Maria, mãe de Jesus, Judas, José, Tiago e Simão (além de várias filhas mulheres, cujos nomes não ficaram registrados porque, afinal, no mundo retratado quem manda e quem escreve e quem edita são os homens), morreria de rir se soubesse que, alguns séculos depois, a transformariam numa virgem de filho único feito de longe.

Mas esses proeminentes irmãos de Jesus indicam algo surpreendente para um católico ignorante: a família era do ramo!

 

O irmão de Jesus era rabino

 

Quer dizer, isso é o que deduzo, a julgar pelo que escreveu em sua epístola. Sim, a Epístola de São Tiago. Não sabia que esse tal São Tiago era também filho de Maria, irmão de Jesus? Pois os evangelistas Mateus e Marcos garantem que sim.

Tudo bem, tô sabendo que o padre foge dessa conversa, mas tá lá escrito na Bíblia, fazer o quê? Era filho de Maria e não era filho de nenhum anjo, logo, devia ser filho de José ou de um seu sucessor deveras humano, equipado com um sistema sujo de reprodução…

Tiago foi o arcebispo de Jerusalém, responsável portanto pelo rebanho mais acostumado com as práticas judaicas. Ou Tiago era judeu demais para cair no mundo a falar mal dos judeus e preferiu ficar por lá mesmo. Enfim, não sei se por conveniência ou por convicção, o fato é que Tiago permaneceu no país natal, a mediar as divergências e concordâncias entre a velha e a nova ordens religiosas, apesar da injustiça feita por seus confrades contra seu irmão.

Acho, então, que foi por isso que Tiago escreveu, em oposição ao palavrório dos cristãos novos da época, que era contra a intemperança na linguagem. De fato, veja: “Se alguém pensa ser religioso, mas não refreia a língua, antes se engana a si mesmo, saiba que sua religião é vã” (Tg 1, 26).

Como sabemos, os rabinos são discretos; ao menos esses nossos, do bairro de Higienópolis, nunca vi nenhum fazendo pregação na TV ou na praça. E também não era qualquer um que podia sair por aí dando uma de pastor; tinha de ser, no mínimo, da família dos levitas.

Tiago também pregou contra os ricos. Dizia que a condição de ricos era como o vapor, que se vê por alguns instantes, depois logo se desfaz (Tg 4, 14). Os judeus eram tão ciosos da igualdade econômica que hoje seriam tachados de comunistas radicais.

Aliás, acho que ainda são assim até hoje. O detalhe nada desimportante e todo contraditório é que essa igualdade só vale para os membros da comunidade, ou seja, os escolhidos de Iahweh. Os ímpios, os gentios, os pagãos, os infiéis, os goy que se lasquem no proletariado! Que se lasquem, trabalhando para os preferidos de Deus…

Outra de Tiago: Fé sem obras não vale nada (Tg 2, 14). Se Abraão não tivesse agarrado seu filho Isaac pelo cangote, estendido seu pescoço sobre o cepo, levantado o cutelo e já o ir baixando para cortar de verdade, Iahweh não se teria sensibilizado e, quem sabe, tivesse escolhido os etíopes, sei lá, como seu povo eleito.

Mas vendo aquele doido disposto a transformar a fé em obra, não teve dúvidas: escolheu a descendência dele para favorecer. O problema é que Tiago considera “obras” essa coisa de visitar doentes em hospital e defuntos em velório, sabe esses proselitistas neopentecostais e essas freiras que vêm encher o saco quando estamos internados ou quando estamos velando um parente morto?

Claro que, como bom puxa-saco do irmão morto, Tiago dizia também que é a fé que leva à obra. Sei lá, acho que Tiago não falava besteira: ter excelentes ideias e não as pôr em prática não adianta nada; e toda prática tem uma ideia por trás.

 

Pedro, o imarcescível

 

Tenho culpa se ele escreve duas vezes Imarcescível em apenas sete páginas? Entretanto, vejam só, imarcescível tem tudo a ver com pedra, que nada mais é que pedro. Já escrevi aí atrás que, em hebraico ou grego, sei lá, pedro e pedra são uma palavra só, com a mesma grafia e significado; e pedro (pedra) é apelido, colocado em Simão, que virou Simão Pedro e, depois, só Pedro.

E sabe quem pregou esse apelido em Simão? Jesus! Mas claro que não foi por bullying, mas por premonitória conveniência: pedra, a base sólida sobre a qual seria edificada a Igreja. A Igreja que, solidamente apoiada, seria imarcescível. (E fico pensando: como os tradutores descobrem essas palavras em nossa língua?)

Aliás, não seria adequado traduzir – ou adequar –, no caso das comunicações de São Pedro, de “epístola” para “encíclica”? Porque Pedro, em sua primeira epístola, dirige-se aos estrangeiros da dispersão no melhor estilo papal. E, para não variar, com conselhos reacionários: “Sujeitai-vos a toda instituição humana...” (1 Pd 2, 13). Tributai honra ao rei. Tributai honra ao patrão. “Vós, criados, sujeitai-vos, com todo o respeito, aos vossos senhores, não só aos bons e razoáveis, mas também aos perversos” (1 Pd 2, 18). Mulheres, sujeitai-vos aos vossos maridos (1 Pd 3, 1). Jovens, sujeitai-vos aos anciãos (1 Pd 5, 5).

Mas, calma! Agora vem a fraternidade: sejam compassivos, cheios de amor fraterno (1 Pd 3, 8). Essa fraternidade pretende resumir todas as exortações precedentes. Bastava ao rei, ou ao patrão, ou ao senhor, ou ao marido, ou ao ancião, terem espírito fraternal para evitar eventuais excessos de autoridade! Claro que faltava combinar com a outra parte…

Claro que, ainda para não variar, Pedro registrava também o tema da ressurreição de Jesus e do Fim do Mundo porque, afinal, sem Juízo Final não há monoteísmo que prospere. Interessante, porém, é que Pedro afirma que esse tão temido Fim dos Tempos, que leva tanto ingênuo à conversão pelo medo, já havia se dado, ou ao menos se iniciado, com o nascimento de Jesus (1 Pd 1, 18-21).

Ainda bem que os propagandistas vindouros consideraram o dito pelo desdito do primeiro papa, reforçaram as certezas e ameaças futuras de São Paulo e conseguiram preencher todas as praças centrais de todas as cidades do Brasil com uma igreja no meio. E, atualmente, uma lojinha de vender salvação em cada quarteirão.

Porque, não se enganem, essa separação entre católicos e protestantes é simples briga comercial de subalternos.

 

São João: do foguetório ao fogo 

 

Sabiam que São João é o fundador da Deus é Amor? E se houver uma com a denominação Deus é Luz, foi ele que fundou também. São João não tem nada de festeiro, mas de terrorista. Terrorista no sentido de nos amedrontar. Ele foi muito mais efetivo do que o verborrágico São Paulo em suas ameaças.

Enquanto Paulo repetia, a cada três versículos das suas inúmeras cartas, que era pra gente se converter antes do Juízo Final, João já tratou de escrever (e bem escrito) um livro especial sobre o tema: o Apocalipse! E ali, no Apocalipse… bem, isso será tema da última crônica.

João nos chama de filhinhos: filhinhos, cuidado com o Anticristo! É filhinho pra cá, filhinho pra lá, e tome-lhe ameaça do fogo do inferno. “Filhinhos, é chegada a última hora” (1 Jo 2,18); filhinhos, aquele que comete o pecado é do diabo; aquele que odeia seu irmão é homicida; filhinhos, guardai-vos dos ídolos.

E, se nós somos todos filhinhos de João, temos de tomar cuidado com os filhinhos do Diabo. Porque João deixa claro: há os filhos de Deus e os filhos do Diabo (1 Jo 3, 10). E aí temos aspecto não denunciado, mas preocupante, para nosotros mui amantes desta terrena vida: filho de Deus é do Além; filho do diabo é deste mundo.

Você gosta do dinheiro e de tudo que ele pode comprar? Filho do Puto! Da indicação de um político para arranjar um bom emprego? Filho do Cão! Gosta de ar-condicionado? Filho do Capeta!

“Meus filhinhos, isto vos escrevo para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos como advogado, junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 Jo 2, 1). Acreditam em mim, depois dessa, que ele foi fundador de algumas dessas lojinhas de meio de quarteirão, especializadas na venda de passagem para a alma? E se você frequenta uma dessas lojinhas levando a Bíblia debaixo do braço e se gabando de conhecer bem as escrituras, mas vive de espertezas comerciais e lucros mal explicados, saiba que você é um mentiroso (1 Jo 2, 4).

E se você é desses que prega a palavra em praça pública por conta própria, sem dar satisfação nem repassar a grana a nenhum bispo, você deve ser um dos inúmeros anticristos que pipocarão nos Últimos Dias.

Meus filhinhos, Deus é Luz (1 Jo 1, 5-7). Acho que aqui nesse trecho João nos chamou de cara de pau. Sabe nós, que só porque lemos dezoito livros na vida, nos julgamos ilustrados? Pois na lenga-lenga de luz e trevas, João, muito sorrateiro, acho, quis nos dizer que o brilho de alguém ilustre é semelhante ao das madeiras enceradas e lustradas, mediante muita escova e pano.

Sim, João nos chama de cara de pau. Em contraposição, ele propõe que, para ser brilhante (ou iluminado), basta ter parte com Deus. E, não digo ler, mas carregar pra lá e pra cá os 70 livros da Bíblia.

 

A comédia do Apocalipse

 

Enfim, o último livro do Novo Testamento, o Apocalipse (Ap).

 

Calma, não se trata de afirmar que o Apocalipse é uma comédia. Digo, descobri, que a Comédia, de Dante, se inspirou no Apocalipse, de João. Dante, descrente, não deixou por menos já no título: Comédia; que alguns desavisados, na tentativa de corrigir, ou atenuar, ou disfarçar, acrescentaram: Divina.

O Apocalipse é de um profeta (embora Jesus tenha dito que o último dos profetas teria sido o xará João Batista…), enquanto a Divina Comédia é de um… comediante. Este, contudo, guiado por um poeta pagão; aquele, por Deus.

O Apocalipse foi feito no capricho e na encomenda, ampliando e exagerando os profetas do Antigo Testamento. Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel soam amadores perto de João e sua assessoria vaticana. Mas o modelo e o cenário são os mesmos.  

É como se os profetas nos narrassem um desses videozinhos que vemos toda hora no smartphone, enquanto João nos narra um longa-metragem de superprodução no cinema. E tome-lhe Besta, Dragão e… Mulher! E o homem no meio, como bebezinho indefeso… mas protegido por Deus. E tem até para os adeptos do jogo do bicho: o número da Besta é 666 (Ap 13, 18). Mas o número forte é o doze, em disputa com o sete.

Como se sabe, os apóstolos passaram os 50 anos seguintes à morte de Jesus contando a crueldade dos judeus e a indiferença dos romanos para com a execução de um inocente. E a injustiça foi tamanha que Deus se compadeceu, ressuscitou o injustiçado e nomeou-o chefe da casa civil, e prometeu vingança: Que esperassem, porque, mais dia, menos dia, mandaria o próprio para ajustar contas (e não como aquele doce de paz e amor da primeira vez, mas como um rei imponente e absolutista).

Os apóstolos passaram aquele meio século ameaçando: o Dia do Senhor (Parusia) está próximo! Falavam com tanta ênfase, que o povo entendeu como convicção e acreditou e se converteu em massa. Mas o tempo foi passando e nada de Parusia, nenhum rumor aéreo indicativo de qualquer rei poderoso vindo do céu para nos julgar.

O povo começou a desconfiar de que caíra no conto do Juízo Final. Então chegava o apóstolo, já velhinho, mas ainda raivoso, que havia contado piadas com Jesus, privado da sua amizade terrena, com aquela veemência dos indignados, e o povo fiel se aquietava.  

Entretanto, os apóstolos foram morrendo e a convicção dos sucessores já não convencia como antes. O povo se foi revoltando, e mais se revoltava quando um dos sucessores, mais prático, dizia que o tal dia já se dera com a destruição de Jerusalém, havia pouco (ano 70). Quando algum pastor desavisado vinha com essa desilusão, o povo quebrava tudo e ia procurar um substituto.

A situação começava a ficar insustentável e o Vaticano, para alívio geral, achou um conveniente escrito do apóstolo João, ao qual deu o nome de Apocalipse. Capricharam na linguagem, exageraram no simbolismo – o povo gosta de uma charada –, acrescentaram cenas e personagens e o fato é que o povo sossegou e, passados vinte séculos, continua firme na esperança do Dia da Justiça.

Bem, de minha parte, dito nesses termos – Dia da Justiça –, até embarco nessa. Mas se algum malandro vier para cima de mim com aquela velha conversa de arrependei-vos enquanto é tempo, ou antes que seja tarde, estendo-lhe na fuça os vinte séculos próximos passados e grito: polícia! Feiquinius!!  


Sobre o autor

 

ROBERTO DONIZETE BUZZO nasceu em 1956 em Guaraci, noroeste do Estado de São Paulo. Este é seu quarto livro de crônicas. Em 2006, publicou Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado. Em 2018 publicou Um milhão de passos pensos, no Picadão de Cuyabá(formato digital). Em 2019, publicou Média & Pingado 130 crônicas amarelas(digital). Contato: robertobuzzo@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário