A BÍBLIA EM CRÔNICAS LIVRES
2023
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direitos reservados.
Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação
(CIP)
Buzzo, Roberto
B992b A bíblia em crônicas livres
[livro eletrônico] / Roberto
Buzzo. -- 1.ed. -- São Paulo
: [s.n.], 2023.
1 livro digital.
ISBN
978-65-00-64574-
1. Bíblia. 2. Bíblia -
Crônicas. I. Título.
CDU 22
Elaborada
pela bibliotecária: Eliane M. S. Jovanovich - CRB 9/1250
Primeira parte: Antigo
Testamento
Jacó e Labão: difícil
saber qual o mais ladino
Não desejar a mulher do
próximo
Funcionários públicos no
país governado por Deus
A responsabilidade
coletiva, segundo Deus
Pentateuco: até aqui,
tudo sob controle
Não confunda Jesus com
José, mas com Josué
Salomão e a mula pintada
de zebra
A reconstrução do templo
em Jerusalém
Confronto & conchavo:
Judeus & Gregos
Daniel salvou a cabeça
dos pilantras
Daniel deixou
Nabucodonosor louco
Segunda parte: Novo
Testamento
Jesus batizado por
compadre João
Discurso inaugural de
campanha
João ciumento e a
concorrência
Ensino fariseu: cego
conduzindo cego
Confusão entre fé e
disciplina
São João: do foguetório
ao fogo
Prefácio
Fazer a releitura de uma obra conhecida é um desafio e
tanto. Exige muito estudo, conhecimento e sobretudo talento. Agora imagine a
releitura de uma obra sagrada, considerada o livro clássico dos clássicos, pois
Roberto Buzzo encarou o desafio de fazer a releitura da Bíblia Sagrada. Mergulhou no velho e no novo testamento, incluindo
as notas de rodapé; o que não é pouca coisa. Foram mais de duas mil páginas
lidas atentamente para extrair as crônicas reunidas neste livro.
Já que estamos no terreno do sagrado, podemos dizer que o
autor operou um pequeno milagre ao transformar passagens da Bíblia Sagrada, que poderiam soar
enfadonhas, principalmente a pessoas que não são religiosas, em histórias
interessantes e divertidas. Para isso, usou uma boa dose de humor, além de
ironia e linguagem coloquial. Outro recurso bem utilizado foi correlacionar
fatos e personagens bíblicos com outros que fazem parte do momento atual.
Ao falar do princípio de tudo, em A responsabilidade coletiva, segundo Deus, ressalta: “Tudo começa
com a sacanagem de Deus para conosco, só por causa da sacanagem da Eva (o Adão
sempre foi um bobão, a sacana era a Eva…). Os dois furunfaram e nós sofremos as
consequências até hoje. Não fora aquela libidinagem e estaríamos no bem-bom
para sempre. Se bem que estaríamos no Paraíso, comendo, bebendo, passeando,
livres de peste e patrão, mas… sem libidinagem!”
Em A história de
Sansão, o autor questiona a gravidez de algumas mulheres estéreis por meio
de anjos do senhor, que nunca aparecem sob a forma de uma pomba ou de um velho
corcunda e decrépito ou de um anjo propriamente dito, com asas e insípido
aspecto andrógino. “Os anjos chegam sempre como solitários e arrojados e
famintos forasteiros, num figurino de galã. E conversam com a mulher quando ela
está longe do marido. Aí, 9 meses depois, puft! Nasce o tal filho anunciado”.
Em algumas passagens, como em Davi & Micol, Roberto Buzzo insere as redes sociais, que só
viriam milênios depois: “A pedrada do Davi viralizou. Viralizou também um meme
que dizia: ‘Saul matou mil, mas Davi matou dez mil’ (1Sm 18, 7). Saul, o rei,
pensou: pronto, taí um concorrente. E bolou um plano para destruí-lo
(literalmente). Prometeu-lhe sua filha em casamento, desde que trouxesse cem
prepúcios dos filisteus. Esperava que ele morresse, na colheita dos prepúcios.
Mas Davi achou aquela exigência uma barbada. E colheu 200, ao invés dos 100
exigidos e se você acha que tô inventando, vá lá no primeiro livro de Samuel,
ao capítulo 18, versículos 25 a 27 (Vá gostar assim de prepúcios lá no Oriente
Médio!)”.
Em outras crônicas, o autor ironiza religiosos, consultores
e coaches, que ganham dinheiro
explorando incautos. É o caso de Salomão
e a mula pintada de zebra, onde questiona a fama de sábio: “Eu queria muito
saber como é que se adquire essa fama. Será que ele sabia a diferença entre um
cedro e uma cabreúva? Ou será que ele sabia fazer pão de queijo? Ou será que
ele sabia fazer tricô e crochê? Naquele tempo havia profeta em toda esquina,
mas todos fajutos. Sabe esses caras que se anunciam e se vendem como
palestrantes, consultores, coaches,
arautos de novos paradigmas? Naquele tempo era a mesma coisa, uns caras que
viviam em bandos e confederações e panelas e dioceses e denominações e
dissidências e tendências e vaticanos, todos muito bem instalados nas
respectivas sinecuras, uma corja de embusteiros”.
A Bíblia Sagrada foi escrita por homens e sempre
conta uma história sob um olhar masculino e por vezes machista. Poucas mulheres
ganharam relevância e conseguiram se sair vitoriosas em embates, quase sempre
usando o sexo, como se essa fosse sua única habilidade. “Quer ver sacanagem?
Leia a Bíblia. No bom sentido, com todo respeito. A libido aflora como pedra no
cume. No varejo e no atacado. No particular, no paroquial e no nacional”,
desafia Buzzo na crônica Sara, Judite,
Ester.
Tirando o borogodó, o autor lembra, em Lepra no Ozias e na Maria, que naquele tempo, mulher só era nomeada
quando fazia merda. “Foi o caso da Maria, irmã mais velha de Aarão e Moisés. (Aliás,
essa Maria me parece mais decisiva para o Sistema Judaico-Cristão do que a
Maria, mãe de Jesus, porque, não fora ela, a filha do faraó teria devolvido o
bebê Moisés à correnteza do Nilo e, sem nada escrito, adeus história; ninguém
hoje saberia dos israelitas e seus sucedâneos, como aconteceu com os filisteus,
por exemplo)”.
Em Sara & Tobias,
o autor também mostra que falcatruas envolvendo poderosos e dinheiro é coisa
muito antiga. “Naquele tempo, como hoje, todo dinheiro que contava era guardado
assim, escondido. Perto de morrer, chamou o filho, deu-lhe a senha e falou: vai
lá sacar o dinheiro. E não havia google
para ensinar o caminho, havia anjo. Foi então que aterrizou o Rafael para
guiá-lo, disfarçado de segurança-banqueiro. Desde aquele tempo é assim: ninguém
movimenta a grana do caixa-dois sem a ajuda de um banqueiro”.
Ao retratar Salomão, em O
bispo machista, afirma que ele já era famoso por duas realizações: uma
edificante e outra nem tanto: “a primeira, como incorporador imobiliário,
conseguiu, pacificamente, incorporar todos aqueles terreninhos no centro velho
de Jerusalém, pertencentes àqueles judeus que viviam do aluguel das respectivas
casinhas desde Moisés, para construir seu famoso megatemplo que, de fato,
valorizou muito o entorno. E a segunda realização, a façanha de ter tido 700
mulheres, fora as 300 concubinas”.
Em Dies Irae,
argumenta que o medo é o maior trunfo de qualquer religião. “Como fazer esse
povo incréu acreditar em Deus sem deixá-lo com medo? Aliás, isso é mais fácil
do que chuchu na serra. Porque coisa mais fácil é amedrontar ignorante. E a
nossa ignorância do mundo é incrível. Incrível de admirável, de notória. Assim
como é notória nossa incredulidade. Já percebeu como descremos da humanidade,
que é a maior obra de Deus? Já percebeu como trancamos a porta da casa, do
carro, como tememos ser assaltados, roubados, atacados? Tenho quase certeza,
por experiência própria, de que o populacho só paga o dízimo de medo do fogo
eterno. Porque do fogo terreno eles sabem que não escapam, e que está próximo.
É o que escutam desde o Sofonias, há 2.700 anos”.
E se Jesus vivesse hoje? Em Pedra sobre pedra, Roberto Buzzo imagina que ele nasceria em
Itaquaquecetuba, ganharia a vida como ajudante de pedreiro e se deslumbraria ao
conhecer a avenida Paulista, onde seria escorraçado da calçada por um segurança
de shopping simplesmente por estar em frente ao estabelecimento com a sua
indumentária de pobre, comendo um lanche trazido de casa.
E já que a imaginação é livre, imagino Roberto Buzzo lendo
suas crônicas bem-humoradas na Praça da Sé, onde se inspirou a escrever este
livro, observando os pregadores que diariamente marcam presença no local.
Aposto que faria sucesso.
Sonia Nabarrete
Jornalista e escritora
Apresentação
Comecei a perceber que as histórias do Antigo Testamento
faziam sucesso junto ao público consumidor, na boca dos pregadores da Praça da
Sé, em São Paulo. É que passo ali ao menos uma vez por semana, de bicicleta.
Sempre há uma roda de proselitismo religioso lá debaixo das tipuanas, entre a
saída do metrô e a Rua Direita; os prosélitos, entretanto, variam, acho que
alugam o espaço a hora, como se aluga quadras para jogar futebol.
Mas as seis ou sete palavras que eu ouvia, de passagem,
falavam do Faraó do Egito, do rei Salomão, do profeta Elias, das tábuas da
Lei... Minha percepção se deu ao mesmo tempo em que lia as tais antigas
escrituras. Aí comecei a assuntar melhor. Por exemplo, as novelas da Record: Gênesis, Os dez mandamentos, A Terra
Prometida... Tive a ousadia de assistir a alguns pastores na TV... De fato!
Percebi que os neopentecostais exploravam um nicho da Bíblia
deixado de lado pela igreja católica, que é o Antigo Testamento. A palavra
nicho é imprópria, porque subentende coisa minoritária. Ora, enquanto o Antigo
Testamento tem 1.600 páginas, na edição em que o leio, o Novo Testamento tem
500. E há histórias e personagens deliciosos, lá naquelas 1.600 páginas
“introdutórias”.
Em meus tempos de missa, que duraram até os 16 anos de
idade, nunca ouvira falar em Ester, por exemplo. Ou em Judite, Rute ou Abigail.
Nada das tretas do Sansão com seus cunhados, aliás eu nem sabia que Sansão e
Dalila eram personagens bíblicos.
Nunca poderia imaginar uma história como a do rei Davi com a
mãe do rei Salomão, a Betsabeia. Nada sabia das incursões psicanalíticas e dos
sucessos administrativos de José no Egito e Daniel em Babilônia. E o que dizer
da deliciosa história da Sara com o Tobias?
Tudo bem que esse quarto de páginas, que é o Novo Testamento
em relação à íntegra da Bíblia, gerou metade de minhas crônicas, mas isso se
deve à simpática figura de Jesus e à minha remanescente formação católica,
creio eu. Dessas páginas, uma história saborosa, que passa batido nas lides
eclesiásticas em geral, é a de Paulo, em Atenas, em que o apóstolo se deu mal
no confronto ideológico com os finórios do Areópago.
E se nós, alfabetizados funcionais, torcemos o nariz para o
Antigo e o Novo Testamentos (a Bíblia!), o que acontece? Os manipuladores da
crendice e da ignorância populares nadam de braçada. Além do mais, a Bíblia é
um clássico da literatura ocidental, não adianta negar. Até o advento da
imprensa, ela realmente não existia, digamos. Eram, de fato, escritos
independentes, ou melhor: manuscritos independentes, em pergaminhos ou outras
bases, que a Igreja Católica guardava a sete chaves e com muito cuidado. Nem
que os bispos quisessem, era possível popularizá-la junto aos fiéis.
E, então, qual a primeira providência do Gutenberg? Juntou
tudo aquilo e fez o primeiro livro impresso. Mas a Igreja, acostumada demais
com o sistema anterior, decretou que ele não devia ser lido pelo cidadão comum,
isoladamente, porque era muito complexo/sagrado (e, cá entre nós, não estava de
todo errada…).
Ao mesmo tempo, obrigou o tal cidadão a comparecer ao menos
uma vez por semana ao pé do padre, para a leitura coletiva. E essa leitura
coletiva consistia, e consiste, em o padre ler 10 linhas e fazer a
interpretação durante trinta minutos. Mas só passagens do Novo Testamento, e
enfatizando os Evangelhos!
E o livro, aquele de Gutenberg, barateou, mas continua
pesado, com folhas muito delicadas, frágeis; melhor deixá-lo n'algum local
nobre e de difícil acesso da casa, cuidando de desaconselhar até mesmo sua
manipulação por algum membro mais ousado da família.
Não demorou muito e Lutero, ou Calvino, não sei, só para ser
do contra, disse que todos — todos — deveriam ler ao menos um trechinho da
Bíblia diariamente. Mas não somente isso: deveriam levá-la debaixo do braço
para onde fossem e, se donos de hotel, deveriam deixar um exemplar em cada
gaveta de criado-mudo dos seus estabelecimentos (daí por que ninguém poderá me
acusar de banalizar nada).
Aí foi um deus nos acuda. O povo foi descobrindo cada coisa
escrita lá! As desabonadoras varria-se para debaixo do tapete; as convenientes
interpretava-se ao pé da letra. E o que aconteceu foi que não demorou para
surgirem intérpretes independentes e interessados: os neopentecostais. E a
leitura do trechinho diário foi dispensada, devendo ser substituída pelo
repasse nos grupos do WhatsApp de uma passagem postada pelo pastor. Mas levar o
calhamaço debaixo do braço para onde fossem continuou obrigatório.
E a Igreja Católica, o que fez – mas após quinhentos anos,
depois que a vaca já tinha ido pro brejo? Fez uma primorosa edição crítica da
Bíblia, por um grupo de franceses, que recebeu o título de La Bible de
Jérusalem. Em português, no Brasil, publicada pela Paulus, editora
católica, com o título Bíblia de Jerusalém.
E o fato é que eu, aproveitando a quarentena da COVID-19 e
por livre iniciativa de livre pensador, andei com esse tijolo debaixo do braço
por uns cinco meses… Foi a segunda vez que fiz isso. Na primeira, há 30 anos,
li porque minha cônjuge a pôs na cabeceira da cama, do meu lado, e eu não
resisto durante muito tempo a um clássico tão próximo assim, qualquer que seja
a sua natureza. E a li muito rápido, nada restando do esforço. Agora, nesta
segunda vez, restaram estas crônicas.
Em cada crônica, há ao menos uma referência a um versículo,
recurso que permite ao leitor saber qual trecho me inspirou a tal crônica. Como
a brincadeira vai do Gênese ao Apocalipse, é uma forma de provar ao leitor
desconfiado que eu realmente passei pelas 2.206 páginas do livro, incluindo as
extensas notas de rodapé.
Realmente me diverti muito enquanto as escrevia e digo-lhes
que é um ótimo artifício para suportar leituras muito longas ou enfadonhas
(porque eu lia um trecho e escrevia a respectiva crônica em seguida). Tomara
que a leitura lhe seja prazerosa. Aliás, durante a leitura, recomendo manter
uma Bíblia ao lado para conferências e outras descobertas.
O autor
Primeira parte: Antigo Testamento
Pentateuco
Gênesis (Gn)
Êxodo (Ex)
Levítico (Lv)
Números (Nm)
Deuteronômio (Dt)
Bíblia, literatura e razão
Todo mundo conhece a estória do dilúvio e da arca de Noé. A
Terra já era povoada, mas ninguém prestava. Então, Deus, o criador (e dono,
portanto) daquilo tudo, pensou bem e decidiu: vou acabar com essa safadeza toda
e começar de novo.
Em verdade, tudo ainda era muito novo, não fazia muito tempo
que as coisas haviam sido criadas (sabe quando a gente começa a fazer uma coisa
e, daí a pouco, vê que tá errado, desmancha e começa de novo?). Pois foi isso
que Deus fez. Abriu as comportas que seguravam as águas de baixo e as de cima e
inundou tudo. Matou tudo o que respirava e se movia sobre a terra.
Mas, para não ter de começar tudo do zero, passar pelo
vexame de Adão e Eva novamente, Deus escolheu uma das suas criaturas
melhorzinhas — o Noé — e a avisou do aguaceiro com antecedência, enfim, a
estória da arca de Noé, que todos conhecem.
Quando as águas baixaram, na hora do desembarque, Noé e a
filharada toda, e noras e genros, e netas e netos, família grande pra caramba,
toda aquela animalama, tudo embolorado pela umidade de mais de 150 dias de
chuvas ininterruptas, naquele ambiente fechado, sem nenhum furinho, o fedor
deixado pelos animais confinados… um casal de cada bicho que vivia na terra,
foi um perrengue danado.
E a enorme embarcação (130 metros de comprimento por 23 de
largura por 14 de altura – Gênesis 6, 15-16), improvisada, construída às
pressas, parou no seco e no alto – claro, longe de qualquer porto –, sem
nenhuma infraestrutura de desembarque. Pensem no perrengue!
Ainda bem que não havia peixes, batráquios, crustáceos e
anfíbios em geral, que se viraram por conta própria durante a inundação. Senão,
não sei como fariam com eles no seco, sendo que nem geladeira havia naquele
tempo. Deus, vendo a trabalheira, concluiu não ter sido uma boa ideia e
disse:
“Eu não amaldiçoarei nunca mais a Terra por causa do homem,
porque os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância; nunca
mais destruirei todos os viventes, como fiz. Enquanto durar a terra, semeadura
e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não hão de faltar” (Ibidem,
8, 21-22).
Não mais ia repetir aquilo, nunca mais ia destruir a Terra,
o bicho-homem não tinha jeito mesmo, era mau por natureza. Quer dizer, o
coração do homem era mau; que fizesse besteira à vontade que Ele não destruiria
mais a Terra.
E vejam que Deus não contava com a razão. A razão era a
cobra ou o capeta. Deus queria manter o homem bem longe da razão. Inclusive,
ela já havia sido devidamente tratada. Por causa dela, o homem perdera a moleza
do Jardim do Eden, o Paraíso. (Parênteses tudo a ver: você, que tem filhos: eles
já estão na idade de serem postos para fora do Paraíso?).
E, nesse negócio de “enquanto durar a terra”, será que Deus
estava pensando na Bomba? Num meteoro? No derretimento das calotas polares?
N'algum vírus? No consumismo? Na internet? Bom, parece que nesse propósito de
nunca mais acabar com os viventes da Terra Deus reconsiderou, senão não tinha
tanto profeta dando uma de Noé até hoje.
Abrão no Egito
Olha só, vai vendo como Abrão era sacana. Ele e Sarai, sua
mulher, e toda a sua turma, viviam no território que, depois, veio a se chamar
Líbano, Jordânia, Síria, Palestina. Houve uma fome danada, por causa da
recessão e do desemprego provocados pelo neoliberalismo econômico, e Abrão
pegou sua turma e se mandou para o Egito. Naquele tempo, o Egito era uma
espécie de Estados Unidos de hoje. Economia desenvolvida, terra das
oportunidades, cidade grande, faraós.
Só que a Sarai, sua mulher, era linda (nova ainda, naquele
tempo não tinham filhos). E os egípcios não davam moleza. Quando chegava um
retirante com uma mulher bonita, simplesmente matavam o sujeito e ficavam com a
mulher. Mas se o homem fosse irmão da mulher bonita, aí era diferente. Os
interesseiros egípcios cobriam-no de vantagens porque, na ausência do pai, era
o irmão que concedia a irmã a quem melhor pagasse por ela.
Então, às portas da cidade, Abrão, escolado, falou para
Sarai dizer que era sua irmã. E assim fizeram, e o faraó querendo agradar o
“irmão” de Sarai de tudo quanto era jeito, e favorecendo-o nas concorrências
estatais — acho que Abrão constituiu logo uma construtora. E enquanto Sarai
distraía e prometia ao Faraó, Abrão trabalhava… e enricava (Gn 12, 11-16).
Eu sei que Abrão juntou um escarcéu de ovelhas, bois,
jumentos, escravos, servas, jumentas e camelos. Porém, no bom da festa, Iahweh
(Deus), vendo aquela pouca-vergonha no palácio, uma mulher casada tricotando
com o faraó, enquanto seu marido ganhava dinheiro fornecendo ao estado, fez
grandes pragas se abaterem sobre o país. Então o faraó se tocou e foi reclamar
a Abrão, que ele — faraó — não sabia de nada, era inocente, fora enganado pelo
próprio marido, que se dizia irmão…, mas era tarde, as pragas já comiam soltas
e as burras de Abrão já estavam abarrotadas. De qualquer maneira, o faraó os expulsou,
que fossem embora — sumissem — e, inclusive, que carregassem tudo o que haviam
acumulado de riquezas, que ele não queria confusão com o Deus daquela gente; era
um governo sério, nada de favorecer rufiões e feiticeiros.
Aí fiquei pensando: isso explica a existência de tanto
proxeneta no mundo. Tudo bem, Abrão era gente boa, Sarai séria, queria apenas
salvar a própria vida, mas a encenação foi longe demais, tanto que, não fora a
intervenção divina, não sei quando e onde a festança ia parar. Porque, parece
que, para ambas as partes, ou melhor, para as três partes, o arranjo estava
bastante satisfatório.
Abrão e Sarai: esses dois!
Abrão mudou o nome para Abraão e Sarai para Sara. Em geral,
quando ficam ricas ou importantes, ou ricas e importantes, ou se danam a
participar de eleições democráticas, as pessoas moldam seus nomes conforme a
conveniência. José Ribamar mudou para José Sarney; Luiz Inácio acrescentou
Lula. FHC já era príncipe antes de se candidatar, não precisou mudar nada.
Abraão e Sara formavam uma dobradinha do barulho, de acordo
com o que aprontaram com o todo-poderoso faraó dos Estados Unidos, quero dizer,
Egito. De volta à terrinha, ricos e poderosos, começaram melhorando os próprios
nomes, como vimos. Mas, como se sabe, a maior preocupação de uma família rica é
a sucessão. A herança! E Sara era estéril. Não conseguia dar um herdeiro a
Abraão.
Naquele tempo isso era um pouco mais importante do que hoje,
porque não havia o truque legal e tributário das fundações para gerir heranças
e porque o Estado – a coisa pública – ainda era incipiente, praticamente não
havia opções de doar os próprios bens a uma universidade pública, por exemplo —
como fez Raduan Nassar —, porque não havia universidade pública. A opção era
doar para a Igreja, mas doar os próprios bens para a Igreja não tem tatu que
aguente, daí por que Sara…
Bem, Sara chamou Abraão e lhe falou para se virar com Agar,
sua serva egípcia; que naquele tempo isso podia legalmente, que quem não tem
cão caça com gata e Abraão, que só se ocupava com grana, voto e poder, nem
pensou duas vezes, foi logo negociando com Agar, que ficou grávida (Gn 16,4).
Mas, sabe como é, se ainda hoje, após décadas de firme
atuação feminista, há mulheres que usam o próprio útero como ativo operacional,
imagina naquele tempo. Agar, vendo-se grávida, começou a olhar torto, e por
cima, para Sara. E Sara, confiante no próprio taco, encostou Abraão na parede:
ou eu ou ela! Abraão, todo atribulado em tenebrosas transações com a bancada
pragmática do parlamento, deu de ombros: tô nem aí, se vire com ela.
Vendo que perdeu, Agar fugiu, mas com o barrigão. Iahweh,
vendo a cagada de Abraão, mandou um anjo-conciliador para resolver o imbróglio.
Agar só se convenceu a voltar — por causa do seu instinto materno — quando
ouviu do Enviado que seu filho seria um potro de homem (Gn 16,12); o que se
verificou, mais tarde, ser conversa mole do anjo, mas aí a serva já havia caído
em sua lábia.
O filho de Agar se chamou Ismael, e tanto não serviu que
Deus acabou fazendo Sara parir, depois de velha, Isaac, que já foi nomeado com
o conveniente duplo “a” desde o começo. Isaac, aquele que não foi morto pelo
próprio pai porque Deus suspendeu o pedido na última hora, ao perceber que o
homem era doido, ia mesmo matar o próprio filho.
Jacó e Labão: difícil saber qual o mais ladino
Jacó era irmão gêmeo de Esaú, filho de Isaac, que era filho
de Abraão e Sara, aqueles que embromaram o presidente do Egito. Jacó tinha pra
quem puxar: instado por sua mãe Rebeca, sacaneou seu irmão Esaú que, por ter saído
primeiro no parto, era o primogênito.
A primogenitura valia muito naquele tempo. O primogênito
simplesmente ficava com tudo, principalmente a autoridade. Não quero entrar nos
detalhes da tremenda sacanagem, quem quiser que vá lá no capítulo 27, do
Gênesis. O que sei é que Esaú ficou puto e Jacó teve de fugir, senão morria. E
fugiu para a casa do seu tio Labão, irmão da sua esperta mãe.
(Quem foi lá no Gn 27 viu que o conflito fraternal foi por
causa da baixa visão de Isaac. Dessa grande confusão, podemos deduzir que é um
perigo delegar poder de bênção a alguém que não enxerga um palmo à frente do
próprio nariz).
Acontece que Labão tinha duas filhas, da idade de Jacó e,
mais ou menos, os três com os hormônios à flor da pele: Lia e Raquel. E, Raquel,
a mais nova, era um docinho de coco, uma coisinha fofa, um tesão, segundo Jacó.
Enfim, conversa vai, conversa vem, Jacó concordou em
trabalhar sete anos para Labão em troca de Raquel. No dia do casamento, aquela
festança, os noivos foram dormir. Aí, noite de núpcias, aconteceu tudo de
acordo com o previsto, no escuro, claro.
No outro dia, a claridade entrando pela janela, Jacó olhou
para sua mulher, ali ao lado e quem viu? Lia. Logo Lia, a irmã mais velha,
aquela chata! (Mas, pensando bem… recordando as sensações de poucas horas
antes... até que ela não era de se jogar fora).
Mas não, isso não! O trato era casar com Raquel, aquela
fofinha. Labão justificou a tramoia, dizendo que o costume era casar primeiro a
mais velha. E Jacó ficou tão puto que contratou, para defender sua causa, um
advogado português, que redigiu sua defesa curta e ritmada:
“Sete anos de pastor Jacó servia/ Labão, pai de Raquel,
serrana bela;/ mas não servia ao pai, servia a ela,/ e a ela só por prêmio
pretendia. Os dias, na esperança de um só dia,/ passava, contentando-se com
vê-la;/ porém o pai, usando de cautela,/ em lugar de Raquel, lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos/ lhe fora assim negada a sua pastora,/
como se a não tivera merecida,/ começa de servir outros sete anos”,/ dizendo “Mais
servira, se não fora/ para tão longo amor tão curta a vida!”.
Lendo a defesa portuguesa, muito tempo depois, eu pensava
que Jacó teve de trabalhar mais sete anos para se casar com seu grande amor, a
Raquel. Mas agora, diante da fonte primária, vejo que não foi assim. Ele se casou
com ela rápido, em uma semana.
Foi por isso que saiu com aquela lorota de que “mais
servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida”. Sendo que o sacana
continuou casado com a Lia, também! Eu, particularmente, acredito que ele não
se teria dado tão bem, não fora os pretéritos mais que perfeitos de Camões.
Jacó luta com Deus
Como se sabe, Jacó sacaneou seu irmão mais velho, Esaú.
Tanto que teve de fugir para a casa do tio Labão, senão morria, pois Esaú
queria matá-lo. Nisso há um exagero do Esaú, pois eram gêmeos. Só porque estava
mais perto da saída do útero, Esaú queria toda a herança. Pensando bem, até que
foi bem-feito que tenha sido sacaneado pelo irmão.
Passou-se muito tempo, Jacó casou-se com Lia e com Raquel,
teve filhos também com duas servas, num total de onze (fora as filhas, que
naquele tempo não contavam…). Benjamim, o 12º, ainda não nascera nessa ocasião
em que Jacó deixou a casa do sogro Labão para retornar à casa paterna. Sabemos
também que Jacó ficou rico no trabalho de administração do rebanho de Labão,
usando de artimanha, conforme relata o Gênesis, cap. 30, versículos 25 e
seguintes.
No meio do caminho da viagem de volta, mensageiros disseram
a Jacó que seu irmão Esaú estava perto, viria a seu encontro… acompanhado de 400
homens! Jacó pensou: tô lascado. Então, do rebanho que levava, separou um
escarcéu de cabras e bodes e ovelhas e cordeiros e camelas e vacas e touros e
jumentas e mandou seus servos irem à frente, oferecer a Esaú como presente,
enquanto permanecia acampado à beira do rio Jaboc.
Mas estava tão preocupado que não conseguiu dormir. Então
resolveu levantar acampamento em plena noite. Atravessou as mulheres e os
filhos e toda a tralha para o outro lado do rio e voltou, ficando sozinho na
margem deserta. A meu ver, Jacó estava mal-intencionado. Pensando em dar no pé,
cair no mundo.
Porém, naquela noite de lua nova e escura feito breu,
bateu-lhe um cansaço que o deixou zonzo. O estômago batia-lhe nas costas,
estava só com o almoço do dia, morria de fome. E estava bêbado de medo, as
pernas tremiam.
De repente começou a ventar um pouco mais forte. Jacó sacou
da espada e começou a lutar com as sombras que lhe atacavam. Nunca uma espada
pesou tanto… acho que Jacó desmaiou. Ou dormiu, sei lá. O certo é que sonhou. Mas
Moisés, que escreveu a história, assegurou que foram de verdade o encontro e a
luta com o estranho.
Mas pode ter sido Moisés o responsável pelo aumento. Os
escritores gostam de aumentar. E quando o assunto é o sobrenatural, aí é que se
esbaldam. Vejam o caso do Paulo Coelho. Num simples diário de peregrinação,
encontrou um escarcéu de bruxo, mago, mensageiro, mestre, demônio, anjo, bode,
cão, gato, urubu…, cada um mais misterioso do que o outro.
Os leitores têm orgasmos; no caso de Paulo Coelho, estão comprando
tudo o que escreve até hoje. Até Guimarães Rosa entrou nessa, não ele
propriamente, mas seu conhecido Riobaldo, que desafiou Cramunhão numa
encruzilhada de veredas no grande sertão das Geraes. Por coincidência, também
numa noite de lua nova e ventania…
Acho que esses caras do Além têm vergonha das rugas do rosto
(são muito velhos), daí por que só aparecem ou com luz faltando ou com luz em
excesso… Jacó, quando percebeu que o outro estava brincando, enquanto se
esfalfava para se defender, sacou logo que o tal não era deste mundo.
Então, para ganhar tempo, se agarrou ao adversário, como
fazem os lutadores de boxe, quando estão cansados. E aproveitou para pedir uma
força: “Cara, tô vendo que você é extraterrestre. Me ajude aí com meu irmão,
acho que ele vai me matar”. Aí o estranho pensou e sacou: ”E se você mudasse de
nome?” Taí, a partir de hoje você passa a se chamar Israel!
E foi assim que Jacó morreu, pelas mãos de um estranho, e
nasceu em seu lugar Israel (Gn 32, 23-33). Não sei se por causa de mais essa
artimanha, ou por aquele despropósito de animais recebidos como presente, no
outro dia Esaú estava cheio de saudade do irmão, quando se encontraram. Mas,
pelo sim, pelo não, cada um foi para um lado após o abraço; cada um a construir
sua própria nação.
À luz do que Israel faz com os Palestinos atualmente, é
possível que Esaú tenha se arrependido desse gesto fraternal, estando em enorme
superioridade bélica.
José
José. Não o carpinteiro, o da Maria. Nem o do Drummond. O
José, do Gênesis, primeiro filho de Raquel com Jacó (aqueles de Camões). Jacó
foi outro que também mudou de nome por causa do poder. Mudou para Israel.
Israel teve filhos com Lia, com a escrava de Lia, com Raquel, com a escrava de
Raquel; 12, no total.
Naquele tempo, quando a mulher não podia ter filhos (ou não
gostava ou entrava na menopausa) e o marido gostava ou queria mais, a mulher lhe
dava sua escrava, e os filhos continuavam valendo, legítimos. O senhor da casa
grande brasileira só copiou a primeira parte desse costume…
José sempre foi muito puxa-saco. Sabe esses caras diligentes
e entusiasmados e pacientes e otimistas? Começou puxando o saco do pai, em
detrimento dos irmãos, claro. Porque todo puxa-saquismo é em detrimento dos
demais interessados. Os irmãos mais velhos, sabe o que fizeram com José?
Venderam-no como escravo para um imperialista do primeiro mundo.
No Egito, José foi logo puxando o saco do seu dono, o chefe
do sistema penitenciário do faraó. E trabalhando como se o negócio fosse
próprio. Ele puxava o saco e interpretava sonhos (é que, percebendo que a
psicanálise era profissão de futuro, começou a estudá-la por conta própria, já
que Freud ainda não havia nascido…).
Numa dessas, virou psicanalista do faraó. E nas longas
conversas no divã, enquanto o paciente-faraó se desnudava a contar sonhos e
sucessos e antecipar projetos do seu governo, José interpretava os sonhos do
paciente com a típica lábia escorregadia da profissão e demonstrava sincera
alegria com os bons resultados estatais (porque uma das características do
puxa-saco autêntico é se alegrar sinceramente com os lucros do chefe/patrão).
Bom, após aquelas longas sessões, não restou alternativa ao
faraó senão nomear José primeiro-ministro plenipotenciário. E então José buscou
toda a sua família, que passava fome naquelas terras desérticas além do Mar
Vermelho. O Egito tinha (e tem) a maior riqueza da Terra em meio àqueles
desertos: o delta do Rio Nilo(grande extensão de terra). Pensem numa terra
fértil e úmida! Era. É. Mas José surpreendeu: implantou o comunismo no Egito
(Gn 47, 13-26).
Foi. José, administrando o país, estocou grande quantidade
de grãos, durante sete anos de grandes safras. Depois, vieram sete anos de
safra nenhuma (acumulou na bonança para gastar na fartança). A coisa foi
ficando feia, porque o povo gasta adoidado, muito mais na bonança. O dinheiro e
as bugigangas se acabaram rápido, e então José fornecia os grãos em troca das
terras, que iam para o faraó. Assim, as terras foram todas estatizadas e os
antigos proprietários continuaram trabalhando nelas, pagando 20% do que
produziam ao faraó (chamava-se corveia, e veio para ficar...).
A experiência de José nos ensina que, para fazer a Reforma
Agrária ou implantar o comunismo, não bastam sete anos de terra arrasada, é
preciso também muita reza e a ajuda de Deus.
Moisés & Jesus
Um recém-nascido boiava num remanso do Rio Nilo, dentro de
uma cesta. Mas o menininho estava seco e quente quando foi resgatado pela filha
do faraó. O bebê estava bem agasalhado e a cesta fora bem calafetada, não
entrava água de jeito nenhum. Era mais um hebreuzinho, dentre tantos, jogado no
rio, por determinação das autoridades egípcias.
Todos os recém-nascidos do sexo masculino nas famílias
judias deveriam ser mortos. A filha do faraó pegou aquele bibelô, coisinha mais
fofa. Olha só que estorinha boa pra contar pras crianças: enquanto a cesta com
o bebezinho dentro ia navegando rio abaixo, uma sua irmã (é assim, indefinida, sem
nome, que a irmã aparece na narrativa) ia acompanhando, de longe, para ver o
que acontecia. Quando viu que a filha do
faraó pegou a cesta e ficou compadecida com o choro do nenê, essa anônima irmã
chegou perto e, dando uma de maria sem braço, disse, “Cê qué qui eu vá chamar
uma mulher dos hebreus para ajudar você a criar essa criança?”. A filha do
faraó falou “boa ideia, vá!”. E então ela foi e chamou sua mãe, claro, que era
também a mãe do boneco que estava dentro da cesta. Dessa forma, Moisés cresceu
sob os cuidados da própria mãe. Quando o menino cresceu, ela o entregou à filha
do faraó (Êxodo 2,1-10).
Moisés tinha cidadania egípcia, foi criado no bem-bom de
família local e rica, estudou nas melhores escolas, fez faculdade, foi para a
escolinha de inglês, aprendeu natação, equitação, esgrima, viajou pra Disney… Mas era judeu.
Um dia, vendo um guarda açoitar um trabalhador judeu, matou
o guarda. E teve de fugir. Fugiu para aquele deserto além do Canal de Suez,
terra de ninguém, na época, aliás, terra de Iahweh. Foi lá que Deus o recrutou
para agitar e organizar a população judaica no Egito.
Moisés não aceitou, alegando que não sabia falar em público.
Sendo que naquele tempo não havia o curso de oratória de Reinaldo Polito. Mas
Deus não se deu por achado, porque percebeu que ele estava era com medo. E falou
para o Moisés chamar seu irmão, Aarão, que sabia falar muito bem. E, dessa
forma, inventou o primeiro mandachuva de bastidor e associou, definitivamente,
a lábia com a catequese.
O fato é que Moisés é o mandachuva dos judeus até hoje,
assim como Jesus é o mandachuva dos cristãos. Interessante: quando Jesus
nasceu, havia ordens de matar todo recém-nascido do sexo masculino. Da mesma
forma, quando Moisés nasceu. Perceberam que, desde o princípio, quem determina
e manda na bagaça é o sexo masculino? Deus, Adão, a costela de Adão, Noé,
Abraão, Moisés, Jesus, o papa, o bispo, o pastor, o sacristão, o coroinha... Eu
realmente não compreendo por que há tanta mulher entusiasmada com essa religião
de homens.
Nove pragas e uma barbaridade
A missão dada por Deus a Moisés era libertar os hebreus da
servidão no Egito e levá-los para Canaã, a Terra Prometida a Abraão, muito
tempo atrás. Assim, voltou para o meio deles, organizou sindicatos,
associações, comitês, acho até que fundou um partido, organizou greves,
passeatas… A coisa ficava forte, o faraó chamava para negociar e… nada!
Compreende-se: era um movimento teleguiado do estrangeiro: Deus, do outro lado
do Mar Vermelho, falava para Moisés, que na moita falava para Aarão, que negociava
com o faraó. Se o faraó não libertasse os hebreus, Aarão, com sua vara mágica,
transformaria todas as águas dos rios em sangue, para provar que seu deus era
poderoso. O faraó disse não, e as águas se transformaram em sangue.
Mas os sacerdotes do faraó disseram que aquilo era um truque
manjado e fizeram a mesma coisa. E tome mais mobilizações e passeatas e greves,
até arrancar nova negociação. E outra negativa do faraó. Agora Deus mandava
dizer que um exagero de rãs invadiria o Egito: ia ter rã até sobre a cama do
faraó. Foi. Outro truque manjado, segundo os sacerdotes do faraó, que também
sabiam produzir celeumas de rãs. E a agitação não parava mais. Quanto mais o
governo negava, mais o povo ficava puto e ia pra rua. E novamente se sentavam
para negociar: o faraó para negar e Aarão/Moisés para ameaçar com nova praga.
Dessa vez ia ser mosquito, na próxima, moscas; na seguinte,
peste nos animais; em seguida, úlceras; depois, chuva de pedras; e a oitava,
cuja fama chegou aos nossos dias, gafanhotos. Tudo em vão, os judeus
continuavam o trabalho árduo, sob o tacão egípcio. Moisés ainda tentou mais
uma: três dias de trevas. Nada!
Então Deus apelou para a ignorância e mandou matar todos os
primogênitos. Não só dos homens, mas também dos animais: o primeiro bezerrinho
que a novilha paria era imediatamente morto. Só não morriam os primogênitos em
cuja frente da casa havia a marca de sangue do cordeiro da páscoa… (Ex 12, 13).
Depois dessa barbaridade, o faraó abriu o bico, e qualquer
semelhança com Hiroshima e Nagasaki tem a ver com o mesmo deus Judaico-Cristão,
com a civilizada civilização greco-romana. Os judeus não foram libertados,
foram expulsos e até apressados pelos guardas do faraó. E é assim que começa o
famoso êxodo, comandado por Moisés que aí sim, vitorioso, ficou bom de
discurso.
Não desejar a mulher do próximo
Por um triz que os guardas egípcios não pegam os israelitas
em fuga (gozados, esses egípcios: expulsam, depois correm atrás). Não fora a
maré baixar, depois subir, em horas convenientes, e seriam capturados. E, na
outra margem, o que os esperava? Deserto, seca e fome. Iahweh resolveu o
problema da comida descarregando cargas de um enlatado da marca Maná. E o
problema da água, perfurando poços profundos no deserto, com sondas emprestadas
da Shell, da ExxonMobil, da ChevonTexaco, da BP, aquela que estivesse mais
perto.
Só que naquele tempo a indústria alimentícia não era tão
variada, ainda não se conhecia o milho nem a mandioca e nem existia ainda a
Nestlé, nem a Unilever, e o povo teve de se contentar com aquele único enlatado
durante 40 anos! Mas a água era boa.
A primeira coisa que Iahweh fez foi apartar o povo para
fazer seu proselitismo sossegado, levando-o para longe dos opositores, do outro
lado do Mar Vermelho. Estacionou o rebanho aos pés de um vulcão, para ele ficar
amedrontado e aderir com entusiasmo. Então, chamou Moisés lá em cima, só ele,
que aquilo não era democracia direta, era teocracia representativa, Ele
comandava Moisés, que falava para o povo.
Porque Deus era esperto, sabia, como se viu lá longe no
futuro, com o advento do WhatsApp, que o povo não estava, nem nunca estaria,
preparado para receber a informação bruta, o joio e o trigo misturado. O povo
precisava de representantes e interpretantes.
Moisés, meio ressabiado, foi, mas já sacando, puto, que
Iahweh deu aquela trabalheira danada para ele e seu irmão Aarão, com o povo, lá
no Egito, só para não ter concorrência na hora da campanha eleitoral. Moisés
era ladino, tinha afiado faro político, percebeu que aquilo nem era mais
pregação, lavagem cerebral pura, porque, com o povo nas mãos de Deus, que
dominava completamente o mercado dos fornecedores de água e comida, não havia
alternativa.
Enfim, fazer o quê? A cagada tava feita, agora era ir em
frente. Deus estava no comando, regulamento fixado na pedra. Eram dez
regulamentos, que chamaram de Decálogo. A lavagem foi tão bem-feita que os
cérebros continuam limpos até hoje.
Muito tempo depois, na passagem para o Latim, pelo que parece
um tal Jerônimo, que depois virou santo, atualizou o título de Decálogo para Dez
mandamentos, já prevendo o sucesso e antecipando a terminologia da literatura
de autoajuda.
Eram dez proibições. Tudo começava com “não”, e a proibição
que o povo mais lembrou, depois, por séculos e séculos afora, foi a última que
dizia: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher de teu
próximo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu
jumento, nem a coisa alguma que pertença a teu próximo” (Ex 20,17).
Digo que é a que o povo mais lembra porque é a mais
desobedecida.
Mas, observem que, naquele tempo, a mulher do próximo se
equiparava ao seu escravo, ao seu boi, ao seu jumento, perceberam?
E, séculos depois, Vaticano construído, São Jerônimo ou
Santo Agostinho, não sei, falou “não, isso não pode ser”. E desmembrou aquela
última proibição da seguinte forma: 9º mandamento: não desejar a mulher do
próximo; 10º mandamento: não cobiçar as coisas alheias. Porque onde já se viu
equiparar a mulher a boi, jumento, escravo, automóvel?
E foi por isso que eu, quando criança, com sete anos de
idade, tive de decorar, para fazer a primeira comunhão, os 10 mandamentos,
dentre os quais um tal que dizia: não desejar a mulher do próximo. Mas os
tempos estão se acelerando realmente. Precisaram atualizar novamente a redação
do 9º mandamento.
A ideia era acrescentar a parte da mulher, tipo: não desejar
a mulher do próximo nem o homem da próxima, o que seria justo, convenhamos. Mas
então um gaiato assessor lembrou logo da sigla LGBT, e outro assessor disse que
essa já era, agora havia outra, LGBTQIA+.
Então o septuagenário arcebispo que coordenava os trabalhos,
lembrando sabiamente que o desejo não tem cerca, decretou o tucanês, no que
todos acharam ótimo, e o 9º mandamento ficou assim: Guardar castidade nos
pensamentos e desejos. Resolvido! Resolvido, mas sem graça.
O bezerro de ouro
Já escrevi anteriormente que Iahweh (ou IHWH ou Deus) não
falava diretamente ao povo. Seu regime era representativo ao contrário: Deus
quem elegia o representante do povo. Moisés, no caso. IHWH falava com Moisés. Talvez
isso explique a impaciência do povo para com esse representante. Vira e mexe
Iahweh tinha de acionar seus anjos-militares para castigar revoltas populares.
Mas, pensando bem, é duro de amar Teresa e tratar diretamente com esse povinho…
O povo era obrigado a comprar água da Shell, porque o
serviço era monopolizado; era obrigado a comer daquele enlatado único e
regulado, da marca Maná, que naquele lugar era um deserto de verdade. E Moisés
naquele vai e vem ao Monte Sinai, em intermináveis e secretas conversas com
Deus.
Quer dizer, Moisés até repassava a Aarão [porque, além de
ser um regime de representação invertida, essa representação era dupla, tinha
duas camadas, o 1º representante (Moisés) falava para o 2º representante
(Aarão) que deveria falar com o povo]. Mas, não sei se porque naquele tempo o
serviço de comunicação era péssimo, ou se porque Aarão só ficava em seu
gabinete – a meu ver, as duas coisas –, o fato é que o povo se sentia
abandonado politicamente.
Então, alguns espertalhões começaram a organizar o povo em
grupos de WhatsApp. E a coisa deu tão certo que, numa dessas intermináveis
conversas de Moisés com Deus no cume do Monte Sinai, esses espertalhões
convenceram o povo a adorar o bezerro de ouro. Deus, que tudo sabe, quando soube,
foi um deus nos acuda. E tome trovões e ventanias e terremotos e pestes.
Pelo que ouvi falar, foi assim: Deus ficou sabendo que havia
no meio do povo uns agitadores pedindo uma constituinte para pôr as leis no
papel, quer dizer, no papiro (porque até então as leis eram apenas orais). Eu
acho que esses agitadores eram advogados… Mas, independentemente do interesse
corporativo, o fato é que, para o mandachuva, quanto menos leis escritas
melhor.
Então Deus se antecipou — porque ditador bom é aquele que não
dorme no ponto —, chamou Moisés lá em cima (do Sinai) para discutir uma nova
constituição, a ser outorgada por Ele próprio. E ficaram lá, discutindo os
dois, enquanto cá embaixo a agitação comia solta: de um lado, os safados do Zapp
e, do outro, os ingênuos do Estado democrático de direito.
Aarão era uma espécie de Rodrigo Maia, querendo agradar a
Deus e ao Diabo. Nessa indecisão, apareceu um sábio tucano e sugeriu que
moldassem um bezerro de ouro para o povo seguir, se distrair. O povo não
suporta o vácuo ou a incerteza ideológica. E já fazia 40 dias que Moisés e
Iahweh estavam lá em cima, naquela conversa que não acabava mais. Aliás, o povo
pensou que o vulcão tinha engolido Moisés, que ele não mais voltaria; enfim,
tratou de arranjar outro deus para adorar, um deus fajuto, no caso. Então Deus
radicalizou: começando pelas novas leis que, em vez de escrevê-las em simples
papiro, escreveu-as em tábuas de pedra. Eu sempre pensei que tábua era só de
madeira; mas não, também pode ser de pedra.
Deu as pedras da Lei a Moisés e mandou: “corre, que a coisa
lá embaixo tá feia. O povo tá viajando de avião adoidado, invadindo as lojas,
enchendo as casas de bugigangas eletroeletrônicas, entupindo as ruas com
automóveis, esquecido da vida e de mim. Vai lá e acaba com aquela festa!”. (E
mais de três mil homens perderam a vida, na ponta das espadas dos Levitas, que
aproveitaram a oportunidade para puxar o saco de Deus e ganhar a concessão de
todas as igrejas, negocião!, conforme Ex 32, 25-29).
A constituição divina
Moisés ficou 40 dias discutindo com Deus a nova constituição
a ser outorgada sobre os israelitas. Discutindo não, ouvindo. A coisa foi tão
demorada que o povo, lá embaixo, esqueceu dos dois e passou a adorar o bezerro
de ouro. Deus falava, Moisés ouvia. Direto, dia e noite, não paravam nem pra
comer. Deus já não come mesmo e Moisés estava jejuando. Jejuando e ouvindo a
ladainha divina. E o povo, na planície, se danando com outros deuses, porque
tocar essa vidinha sem um ser transcendente para descarregar nossos pecados é
insuportável.
Acho que, não fora a concorrência, os dois estariam lá em
cima do Monte Sinai até hoje porque, Deus, tudo bem, além de não ter pressa,
por ser eterno, era o lugar dele mesmo, mas Moisés… sabe como é, o cara vivia
numa tenda, sem banheiro, água encanada, aí foi praquele palácio, porque Deus
deve ter armado um palácio para essa tão importante conversa. Provisório, mas
palácio, algo fácil para quem havia construído tudo o mais em seis dias. Gostou
do conforto, foi ficando, esquecido do povo.
Enfim, Moisés desceu lá de cima com um calhamaço de leis,
decretos, regulamentos, portarias de fazer inveja à nossa cidadã de 1988, uma
coisa, assim, dumas 50 páginas tipo e padrão Bíblia. Mas, por escrito que é
bom, só a merreca dos dez mandamentos, naqueles dois trambolhos de pedra que,
naquele tempo — onde já se viu? — chamavam de tábua. O resto, ele teve de
decorar.
Decorar calhamaços não era difícil como hoje, não havia
redes sociais, Netflix, WhatsApp, contas de água, luz, gás, condomínio, banda
larga, TV a cabo, IPTU, IPVA, boletos da escola, da prestação do apartamento,
do carro, do laptop, da viagem de férias, do dízimo, do cartão, do convênio
médico, não era preciso fazer a declaração do imposto de renda, revisar o
carro, acompanhar a lição do filho, consertar o chuveiro, comprar presente pro
aniversário da mãe, da sogra, da filha, da amante, da sócia, fazer tudo novamente para a casa da praia e
respectiva vizinhança.
Era um tempo de poucas distrações, a cabeça mais leve pra
guardar dados. Apesar disso, Moisés esqueceu algum detalhe, ao repassar o
calhamaço ouvido ininterruptamente durante 40 dias ao pobre do Aarão e seus
filhos, que seriam os sacerdotes encarregados de executar e fazer observar as
tais prescrições.
Tanto que, na hora que Iahweh baixou, para a solenidade de
outorga, houve um incidente banal para Deus, mas fatal para dois dos quatro
filhos de Aarão (Lv 10, 1-3). Os dois filhos mais velhos de Aarão — Nadab e
Abiú —, ao fumegarem o altar com o incensório, fizeram algo diferente do
prescrito, e Deus não perdoou: fuzilou-os ali mesmo, na frente de todo mundo e
do próprio pai. Mas tudo bem, banal, a festa continuou, com pequena interrupção
para remoção dos cadáveres.
Uma coisa boa que achei dessa constituição divina era o ano
sabático e o ano do Jubileu (Levítico 25). O ano sabático consistia em um ano
de folga a cada sete. E o ano do Jubileu era uma espécie de ano sabático
especial a cada sete anos sabáticos normais, ou seja, a cada 50 anos.
No ano do Jubileu, até os escravos eram libertados, os
devedores perdoados, as propriedades resgatadas; era uma anistia ampla geral e
irrestrita, uma grande felicidade coletiva, exceto para a minoria dos previdentes
bem-sucedidos acumuladores de capital.
Funcionários públicos no país governado por Deus
Adotado o critério de Deus no Brasil atual, teríamos 9,2
milhões de funcionários públicos. Segundo o escrito em Números, capítulos 1 a 4
(Números = 4º livro do Antigo Testamento e penúltimo livro da Torá judaica), os
funcionários públicos seriam 4% da população (no país de Deus, Israel,
funcionário público era quem cuidava do templo; a população era de mais de 600
mil pessoas e os sacerdotes e auxiliares chegavam a quase 25 mil).
Considerando que naquele tempo não havia escola pública nem
hospital, nem exército profissional (era só igreja e polícia mesmo), os cerca
de 11 milhões de funcionários públicos que há no Brasil atualmente estão,
proporcionalmente, abaixo do que Deus empregava. Talvez essa informação ajude
na argumentação contra os neoliberais, que vivem dizendo que gastamos muito com
a Máquina Pública.
Mas nada de concurso público! Deus adotaria um critério
arbitrário qualquer para escolhê-los (já vou sugerindo: que tal sorteio?). Acho
que Deus não desprezaria de pronto essa sugestão, como acabam de fazê-lo vários
leitores meus… Porque, cá entre nós, o concurso público escolhe muita gente
obtusa, meu Deus!
Se Deus não fosse um cara que se atualizasse, se Deus agisse
como essas mulheres que ainda usam véu para entrar na igreja e deixam o marido
chefiar o domicílio sozinho, ele diria: todas as pessoas que têm Silva no nome
serão funcionários públicos. Sei lá, deve haver uns 9.200.000 Silvas entre nós
brasileiros.
Sim, porque, no país governado por Deus — os 650 mil
israelitas que fugiram do Egito rumo a Canaã —, ele disse: todos da família Levita
serão funcionários públicos. Quer dizer, disse que seriam sacerdotes, cuidariam
da Tenda da Reunião, o nome que davam para o que hoje chamamos Coisa Pública e
os analfabetos políticos e funcionais (pleonasmo?) chamam Coisa da Viúva.
Mas Deus, apesar de eterno, sabe que quem não se atualiza, atrasa.
E não escolheria os Silva para nos atender na repartição porque conhecia a
sacano-criatividade do povo que iria se formar no lado oriental da América do
Sul três milênios depois. Em 25 anos (uma geração), noventa por cento dos
recrutáveis teriam Silva no nome, todo mundo ia arranjar um jeito de enfiar Silva
no nome dos filhos.
O emprego público, na maioria, é desinteressante e mal pago,
mas ainda muito melhor do que enfrentar o patronato estilo casa-grande ou a
uberização ou o desemprego estrutural de toda sociedade capitalista subalterna,
dependente e subdesenvolvida.
Não sei se o sorteio melhoraria a qualidade do serviço. Mas
o efeito positivo da distribuição equitativa das oportunidades entre a
população certamente diminuiria a quantidade daqueles que tratam a Coisa
Pública como Casa da Mãe Joana.
O maná parecia coentro
E creio que tinha o gosto do bdélio, uma resina amarga usada
para imitar a mirra. Era uma espécie de grão, que caía do céu à noite junto com
o orvalho. O povo rastelava aquela semente, juntando-a em montinhos, e atrás,
vinham os abanadores, com peneiras grandes, de 80 cm de diâmetro e colocavam
sobre elas aquela mistura de terra, gravetos, folhas e as tais sementinhas que
caíam do céu.
Segurando-as com as duas mãos, na altura da cintura, davam-lhes
um impulso para que esse conteúdo se elevasse a cerca de 1,5 metros de altura,
contra o vento, e aparavam a queda de tal forma hábil que as impurezas, mais
leves, separadas pelo vento, caíam no chão, enquanto as sementes caíam sobre a
peneira.
Essas sementes eram colocadas em sacos de estopa de 50
litros e levadas para casa, onde eram despejadas em terreirões para secar ao
sol. A semente era vendida em coco (com casca), ao dono da máquina de
descascar, que as descascava e vendia a um terceiro, que exportava tudo através
do porto de Santos…
Sobrava pouco pra vender; o povo comia quase tudo. Aliás,
não sobrava nada, Deus mandava na medida, de acordo com a fome de cada um. Essa
estória de vender é intriga minha. O povo recolhia a semente, moía em moinho ou
pilava em pilão, assim como fazemos hoje com o trigo e o milho. Produzia uma
farinha e com ela fazia bolos, pães, esfihas, pizzas, macarrão. Só não fazia
bolacha porque não havia açúcar.
A massa resultante já vinha com um sabor de azeite da melhor
qualidade, levemente amargo e, creio, já com sabor de coentro. Sendo que,
naquele tempo, orégano era uma espécie de coentro, daí que a pizza feita com
farinha de maná já vinha polvilhada com orégano e borrifada com azeite, digo,
no gosto, deduzo eu.
Mas não havia carne. Nem seus derivados; nem as imitações,
como os hambúrgueres do Méquidonaldes. Era mozzarella
pura. Por isso que a pizza de mozzarella,
hoje, é mais barata. Porque o povo enjoou. Mas, na época, o povo queria carne,
já não aguentava mais comer maná.
Deus ficou puto e disse: “ah, vocês querem carne?! Pois
terão carne”. E, ao invés das sementinhas, fez chover codornas. As codornas,
extenuadas da travessia do Mediterrâneo, vinham voando e caíam, era só pegar e
depenar. Em 30 dias, o povo pediu o maná de volta, porque é dose pra elefante e
faz mal comer só carne o tempo todo.
É por isso que hoje a gente come arroz e feijão todo dia e
não enjoa. Teve uns que, de tão enjoados, queriam voltar à escravidão no Egito,
com saudade dos pepinos, melões, rúculas, cebolas e alhos (Nm 11,5), porque não
gostavam nem de maná, nem de carne. Acho também que foi por causa dessa
malvadeza com as codornizes que surgiu o movimento vegano.
Deus é amor e...
Sete episódios (e um lembrete) que saíram do saco de
maldades de Deus, até agora:
1. Guerra santa contra Madiã (Nm 31). “(…) Fizeram a guerra
contra Madiã, conforme Iahweh ordenara a Moisés, e mataram todos os varões (…)
queimaram todas as cidades (…) tomaram todos os despojos (…) levaram cativas as
mulheres e crianças e o gado”. Moisés,
vendo os soldados trazendo as mulheres, ficou puto: “quem mandou trazer todo
esse povo? Pode matar todo mundo, só deixem as meninas e mocinhas que ainda não
conheceram homem. Inclusive, podem ficar com elas. Matem as mulheres que já conheceram
homem e os meninos”.
2. O castigo dos 40 anos pelo deserto (Nm 13-14). Iahweh
mandou Moisés enviar um homem de cada tribo para explorar Canaã. Foram, e
durante 40 dias viram como era a coisa. Voltaram e relataram: é uma terrinha
até boa, mas o povo que a habita é poderoso e as cidades são grandes e
fortificadas, têm uns homões grandões, não vai ser nada fácil vencê-los. Mas,
pensando bem, essa terra não é grande coisa… (foram difamar logo a terra
prometida por Deus…). Dos 12, só dois puxa-sacos disseram que tudo bem, que a
terra era excelente e dava para vencer a guerra de conquista com a ajuda de
Deus. Essa “ajuda de Deus” — o nosso atual e popular “se Deus quiser” — foi a
chave da salvação desses dois: Oseias (que mudou o nome para Josué) e Caleb.
Deus ficou puto com os 10 pessimistas e os matou, deixando vivos apenas Josué e
Caleb. E disse que todos com mais de 20 anos, exceto os dois fiéis, jamais
pisariam na terra prometida. Por isso, ficaram 40 anos zanzando no deserto, até
morrerem todos. Aí sim, permitiu que tomassem posse de Canaã.
3. A décima praga do Egito – a morte dos primogênitos (Ex
11). “Assim diz Iahweh: à meia-noite passarei pelo meio do Egito. E todo
primogênito morrerá na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que
deveria sentar-se em seu trono, até o primogênito da escrava que está à mó, e
até mesmo os primogênitos do gado. Haverá então na terra do Egito um grande
clamor como nunca houve antes, nem haverá jamais. Mas, entre todos os
israelitas, desde os homens até os animais, não se ouvirá ganir um cão, para
que saibais que Iahweh fez uma distinção entre o Egito e Israel”.
4. Sodoma e Gomorra (Gn 19). Alguém dedurou a Deus que os
habitantes de Sodoma e Gomorra eram todos depravados. Deus enviou dois anjos
para averiguar. Confirmaram. Então, ele explodiu uma bomba atômica misturada
com enxofre sobre as duas cidades, uma ficava perto da outra. Bastou uma bomba.
Mas antes avisou Ló para que se arrancasse de lá com a mulher e as filhas e
avisou que não olhassem para trás. Lá longe, a mulher de Ló, desobediente e
curiosa, olhou para trás: puft! Virou uma estátua de sal.
5. A rebelião de Coré, Datã e Abiram (Nm 16). Esses três
conseguiram amotinar uns 250 homens contra a liderança de Moisés e Aarão. Deus
ficou puto e disse que ia acabar com eles e avisou: “Afastai-vos da habitação
de Coré”. Em seguida, fez a terra se abrir e engolir vivos todos os rebeldes,
incluindo suas mulheres e seus filhos e escravos e rebanho. O povo começou a
protestar, dizendo que aquela tragédia era culpa de Moisés e Aarão. Iahweh
ficou mais puto ainda e mandou uma Praga atacar todo mundo. Foram 14.700
mortos, até a Praga cessar, depois de muita reza e arrependimento.
6. A adoração do bezerro de ouro (Ex 32). O povo, pensando
que Moisés os havia abandonado e sumido no alto do Sinai, enquanto conversava
com Deus, passou a adorar um bezerro de ouro como ídolo. Avisado por Iahweh,
Moisés desceu, puto, e soltou os cachorros em cima do povo. Então foi a vez do
povo ficar puto e desenfreado. Moisés, ao ver a coisa feia, pediu socorro. Os
puxa-sacos dos Levitas protegeram-no, salvando-o da ira popular. Após abafar a
rebelião, Moisés mandou os mesmos Levitas: “Cingi, cada um de vós, a espada
sobre o lado, passai e tornai a passar pelo acampamento, de porta em porta, e
matai, cada qual, a seu irmão, a seu amigo, a seu parente” (Êx 32,27). Naquele
dia, morreram, do povo, uns três mil homens.
7. Deus fuzila Nadab e Abiú (Lv 10). Estes eram os dois
filhos mais velhos de Aarão e o ajudavam nos serviços do templo. Numa das
solenidades em que Iahweh estava presente, os dois “tomaram cada um o seu
incensório. Puseram neles fogo sobre o qual colocaram incenso, e apresentaram
perante Iahweh um fogo irregular, o que não lhes havia sido determinado. Saiu
então, de diante de Iahweh, uma chama que os devorou, e pereceram na presença
de Iahweh” (Lv 10,1-2) e de todo mundo, inclusive do próprio Aarão, o pai, que
permaneceu calado, porque, se desse um pio, morria também.
Apenas essas sete maldades, para não falar da nossa expulsão
do Paraíso pela miséria de uma maçã, logo de cara, sem um primeiro castigo
educativo intermediário. Também fazendo de conta que Deus não matou afogado
todo mundo, salvando apenas a família de Noé, só por causa dos muitos corruptos
que havia entre a população. No mais, fiquem tranquilos. Deus é amor.
A responsabilidade coletiva, segundo Deus
Tudo começa com a sacanagem de Deus para conosco, só por
causa da sacanagem da Eva (Adão sempre foi um bobão, a sacana era a Eva…). Os
dois furunfaram e nós sofremos as consequências até hoje. Não fora aquela
libidinagem, e estaríamos no bem-bom para sempre. Se bem que, estaríamos no
Paraíso, comendo, bebendo, passeando, livres de peste e patrão, mas… sem
libidinagem!
É claro que Deus foi clarividente e acertou em castigar as
gerações vindouras por uma simples trepada inaugural porque aquele povo,
naquela mordomia, faria da vida uma eterna bacanal. E seria insuportável, para
Deus, uno e solitário, assistir eternamente àquela suruba coletiva.
Depois, Deus matou todo mundo (exceto quem sabia respirar
debaixo d'água), salvando apenas a família de Noé, só por causa de alguns
corruptos sacanas e outras safadezas mais ou menos generalizadas… Ora, sempre
se salva alguém, há sempre um limpo em meio à sujeira; mas não, o castigo era
coletivo, porque, no fundo, no fundo, todos temos alguma culpa pelo descalabro
dominante.
Certa feita, chegando os israelitas à borda do deserto,
próximos ao destino final, Moisés pediu aos chefes das 12 tribos que compunham
o povo que fizessem um reconhecimento da área. Eles penetraram no território,
disfarçadamente, para avaliar a topografia e as condições do povo que lá vivia,
com vistas à futura invasão.
Ficaram por lá durante 40 dias. Na volta, apenas dois desses
chefes relataram com otimismo a terra e as condições de conquista; os outros 10
avaliaram que o povo que lá vivia era muito forte, difícil de ser vencido e
aproveitaram para dizer que a tal terra prometida não era lá grande coisa.
Iahweh ficou uma fera. Matou os 10 na hora e disse que todos,
das respectivas tribos, com idade acima de 20 anos (em idade de lutar), não
veriam a tal terra prometida, morreriam antes. De fato, Deus enrolou a turma
durante 40 anos, a zanzar pelo deserto, até que o último morresse. Só então fez
com que se apossassem da terra que prometera.
O castigo pela covardia de 10 se estendeu aos milhares, incluindo
Moisés e Aarão. Um peca, todos pagam. Um suja, todos limpam. Um destrói, todos
são obrigados a reconstruir. Um faz besteira, sobra pra todo mundo. Tá certo,
somos responsáveis pelo próximo, pelo conjunto. Sofremos as consequências dos
vícios e virtudes de quem elegemos. Achei razoável, essa do Iahweh.
Pentateuco: até aqui, tudo sob controle
Terminada a leitura do Pentateuco (os cinco primeiros livros
do Antigo Testamento da Bíblia cristã, também conhecido como a Torá judaica),
percebo que Deus é um sujeito meio imprevisível, rigoroso às vezes, ou
irritadiço, ou generoso, ou preso a detalhes, mas nunca brincalhão; um cara
sistemático, como diria o caipira.
Sim, Deus é um cara meio exagerado, oito ou oitenta,
parecido com esses medalhões (fodões) de hoje. Por exemplo, temos, de um lado,
acadêmicos e cientistas e, de outro, bispos e pastores. Materialistas e
espiritualistas. Estes não pensam quando sentem e aqueles não sentem quando
pensam.
Uns estudam Hesíodo, Homero, Platão, Virgílio, Cícero e Sêneca.
Outros vivem com a Bíblia debaixo do braço, esse calhamaço de literatura
antiga, composto por mais de 70 livros escritos por dezenas de autores. Uns só
estudam a civilização greco-romana; outros pensam que o mundo se resume à moral
judaico-cristã. Sendo que esta e aquela regem o mundo ocidental. Uns e outros
instrumentalizam a literatura para fins corporativos. Ambos não se dão conta do
quão parciais são. Parciais e ridículos.
Por que não estudar Platão na igreja e Jeremias na
academia? Quem sabe uns e outros não
seriam desmistificados e não teríamos papas na língua nem nas cátedras nem nos
vaticanos?
Eu, no exercício da minha liberdade intelectual, estou lendo
a Bíblia com o mesmo espírito que li a Ilíada,
a Odisseia e a Eneida. E Proust. E constato, em continuidade à crônica anterior,
uma contradição entre pai e filho: Deus é socialista de uma só nação, enquanto
Cristo é individualista internacionalista.
Deus escolhe uma nação dentre várias, o que é mau. Mas, dentro
dela, deus é coletivo, o que é bom. Cristo é individualista, com aquela de cada
um que salve a própria alma, o que é mau. Mas é um cara tolerante, acolhedor
universal, incapaz de matar uma barata, o que é bom. Deus e seu Filho, dois
paradoxais.
Livros históricos
Josué (Js)
Juízes (Jz)
Rute (Rt)
Primeiro Samuel (1Sm)
Segundo Samuel (2Sm)
Primeiro Reis (1Rs)
Segundo Reis (2Rs)
Primeiro Crônicas (1Cr)
Segundo Crônicas (2Cr)
Esdras (Esd)
Neemias (Ne)
Tobias (Tb)
Judite (Jt)
Ester (Est)
Primeiro Macabeus (1Mc)
Segundo Macabeus (2Mc)
Não confunda Jesus com José, mas com Josué
Dizem que Jesus e Josué são homônimos em hebraico. O que sei
é que Josué foi o general sucessor de Moisés, que subiu na vida porque
discordou da maioria dos seus confrades para agradar ao chefe, que havia
prometido certa terra, cuja qualidade não valia tanta labuta, segundo 10 dos 12
representantes das tribos, conforme já relatado.
E Jesus veio muito, muito depois, não como general do
Sistema, mas como subversivo (não é palavrão, mas o que todos deveríamos ser,
neste mundo injusto), que nossos militares chamam de terrorista e outros, mais
desavisados ainda, acrescentam comunista. Entretanto, havia muita coisa em
comum entre o general e o subversivo: o mesmo povinho e respectivo Deus e o rio
Jordão.
Não sei bem a história de Jesus com o Jordão, ainda não
cheguei lá, parece que, além de batizado, ele andou fazendo uns milagres nesse
rio. Mas Josué simplesmente parou o rio para sua tropa passar. Quer dizer, não
Josué, mas Iahweh, usando Josué.
Aliás, Deus era especialista nesse tipo de engenharia, já
havia feito coisa semelhante na travessia do Mar Vermelho, lembram-se? Na
ocasião, quem levou a fama foi Moisés, outro general que conversava com Deus.
No Jordão, perto de Jericó, quem ficou com os créditos foi Josué.
Iahweh, além de grande arquiteto e engenheiro, era um
autêntico cacique político também e, como tal, excelente marketeiro. Realizava
a proeza, mas ficava na moita, deixando seu candidato levar a fama. Isso porque
Deus não era um cidadão deste mundo, não podia ser candidato.
Porém, havia uma grande diferença entre Jesus e Josué. Este
era um simples hebreu, fazendo carreira militar, esforçando-se para ser mais
realista que o rei, aquele era simplesmente filho de Deus.
Josué podia ter a cabeça cortada a qualquer momento, era só
pisar na bola; ou fazia bem o que Deus mandava ou estava lascado. Nenhum espaço
para ousadias ou criatividades, havia que se fechar na obtusidade dos
subalternos.
Mas Jesus era filho de Deus! Ora, todo mundo sabe que filho
pode tudo e algo mais. E raramente um filho é fiel ao pai, não digo no trato,
mas nas ideias. O fato é que Jesus bagunçou o coreto, com sua prática
subversiva, instituindo, assim, como que uma China continental, deixando para
seu pai a ilha de Formosa, mas não quero entrar em detalhes, pois, como disse,
ainda não cheguei lá. Por enquanto, fiquemos com Josué, indicado por Moisés.
Quando chegou do outro lado do Jordão, sua moral estava
elevada. Afinal, parar a corrente do rio, deixando o leito seco, não é para
qualquer um. Então ele danou-se a decretar Anátema sobre tudo quanto era cidade
que encontrava pela frente. Em verdade, a terrível sentença era ideia de Deus,
mas o general, querendo agradar, antecipava a carnificina.
Jericó foi a primeira vítima (Js 6,17), depois Hai (Js 8), e
em seguida as cidades do sul, depois as do norte. E o que é anátema? Anátema
sobre uma cidade quer dizer: invadi-la, matar todos os homens, mulheres e
crianças e pegar tudo de valioso que há. Mas tudo com muito escrúpulo,
devidamente destinado ao santuário.
A história de Sansão
Estamos acostumados com a dupla Sansão & Dalila. E
também que Dalila foi a perdição de Sansão. Parece que Dalila foi apenas um
detalhe na vida de Sansão. Um detalhe tardio. Gostoso. Fatal. Dalila era linda.
Bem, isto não está na história, é dedução minha. É que acho que uma mulher com o
nome de Dalila só pode ser linda.
A história de Sansão está na Bíblia, antigo testamento,
livro Juízes, capítulos 13 a 16. De todo o antigo testamento até aqui, é a
história mais longa de um herói israelita que não conversou com Deus, nem se
meteu com os sacerdotes. Um marginal.
Deus também não se meteu com Sansão, mas com a mãe dele. É
que a mãe dele era estéril, então um anjo de Deus apareceu para ela e lhe disse
que teria um filho. Aquela conversa que já havia acontecido com Sara, mulher de
Abraão, que, graças ao anjo, teve Isaac, que gerou Israel (Jacó).
São intrigantes essas histórias dessas mulheres estéreis com
esses anjos do Senhor. Eles nunca aparecem sob a forma de uma pomba ou de um
velho corcunda e decrépito ou de um anjo propriamente dito, com asas e insípido
aspecto andrógino. Os anjos chegam sempre como solitários, arrojados e famintos
forasteiros, num figurino de galã. E conversam com a mulher quando ela está
longe do marido. E, então, nove meses depois, puft! nasce o tal filho
anunciado. Foi o caso de Sansão.
No caso desse anjo que anunciou Sansão, ele apareceu duas
vezes. A segunda a pedido do Manué, marido da mulher. Novamente, quando a
mulher estava sozinha. Digo “mulher” porque não aparece o nome dela na
história… (então, talvez o pejorativo “mané” não venha do português Manuel, mas
do hebreu Manué, pai do Sansão).
“O menino será nazireu”, acrescentou o anjo, dedicado a Deus;
coitado, nem o cabelo devia cortar, de tão largado. Largado, ingênuo e forte. Muito
forte o Sansão, aquela força bruta dos inocentes. Acontece que, naquele tempo,
as 12 tribos dos israelitas estavam dispersas, não havia uma federação que as
defendesse. Vira e mexe eram atacadas por povos vizinhos e vencidas. Deus, de
vez em quando, mandava alguém para liderá-las, que o povo, na época, chamava de
juiz.
Sansão entrou nesse contexto, fazendo estragos nas hostes
dos filisteus, povo safado, segundo os israelitas. Mas Sansão era um abusado,
um bandoleiro, um inconsequente, a primeira mulher com quem foi casar foi
justamente uma filha de filisteus. E, na festa do casamento, que durava sete
dias, Sansão já foi, meio de brincadeira, tentando enrolar os cunhados,
propondo-lhes um enigma, uma espécie de aposta da época.
Os cunhados já iam perdendo (e era uma boa grana), não fora
a já esposa de Sansão, que, no sétimo dia, com jeitinho, naquela hora da
fraqueza masculina, conseguiu dele a resposta ao enigma. Então ela contou aos
irmãos, que ganharam a aposta. Sansão nem ficou tão brabo, apenas se
desinteressou dela, dando-a a um seu acompanhante de honra.
Mas, voltando a Dalila. Dalila era um avião, deduzo, a
julgar pelo que fez com o velho, mas fogoso Sansão. Acabou com ele, coitado. E,
morto esgotado, foi atacado pelos filisteus. A cabeleira já estava rala, uma
careca se anunciava, e aquele mulherão pra sustentar, não tem tatu que aguente.
Foi dominado pelos filisteus que, imediatamente, furaram-lhe os olhos. Sansão,
como sempre, não se abateu, como é normal entre os exuberantes. E a prisão não
lhe foi tão hostil, tanto que seu cabelo começou a crescer de novo. E,
descansado, recuperou as forças, após meses de solitárias, e regulares e
disciplinadas sessões de musculação.
Pra comemorar a prisão do malfeitor, os príncipes filisteus
organizaram um grande evento popular no maior ginásio de esportes da capital.
Era uma dessas construções ousadas, parecidas com as de Niemeyer, sustentada
apenas por duas colunas centrais, no meio do picadeiro, onde o espetáculo se
desenrolava.
Sansão no meio do palco, sendo exibido aos puxa-sacos dos
príncipes, a fina flor da sociedade. As colunas eram próximas, pois não é que
Sansão, numa última demonstração de força, apoiou-se nelas e, com um tranco,
deslocou-as, vindo tudo abaixo, toneladas de pedra e aço esmagando todo mundo. Herói
incluso.
Rute
A discreta, eficiente e fiel Rute me lembra nossa notável
antropóloga, a Dona Ruth. Mas deve ter havido uma diferença grande entre ambas:
a nossa não gostava da sogra e a moabita gostava. Pense na sogra que deve ser,
alguém que gerou um notório como FHC. Sei lá, tem tanto filho da puta de santa…
Já a nora da Noemi não quis largar a sogra nem depois de
morto o marido. Nem depois de a própria sogra insistir. Noemi era gente boa.
Insistiu com Rute “vai minha filha, você é nova ainda, nem teve filho, me
deixa, vai arranjar outro marido!”. Mas Rute: “Não insistas comigo para que te
deixe, pois para onde fores, irei também” (Rt 1,16). Vá gostar de sogra lá em
Jerusalém! Rute encarnou na sogra, como se diz lá na minha terra.
Bem, acho que, ao contrário de dona Ruth, Rute era uma
sonsa. Senão, vejamos. Olha só onde Rute foi respigar: atrás dos segadores do
rico e importante e solteiro Booz (claro, com autorização da sogra… e mais! autorização
e incentivo que, entre aquelas duas, era difícil saber qual a mais sonsa).
Respigar é colher as espigas que os colhedores (segadores)
não conseguem recolher, no normal processo de colheita. Quem já colheu qualquer
roça de grão, como milho, arroz, trigo, feijão, sabe como isso funciona.
Naquele tempo, as viúvas e outras categorias de
desfavorecidos tinham esse direito. Era lei. Então, Booz, outro sonso, viu
aquele pedaço de mulher, aquela viúva esvoaçante, ciscando na sua roça… A
coitada tinha levado uma marmita, já tava fria. Acho que Rute foi a primeira
boia-fria da história, mas o Booz disse: “nããão! Come lá junto com minhas
servas, beba água da nossa moringa”.
E acho que esse tal Booz foi quem inspirou os italianos, um
povo que surgiu uns dois mil anos depois, porque, em seu galanteio, incluiu até
polenta (Rt 2,14). Booz fez o serviço completo. Pediu aos seus segadores: “ei,
deixem a moça chegar mais perto”, “e cuidai também que caiam algumas espigas de
vossos feixes, e deixai-as para que ela as ajunte e não a censureis” (Rt 2,16);
“mas… o primeiro que fizer gracinha com ela, eu mato, depois demito!”.
Eu sei que, nessa brincadeira, Rute levou para casa um
escarcéu de trigo e cevada, para alegria de Noemi. E, conversa vai, conversa
vem, a sogra lembrou Rute que Booz era meio parente, que ela aproveitasse o
entusiasmo do cujo e fosse, limpinha e cheirosa, mas bem coberta, deitar-se ao
lado dele, quando estivesse descansando.
Ora, Rute já estava no prejuízo havia um bom tempo e, além
do mais, foi a sogra quem mandou. Booz estava roncando, ela chegou de mansinho
e se aboletou ao seu lado.
Alta hora da noite, Booz acordou com aquele calor de mulher,
aquele cheiro de mulher, aquela respiração de mulher, mas… esse Booz era um
panaca mesmo! Sonso, mas panaca. Acendeu a luz, quis saber do que se tratava. Vejam
se isso lá são horas de claridade e esclarecimentos!
Tudo em pratos e lençóis limpos, Booz disse-lhe que, sim,
estava na fila do resgate, um costume que consistia em que os parentes
masculinos do marido morto deviam substituí-lo junto à viúva. Estava na fila,
porque havia outro na frente.
Booz era um cara correto — até demais, pro meu gosto —, foi
avisar e conversar com o tal, pra saber se ele ia exercer o direito de ficar
com Rute. O tal nem estava sabendo, mas, informado por Booz, e tendo em vista a
qualidade da viúva, disse: “claro! vou exercer o direito sim”.
Mas Booz, assim naquele jeito sonso, esclareceu-lhe: “só
que, para isso, você precisa resgatar o terreno hipotecado da sogra”. Aí o
candidato esfriou. Não tinha caminhão para tanta areia. Sendo assim, “deixo
passar”, falou. Então Booz entrou com a grana e ficou com Rute.
E da conjunção carnal entre esses dois sonsos sabe quem
surgiu? Obed, pai de Jessé, pai de Davi, aquele da estrela que aparece na
fuselagem dos caças da Força Aérea Israelense. E querem mais? Essa Rute é uma
das eneavós de Jesus.
A história de Davi
Davi para leigos. Sim, o que faz dupla com Golias. O da
estrela israelense, o da árvore genealógica de Jesus, o que foi ungido por
Samuel, o segundo rei dos israelitas, mas que se catapultou ao trono, reinando
inicialmente sobre Judá, uma das doze tribos. Mas a dupla que Davi formou e que
quase ninguém divulga é a com Saul. Davi & Saul, cujo empresário — Samuel —
foi um grande cacique político, fez dois presidentes.
O cinema e a literatura de entretenimento gostam muito de
salientar a luta de Davi contra Golias, assim como a safadeza de Dalila com o
cabelo de Sansão. O entretenimento não tem salvação. Lembram da cena do gigante
Boagirus contra Aquiles, no filme Troia?
Nem me lembro da existência desse Boagirus na Ilíada e lá está ele, naquela cena enorme, lutando contra o herói.
Porém, de fato, a luta de Davi contra Golias está, sim,
narrada no livro de Samuel, no capítulo 17, no que chamavam de combate
singular, com o mesmo caráter daquele entre Brad Pitt e o halterofilista. Dois
campeões lutavam entre si na terra de ninguém, diante dos exércitos inimigos. A
vitória/derrota valia para todos os combatentes.
Todo mundo sabe que Davi era um filhinho de papai, loiro,
bonito, franzino, mas ágil e inteligente, enquanto Golias era um brutamontes,
talvez um negão ou um talibã, ou um russo, ou um iraniano, ou um coreano do
norte, ou um chinês, quem sabe até um cubano...
Todo mundo conhece o maniqueísmo de Roliúde, do mocinho
bonito contra o bandido feio, fraco contra forte, bem contra mal. Não fora a
habilidade de Davi com o estilingue e ele tava lascado, no mano a mano contra a
brutalidade do gigante.
Mas, como para Sansão(Dalila) e Aquiles(Boagirus), para Davi
o confronto com Golias foi apenas um detalhe. O confronto maior, decisivo e
duradouro de Davi, que Roliúde não mostra, foi a disputa política com Saul, seu
antecessor como rei dos israelitas.
Nunca estudei Ciência Política, não sei se essas páginas
constam no currículo. Mas, se não constam, deveriam constar. E também no curso
de formação de diplomatas. E de generais. Porque o embate entre Saul e Davi é
uma sucessão de escaramuças e batalhas, frias ou quentes, abertas ou veladas;
exílios, alianças com o estrangeiro, troca de recursos por simpatias políticas,
recuos táticos, sempre sob o controle remoto de Iahweh.
Enquanto do outro lado do Mediterrâneo, Homero se submetia a
uma carrada de deuses e deusas cheios de imperfeições, a se meterem no enredo
da luta entre gregos e troianos, do lado de cá, no Oriente Médio, um único Deus
decidia os desfechos. Um só, mas sem defeitos…
Davi, entretanto, foi chefe de bando antes de chegar ao
palácio. Uma espécie de Lampião. Ao fugir do rei Saul, que queria matá-lo,
Davi, para se proteger, teve de formar um bando e fugir para a caatinga. “Todos
os que se achavam em dificuldades, todos os endividados, todos os descontentes
se reuniram ao seu redor, e o fizeram seu chefe. Ele reuniu assim cerca de
quatrocentos homens” (1Sm 22, 2).
Lampião, sim. Por exemplo, ele cobrava proteção dos
fazendeiros, que chamava de impostos antecipados, e quem pagava chamava de
bandidagem. Se não acredita que Davi extorquia os ricos, vá lá no episódio do
Nabal e da Abigail, no capítulo 25 do Primeiro Samuel. Nabal estava tosquiando
suas ovelhas, muitas, a maior fartura, quando emissários de Davi chegaram para
cobrar-lhe o dízimo.
Claro, sempre aquela conversa melíflua, indireta,
metafórica, a usada por toda bandidagem qualificada. Nabal era grosseiro, não
entendeu, negou e se ferrou. Nabal é uma metáfora da nossa burguesia, a
conhecida “Casa Grande”. E Davi virou rei.
Davi & Micol
Davi, além de pobre, era um zé ninguém. Aí apareceu o
bombado e grosseiro (pleonasmo?) Golias, com aquela cara de tacho, a desafiar
os soldados inimigos. Davi nem fazia parte do batalhão, estava ali por acaso,
em visita a seus irmãos mais velhos engajados na batalha. Ele manjou aquela
cabeçorra cheia de vento, apalpou o volume no bolso da bermuda onde estava seu
estilingue, que usava para afugentar ursos que atacavam suas ovelhas. Ora, Davi
acertava caga-sebos, um minúsculo passarinho, no último galho da copa de uma
paineira, punha a pedra onde punha o olho. Vendo que o grandão botava banca,
não se conteve e deu dois passos à frente. Não que quisesse enfrentá-lo, mas
por impaciência juvenil.
Pra quê!? Todo mundo, aliviado, entendeu que havia um
voluntário contra o gigante. Davi, vendo que a merda tava feita, deu de ombros.
Escolheu um dos seixos rolados que trazia como munição, ajeitou-o na malha da
arma e deixou o palerma se aproximar. Foi uma só no oco da fossa temporal!; o
insensato embrulhou no chão como um jenipapo maduro.
A pedrada do Davi viralizou. Viralizou também um meme que
dizia: “Saul matou mil, mas Davi matou dez mil” (1Sm 18, 7). Saul, o rei,
pensou: “pronto, taí um concorrente”. E bolou um plano para destruí-lo
(literalmente). Prometeu-lhe sua filha em casamento, desde que trouxesse cem
prepúcios dos filisteus. Esperava que ele morresse na colheita dos prepúcios.
Mas Davi achou aquela exigência uma barbada. E colheu 200,
ao invés dos 100 exigidos e se você acha que tô inventando, vá lá no primeiro
livro de Samuel, ao capítulo 18, versículos 25 a 27. (Vá gostar assim de
prepúcios lá no Oriente Médio!).
Enfim, ele se casou com a filha do rei, Micol. Mas Saul,
amedrontado e ciumento, só pensava em matar o genro, tanto que este teve de
fugir, com a ajuda de Micol, que ficou. Enfim, já naquele tempo, o poderoso de
plantão não suportava sombra.
Passou-se muito tempo, Saul arranjou outro marido para
Micol, Davi virou guerrilheiro, depois constituiu o reino de Judá, constituiu
família, harém, filhos. Saul morreu, foi deflagrada a guerra civil entre os
partidários de seu filho e sucessor e os partidários de Davi pelo trono dos
israelitas. Percebendo inevitável a vitória de Davi, o general do exército
inimigo propôs-lhe negociações. Davi respondeu-lhe: “você pode vir, mas traga
Micol. Não quero te ver em minha frente sem a Micol”.
Enfim, Davi venceu a parada e passou a reinar sobre todos os
israelitas. E, claro, voltou a viver com Micol, dentre outras. Certa feita, quando
a Arca da Aliança chegava em Jerusalém (a cidade que ele estabeleceu como
capital), Davi foi recebê-la em plena rua. Micol, da janela do palácio, viu o
marido lá embaixo, dançando só de tanga, em meio ao populacho, e considerou-o
ridículo.
Micol era danada. Quando o marido entrou em casa, já foi
logo soltando os cachorros: “que coisa ridícula aquele populismo barato lá
embaixo”. E eu, ingênuo, pensando que ela, pessoa fina e instruída, considerava
apenas grosseiro aquele exagero no meio do povo, como se fora um pândego, mas
não. Ela não gostou foi de ele estar seminu no meio das servas… Vejam vocês
como são insondáveis os motivos dos desajustes entre marido e mulher.
Então Davi explicou para Micol que aquilo não era
brincadeira. Que a arca era o próprio Deus e ele, frente a ela, não passava de
um reles cidadão. Que estava cumprindo um grave cerimonial público e que sua
pândega de tanga era um ritual previsto em lei, e que com Iahweh não se brinca.
Mas Micol não quis saber e nunca mais trepou com ele e não teve filhos,
portanto. Mas Davi teve uma penca… (e eu, cá longe no meu canto, fico pensando:
onde vigora a poligamia, a mulher que faz greve de sexo, ou é muito burra ou é
muito esperta...).
Davi & Betsabeia
Do terraço do palácio, Davi viu uma mulher nua tomando banho
de sol no terraço da casa dela, do outro lado da rua (2Sm 11,2). Se a sua
estrela estampa os supersônicos de Israel até hoje, 30 séculos depois, ele
merece três crônicas. Naquele tempo, até os palácios possuíam apenas um pavimento,
porém o pé direito do palácio era duas vezes mais alto do que o pé direito da
casa da dona que tomava sol na laje, vizinha. De modo que o ângulo de visão do
rei era perfeito.
Davi ficou doido com a beleza da moça. Imaginem que Davi não
era um marido carente, considerando seu harém de 30 mulheres. Daí vocês podem
deduzir que Betsabeia – esse era o nome da moça – era um mulherão para mais de
400 talheres. Só que era casada… e bronzeada, o que aumentava o valor da
prataria, penso.
Claro que as noções de imagem e distância eram incipientes. Davi
comparava o que via, lá longe, de modo furtivo, às trinta disponíveis, sem
nenhum desconto às diferenças de foco e fotogenia e disponibilidade. E Davi
agia como marido. Todo marido, ainda que de trinta, vai sempre achar uma graça
inusitada na mulher do outro que toma banho pelada na laje ao longe.
Mas Davi era o rei, e não qualquer rei: um rei absolutista,
sem parlamento ou supremo pra atrapalhar, só uns bispos pra encher o saco; hoje
em dia, ainda há pessoas tão atrasadas que desejam voltar ao tempo dos
bispos...
Claro que, nos bastidores, havia Iahweh, o cacique maior,
mas fácil de tratar porque, além de não poder aparecer, ainda não era deste
mundo, não exigia propinas, pois não tinha nem precisava, nem queria, amantes,
helicópteros e mansões...
E sendo esse marido insatisfeito tão poderoso, mandou sua
assessoria descobrir quem era a gostosa. Era Bet, filha de Eliam e mulher de Urias,
que estava no campo de batalha. Dane-se! Tragam-na assim mesmo. A tesão
descontrolada leva até um cara sábio como o pai de Salomão a fazer besteira…
Bet chegou, treparam, e ela ficou grávida na primeira.
Rapidinho, Davi – espertinho – mandou o general dar folga a Urias
(para vir fazer o filho já feito). Urias voltou para casa... não, passou
primeiro em palácio, para agradecer. Davi a Urias: “vai, rapaz, o que tá
esperando?! Vá pra casa, sô!”. Urias saiu, mas não foi para casa, dormiu na
área de serviço do palácio, com os serviçais.
No outro dia, informado, Davi insistiu: “Ma rapá! Qui qui cê
tá esperando, cara?! Um mulherão daquele e você aqui, dormindo sozinho nessa
espelunca!”. Mas Urias: “Não, meu rei, sou fiel a Iahweh, não conheço mulher
durante a guerra não sinhô”, que a continência era lei religiosa da guerra (1Sm
21,6).
O cara era mais ortodoxo do que o farmacêutico Teodoro
Madureira, da dona Flor e seus dois maridos. Davi desistiu e mandou Urias de
volta à frente de batalha, um escorreito assim só matano... E, ao mesmo tempo,
mandou uma carta ao comandante instruindo-o a escalar o cara no ponto mais
perigoso do combate… Pense se há melhor maneira de matar alguém!!
Urias morreu, Davi chamou Bet para enriquecer seu harém. Parecia
tudo bem, não fora a ira de Iahweh, que viu tudo desde o começo, lá da sua laje
muito mais alta. Deus ficou puto com Davi, mandou o profeta Natã avisá-lo de
que aquela safadeza não ia passar em branco. Disse que suas mulheres iam trepar
com outros na laje durante o dia, que a espada iria fazer um estrago em sua
descendência e, de fato, seus filhos Amnon, Absalão e Adonias morreram de morte
matada, e o nascituro feito com Bet também morreu. Deus não deixou barato.
Mas nem tudo foi prejuízo, na aventura da laje e do binóculo
com Betsabeia: em seguida, ela concebeu e pariu Salomão, que sucedeu ao pai no
trono; no que fico pensando, se era muita competência de Bet ou incompetência
das outras trinta.
Salomão e a mula pintada de zebra
Dizem que Salomão tinha 700 mulheres. Fui lá confirmar e é
verdade. Fora as 300 concubinas. Que que posso fazer, tá tudo lá na fonte
primária e sagrada!! Fico pensando: ele devia ter um almoxarife para manutenção
do estoque de mulheres.
Agora, avaliem a qualidade da vida desse cara, à luz da
sabedoria popular segundo a qual numa casa, um é pouco, dois é bom e três é
demais. E aquela outra que diz quanto à propriedade de mulheres, quem tem uma,
tem uma, quem tem duas, não tem nenhuma.
Quanto ao seu famoso e replicado templo, e à luz da
magnitude do seu mulherio, eu pensava que o tal se destacava mais pelo tamanho
do que pela opulência. Tinha o preconceito de que era uma igrejona, marcando
presença mais pela grandeza do que pela riqueza.
Esse meu preconceito aumentou após a construção da dita
réplica, pelo Edir Macedo & Companhia, lá na Avenida Celso Garcia, no Brás,
da qual já passei em frente. É um teatrão muito grande, tem o formato de um
tijolão de mais de 100 metros de comprimento por mais de 100 metros de largura
por uns 50 metros de altura.
Mas não. É o contrário. Acho que o Templo de Salomão ficou
famoso por causa da opulência, tudo era revestido em ouro, como aquele marido
que tem uma e única mulher de 400 talheres. Nas medidas, era cerca de um quarto
do tamanho do caixotão da Universal brasileira (60x20x30 côvados; C x L x A; 1 côvado
= 0,45 cm, conforme 1Reis 6,2). Sabe aquelas igrejas famosas de Ouro Preto,
acanhadas por fora e esplendorosas por dentro? Acho que o Templo do Salomão era
por aí.
Aliás, coisa estranha esse judaísmo cristão de Edir Macedo,
não? Tá bem, tá bem, longe de mim qualquer profundidade teológica, mas pelo que
já vi até agora em minhas incursões bíblicas, Jesus basicamente virou do avesso
o Judaísmo.
Essa neomistura do neobispo e neoempresário de comunicações
brasileiro tá me cheirando a uma jacarana – mistura de jacaré com caninana –,
que os teólogos chamam sincretismo. Tipo uma mula pintada de zebra. Bom, deixa
pra lá…
Salomão tinha fama de sábio. Eu queria muito saber como é
que se adquire essa fama. Será que ele sabia a diferença entre um cedro e uma
cabreúva? Ou será que ele sabia fazer pão de queijo? Ou será que ele sabia
fazer tricô e crochê?
De modo que a divisão em classes, dos saberes — uns mais
privilegiados do que outros — vem, no mínimo, desde Salomão. Sabe conjugar a
segunda pessoa do subjuntivo? Opa! Esse é sábio...
Tudo bem, Salomão podia ser sábio, mas, com relação às
mulheres, ele deixava a desejar. Como pode ser sábio um sujeito que tem 700
mulheres princesas e 300 concubinas (1Reis 11,3), se uma só já toma todo o
tempo da gente? Eu fico pensando no potencial de chifre que esse cara tinha
para levar. Vá gostar de chifre assim lá no Reino de Judá!
Inclusive, esse exagero de mulheres soava como provocação ao
seu padrinho, Iahweh, que não tinha nenhuma. Aliás, creio que esse deva ter
sido o principal motivo para que Deus não se empenhasse na reeleição e ele não
tenha feito seu sucessor. Mais! Iahweh, por baixo do pano, articulou o
candidato da oposição (1Reis 11,30).
Elias, o arrebatado
O profeta Elias era danado! Certa feita, Iahweh lhe avisou: “Vai-te
daqui desta alta e seca terra, procura um brejo, uma beira de corgo, levanta um
ranchinho lá, porque a jiripoca vai piar e o trem vai ferver, ou melhor, secar.
Vai haver uma seca medonha, se vira por lá enquanto pode”.
Naquele tempo havia profeta em toda esquina, mas todos
fajutos. Sabe esses caras que se anunciam e se vendem como palestrantes,
consultores, coaches, arautos de
novos paradigmas? Naquele tempo era a mesma coisa, uns caras que viviam em
bandos, e confederações, e panelas, e dioceses, e denominações, e dissidências,
e tendências, e vaticanos, todos muito bem instalados nas respectivas
sinecuras, uma corja de embusteiros.
Mas Elias não. Vivia sozinho. Esperto, sabia que Iahweh não
aparecia para bandos. O fato é que a seca foi tão braba que chegou até o brejo
onde Elias se refugiou. E ele teve de fugir para a Síria, onde não havia seca,
porque não fazia parte da jurisdição de Iahweh. Mas a escassez do vizinho se
refletia na cidade da fronteira e a miséria comia solta também ali.
Uma viúva o socorreu, mas não tinha farinha e azeite nem
para si e o filho. Já percebeu como esses viajantes famintos e solitários são
sempre socorridos pelos seus iguais, os mais necessitados? Elias tranquilizou-a:
“não esquenta a cabeça, vai fazendo, faça primeiro um pão pra mim, depois faça
para vocês, não se preocupe com a farinha nem com o azeite”.
E, de fato, aquela merreca de farinha e azeite nunca se
acabava, enquanto a viúva, dia após dia, ia fazendo seus pãezinhos. Então ela
entendeu que aquele era um homem de Deus. Enquanto isso, seu filho ficou doente
e morreu. Aí ela lamentou: “Isso que dá hospedar cupincha de Deus. Ele vê
nossas falhas e deda a Ele. E Ele nos castiga”.
Então, Elias conversou com Deus e reclamou: “Pô, cara! Desse
jeito você queima meu filme”. Deus falou: “Tá bom, vai lá e ressuscita o
moleque”. Mas a seca continuava. Elias só não fazia chover…
Mas espetáculo midiático dos bons dado por Elias foi a
aposta do Monte Carmelo. Ele chamou os capachos do deus Baal e os desafiou: “tomemos
dois novilhos, vocês escolhem um e o outro fica para mim. Vocês oferecem o seu
ao seu deus e eu ofereço o meu ao meu deus. Ninguém leva fósforo, nem isqueiro,
nem binga, nem acendedor elétrico. Só lenha. Aquele que conseguir acender a
lenha, para assar o novilho, não só come a carne assada, mas ganha a concessão
exclusiva do cultivo das almas do rebanho inteiro”.
E foi. Cada um destrinchou seu boi. Ajeitaram a lenha,
colocaram umas mantas com sal grosso sobre as grelhas. Os charlatães de Baal se
danaram a dançar e invocar seu deus, que acendesse o fogo, porque a aposta
consistia em ver qual dos deuses era capaz de acender o fogo, por si só,
remotamente. Elias ali, parado, sem pressa, esperando a fome bater mais forte
para iniciar os procedimentos de churrasqueiro.
Sabe como é, gente esfomeada não repara muito no estado do
assado… E, confiante no próprio taco, mas mais ainda no taco do seu deus, ainda
esnobou, enquanto os adversários se esfalfavam em cânticos e orações e danças e
feitiçarias e despachos e truques diversos e nenhuma labaredazinha pra assar um
amendoim!
Mandou molhar a lenha, “podem molhar a lenha!”. Acho que
molharam a lenha com um líquido que tomaram por água suja, encontrado numa poça
próxima, de caráter viscoso, cheiro forte e cor escura… Eu só sei que foi a
maior moleza para Iahweh, lá de cima, com seu laser, incendiar aquela lenha
molhada, para gáudio do confiante Elias e exultação da patuleia que assistia,
já morta de fome.
Enfim, Elias era tão ladino, tão liso, tão hábil, que nem a
terra conseguiu comê-lo. Passou direto desta para melhor, conforme nos conta o
segundo livro dos Reis, em seu capítulo 2, versículo 11.
O deus da terra
Amigas e amigos, acho que encontrei uma chave nessa
literatura toda. Ela está no versículo 26 do capítulo 17 do segundo livro de
Reis: “Disseram, pois, ao rei da Babilônia: 'As populações que deportaste para
fixá-las nas cidades da Samaria não conhecem o ritual do deus da terra,
e ele mandou leões contra elas. Os leões as matam porque elas não conhecem o
ritual do deus da terra'” (2Rs 17, 26) [grifos meus].
Notem que é deus da terra, tudo em minúsculas, não se trata
do Deus Nosso Senhor, Criador do Céu e do Planeta, mas o deus daquela terra,
daquela cidade, daquele bairro, daquela floresta.
É que os medo-persas invadiram a Palestina e não deixaram
pedra sobre pedra. Quer dizer, removeram toda a população, substituindo-a por
outra. Mandaram todos os judeus para a Babilônia e mandaram babilônios e gente
de outras regiões para substituí-los. (Assim como o capital-consumismo trouxe
os caipiras para a cidade, mudar povos de lugar sempre facilitou a vida do
governo. Os povos ficam tontos, ao perderem seu referencial ideológico, ou
seja, seu deus da terra natal).
A nova população não conhecia a terra, tudo era novidade,
inclusive os leões, que faziam a festa; nunca foi tão fácil comer gente.
Ninguém conhecia a terra e não havia ninguém que conhecia para avisar dos
perigos, das ciladas, dos truques, dos macetes, dos segredos da natureza. Por
exemplo, ninguém sabia o que era mandioca, nem que ela dava polvilho, que dava
tapioca. Jabuticaba, nunca tinham visto, era de comer? Quando viam um boi no
pasto ou na estrada, pensavam que era um leão, e vice-versa.
Os babilônios que passaram a viver em Israel não conheciam
Iahweh, o deus do lugar, entenderam? Por isso, se ferravam, porque Iahweh os
castigava. Então o rei da Assíria mandou de volta alguns sacerdotes do Templo
de Salomão, para ensinar aos novos moradores as manias, os rituais,
preconceitos, mandamentos e idiossincrasias do sistemático Iahweh, o deus da
terra.
É por isso que, ainda hoje, tudo que fazemos depende da boa
vontade de Deus. Foi daí que surgiu o nosso famoso bordão “Si Deus quisé”.
Porque toda terra, quero dizer, todo lugar específico, no
espaço, ou no tempo, ou na cultura, tem um deus específico. Por exemplo há o
deus dos matemáticos, dos médicos, dos literatos... E quem duvida que há um
deus dentro de cada computador, se meu neto semianalfabeto navega num como um
peixe e eu, superletrado, morro afogado? Não há um deus para cada profissão?
Por exemplo, o deus dos motoristas não é São Cristóvão? A deusa que nos protege
dos raios não é Santa Bárbara?
Observem as recorrentes fórmulas bíblicas: “Her, primogênito
de Judá, fez o mal aos olhos de Iahweh, que lhe tirou a vida” (1Cr 2,3);
“abandonarei (Iahweh) os restos de minha herança, entregá-los-ei nas mãos de
seus inimigos, e eles servirão de presa e de espólio a todos os seus inimigos,
porque fizeram o mal aos meus olhos e provocaram minha ira...” (2Rs 21). “Saul
pereceu por se ter mostrado infiel para com Iahweh (1Cr 10,13).
Sempre que alguém não observa uma lei de Deus (da Natureza),
é castigado (se dá mal).
Vejam a fórmula bíblica para a falta de habilidade técnica:
“(...) Oza estendeu a mão para a Arca de Deus e a sustentou, porque os bois a
faziam tombar. Então a ira de Iahweh se acendeu contra Oza: e ali mesmo Deus o
feriu por essa loucura, e ele morreu, ali, ao lado da Arca de Deus” (2Sm 6,
6-8). (Os filhos de Aarão, Nadab e Abiú, acenderam um fogo irregular perante
Iahweh), “saiu então, diante de Iahweh, uma chama que os devorou, e pereceram
na presença de Iahweh” (Lv 10, 2).
O não especialista, ignorante dos “segredos” de algum
procedimento ou mecanismo, ao operá-lo, põe o dedo onde não deve e, puft! leva
uma descarga elétrica, ganha uma hérnia de disco, pega uma doença…, e morre ou
fica ferido.
O que é a experiência, senão o conhecimento do deus
específico, o deus da terra? O conhecimento da natureza da coisa, da nuance que
não aparece em nenhum manual? O pulo do gato, a tecnologia de como fazer, o
costume do lugar, nunca escrito, nunca explícito?
Ora, deus é o subentendido, que ninguém de fora ou que não é
do ramo entende. Por isso, os forasteiros precisam ter cuidado enquanto não
avisados; as crianças precisam ser ensinadas; os operários, treinados.
Quer saber? Acho que esse “deus da terra”, de 2Rs 17, 26,
foi um ato falho (ou sincericídio?), na linguagem totalmente figurada dos
sacerdotes-pastores, usada para não desinquietar o rebanho. No mínimo, foi uma
concessão ao politeísmo greco-romano.
Lepra em Ozias e Maria
Naquele tempo, mulher só era nomeada quando fazia merda. Foi
o caso de Maria, irmã mais velha de Aarão e Moisés. (Aliás, essa Maria me
parece mais decisiva para o Sistema Judaico-Cristão do que a Maria mãe de Jesus
porque, não fora ela, a filha do faraó teria devolvido o bebê Moisés à
correnteza do Nilo e, sem nada escrito, adeus história; ninguém hoje saberia
dos israelitas e seus sucedâneos, como aconteceu com os filisteus, por
exemplo).
O que me lembrou isso foi a lepra no rei Ozias, alguns
séculos depois. No saco de maldades de Iahweh, havia essa da lepra, modo mais
besta de castigar alguém. Mas, depois dessa de Ozias, comecei a desconfiar de Aarão
(que, acho, sacaneou sua irmã Maria), senão vejamos:
Nesse último episódio aconteceu o seguinte: Ozias, filho do
rei de Judá, Amasias, com Jequelias, tinha 16 anos quando sucedeu a seu pai no
trono e reinou por longos 52 anos (2Cr 26). No começo, tudo bem, aquela
lambeção entre ele e o padrinho; destruiu as estátuas dos concorrentes do
padrinho, aumentou o número de dizimistas, conquistou dizimistas de alta renda…
Com o avanço da idade e da experiência, e da sabedoria, e o
prolongamento do mandato, Ozias foi-se esquecendo do padrinho e pensando que
era deus. À medida que o mandato vai-se prolongando, os assessores vão
aumentando em quantidade e ficando cada vez mais bonitos por fora e feios por
dentro. (A overdose de linguagem figurada está fazendo efeito...).
O resultado é que o protocolo fica cada vez mais sofisticado,
e as solenidades mais pomposas. E o titular, desavisado, confunde Jesus com José
e passa a pensar que berimbau é gaita. Pensa que é deus. Foi o caso de Ozias.
Não, Ozias não pensou que era deus, mas bispo, ou ministro.
Num dia de reunião, arranjou uma beca e adentrou o salão do STF, querendo
presidir a sessão. Pra quê!? Os juízes ficaram fulos: “Não é a ti que compete
incensar Iahweh, mas aos sacerdotes descendentes de Aarão consagrados para esse
ofício. Sai do santuário!!!!...” (2Cr 26,17).
Ozias encolerizou-se… já tinha mais de 60 anos, já reinava
há quase meio século, quem eram aqueles parentes de Aarão para lhe
desrespeitarem assim, não estavam vendo com quem estavam falando? Ora, é normal
que uma pessoa de pele branca, quando colérica, fique vermelha ou pálida, ou
ambas, uma depois de outra. Foi o caso de Ozias. E foi o caso de Maria, irmã de
Aarão, alguns séculos antes, lá no meio do deserto, quando os antepassados de Ozias
fugiam do Egito.
Naquele caso, era Aarão em carne e osso que estava presente;
neste, eram seus herdeiros. Vamos recordar: Maria e Aarão não gostaram quando
Moisés, o irmão mais novo, casou-se com uma africana. Começaram a boicotar a
cunhada e murmurar contra o irmão, preferido de Deus. Em verdade, não se
conformavam com o protagonismo do irmão mais novo. “Falou, porventura, Iahweh,
somente a Moisés?” (Nm 12, 2).
Iahweh, antecipando-se à merda no ventilador, chamou os três
para uma reunião: “Escutem aqui, vocês dois (para Maria e Aarão). Qui qui cêis
tão pensando? Moisés não é um profeta! É meu procurador legal e sacramentado.
Com profeta eu me revelo por enigmas ou sonhos, numa linguagem dúbia e ele que
se vire, como se fora um astrólogo. E quem quiser, que acredite. Mas com Moisés
não. Para ele, eu apareço em carne e osso, ops, nuvem e fogo, e falo claramente”.
Diante da cólera e da ênfase divina, Maria ficou vermelha,
depois perdeu a cor. Aarão, oportunista, olhou para ela e, dando uma de
desentendido, gritou: “olha só pra ela, está com lepra, castigo de Iahweh!”. E,
sabe como é, naquele tempo, leproso era sumariamente segregado, fora da cidade
e dos semelhantes, e esquecido; o pior castigo que alguém podia receber.
Então, Aarão, dando uma de sonso, foi chorar com Moisés: “coitada
da Maria, fala com Iahweh, você que tem moral com ele, para perdoar nossa irmã”.
Moisés falou, Iahweh perdoou, mas, enquanto isso, ela ficou lá, no ostracismo,
por sete dias.
E só agora que fiquei sabendo o nome da irmã mais velha de Moisés,
agora que ela fez merda. Lembram de quando Moisés nasceu, de que “sua irmã mais
velha” (Ex 2,4) seguiu o cesto no Nilo, que deu a sugestão à filha do faraó?
Bom, Maria não tinha lepra coisa nenhuma, mas ficou com o estigma, enquanto
Aarão ficou com o cargo.
E a encenação se repetiu com Ozias, coitado. O
sacerdote-chefe, vendo-o vermelho, depois pálido, começou a gritar: “Lepra!
Lepra!”. “Expulsaram-no imediatamente e ele mesmo se apressou em sair, porque
Iahweh o havia castigado” (2Cr 26, 20). E, enquanto os 80 ministros mantiveram
suas prerrogativas e regalias e cargos, Ozias foi excluído e trancafiado num
quarto, até morrer.
Ainda hoje, tem gente que pensa que não foi golpe.
A reconstrução do templo em Jerusalém
“Ihhh! Ferrou. Esse povo é muito encrenqueiro”, disseram os
colonos babilônicos em Jerusalém quando viram os judeus de volta. E quando
começou o buchicho de que iriam reconstruir o templo, se indignaram: “Nem
pensar! É um povo que reza pra guerrear, daqui a pouco começam a construir
bombas, e mísseis, e submarinos, e caças, e feicibuques para espionar os
corações e as mentes...”.
Reuniram-se e escreveram uma carta ao rei Artaxerxes, que
havia substituído Ciro, da Pérsia, que autorizara o retorno dos judeus. Carta
bem-educada, na qual perguntavam se o rei não conhecia o que havia feito aquele
povinho em tempos passados; e, se não sabia, que pesquisasse a história, que se
informasse junto aos vizinhos… pois havia sido por causa daquela beligerância
que Jerusalém havia sido destruída; e aquele povinho iria usar o Templo para
organizar seu povo contra seus vizinhos novamente.
Artaxerxes leu a carta, pesquisou e ficou assustado. “Pelamordedeus,
mande suspender essa reconstrução imediatamente!”. É que, como se sabe, os
israelitas tocaram o terror na região desde a época de Moisés, Josué e, em
especial, na época de Davi, ajudados pela guerra santa de Iahweh e o famoso
anátema. Até que chegou uma hora que Nabucodonosor, rei da Babilônia, foi lá e
destruiu tudo, trocando inclusive as populações: exilando os judeus para a
Babilônia e substituindo-os por colonos próprios, de outras regiões.
Uns 70 anos depois, o Irã (Pérsia) invadiu o Iraque
(Babilônia) e, vejam vocês, foram tolerantes com os judeus. Ciro, o rei, disse
que eles podiam voltar, reconstruir o templo…
Mas então Ciro logo foi substituído pelo opositor
Artaxerxes, deu aquele quiproquó relatado acima. Os judeus suspenderam a
reconstrução, se aquietaram, mas não esqueceram (os judeus não esquecem, porque
anotam tudo...). Quando Dario substituiu Artaxerxes, eles voltaram à carga. “Por
favor, majestade, reiniciamos a reconstrução do templo, foi o Ciro que
autorizou, não acredita, pesquise no arquivo morto”. Dario mandou pesquisar. De
fato, tava lá a ordem, dada havia uns vinte anos: “O templo será reconstruído
para ser um lugar onde se ofereçam sacrifícios...” (Esd 6, 3).
Dario, então, para honrar a palavra de Ciro, falou “tudo
bem, o Ciro autorizou, fazer o quê? Agora é ver a merda que vai dar. Mas já tem
bastante gente nossa lá, acho que eles não vão conseguir retomar aquele
belicismo teocrático. Além do mais, temos de respeitar o estado democrático de
direito”.
Os colonos (os que haviam substituído os judeus, na época da
deportação) estrilaram, Dario não gostou: “o primeiro que transgredir este
edito, arranque-se de sua casa uma viga de madeira; ela será erguida e nela
seja empalado; e sua casa seja convertida num montão de imundícies”... (Esd
6,11). Isso é que é falar grosso. Naquele tempo era assim, só se entendia o
bruto. Ou talvez as minúcias não passam à posteridade, por serem mais difíceis
de relatar.
A meu ver, diante de uma ordem tão peremptória, e vendo o
quartel-general de Iahweh sendo reerguido com tanta diligência, os mais
esclarecidos trataram rapidinho de arranjar outra freguesia onde viver…
Sara & Tobias
Bom, Sara, apesar de ter se casado sete vezes, ainda era
virgem. É que ela matava seus maridos, na noite de núpcias, antes de trepar. Para
o pai e o delegado, ela dizia que fora o demônio Asmodeu. Naquele tempo, o que
não havia de avião de carreira no ar, havia de anjos e demônios. Vocês vão ver
que daqui a pouco aterriza um anjo na história.
Mas não vão pensar que Sara era assassina. Não, o pré-marido
(só virava marido após trepar, ora!) morria de emoção nas preliminares. O fato
é que ele não aguentava o ritmo de Sara, ou melhor, o ritmo e o método e a
criatividade dela. Ela pegava o cara lá embaixo, elevava-o até o teto, depois
soltava, figuradamente... Fazia isso várias vezes, de forma cada vez mais
lenta, no contrapé do contrafluxo do coração do contramacho.
Quando esse coração estava saindo pela boca, naquele ritmo cardíaco
intervalado e longo, só suportado por maratonistas treinados, sabe o que ela
fazia? Tirava toda a roupa dele, depois tirava toda a roupa própria, e acendia
a luz. Puft! O cara explodia. Literalmente. Tinha um ataque por, digamos, três
motivos: pelo ineditismo e qualidade do material em si, pelo desespero de não
saber o que fazer e pelo tamanho do pecado.
Porque uma libidinagem daquela monta, à luz da luz, era um
passaporte especial para o Inferno, com direito a cruzar nadando o Aqueronte. O
cara ficava lá estendido, peladão, enquanto Sara, decepcionada e insatisfeita,
vinha com aquela cara de santa, dizendo pra todo mundo que fora o demônio
Asmodeu.
Para todo mundo não, para o pai, que o casamento era uma
transação de interesse mútuo entre o pai e o marido. E o pai acreditava, depois
a mãe, depois o delegado, a vizinhança. Fazer o que se foi Asmodeu quem matou?
Asmodeu todo mundo conhecia, ou melhor, sabia da existência;
nunca o tinham visto, mas sabiam que ele vinha voando, entrava pelo telhado… E
o primeiro que ousasse duvidar, era excomungado como pessoa sem fé. Porque a fé
amolada corta dos dois lados: quem acredita em deus, acredita no diabo, e
vice-versa. E desconfio que foi daí que surgiu a expressão: ela está com o
diabo no corpo.
Acho que Tobias era medroso, tanto que seu pai teve de
contratar um segurança para ir com ele tirar dinheiro no banco, conforme
veremos. Mas quando viu Sara, ficou valente. Todo homem fica corajoso diante de
uma mulher em flor; quando ficou sabendo de Asmodeu, deu de ombros: por aquele
pedaço de mulher, enfrento até o capeta!
E é aí que o sujeito quebra a cara e acaba no mau caminho.
Eis a origem da expressão “pedaço de mau caminho”. Não era o caso de Sara. Ao
contrário: moça bem formada, família boa, sabia lavar, passar, cozinhar,
costurar. Mantinha sempre juntos os joelhos, abaixava os olhos diante de homem.
O problema era na hora do vamovê. Baixava-lhe o santo, ou melhor, o demônio. O
Asmodeu.
O único jeito de combater um demônio é contrapor-lhe um
anjo. E foi isso que Iahweh fez. Mandou Rafael entrar na história. O pai de Tobias
tinha um dinheiro guardado no banco num paraíso fiscal pra lá de Bagdá. Todo
paraíso fiscal é de difícil acesso e fica longe (Tb 4, 1).
Naquele tempo, como hoje, todo dinheiro que contava era
guardado assim, escondido. Perto de morrer, chamou o filho, deu-lhe a senha e
falou: “vai lá sacar a grana”. E não havia google para ensinar o caminho, havia
anjo. Foi então que aterrizou Rafael para guiá-lo, disfarçado de
segurança-banqueiro. Desde aquele tempo, é assim: ninguém movimenta a reserva do
caixa-dois sem a ajuda de um entendido (banqueiro,
lobista, agente, anjo...).
Durante essa viagem, Tobias encontrou Sara e foi amor à
primeira vista. De ambos os lados, senão ele teria morrido também. Mas quem deu
apoio moral foi Rafael que, isento dessa terrível necessidade humana, disse a Tobias:
“pode ir que eu garanto”. De tal modo que Tobias entrou autoconfiante na
empreitada.
Só que Raguel, pai de Sara, não havia percebido a tramoia e,
pelo sim, pelo não, já foi logo abrindo a oitava cova, enquanto os noivos se
trancavam no quarto de núpcias(era um tempo em que os mortos eram enterrados no
quintal). Mas aí Sara, amando, tava sábia-submissa. E Tobias, amando, tava safo,
doce e paciente. E penso que foi daí que descobriram que a junção da doçura com
a sabedoria dá liga. E inventaram o tal do amor conjugal.
E sabe quanto Rafael cobrou pelo serviço? Nada. Apenas que
Tobias contasse a história para todo mundo. É que o valor da narrativa já era
conhecido pelos de cima, pela gente que chega voando.
Judite, a judia
Se você pensou que Sara era competente só porque, nas
respectivas noites de núpcias, derrubou sete maridos ainda nas preliminares, é
porque você não conhece Judite. Judite fez o comando e o comandante inimigo
perderem a cabeça só com os ombros à mostra.
Corria o mandato de Nabucodonosor, na Babilônia, quando o
general Holofernes, comandante do seu exército, resolveu atacar a frente
ocidental da eterna guerra do oriente médio. É uma terra de muitos deuses; onde
há muitos deuses, há guerra (muitas verdades absolutas entrelaçadas a serem
intransigentemente defendidas...).
Tudo indicava que ia sobrar para os judeus. O general e seu
exército rumavam para a capital Jerusalém, mas, no meio do caminho, encontraram
Betúlia, uma espécie de Belo Horizonte da época em relação a
Jerusalém/Brasília.
Acamparam e se prepararam para o ataque. Desviaram as fontes
de água, e a cidade sitiada seria obrigada a se abrir, quando a sede e a fome
apertassem. Naquele tempo, as cidades eram muradas, não havia avião, nem canhão,
nem satélite.
Mas, olha só a ingenuidade militar da turma. Protegiam-se
com muralhas enormes e deixavam as fontes de água do lado de fora e a
descoberto! Resultado: todo mundo em Betúlia ia morrendo de sede, já haviam
decidido se entregar, quando entrou em cena a viúva Judite.
Judite fora linda, mas com a morte do marido, ninguém mais
tinha certeza, porque vivia coberta, em luto fechado. “Nãnãninanão! Se
entregar?! Nem pensar! Dêxa comigo”, comandou a viúva.
Judite suspendeu o luto e, de dentro dele, explodiu uma
morena cor de jambo e brilho estonteantes. Não sei se os lábios dela tinham
gosto de mel, mas sei que eram vermelhos como tomates e seus cabelos não eram
negros como as asas da graúna, mas castanhos. Enfim, ela estava maquiada para
seduzir, quem pode saber as cores reais de uma mulher com essa intenção?
Quando Holofernes viu aquela assassina (no bom sentido)
dando sopa nas imediações do acampamento (junto com uma criada), chamou-a para
dentro, na maior gentileza. Homem é tudo burro. Burro e primário. E sujo. E
tosco. “Vem cá, querida, tá com sede? Quer comer? Descansar, ir ao banheiro?”.
Judite entrou e não negou: sim, era judia, e disso se
orgulhava, mas fugia da cidade porque seu povo comera, por causa da fome, até
as primícias do trigo e os dízimos do vinho e do azeite, “coisa imperdoável,
serão entregues a ti pelo Iahweh em poucos dias, é só esperar...”. Tanto
continuava judia que trouxera a própria comida kosher, e pedia permissão, para uma
vez por dia, sair na escarpa voltada para o templo da cidade, para rezar.
“Tudo bem, pode ir, minha filha!”, concedeu o comandante. E
já fazia três dias que estavam nessa lenga-lenga. Impaciente, Holofernes mandou
seu ordenança providenciar um banquete e convidar a hebreia. “Seria uma
vergonha para nós deixarmos essa mulher partir sem termos relações com ela. Se
não a seduzirmos, rirão de nós!” (Jt 12, 12).
E foi. Muita comida, muito vinho, música lenta, Holofernes
encheu a cara. De madrugada, seus oficiais saíram discretamente, naquela
cumplicidade masculina, deixando só os dois no aposento. Acontece que o
comandante caiu na cama e dormiu, de bêbado. E Judite, com o próprio alfanje
dele, cortou sua cabeça.
Ela e a criada embalaram direitinho o troféu, colocaram-no
num embornal, e saíram para rezar.
Não, os babilônicos não as estão esperando não até hoje,
porque, assim que viram o chefe sem cabeça, perderam também as deles e saíram
em debandada, deixando tudo para trás, enquanto eram acossados pelos
ex-sitiados que, com a cabeça como estandarte, ficaram corajosos e partiram
para o ataque. E Judite ficou tão importante e tão famosa que nunca mais
conseguiu arranjar marido.
Ester & Mardoqueu
Olha só como é antiga e até onde vai a esperteza humana.
Sabe quem cuidava do almoxarifado de mulheres do rei? Os eunucos! Não é uma
sábia solução? O eunuco é um homem castrado. Justamente: eunuco, em grego,
significa vigilante da cama. Algum rei iria pôr um homem ou uma mulher,
íntegros, com os devidos hormônios, para vigiar a própria cama? Era problema na
certa. Não com um capado…
Quando o rei se casava, a mulher era preparada durante um
ano, para a noite inaugural. Num tô falano que havia um almoxarife — e esse é
um termo bem apropriado — só para administrar essa quantidade e essa
rotatividade! Esse consumo!
Enfim, ela (a mulher) era inaugurada e, na maioria das
vezes, nunca mais usada. “Ela não mais retornava ao rei, salvo se o rei a
desejasse e a chamasse pelo nome” (Est 2, 14). De vez em quando, o rei
inaugurava uma e ficava doido. Então ela virava rainha — a preferida.
Vasti era a preferida de turno. Mas já estava com o ovário
cheio do rei. Um dia se negou a atender ao chamado dele (Est 1,12). Ele ficou
puto e mandou o almoxarife abrir concorrência para substituição da rainha
rebelde. Apresentou-se um escarcéu de adolescentes candidatas ao harém do rei.
Entre elas, uma judia disfarçada, de nome Ester, criada pelo porteiro do rei, o
judeu Mardoqueu.
Tudo isso acontecia em Susa, cidade próxima a Babilônia,
onde o rei persa Assuero possuía um palácio de inverno. Naquele tempo, esse
império dominava tudo, da Índia à Etiópia, passando pelo Egito e a Palestina.
Passado um ano de preparação, lá estava Ester às portas da
sua noite de núpcias. Para Assuero também, porque para ele toda noite era noite
de núpcias… Ester nem era lá grande coisa, do ponto de vista estético. Mas tudo
que ela não tinha de concreto, devia ter de abstrato, porque o rei não quis
saber de outra depois de conhecê-la.
Eu sei que, para encurtar a história, Ester era tão
habilidosa que, certa feita, fez o chefe da casa civil de Assuero ser enforcado
na forca que o próprio mandara construir só para enforcar o seu padrinho
Mardoqueu, por causa de uma antiga intriga palaciana.
E, nessa embrulhada, todos os judeus do império teriam o
mesmo destino de Mardoqueu. Então, Ester reverteu tudo, seu povo deu a volta
por cima, e aproveitaram para decretar mais um feriado: a festa dos Purim.
Sara, Judite, Ester
(Bem, os livros de Tobias, de Sara dos sete maridos, e de Judite
– que fez um exército inteiro perder a cabeça – não aparecem nas Bíblias dos
judeus e dos protestantes. Ou foram censurados ou seus autores só pagaram o
direito autoral reverso aos católicos e aos ortodoxos. Daí por que só nas Bíblias
destes é que foram publicados. Pelo mesmo motivo, o livro de Ester é mais
resumido nas Bíblias dos judeus e protestantes).
Deduzo, pelo que li no livro de Judite, do Antigo
Testamento, que puro é sinônimo de limpo. E que pecado é sujeira. Como já dito,
Judite refugiou-se no acampamento inimigo, fingindo traição ao próprio povo. E
todo dia saía para rezar. Então, “depois de purificar-se (depois de rezar),
voltava e permanecia em sua tenda até o momento em que, à tarde, lhe traziam o
alimento” (Jt 12, 9).
Ela saía para rezar e voltava purificada. Purificar é
limpar. E sujar é pecar. Não é à toa que, em muitas situações, os epítetos
“sujo” e “porco” são sinônimos de infiel ou pecador.
Sara, Judite e Ester estão para Raquel e Lia assim como as
feministas de hoje estão para as donas de casa de 1920. Mas tanto estas como
aquelas desnudam a sensualidade bíblica. Quer ver sacanagem? Leia a Bíblia. No
bom sentido, com todo respeito. A libido aflora como pedra no cume. No varejo e
no atacado. No particular, no paroquial e no nacional.
Conhecemos o xaveco de Jacó (Israel) pra cima de Raquel e
Lia.
Antes, já sabíamos do papelão de Eva pra cima de Adão, que
sobrou para todos nós. Sara, com seus sete maridos mortos, provocou pequenas
tragédias individuais, até resolver sua vida particular. Jacó envolveu toda a
paróquia em sua saga amorosa. Judite salvou uma cidade, graças a seus encantos
visuais e sensoriais. E Ester livrou a barra dos da sua raça do mundo inteiro,
da Índia à Etiópia, só com seu molho.
Na Bíblia, o macho faz a guerra e o sacerdócio. E a fêmea
faz amor e cultiva a casa. Por isso, na solidão da alcova, é o macho que faz
feio. Começa com Adão, envolve Jacó, passa por Sansão, resvala em Booz, suja
Davi e lambuza Salomão. E agora, esse general iraniano que cai feito um pato na
conversa da judia.
Mas é possível algo como feminismo judeu ou sensualidade
bíblica? Parece improvável que encontremos uma coisa e outra na Bíblia.
Violência, tudo bem…
Entretanto, estão aí as histórias, ou melhor, estão lá
escritas, faz tempo. Começa pelos nomes deliciosos: Sara, Rebeca, Lia, Raquel,
Bet, Rute, Abigail, Noemi, Micol, Judite, Ester, Dalila… Dizem que Ester não é
nome judeu, e Dalila era palestina. Isso porque ainda não cheguei em Suzana nem
em Magdalena. Naquele mundo, todo homem que se prezava tinha harém. Quem cuidava
dos haréns eram os eunucos...
Afinal, sensualidade é sujeira? A meu ver, não, mas nunca se
sabe o que pensa Iahweh. A julgar por suas heroínas, até que ele aceita bem.
Claro que é um assunto que ele não domina… Ora, se um padre não deveria dominar
tal assunto (por falta de prática), por que Iahweh deveria? Mas que pecado é
sujeira está lá escrito, ainda que indiretamente. E Deus é uma espécie de
lixeiro ou faxineiro.
Judeus, gregos e romanos
Finalmente, os judeus encontram os gregos e os romanos. É
que cheguei em Macabeus. Entraram para a reunião, que não acabou até agora… Quero
dizer, nós, aqui no nosso mundinho ocidental, ainda estamos sob o guarda-chuva
do moralismo judaico-cristão e do pensamento greco-romano. Enquanto, de um lado
do Mar Mediterrâneo, pontificavam os profetas, de outro, pontificavam os
filósofos.
Enquanto, no lado oriental do mar, Isaías e Jeremias
contavam seus causos sob a batuta de Iahweh, no lado oposto, Hesíodo e Homero
faziam a mesma coisa. Só que estes últimos, em vez de apenas um deus, tinham de
tolerar um Olimpo de deuses e deusas. A vantagem destes em relação àqueles é
que eram deuses parciais, sem a sabedoria totalitária daquele único da outra
margem.
O encontro se dá por volta de 200 anos antes do nascimento
de Jesus. E quando digo “mundinho ocidental”, quero dizer que ignorávamos tudo
— tudo — que acontecia da Índia até o Havaí na direção do sol nascente. Então,
grosso modo, nosso mundinho era dividido entre o Império Selêucida, que ia do
Paquistão ao Mar Egeu, e o Império Romano, que ia do Mar Adriático a Los
Angeles, passando por Nova Iorque.
O Império Selêucida, com capital em Antioquia, na Turquia,
foi o que restou das enormes conquistas do greco-macedônio Alexandre Magno. Ele
dominou tudo que ficava entre os persas e os egípcios, passando por um povo e
um território minúsculo chamado judeia.
Alexandre teve como mestre-escola sabe quem? Aristóteles.
Pense no contato entre um cara educado por Aristóteles e outro educado pelos
sacerdotes de Aarão.
Quando Alexandre morreu, seu mundo foi dividido entre seus
generais; que não pensavam muito diferente dele. Mas a festa durou apenas cerca
de 100 anos, quando os romanos chegaram e dominaram tudo. Os romanos que, para
chegarem ao oriente médio, tiveram de passar pelos gregos e aprender com eles.
Entretanto, entre 160 e 134 a.C., o livro Macabeus, do
Antigo Testamento, conta as aventuras guerrilheiras de Judas Macabeu e seus
irmãos Jônatas e Simão, que deram muita dor de cabeça às forças do império ali
naquele pequeno território. Quem lê, e se baseia apenas na Bíblia, tem a
impressão de que havia apenas duas forças em luta, mocinho contra bandido,
judeus versus gregos. Mas havia centenas de pequenas nações sob o império dos
herdeiros de Alexandre, dentre as quais, a Judeia.
Os gregos, imperialistas, usando porta-aviões, ou filmes de
Roliúde, ou redes sociais monitoradas de Atenas, impunham novos costumes e
levavam à perdição até os sacerdotes do templo. Tiveram a cara de pau de destronar
o deus Tupã e converter os índios ao catolicismo; invadiram a basílica de
Aparecida e botaram um buda no lugar da santa. Dedicaram o Santuário de
Jerusalém ao Zeus Olímpico (2Mc 6, 2).
Aliás, foi por essa época que a guerrilha israelita enviou
representantes a Roma.
Em termos de logística, equivaleria hoje a negociar na Lua; e
isso na locomoção; na língua, equivalia a negociar com os chineses em chinês… Negociaram.
Mas os romanos deram um chapéu nos israelitas e forjaram as condições para o
surgimento, pouco mais de 100 anos depois, de uma liderança mais carismática do
que Moisés... São perigosos esses chineses!
Confronto & conchavo: Judeus & Gregos
Transcrevo um trecho longo do capítulo 4 do segundo livro
dos Macabeus, do Antigo Testamento (2Mc 4). A meu ver, merece:
“Jasão, irmão de
Onias (um falecido sacerdote judeu, muito querido), começou a manobrar
para obter o cargo de sumo sacerdote (Junto ao rei Antíoco, um dos herdeiros
de Alexandre). Durante uma audiência, prometeu ao rei trezentos e sessenta
talentos de prata e ainda … mais oitenta talentos, se lhe fosse dada a
permissão, pela autoridade real, de construir um ginásio e uma efebia, bem como
de fazer o levantamento dos antioquenos de Jerusalém. Obtido… o consentimento…
começou a fazer passar os seus irmãos de raça (os judeus) para o estilo
de vida dos gregos. (…) E, abolindo as instituições legítimas, introduziu
costumes contrários à Lei (de Moisés). Foi, pois, com satisfação que
construiu a praça de esportes justamente abaixo da Acrópole e, obrigando os
mais nobres de entre os moços, conduziu-os ao uso do pétaso. Verificou-se desse
modo, tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros, por
causa da exorbitante perversidade de Jasão (…) que os próprios sacerdotes já
não se mostravam interessados nas liturgias do altar. Antes, desprezando o
Santuário e descuidando-se dos sacrifícios, corriam a tomar parte na iníqua
distribuição de óleo no estádio, após o sinal do disco. Assim, não davam mais
valor algum às honras pátrias, enquanto consideravam sumas as glórias helênicas”
(2Mc 4, 7-16).
Algumas notas, para tornar o texto claríssimo: Ginásio, de
esportes, claro. Efebia: instituição para moços de 18 a 20 anos que aprendiam a
manejar armas e se dedicavam aos exercícios corporais e a alguma cultura
literária; “conduzir para debaixo do Pétaso” era levar alguém aos exercícios de
atletismo, durante os quais se usava esse chapéu de abas largas, típico de
Hermes, o deus das lutas e das competições; “distribuição de Óleo no estádio”:
o óleo com o qual os atletas se massageavam e que lhes era oferecido pelos
ginasiarcas. Essas notas são da Bíblia de Jerusalém, que estou lendo.
Não lhes parecem familiares esse conchavo de Jasão e esse
conflito de costumes e essa disputa de deuses?
E a gente que pensava que eram inocentes idiossincrasias
essas preferências pelas coisas do corpo ou da mente. Depois, que se tratava de
características pessoais, uns atletas, outros intelectuais… sempre no campo
laico da filosofia…
A gente nem desconfiava que, na raiz dessa dualidade
maniqueísta, estivessem, de um lado, o nacionalismo judeu e, de outro, o
imperialismo grego. Mas, daqui umas mil páginas, veremos que deram um jeito de
conciliar as duas coisas: os filósofos greco-romanos abdicaram do cultivo do
espírito, em prol dos sacerdotes judaico-cristãos.
Isso por cima, no conchavo de gabinetes. Aqui embaixo, a
problemática continua. Somente o povo lá dos cafundós, que ainda não viu nenhum
grego e desconhece seu sistema teológico cheio de deuses e deusas,
especialistas, mas falhos, continua firme na submissão ao deus único, macho e
infalível dos judeus.
Cleópatra
Se você acha que a Cleópatra do Júlio César e do Marco
Antônio era ousada, é porque não conhece sua eneavó Cleópatra Teia que, por sua
vez, era filha de Cleópatra II. Isso quer dizer que havia a Cleópatra I… E,
depois, houve outras Cleópatras, antes de Elizabeth Taylor, aquela que se
suicidou deixando-se picar por uma jararaca.
Não sei bem se se pode chamar de ousadia a de Cleópatra
Teia. Era mais uma descarada. Ou melhor, testa de ferro de seu próprio pai,
Ptolomeu VI Filometor, rei de Alexandria, no Egito. Este, nos negócios com os
gregos de Antioquia, ofereceu sua filha a Alexandre Bala, rei do império
Selêucida.
Mas não passou muito tempo e, quando Ptolomeu percebeu que
Demétrio II iria desbancar Alexandre — que ficou sem bala na agulha —, anulou o
casamento e deu a filha ao novo rei, Demétrio. Ousada ou descarada (ou vítima
do próprio pai), essa tal Cleópatra Teia devia ser um avião, a julgar por sua
capacidade de definir um negócio.
Daí pouco tempo, durante uma batalha contra os persas,
Demétrio caiu prisioneiro do rei Arsaces. Cleópatra não se fez de rogada e —
por iniciativa própria, pois seu pai já havia falecido — substituiu o marido
preso pelo irmão dele, Antíoco VI, que ocupou o lugar do irmão na cama e no
trono.
Não, isso não escandalizava os israelitas não, com seus
haréns; quer dizer, os israelitas ricos… A meu ver, essa pouca-vergonha foi um dos
motivos do surgimento, uns cento e poucos anos depois, de uma rebelião de
pobres judeus, cujo líder chegou com uma conversa besta de paz, amor e monogamia.
Petróleo
Essa é para quem achou que forcei a barra na insinuação de
que se tratava de um líquido inflamável muito comum no oriente médio, que
aflora à superfície, a água com que Elias impressionou os pagãos do deus Baal e
ganhou a aposta do Monte Carmelo (1Rs 18, 20-40), e consequentemente a
concessão do manejo exclusivo do rebanho.
Aconteceu no tempo de Neemias, há uns cinco séculos antes de
Cristo. Como se sabe, os judeus foram deportados para a Pérsia. Na correria, os
sacerdotes esconderam o fogo sagrado (o próprio Iahweh, que nunca se apaga…)
num poço seco. Passados muitos anos, Neemias voltou a Jerusalém, com a anuência
do próprio rei da Pérsia, para reconstruir, recuperar, arrumar, retomar a
vidinha dos judeus (sob a Lei de Moisés).
No Templo, aquela bagunça, teias de aranha e muito pó, pois estivera
abandonado por muito tempo… Alguém se lembrou de que um seu bisavô, sacerdote,
escondera o fogo sagrado, ao sair às pressas para a Babilônia décadas atrás.
Neemias mandou procurá-lo. Após fuçar em tudo quanto era canto, encontraram o
tal poço seco.
Mas, em vez de fogo, encontraram apenas uma água espessa.
Neemias, com a certeza da fé absoluta, afirmou que aquela água era o fogo
sagrado do altar de Iahweh que nunca se apaga e mandou o ajudante molhar toda a
lenha da churrasqueira com ela. Este, incrédulo, pensou que o velho tava gagá,
mas, fazer o quê? Gagá ou não, ainda mandava. E molhou toda a lenha.
Então, enquanto tomavam umas brejas, o sol foi esquentando e
a lenha lá, naquele mormaço, debaixo do solão. De repente, puft!, incendiou-se.
Mas de uma forma tão violenta que as picanhas ficaram inaproveitáveis de tão
torradas, praticamente viraram cinzas. E gostaram tanto da brincadeira que
derramaram a tal água espessa sobre umas pedras e puft!, novamente outro
fogaréu luminoso. E Neemias: “Tão vendo!?!! Seus incréus!!!”.
Claro que o fato foi noticiado no mundo inteiro. Ao ficar sabendo,
o rei da Pérsia, “cercando o local, declarou-o sagrado, depois de haver
comprovado o fato” (2Mc 1, 34). E “os companheiros de Neemias deram a esse
líquido o nome de neftar, que quer dizer 'purificação', mas por muitos é
chamado de nafta” (2Mc 1, 36). Pelo sim, pelo não, o rei já iria reservar o
lote para quando fosse inventado o motor à explosão e a matéria plástica…
Livros poéticos e sapienciais
Jó (Jó)
Salmos (Sl)
Provérbios (Pr)
Eclesiastes (Ecl)
Cântico dos cânticos (Ct)
Sabedoria de Salomão (Sb)
Eclesiástico (Eclo)
Paciência e impaciência de Jó
Satanás conversa com Deus, no único boteco da Vila
Extraterrestre, onde ambos moram. Aquela conversa mole de fim de tarde. Como se
sabe, Satã é um provocador por excelência, não perde uma oportunidade. E mais:
vive procurando modos de provocar e tirar a paciência do interlocutor. Porque
toda derrota começa com a impaciência.
“E aí, Iahweh, e aquele seu criado, o Jó? O cara já tá
ficando famoso com sua paciência”… Iahweh só mexeu os beiços, concordando,
enquanto examinava a cor da caipirinha. De fato, Jó era um sujeito muito
compreensivo para com os atos de Deus, um espécime diferenciado do seu rebanho,
um exemplo de judeu.
Lúcifer retomou a carga: “Ser paciente com a conta bancária
recheada é fácil. Queria ver se esse tal Jó continuaria com essa compreensão
toda se ficasse pobre” (Jó 1,10).
Deus, com a autoconfiança que lhe é característica, e sem
tirar os olhos do copo que segurava na altura da boca, disse ao Diabo: “Tudo
bem, veremos. A fortuna do Jó lhe pertence” (Jó 1,12).
O Capeta nem tomou toda caipirinha, saiu dando pinote de
felicidade. E, em coisa de semanas, Jó ficou pobre. Inexplicavelmente, empresas
sólidas onde Jó investia quebraram; o banco onde deixava o grosso da grana
disponível sofreu drástica intervenção do Banco Central e não sobrou nada para
nenhum correntista; uns quatro edifícios desabaram naquela semana, justo onde
Jó concentrava sua carteira de imóveis, incluindo a mansão onde morava,
soterrada por um dos edifícios, que ficava ao lado.
Jó ficou sem renda, sem dinheiro e sem casa. Mas, paciente,
declarou: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. Iahweh o deu,
Iahweh o tirou, bendito seja o nome de Iahweh” (Jó 1,21).
Dois meses depois, novamente Demo e Deus se encontraram na
saideira, no boteco da vila. “E aí, colega, já atazanou a vida do meu servo Jó?”.
Claro que Deus já sabia; sabia, inclusive, da reação compreensiva de Jó. E não
perguntou para provocar, longe de Deus qualquer provocação, provocar é um verbo
só conjugado pelo Mal. Perguntou pra puxar conversa.
Era um assunto do qual o Cujo não queria tratar,
decepcionado com a passividade daquele energúmeno lá da Terra. Mas já que Deus
insistia… “Pele por pele. Para salvar a vida, o homem dá tudo o que possui. Mas
estende a mão, fere-o na carne e nos ossos; eu te garanto que te lançará
maldições em rosto” (Jó 2,4). Aí Deus falou: “Feito! Você pode fazer o que
quiser com a saúde dele. Só não pode matá-lo” (Jó 2,6).
Imagina só a felicidade do Demônio. Eu sei que o coitado do
Jó ficou, em poucas semanas, todo esculhambado, pereba, inflamação, reumatismo,
calvície, hérnia de disco, miopia, surdez, impotência sexual… Antes do Sem
Nome, a própria mulher foi a primeira a provocar: “E aí, o que você acha do seu
deus, ainda o considera bonzinho?”. Jó ainda defendeu a bondade de Deus.
A meu ver, as pessoas só leram até essa parte do livro do
Jó, para saírem por aí propagandeando sua infinita paciência, a ponto de
transformá-la em ditado popular. Mas eu o li até o final e digo para vocês: Não
foi bem assim.
Jó não desancou Iahweh para não dar o braço a torcer à
mulher. Sabe como é, Jó era machista e a sua própria mulher era machista. No
machismo, a fala da mulher não deve ser levada em conta nunca. Por isso, as
mulheres machistas ficam martelando suas reclamações do, e/ou para o marido,
conformadas com o fato de que nunca serão ouvidas. Intimamente satisfeitas,
cozinham, lavam e passam direitinho e educam seus filhos para que reproduzam o
machismo vigente.
Já com seus amigos Elifaz, Baldad e Sofar, Jó soltou os
cachorros: “Pereça o dia que me viu nascer” (Jó 3,3). E os três: “Tenha
confiança em Deus; Deus sabe o que faz”. E Jó: “Levo cravadas as flechas de
Shaddai” (Jó 6, 4). E seus amigos: “Cara, Deus é justo; não fala tanto assim
não, rapaiz”!
Só sei que Jó apenas sossegou quando Iahweh restaurou tudo
que o Capiroto lhe havia tomado; isso depois que Jó disse diretamente a Deus
que se retratava, que faria penitência. É que Deus interferiu na conversa mole
dos três amigos e, acho eu, aliviou as dores de Jó que, esquecendo a própria
desgraça e diante da Sumidade, disse sem jeito que havia falado coisas que não
entendia…
Enfim, o banco onde Jó tinha conta foi recuperado pelo
governo, as empresas das quais era sócio levantaram a concordata e até o cabelo
dele voltou a crescer e, claro, ele voltou a frequentar a igreja e pagar o
dízimo direitinho.
Iahweh aproveitou a visita para dar uma comida de rabo nos
três amigos falastrões, cujos discursos convencionais só fizeram aumentar a
impaciência de Jó. E passou um tempo sem tomar uma no boteco para não encontrar
o colega Cão.
O Eclesiastes
Melhor não ler o Eclesiastes se estiver triste ou numa maré
baixa da vida. Eu fiquei meio depressivo quando li. Quem melhorou meu astral
foi a necessidade de escrever esta crônica. Porque ele começa e termina com a
seguinte bordoada: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2; 12, 8).
Dizem que o autor desse livro do Antigo Testamento foi
Salomão — filho de Bet com Davi —, aquele que reinou em Israel depois do pai.
Pode ser. Um cara que tem 700 mulheres e 300 concubinas não tem nenhuma. É um
solitário, no sentido negativo do termo. Então, pessimista, veio com esta: “Há
um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu” (Ecl 3,1).
Mas claro! Vê se quem tem apenas uma mulher vai se preocupar
com agenda. Porque esse negócio de tempo de plantar, tempo de colher, tempo de
abraçar, tempo de atirar pedras, tempo de amar, tempo de buscar, tempo de
gemer, tempo de falar, tempo de guardar, é coisa de gente que controla seu
tempo numa agenda, por causa das muitas e múltiplas tarefas.
O cara tem casa na praia, casa no campo, quatro carros na
garagem, conta em cinco bancos, dois gatos, três cachorros, 11 cartões de
crédito na carteira, um cavalo, amante na praia, amante no campo, um barco,
pensa na quantidade de IPTU, IPVA, banda larga, gás, eletricidade, água,
condomínio, convênio médico, escola, dentista, o escambau. Para dar conta, tem
de dividir o tempo direitinho, anotar tudo…
Como se sabe, além do numeroso harém que possuía, Salomão
era muito rico. E dizem que era muito sábio também. Eu tenho minhas dúvidas.
Mas pode ser, se controlasse direitinho. Me parece que, ao final, ele se
embananou, não elegeu seu sucessor e, pior, viu seu reino se dividir.
De todo modo, ele sabia a enrascada em que havia se metido e
como gerenciá-la: controlando rigorosamente as coisas e os respectivos tempos.
Nessa, sobrou tempo até para escrever provérbios. Enfim, de que Salomão era
bem-afamado não resta dúvida. A meu ver, foi precursor, com seus conselhos,
dessa pandemia de consultores e palestrantes e coaches e aspones em geral de hoje em dia.
Pelo sim, pelo não, parece-me que ao menos seu editor é
sábio, além de discreto. Ao final e sem alarde, deixou-nos o seguinte conselho:
“fica atento: fazer livros é um trabalho sem fim, e muito estudo cansa o corpo”
(Ecl 12, 12).
O bispo machista
Se o Eclesiastes (Ecl) é sábio demais, por isso triste
demais, por isso chato, porque gosta de dar conselhos demais, o Eclesiástico
(Eclo) é descaradamente moralista, desses de pouca imaginação, nenhum espírito
e muito moralismo primário para cima do rebanho. Sabe aquele pastor chato que
fica gritando com o rebanho ao menor balido fora do tom, à menor bocada num
capim mais longe do trilho? É o eclesiástico.
Diz-se que o Eclesiastes era o próprio rei Salomão, o cara
mais sabido do pedaço, segundo seus contemporâneos… Não, sei lá, tenho dúvidas,
para mim esse epíteto foi-lhe cunhado meio milênio depois, durante o lançamento
do Eclesiastes, por sua editora. Sabe como é, vende mais um livro escrito por
alguém reconhecidamente muito sabido… ou famoso.
Salomão já era famoso por duas realizações, uma edificante e
outra nem tanto. A primeira, como incorporador imobiliário, pois conseguiu,
pacificamente, incorporar todos aqueles terreninhos no centro velho de
Jerusalém, pertencentes àqueles judeus que viviam do aluguel das respectivas
casinhas desde Moisés, para construir seu famoso megatemplo que, de fato,
valorizou muito o entorno. E a segunda, a façanha de ter tido 700 mulheres,
fora as 300 concubinas.
De todo modo, algo que Salomão não precisava ser, para
ganhar dinheiro e prestígio, era pastor ou bispo; porque já era rei. E, sendo
rei, ao dar uma de pastor, podia se dar ao luxo de não ser tão moralista.
Mas o Eclesiástico não. Este era pertencente à carreira
eclesiástica de malas e cuias. Desses padres que, além de usarem batina até na
praia em pleno século 21 e não casarem nem em pensamento, ainda se orgulham
disso e arvoram-se o direito de aconselhar e perdoar os pecados dos homens
casados que usam calças.
E, como todo moralista empedernido, esse pastor do cabelo
escovinha, autor do Eclesiástico, era machista. Meu deus, como era machista!
Não, juro que não vou transcrever nenhum trecho, porque me deixa constrangido.
Mas se você gosta de conferir, vá lá nos capítulos 9, 23, 25, 26, 36 e 42. Sim,
porque além de verborrágico, ele é insistente. Pretende aconselhar sobre tudo e
tenta vencer pelo cansaço.
E era inseguro também. Talvez essa insegurança seja indício
da sua única virtude: a consciência da própria mediocridade. Escreveu um texto
medíocre, percebeu que aquilo não ia dar em nada e engavetou. Engavetou, mas
não destruiu, indício de que acreditava no poder da acumulação e da passividade
das gerações vindouras.
Então, um século depois, na Alexandria, seu neto, tradutor
juramentado de hebraico-grego, desempregado, desengavetou o manuscrito do avô,
traduziu-o e o ofereceu ao mercado de editoras por uma bagatela.
Os judeus, que já conheciam bem o autor, não quiseram nem de
graça. Aos protestantes, ele nem ofereceu, porque na época eram muito pobres.
Mas os católicos e os ortodoxos o compraram e deu no que deu. Na Bíblia
dissidente, o livro não consta. Na minha, católica, consta.
A censura judaico-protestante
Ainda não fui conferir nas Bíblias hebraicas e protestantes
se, nos espaços dos sete livros censurados, colocaram receitas de bolo. Mas acredito
que não porque isso só aconteceria se essa ausência, que gerou o espaço vazio,
fosse provocada por uma força externa e não por vontade e convicção dos próprios
editores.
Então as tais Bíblias devem ter ficado um pouco mais finas
apenas; o que veio se mostrar, dois milênios depois, muito útil no lançamento
de edições de bolso, apropriadas aos milhões de irmãos que portam a Bíblia como
o smartphone, levando-a consigo para
todo lado; no bolso, naturalmente.
De fato, os livros Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus,
Sabedoria de Salomão, Eclesiástico e Baruc constam apenas nas Bíblias católicas
e ortodoxas. São os chamados livros deutero-canônicos, canonizados numa segunda
rodada, quando os judeus, mais eficientes, já haviam fechado sua edição.
Os protestantes os excluíram para marcar posição contra os
católicos. Martinho Lutero, querendo conciliar, manteve-os em apêndice. Mas então
entraram em cena os literais de ambos os lados; e as fogueiras crepitaram de um
lado, e, do outro, o apêndice foi literalmente destacado e queimado.
Mas pode ser que os gregos tenham sacaneado os judeus. É que
esses sete livros (que naquele tempo eram rolos), ou foram escritos diretamente
em grego, ou fizeram sucesso no mercado editorial já na tradução grega, como o
caso do Eclesiástico pelo menos.
Então, ou os gregos não avisaram os judeus a tempo, ou
tentaram transformá-los em best-sellers
junto aos leitores israelenses com traduções baratas para diminuir os custos. E
os exigentes leitores as rejeitaram. Enquanto isso, os judeus aproveitaram e
lançaram suas edições em autêntica língua nacional e fizeram sucesso. E como
estava vendendo bem, deixaram por isso mesmo: e a Bíblia dos judeus (o Antigo
Testamento) saiu sem os tais livros e assim está até hoje.
Muitos séculos depois, os protestantes ressuscitaram essa
rixa para desgastar os católicos e, de quebra, fortalecer a indústria do
turismo em Israel, com excursões das agências de viagem com cristãos que
lançaram a moda de se batizarem no rio Jordão e trazerem para casa pedaços do
muro das lamentações, comprados de estratégicos camelôs.
Livros proféticos
Isaías (Is)
Jeremias (Jr)
Lamentações (Lm)
Baruc (Br)
Ezequiel (Ez)
Daniel (Dn)
Oseias (Os)
Joel (Jl)
Amós (Am)
Abdias (Ab)
Jonas (Jn)
Miqueias (Mq)
Naum (Na)
Habacuc (Hab)
Sofonias (Sf)
Ageu (Ag)
Zacarias (Zc)
Malaquias (Ml)
Os profetas
Na Bíblia, sei bem quem são os profetas menores: Amós, Oseias,
Miqueias, Sofonias, Naum, Habacuc, Ageu, Zacarias, Malaquias, Abdias, Joel e
Jonas. Quanto aos maiores, alguns dizem que são Isaías, Jeremias, Ezequiel e
Daniel. Há controvérsias.
Acredito que essa classificação vale só para os
profissionais (os canônicos). Aleijadinho misturou tudo, em Congonhas, Minas Gerais,
deixando de fora Miqueias, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias e introduzindo
Baruc, que só consta nas Bíblias católicas. Mas essa classificação não se dá
pela fama do profeta ou pela quantidade de profecia confirmada, mas pelo
tamanho do livro que cada um escreveu ou ao qual deu o nome. Quanto mais
verborrágico, maiores o tamanho e a fama…
Entretanto, quase todos concordam que o maior profeta, em
prestígio, foi Moisés. Só que este não era profissional, era um contestador da
ordem egípcia que foi recrutado por Iahweh para promover a rebelião dos pobres
que, como os pretos de hoje, naquele tempo eram quase sempre judeus.
E, a rigor, Moisés não profetizava. Ele apenas transmitia o
que Iahweh lhe falava. Aí era covardia, não tinha como errar. Daí me vem uma
desconfiança de que só Moisés era autêntico, e todos os que vieram depois eram
falsos.
Quando a vida social dos israelitas começou a ficar muito
complicada, que eles precisaram instituir um governo central, ou seja, escolher
um rei, forjaram primeiro um profeta para que ungisse o rei. É que naquele
tempo não havia TSE nem urna eletrônica… Isso aconteceu uns 500 anos após
chegarem à terra prometida, levados por Moisés.
Samuel foi esse cara que ficou conhecido por falar com Deus.
Adquirida a fama, o resto foi fácil. Samuel apontou para Saul e disse: “É este”.
Saul virou rei, pisou na bola durante seu governo, Samuel não gostou e arranjou
outro para substituí-lo: apontou para Davi. Moleza: se ele conversava com Deus,
tudo que ele dizia era lei!
Outro cara que fez sucesso na profissão foi Elias. Mas Elias
foi atípico, porque isolado, sem participar do sindicato dos profetas. Adquiriu
legitimidade durante um programa de TV gravado sobre o Monte Carmelo. Mas esse
isolamento, que a corriola corporativa chamava de individualismo, não passou
impune, porque, segundo as más línguas, ele foi arrebatado, subindo ao céu em
carne e osso. Eu tenho dúvidas, desconfio que foi enterrado como indigente no
Vila Formosa, ou caiu de gaiato n'alguma vala comum num cemitério de Perus.
Porque a vida de um profeta consistia em fazer profecias,
deixando-as semipúblicas. Publicava, mas as liam apenas seus pares da
associação dos profetas; assim como se faz hoje com certas publicações
burocráticas nos diários oficiais… só para constar e, quem sabe, serem usadas
no futuro, se convenientes.
Ora, o futuro, para um profeta, é fundamental. O cara
passava a vida inteira fazendo previsões, oito horas por dia, vinte e cinco
dias por mês. Uns 30 anos depois, o serviço de arquivo da associação de
profetas ia lá no arquivo-morto e desenterrava somente as previsões que deram
certo… E então era hora de o profeta confirmado deitar e rolar e ungir e
destronar reis e o escambau. É por isso que todo profeta famoso tem aquela
barba grande e senil naquele sépia de madeira oca.
Mas, para o povo acreditar que Deus baixava aqui na Terra e
conversava cara a cara com um humano, era preciso passar mil anos. Foi por isso
que, mil anos depois de Moisés, Isaías teve de arranjar outra forma de receber
a palavra de Deus: o sonho! Sonhava, contava ao povo, e dizia: “Palavra de
Iahweh”. Claro, depois de ficar famoso, usando o esquema da associação... que,
acho eu, surgiu por essa época.
Sem dúvida, os profetas eram pessoas sábias, cultas, por
isso visionárias, segundo o senso comum. Atualmente se dizem intelectuais…
Porém, para que seus palpites e opiniões fossem respeitados pelos amigos e
parentes, e pessoas próximas ou contemporâneas, precisavam arranjar uma fórmula
que desse a um estranho a autoria do palpite, sendo eles meros intermediários
porque, desde aquela época, já sabiam que santo de casa não faz milagres.
Mas, ao contrário de Jesus, foram profetas em sua própria
casa. Ao menos foi o que os cânones disseram meio milênio depois. Porque, se é
o futuro que faz o profeta, é o passado que o confirma. Tudo bem, reconheço que
minha profecia está confusa…
Isaías, o profeta maior
Isaías é o craque da literatura bíblica. Dizem que era um grande
poeta. Claro, quando se junta um profeta com um poeta só pode ser esse o
resultado. Ou seria redundância alguém se dizer profeta e poeta? Porque não são
os profetas e poetas que se expressam por metáforas? Ou por outras figuras mais
cabulosas? Não é a linguagem figurada que nos deixa mais cabreiros com os
poetas?
Entretanto, no caso dos profetas, a linguagem figurada era
uma necessidade prática. Imagina se um profeta, “vendo” que o fiel em sua
frente seria atropelado por um ônibus logo mais, ao atravessar a Celso Garcia
fora da faixa, a ele dissesse claramente: “Você será atropelado por um ônibus
daqui a pouco, após o término do culto, quando for atravessar a avenida”. No
mínimo, o fiel faria um escândalo em plena liturgia. E, no máximo, para a ruína
do profeta, deixaria de atravessar a avenida e a profecia não se concretizaria.
Mas a linguagem enviesada dos poetas, essa não se explica.
Nem se vende. Mas serve para marcar posição. É o cartão de visita do literato. Numa
crônica, qualquer um mete o pau. Num poema, é muito mais arriscado. Aquela
substância nova de gosto doce pode ser veneno, e manuseá-la é como se se brincasse
com uma jararaca, pensando ser uma minhoca. No mais, quanto aos direitos
autorais, profetas e poetas não se diferenciam. É que ambos escrevem livros.
Não interessa se o direito autoral do profeta resulta em grana e o do poeta é
apenas uma quimera editorial. Mas, de vez em quando dá zebra e um poeta faz
sucesso, normalmente lá pela hora da morte: o dinheiro só chega quando o cara
já morreu.
Não tem gente ganhando dinheiro com Camões até hoje,
editando suas obras, escrevendo ensaios e biografias etc.? Quem garante que, no
meio duma dessas edições, algum espírito exaltado e tímido não meta um soneto
próprio, em nome do famoso, só para gozar em silêncio a ignorância coletiva?
Mas no caso do profeta Isaías, aconteceu algo mais
corriqueiro, para não dizer rasteiro, parecido com o que algumas bandas de rock
e duplas sertanejas fazem: trocaram seus componentes, mantendo os nomes
consagrados. Sim, estou dizendo que o livro do Isaías teve três Isaías.
O que fez o nome escreveu até o capítulo 39; dois séculos
depois, alguém se assumiu Isaías e acrescentou os capítulos 40 a 55; e, bem
depois, um terceiro comprou a marca “Isaías” e acrescentou os capítulos 56 a
66. E, graças a esse jogo comercial, o verdadeiro Isaías ganhou fama de profeta
maior. Não pela qualidade, mas pelo tamanho da obra.
O pessimista
Algumas crônicas atrás, escrevi que o Eclesiastes era sábio
e o Eclesiástico, moralista. Agora, digo que Isaías e Jeremias são chatos. E
todos são pessimistas. O Eclesiastes anunciava verdades corriqueiras, da vida
comum, com crueza e despretensão. O Eclesiástico falava e vociferava contra os
costumes correntes, as safadezas do cotidiano. E os profetas falam de um tempo
vindouro, para compensar as desgraças do presente.
Coélet (o Eclesiastes) observa as opressões todas que se
cometem debaixo do sol. As lágrimas dos oprimidos, a força dos opressores, e
não há quem os console. Felicita os mortos mais que os vivos (Ecl 4, 1-2). O
mesmo destino cabe a todos: para o justo e o ímpio, para o bom e o mau, para o
puro e o impuro, para quem sacrifica como o que não sacrifica (Ecl 9, 2-3).
Jesus Ben Sirá (o Eclesiástico) vem com a patetice de que a
altura do céu, a amplidão da Terra, a profundeza do abismo, quem as poderá
explorar? Diz que Ele fez chover a ciência e a inteligência e exaltou a glória
daqueles que a possuem. Anuncia platitudes do tipo: “aquele que respeita o pai
encontrará alegria nos filhos”, e seria hipócrita não fora simplório ao dizer
que “quanto mais fores importante, tanto mais humilha-te para achares graça
diante do Senhor”.
Isaías, esnobado pelos reis e os sacerdotes de carreira,
vocifera que haverá um dia de Iahweh dos Exércitos contra tudo o que é
orgulhoso e altivo. Lembrei aqueles caras que ficam lá na Praça da Sé falando
aos mendigos, com uma Bíblia na mão, ameaçando o diabo e o mundo, para desdizer
a própria insignificância. Maldiz e prevê o caos para atrair audiência. A
desgraça, real ou imaginada, dá ibope, faz sucesso.
Jeremias nada mais faz que continuar as maldições de Isaías.
É que eles vivem numa era em que o tempo fechou sobre Jerusalém. Nabucodonosor,
o rei de pra lá de Bagdá, caiu sobre a cidade e não deixou pedra sobre pedra,
principalmente o famoso templo de Salomão.
Não havia como ser otimista debaixo daquele bombardeio. Mas
tudo por tua e minha culpa: “ainda que te laves com salitre e aumentes para ti
a potassa, a mancha de tua culpa permanecerá diante de mim”, oráculo do senhor
Iahweh (Jr 2,22).
Mas sabe o que mais irrita o deus único dos judeus? A
rebeldia. A infidelidade. A adoração de outros deuses. Esse deus único não
suporta a ousadia, a independência. É um deus que não suporta o individualismo,
portanto. Até que…
Até que algum ou muitos gaiatos começaram a questionar: “que
que adianta a gente observar direitinho todas as leis de deus se, só por causa
de alguns infiéis, que ficam por aí adorando aos ídolos, todos nós nos fodemos?”.
E então Jeremias já começou a se adaptar aos novos tempos: “todo
homem que tenha comido uvas verdes terá os dentes embotados” (e só ele terá dor
de barriga, deduzo). Isso para reformar o provérbio que corria: “os pais
comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados”.
Mas Ezequiel, já lá entre os escravizados na Babilônia,
chutou o pau da barraca: “Querem saber? É cada um pra si e Deus pra todos, e
salvem-se quem puder”, conforme escreveu lá no seu livro, capítulo 18.
Foi, portanto, simples acabar com o pessimismo. Foi só
trocar o socialismo pelo individualismo. E organizar as rezas direitinho. Mas,
aos recalcitrantes que continuavam a apontar toda aquela gente justa que morria
na miséria, disseram que não se preocupassem, pois seriam os primeiros a serem
atendidos lá no Céu.
Jeremias, o chato da corte
Chatíssimos, os profetas em geral eram sempre do contra,
pessimistas, apocalípticos, messiânicos. E não tinham desconfiômetro! Vejam só
essa de Jeremias:
Numa das assembleias dos judeus — era assim que chamavam a
missa ou o culto lá deles —, no templo (o templo era a igreja ou a sinagoga lá
deles), o profeta Jeremias tomou a palavra (sabe aqueles caras da oposição,
excelentes oradores, que falam em toda assembleia? O Jeremias!) para...
Jeremias aproveitou seus dois minutos regulamentares,
religiosamente cronometrados pelos sacerdotes (os que compunham a mesa diretora
da assembleia), para dizer, entre outras coisas, que Iahweh mandara-lhe dizer
que faria de Jerusalém maldição para todas as nações da Terra (Jr 26, 6). Falou
assim, abertamente, para todo o povo ouvir.
Mas, enquanto estavam reunidos, Nabucodonosor, da Babilônia,
estava às portas da cidade com seu terrível exército. E os capa-pretas de todos
os poderes constituídos, que também estavam presentes, prenderam-no
imediatamente: podia falar o que quisesse na frente do povo, menos as
informações estratégicas… podia falar abobrinhas à vontade, mas dizer que o
inimigo venceria, porque era muito mais forte, espalhava o desânimo na tropa e
o pânico na população.
Claro, desde aquele tempo, nenhum país suporta uma guerra
sem censura braba às opiniões e informações reais. Só que Jeremias, quando viu
os aspones todos pedirem sua cabeça ao rei, fez até Deus se arrepender, ou
melhor, prometeu que Deus poderia se arrepender se o povo da Terra melhorasse
seus caminhos e seus atos e escutasse os apelos de Iahweh (Jr 26, 13). Vejam
que Jeremias era um procurador tão forte que tinha a liberdade de prometer uma
mudança grave de conduta de seu poderoso outorgante.
Diante dessa amplitude de poderes, os burocratas tremeram.
Porque se tem uma coisa que burocrata entende é uma procuração bem assentada.
Então, Aicam, filho de Safã, um magnata do petróleo, creio
eu, que estava presente (o filho, não o pai, que não perdia tempo com
assembleias…), aproveitou o titubeio da mesa para tomar o microfone e resolver
a parada: “Deixa comigo, que eu dou um jeito no homem”. Os funcionários
deixaram, seu pai era um dos maiores financiadores de campanha… E rapidinho
arrastou o profeta bocudo e ingênuo pelos bastidores, enquanto a massa pedia
sangue, instigada pelos leões de chácara da direção.
Agora, cá entre nós, tô desconfiando do Jeremias. Vejam
essa:
No ano de 587 a.C., o iraco-iraniano Nabucodonosor perdeu o
restinho de paciência com os judeus e invadiu Jerusalém para não deixar em pé
nem pedras, nem gente sobre elas. Tacou fogo em tudo e levou o que podia,
incluindo a mão de obra, para enriquecer ainda mais Bagdá, subúrbio de
Babilônia.
Enquanto o pau comia solto, o rei invasor chamou seu
comandante da guarda e recomendou-lhe: “Mete o pau, mas não toque em Jeremias!”
(Jr 39, 12). Não é para desconfiar? Porque em meio à batalha, Jeremias estava
em pleno centro do comando da defesa, no pátio da guarda de Sedecias, o rei
judeu, dizendo para quem passasse que Iahweh cumpriria contra a cidade sua
palavra de desgraça e não de salvação (Jr 39, 16).
O fato é que, vencidas as tropas judaicas, todo mundo
acorrentado para a deportação, Nabuzardã — o tal comandante da guarda — chegou
esbaforido a tempo de alcançar Jeremias, já acorrentado e pronto para o
embarque. Afoito, arrebatou o chaveiro do guarda e ele mesmo abriu o cadeado
que prendia o profeta. E, inclusive, convidou-o para acompanhá-lo à metrópole, e
acredito até que lhe ofereceu um cargo, mas Jeremias não aceitou. Disse que
preferia ficar por ali mesmo.
Vendo que o profeta estava meio desnorteado, Nabuzardã lhe
disse: “Olha, a cidade vai ficar vazia, você poderá escolher o espaço a ocupar,
onde mais lhe agradar. Mas eu sugiro que
você se junte a Godolias, filho de Aicam, filho de Safã (Aicam, aquele que
salvou Jeremias na Assembleia, lembram?). Não se preocupe, nós fizemos aliança
com o conglomerado da família, Nabucodonosor nomeou-o governador das cidades de
Judá” (Jr 40, 2-6).
Daniel salvou a cabeça dos pilantras
Como Daniel é o herói desta conversa, aviso a todos que
desconfio de duas coisas desse herói: era eunuco e vegano. Eunuco, porque
entrou para o serviço público do rei da Babilônia através de concurso feito por
Asfenez, exatamente o chefe dos eunucos do palácio, pois, dentre outros, era requisitado
aos candidatos que tivessem boa aparência e fossem sutis, duas coisas difíceis
de encontrar em machos completos (Daniel 1, 3-5). E vegano porque, não
querendo, por ser judeu, comer as iguarias pagãs nem beber o vinho servidos em
palácio, era obrigado a comer ali, enquanto jovem servidor do rei, mas pediu ao
chefe para comer em separado. O chefe até concordou, mas temia que a fisionomia
abatida de quem não comia a carne nem bebia o vinho oferecidos pelo rei
denunciasse a desobediência.
Daniel propôs que ele e os demais judeus, que entraram pelo mesmo
concurso, comessem só legumes e bebessem só água durante dez dias e, ao final,
comparassem suas fisionomias às dos demais jovens alimentados com a comida
comum (Daniel 1, 12). Claro que, para nós, dois mil anos depois, ele conta que,
ao final da prova, estava mais bonito do que os demais. É ou não é conversa de
vegano?
Mas Daniel — como José, filho de Jacó, muitos séculos antes,
no Egito — virou governador da Babilônia graças às suas artes psicanalíticas de
interpretar sonhos. Sua ascensão meteórica na burocracia palaciana começou
quando interpretou um sonho de Nabucodonosor, agradando muito ao rei e mais
ainda à concorrência, como veremos:
Nabucodonosor reuniu no palácio os magos e adivinhos da
cidade para que interpretassem um sonho que havia tido. Os adivinhos, cheios de
pose, pediram ao rei para contar o sonho e eles diriam o significado. Mas Nabu,
esperto, retrucou: “Nada disso! Vocês devem, antes, adivinhar qual foi o meu
sonho”.
Claro, os adivinhos não esperavam por essa e ficaram sem
palavras, sendo desmascarados. E eu fico pensando que foi genial essa sacada de
Nabu. Imagina se toda a pilantragem fosse assim tratada? E naquele tempo a
coisa não era brincadeira não, o rei condenou todos os pilantras à morte.
Inclusive Daniel, que pertencia à categoria dos magos, adivinhos, caldeus e
conexos.
Só que Daniel entrou de gaiato na embrulhada, porque nem
presente estava na fatídica sessão. Quando o chefe da guarda foi buscá-lo para
a execução, e comunicou-lhe o motivo, disse-lhe: “Péra aí, eu resolvo isso;
peça ao rei que suspenda a sentença e me dê um tempo”. O tempo foi dado, Daniel
se reuniu com Ananias, Misael e Azarias, colegas judeus do mesmo concurso,
discutiram todas as possibilidades e concluíram que Nabucodonosor só podia ter
sonhado com uma estátua. Lógico! A maior obsessão de todo rei é uma estátua! Já
passava da meia-noite, Daniel falou aos seus companheiros: “Descobrimos o
essencial, o resto deixa comigo”.
No outro dia, disse ao chefe da guarda que estava pronto
para conversar com o rei. Na presença do rei, foi logo dando uma de sonso: “O
mistério que o rei procura desvendar, nem os sábios, nem os adivinhos, nem os
magos, nem os astrólogos podem dá-lo a conhecer ao rei. Mas há um Deus no céu
que revela os mistérios…” (Dn 2,27). “Eu também sou um pobre coitado, apenas
um… profeta! Um mensageiro desse Deus. Tiveste, ó rei, a visão de uma estátua”.
O Nabu ficou estupefato. E não é que era mesmo! E os poucos
assessores presentes pensaram na hora: “Puta merda! Como não fomos pensar numa
coisa tão óbvia!”. Mas Nabucodonosor era duro na queda e voltou à carga: “E?”.
“E era uma estátua enorme, brilhante, composta de vários diferentes materiais
para cada parte, sendo que a cabeça era de ouro e representava o seu reino”,
respondeu Daniel. Depois dessa, Daniel pôde compor a sua estátua sem maiores
preocupações, pois o rei já estava satisfeito. Peito e braços de prata, ventre
e coxas de bronze, pernas de ferro e pés de barro…
Quanto à interpretação, também era muito fácil. Cada uma das
partes correspondia a reinos vizinhos que poderiam lhe suceder, sendo essa,
depois da estátua, a maior preocupação de todo rei. E, como todas elas eram partes
subalternas e de materiais mais mequetrefes do que o fino ouro que envolvia o
cérebro daquilo tudo, que era ele próprio, o rei relaxou e nem ouviu quando
Daniel completou que uma enorme pedra desgarrada viria rolando a esmo,
derrubaria a estátua e passaria por cima dela, triturando tudo, não importando
a nobreza do material.
Daniel deixou Nabucodonosor louco
Nabucodonosor teve outro sonho, mas então ele tinha à
disposição, já contratado, o maior interpretador de sonhos da paróquia,
justamente seu assessor principal, Daniel. Por isso não perdeu tempo, foi
direto a ele e não deu uma de difícil, para alívio da picaretagem toda do ramo,
que ainda se lembrava da enrascada em que entrou no episódio da estátua
compósita.
No outro dia cedo, antes do expediente, já foi logo contando
o sonho ao colega; os psicanalistas já haviam se empoderado, nem os reis
folgavam com eles. “Sonhei com uma grande árvore, aí desceu um cara do céu e
pôs fogo nela, sobrou só as raízes e o toco”. Daniel era velho de casa, estava
à vontade:
“A árvore é o senhor e o cara que desce do céu é o enviado
de Deus. O senhor vai levar uma boa chapuletada, mas não se preocupe, seu reino
não vai desaparecer” (E Nabu, que já estava pra se levantar do divã para chamar
seus generais e decretar a morte do psicanalista, relaxou porque tudo que um
velho governante quer ouvir é que vai manter seu governo). É só se converter ao
Cristianismo e tudo bem, o toco, ainda ligado às raízes, voltará a brotar.
Um ano depois dessa sessão, numa tarde de domingo, dessas
sem futebol na TV, o rei zanzava inquieto pelos labirintos do palácio, chutando
tudo que aparecia na sua frente, devido a essa raiva difusa que sentem os
poderosos quando confrontados com a própria solidão. Sem expediente, o palácio
estava deserto. Ao passar num corredor que servia a obscuros gabinetes, ouviu
uma poderosa voz vinda do Além que lhe dizia:
“É a ti que se fala, ó rei Nabucodonosor!
A realeza foi tirada de ti;
serás expulso da convivência dos homens
e com as feras do campo será tua morada.
De erva, como os bois, te nutrirás,
e sete tempos passarão sobre ti
até que reconheças
que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens
e ele o dá a quem lhe apraz” (Daniel, 4, 28-29).
Claro que Daniel, com a ajuda de Ananias, Misael e Azarias,
uns subalternos seus cupinchas, armou a arapuca que já vinha montando desde a
sessão em que interpretara o sonho da árvore, instalando caixas de som em
locais convenientes... Mas foi o que
bastou para Nabu ficar doido. Saiu correndo e gritando que ouvira a voz de
Deus. Pronto! Foi o que bastou para ser grampeado numa camisa de força e
trancado no porão, porque o que os sócios do poder mais vigiam é a sanidade
mental do chefe. Em todos os tempos e
lugares e regimes, os burocratas imediatos ao chefe são todos racionais: “Viu
ou ouviu Deus, tá louco”! E nenhum governo suporta um louco.
Claro, não estou falando da loucura fingida, expediente
muito usado para disfarçar mudanças bruscas de orientação, assessoria,
fornecedores ou para impressionar a legião de eleitores realmente loucos.
Mas Daniel, como todo bom monoteísta, só queria que Nabu se
convertesse. Tenho minhas dúvidas se ele se converteu de verdade, mas ao menos
o declarou de própria voz em cadeia de rádio e TV e também em sua página no
Twitter, e voltou a se sentar na cadeira presidencial até o final do mandato,
numa negociação que os jornais noticiaram como o ato de perder os dedos para
ficar com os anéis.
Dies Irae
O dia da ira está próximo, e não adianta correr ou rezar,
porque vai sobrar pra todo mundo. Se bem que não faço a mínima ideia da noção
de grandeza dessa proximidade, já que tal anúncio foi feito lá no século VII
antes de Cristo. Pois ele destruirá, sim, ele exterminará todos os habitantes
da Terra. Ele, Iahweh malvado. Conversa de Sofonias. Tá lá no livro dele, no
último versículo do primeiro capítulo. Está próximo o grande dia de Iahweh! Ele
está próximo, iminente! Isso é o começo da profecia, o versículo 14. A palavra próximo
aparece duas vezes e, insuficiente, é reforçado por um iminente. E dois pontos
de exclamação.
Dois mil anos depois (século XIII d.C.), alguém do Vaticano
tratou de renovar essa iminência, compondo, em latim, o Dies Irae, cujo canto faz tremer ainda hoje os incréus.
Tudo bem, Deus vai matar todo mundo, inclusive você, que vai
à missa todo domingo e reza todo dia antes de dormir, mas… aha! Aí está o pulo
do gato! Depois que você for fritado pelo fogo de Iahweh aqui na Terra, você
irá para o bem-bom da vida mansa e eterna. Você não, que restará esturricado
por aqui, mas sua fama, ops, sua alma.
Mas só se você fez tudo direitinho aqui na Terra, sequer
pensou na mulher do vizinho e nunca, nunca, amassou a namorada em apalpadelas
libidinosas no escuro artificial do banco da praça (artificial porque você
quebrou a lâmpada…). Tudo bem, você pode ter tido lucro com base no trabalho de
26 semelhantes, lá na sua padaria, mas isso no máximo lhe vai render um estágio
no Purgatório, coisa rápida duns 700 anos…
Fico pensando. Como fazer esse povo incréu acreditar em Deus
sem deixá-lo com medo? Aliás, isso é mais fácil do que chuchu na serra. Porque
coisa mais fácil é amedrontar ignorante. E a nossa ignorância do mundo é
incrível. Incrível de admirável, de notória. Assim como é notória nossa
incredulidade.
Já percebeu como descremos da humanidade, que é a maior obra
de Deus? Já percebeu como trancamos a porta da casa, do carro, como tememos ser
assaltados, roubados, atacados? Tenho quase certeza, por experiência própria,
de que o populacho só paga o dízimo de medo do fogo eterno. Porque do fogo
terreno eles sabem que não escapam, e que está próximo. É o que escutam desde
Sofonias, há 2.700 anos.
O padre, e o pastor, e o rabino e o equivalente de Maomé que
não usarem desse expediente da iminente desgraça terrena não sustenta seu
templo financeiramente. Digo por experiência própria porque era assim que padre
Joaquim — que depois casou — trazia-me no cabresto dominical.
Porque, com a preguiça e a gula desse povo cético que somos
todos, não tem paulada que resolva. Só mesmo deixando esse povinho no escuro e
soltando um fantasma ansioso, para aquietá-lo. Não era assim que nossas
piedosas mãezinhas faziam para nos controlar e nos educar? Até eu ainda exorto
o bicho papão a descer do telhado, para deixar minha neta sossegada!
Agora, água fria na fervura dos religiosos catastrofistas e
anunciadores do fim do mundo: “Eu não amaldiçoarei nunca mais a Terra por causa
do homem, porque os desígnios do coração do homem são maus desde a sua
infância; nunca mais destruirei todos os viventes, como fiz”. Palavra de
Iahweh, conforme Gênesis, capítulo 8, versículo 21.
Segunda parte: Novo Testamento
Os quatro evangelhos
Evangelho segundo São Mateus (Mt)
Evangelho segundo São Marcos (Mc)
Evangelho segundo São Lucas (Lc)
Evangelho segundo São João (Jo)
Maria, grávida e solteira
Não sou eu que digo, está escrito em minha Bíblia: “Maria,
sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se
grávida...” (Mateus 1,18). Não digo que José ficou puto, diria que ficou brabo,
chateado. É que ele podia ser rude, mas não bronco. E já havia extirpado a
urgência dos moços e adquirido a sabedoria dos velhos.
Sim, já era velho, enquanto Maria era mocinha nova. Nova e
linda, a mais linda do pedaço. José era simples, mas não cego, tinha noção de
que era muita areia para sua carriola. Aliás, parece que a velhice dele foi
escolhida a dedo. Más línguas espalharam por aí que um comando de anjos desceu
do céu especialmente para encontrar um esposo para Maria, já sabendo o que ia
acontecer.
Havia uma carrada de impetuosos jovens interessados na moça
e também aquele senhor de idade… É claro
que os anjos escolheram o senhor de idade.
Todo mundo sabe que quanto mais jovem a cabeça, mais
dolorido o chifre. Quanto mais jovem a cabeça, mais barulhento o escândalo.
Além do mais, José era um operário respeitado. Sabiam que depois de tudo
passado ele foi homenageado com o patronato dos trabalhadores?
O fato incontornável é que a barriga de Maria começou a
crescer. E, naquele tempo, a Amazônia
nem era conhecida e nem havia boto por perto. A moda de anjo engravidar mulher
era coisa do passado remoto, ninguém se lembrava mais. E desse tal de Espírito
Santo ninguém sequer ouvira falar.
José, apesar de sensato, era um legítimo judeu do sexo
masculino, machista que só. Tudo bem, não ia contar pra ninguém, muito menos ao
rabino, continuava gostando muito de Maria, que via quase como uma filha, não
queria nem pensar em submetê-la ao processo público que fatalmente a lavaria à
lapidação, que era a pena de morte por apedrejamento. Uma coisa que José tinha
de sobra era compaixão. Mas ele a repudiaria, sem dúvida. Não iria acobertar,
com seu nome, um filho de pai ignorado.
Na noite seguinte, um anjo baixou para fazer a cabeça de José.
Em sonho, claro, eis que José não tava com essa bola toda de receber o
mensageiro acordado. Mas, no sonho, a conversa foi clara: “José, dêxa di sê
bêsta! Aquilo foi obra do Espírito Santo, rapá! A moça é uma santa, vai por
mim. Além de linda, sabe lavá, passá, cozinhá, costurá… Cê já tá véio, cara! Tá
pensando que berimbau é gaita? Desde quando o ouro vem puro, sem areia?”. José
acordou meio ressabiado, pensou bem e falou consigo mesmo: “acho que esse anjo
tem razão”.
E enfim se casou com Maria numa boa, pagou o ginecologista,
acompanhou-a ao postinho nas visitas do pré-natal, contratou a melhor
maternidade para o parto (isso de manjedoura também é conversa, segundo
Mateus), mas não relou naquela barriga nem em suas imediações enquanto o filho
do Espírito Santo estava lá dentro.
Os três astrólogos
Quem disse que eram três e quem disse que eram reis os
astrólogos que quase puseram tudo a perder, com seus diletantismos
astronômicos? Magos, talvez, pois viviam da fé popular, a comparar o caminho
das estrelas com o caminho dos homens e mulheres. Sim, astrólogos. Astrônomos
ainda não havia, Galileu Galilei ainda não havia inventado o telescópio.
E que se chamavam Belchior, Gaspar e Baltazar já é uma
sofisticação de minúcias de algum colunista social enfastiado ou necessitado de
material para completar seu espaço na revista. Mateus só sabe que um grupo de
turistas bateu na porta do rei Herodes, alegremente, perguntando pelo rei dos
Judeus, se era ali que havia nascido, pois a estrela os guiara até ali…
Herodes, todo pimpão, diante daqueles abonados turistas do
oriente – um grupo heterogêneo, tinha gente da Pérsia, da Babilônia, das
Arábias… –, foi logo se apresentando, que era o rei dos Judeus, embora não
tivesse nascido nem ontem nem exatamente ali no palácio… Mas os turistas
estrangeiros, festivos, procuravam um recém-nascido, de cuja notícia tiveram
conhecimento durante o curso de literatura em que leram as escrituras sagradas
do povo local, para onde planejavam a viagem no verão seguinte…
A crônica social, a meu ver, registrou, para a posteridade,
que eram reis e eram três porque vestiam as melhores roupas da moda,
apresentavam-se com muita pompa e pose, e só deram três presentes ao menino
Jesus, quando o encontraram: ouro, incenso e mirra.
O fato é que Herodes ficou de orelha em pé, porque o que um
rei mais teme é o surgimento do seu sucessor, ainda que bebezinho. E o temor
triplica quando esse bebezinho nem é seu filho. Pediu aos turistas para esperarem,
foi lá dentro, consultou uns burocratas da Lei, que lhe informaram: “De fato,
está previsto, sim, nós estávamos para marcar uma audiência para falar do
assunto… deve nascer em Belém da Judeia”.
Herodes correu lá fora, informou aos turistas a vilinha onde
o menino deveria nascer, e pediu-lhes que, na volta, passassem de novo no palácio,
que ele teria prazer em oferecer-lhes um café da tarde… (Mt 2, 8).
Os magos saíram alegres e ao primeiro que passou perguntaram
como chegar a Belém. “Tão vendo aquele morro lá longe, com aquela fogueira
queimando? Pois é lá”, informou o passante. Foram. Era uma casa pobre. Pobre,
mas limpinha… dessas casas de periferia, onde o povo cria no quintal galinha,
porco, carneiro. E o turista relator da viagem se aboletou num cocho no quintal
que, depois, no seu relato, chamou de manjedoura e imaginou o bebezinho lá para
impressionar melhor os leitores.
Visita feita, obrigação cumprida, iam voltando para dar a
notícia a Herodes, quando, numa esquina, um grupo de mal-encarados os abordou,
informando-os que se abrissem o bico sobre as quebradas do bairro e qualquer um
de seus habitantes, morreriam. Apavorados, bateram direto pro aeroporto,
deixando Herodes esperando sentado com seus bolinhos.
Herodes, quando percebeu que os turistas haviam desdenhado
do seu convite, ficou uma fera. E, pelo sim, pelo não, mandou matar todo
molequinho com menos de dois anos de idade, que esses escribas gostam de
repetir as narrativas como grandes novidades, como se todos tivessem esquecido
a história de Moisés lá no Egito (Ex 1, 22).
Jesus, moleque sabido
Quando Jesus era bebezinho, seus pais não tinham parada, moraram
no Egito e depois na Síria. José, como carpinteiro autônomo, tinha de ir para
onde houvesse serviço. Com o tempo, o casal foi se afirmando economicamente,
depois de muito trabalho e muita economia, de tal forma que puderam se
estabelecer definitivamente na terra natal quando Jesus ainda era bem pequeno.
Assim, o moleque cresceu em Nazaré, na Galileia, em meio a
muitos amigos, nadando no rio, caçando de estilingue, jogando bola e pião e
bolinha de gude e chupando manga no pé na época da safra, além de tâmaras,
comuns na região. Não lia, porque naquele tempo Gutenberg ainda não havia
nascido, não havia livros, só rolos de papiros, que ficavam trancados a sete
chaves dentro da igreja.
Cá entre nós, acho eu que Jesus era analfabeto, porque
naquele tempo só sacerdote sabia ler, e se tem uma coisa que Jesus não foi nem
nunca quis ser é sacerdote.
Não lia, mas ouvia com muita atenção todas as histórias
contadas pelos mais velhos. E naquele tempo isso acontecia quase toda noite,
não havia TV nem smartphone. Não só ouvia, como interrogava os contadores de
causos, discutia com eles – tios, avós, vizinhos –, queria explicações,
detalhes; tanto que granjeou a alcunha de curioso.
“Êta muleque curioso”, diziam os mais velhos. Quando
discordava de alguma história ou argumento, ou ordem, encasquetava, negava,
teimava, desobedecia. Então tinha fama de curioso e teimoso. E, assim, com essa
curiosidade militante, foi crescendo mais sabido do que os outros. Sabido,
saudável e forte.
Ia a Jerusalém apenas uma vez por ano, sempre com sua
família e a vizinhança, para participar da procissão da sexta-feira santa. Nesse
dia era uma festa. Ele se desgarrava dos pais e, numa corriola de amigos,
virava o comércio pelo avesso, fazendo traquinagens e comendo paçoquinhas.
Quando percebia que a missa, que era rezada após a procissão, havia terminado,
procurava os pais para voltar para casa, até porque a essa altura do campeonato
o dinheiro contado dado pelo pai para a paçoquinha já havia acabado.
Quando o menino completou 12 anos, prolongaram a estada na
cidade durante a visita anual, ficando até o Domingo de Páscoa, para submetê-lo
às formalidades da Lei, uma espécie de alistamento militar da época. Encerradas
as solenidades, voltavam para casa.
No meio do caminho, deram pela falta do garoto. É que
naquele tempo as famílias eram grandes e o povo andava em caravana, onde ia um,
iam todos. Toda viagem era uma muvuca de gente. E nem as crianças e os velhos
ficavam, ia todo mundo, até os cachorros.
Quando foi na hora de distribuir a merenda, cadê o Jesus? Só
então deram pela sua falta. Procuraram nas moitas próximas e até nas bruacas e
cestos que acompanhavam a comitiva, e nada! Maria começou a ter ataques de
desespero com o desaparecimento do filho: “eu quero meu filho! Eu quero meu
filho!!”.
Mas realmente não encontraram o menino em parte alguma. E nisso
já haviam andado quase o dia inteiro. Claro que todo mundo só viajava a pé, e
os poucos jumentos que havia levavam os velhos e doentes, na velocidade do
pedestrianismo humano.
Nessa hora a idade avançada e o sangue de barata de José fizeram
a diferença: “Vamos voltar a Jerusalém, acho que aquele muleque safado ficou
zanzando por lá”, disse José, olhando calmo pra Maria.
Na cidade grande, ficaram três dias procurando. Maria,
passada, mantinha-se à base de calmantes. E sabe onde foram encontrar o
fulaninho? Na igreja! Óbvio, onde mais poderiam encontrar Jesus?
Estava lá o mocinho, todo pimpão, na maior palestra com todo
o Estado-Maior da clericalidade. Conversando de igual para igual com eles, é óbvio.
A bispaiada toda admirada com a vivacidade do imberbe. E o imberbe se achando,
pensando que era gente…
Mas Maria, da porta de entrada, quando viu o filho vivíssimo
lá no fundo, esqueceu toda promessa de surra e vara verde e correu para ele
toda terna: “meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu,
aflitos, te procurávamos” (Lucas 2, 48). O menino, provocante no português
castiço: “por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar sempre na Igreja?”
O carinha, enfim, meio a contragosto, voltou para casa com
os pais, fazer o quê? Criança sofre. Parecia um jovem precoce, mas não é que o
tal só foi criar coragem para largar a moleza da casa paterna e cair no mundo
aos 30 anos de idade!?
Jesus batizado por compadre João
João Batizador e Jesus formavam uma dupla afinada. Começa
que Isabel e Maria, as respectivas mães, eram muito amigas, talvez até parentes.
E tinham praticamente a mesma idade. João foi concebido apenas seis meses antes
de Jesus. Se jogassem num time de futebol, João seria o camisa 10 e Jesus o
camisa 9, centroavante matador. Ambos bons de bola. E mais: craques.
Mas João começou a trabalhar antes de Jesus. Aliás, não
fazia mais do que a obrigação, eis que a função daquele era preparar a jogada
para este, deixá-lo com a bola dominada na frente do gol, segundo profetizara
Isaías, alguns séculos antes. Grosso modo, João deveria batizar todo mundo
antes de o Cristianismo ser inaugurado, para ninguém morrer pagão.
A cerimônia era ao ar livre, nas águas do Rio Jordão, numa
coreografia que, de longe, parecia que todos estavam se refrescando num
divertido banho de mar. Isso porque a coisa era mais ou menos clandestina, pois
as seitas dos fariseus e dos saduceus, que dominavam o templo, não gostavam nem
um pouco daquele drible dado por João em suas instâncias eclesiásticas.
Parecia um banho de mar, mas não era mar, era rio. E não
qualquer rio: era o Jordão, aquele de Iahweh e de Josué, lembram?
O cidadão chegava, confessava os pecados e se arrependia,
rezava como penitência uns 18 salmos e, com roupa e tudo, era empurrado para
debaixo d'água por João Batizador, sujeito forte duns 30 anos de idade. A
brincadeira era concorrida, até alguns fariseus apareciam para se batizarem, o
que deixava João puto: “Raça de víboras!”, sibilava. (Mt 3, 7)
Sabe esses caras que cobram o escanteio e correm para
cabecear a bola? Esses caras que estão em todas, e servem a todos os senhores
de plantão? Esses caras que, pelo sim, pelo não, pagavam o mico da pajelança
popular, vai que esse tal messias cuja vinda estava próxima viesse de verdade e
queimasse os ímpios… esses caras inseguros pela ignorância agravada pela
burrice? João não negava o batismo, mas pensava: “deixa estar…”
Lá de longe, Jesus observava a festa. Ainda bem que João
resolvera trabalhar, já era tempo. Porque o seu trabalho dependia do dele. Ali
pelo meio do dia, quando a água já havia quebrado o gelo, Jesus foi-se
aproximando da divertida turma do banho de roupa comandada por João. Lá de
longe já foi gritando “ei, João, também quero me batizar”.
João, ao ver o amigo, correu ao seu encontro, dizendo: “olá,
cara!” e já foi colocando o pé de Jesus sobre os joelhos, agachado, simulando
lustrar as chuteiras do craque amigo, para demonstrar respeito e, ao mesmo
tempo, deixar claro aos demais que tinha chegado um craque melhor do que ele.
Mas Jesus não achou muita graça. “Levanta, João, não estou
brincando, quero me batizar”. João se levantou meio sem graça: “poxa, chefe,
quem sou eu para te batizar?! Sendo que nós estamos fazendo isto aqui
exatamente por causa da tua chegada! Além do mais, esse mergulho aí que você
viu é para limpar os pecados do cabra e você não tem pecado!”.
Então Jesus chegou mais perto de João e abaixou a voz: “cara,
deixa estar por enquanto, pois assim nos convém. Eu não recrutei nenhum
apóstolo ainda, o movimento praticamente não existe, precisamos manter as
aparências” (Mt 3, 15). Aí João entendeu e consentiu e limpou mais aquele
pecador nas águas do Jordão. Já tava pela hora do almoço, acho que fizeram uma
sardinhada na praia para comemorar.
A tentação do Diabo
O fato é que, para Jesus, o jogo começou de verdade com seu
batismo de mentira. Primeiro foi a pomba que cagou em sua cabeça. Mateus diz
apenas que ela voou sobre ele, mas, considerando que a pomba é uma ave cagona,
caga ao menos uma vez por metro de voo, é muito provável que Jesus tenha sido
sorteado sim.
Depois foi aquela trovoada longa fora de hora, que fez todo
mundo sair correndo, com medo dos raios naquele descampado, abandonando as
sardinhas com a fome pela metade. O povo já tava entrado na cerveja, teve gente
que jura até hoje que ouviu, em meio ao bombardeio, um carro de som anunciar: “este
é o meu filho amado, em quem me comprazo”. (Mt 3,17)
Jesus, emocionado pela consciência de que fora dado o
pontapé inicial da partida, que não havia mais retorno, saiu sozinho, meio
aéreo, e quando viu estava no meio do deserto; ali naquele pedaço não precisa
andar muito para estar no meio do deserto. Então, já que estava no meio do
deserto, aproveitou para jejuar.
Dizem que ficou por ali uns 40 dias sem comer; o que sei é
que quando o Provocador chegou, ele estava com fome, muita fome. “Uai, sô! Por
que você não transforma estas pedras em pão, se és Filho de Deus?” Aí Jesus: “rapaiz,
não me enche o saco, não só de pão vive o homem”.
O Diabo, então, querendo ajudar, pegou Jesus pela mão e
falou: “tá bom, mas você precisa comer, vamos para o centro de Jerusalém, quem
sabe a gente encontra um Méquidonaldes lá que te apeteça”. No centrão, subiram
até o mirante da torre do Banespa.
Lá em cima o Mui Amigo falou a Jesus: “se você é mesmo o
Filho de Deus, pule daqui que um esquadrão de anjos te apara na queda”. Aí
Jesus, cansado do jejum e da caminhada falou, assim meio desanimado: “ô meu, me
erra, para de me atentar”.
Mas Jesus continuava prostrado, o Demônio começou a ficar
preocupado: “Se esse cara morre assim, de bobeira, no anonimato, eu vou acabar
perdendo o meu emprego, porque o meu trabalho só tem sentido com o sucesso do
trabalho dele”. E continuou conduzindo Jesus pela cidade.
Foram até a torre de TV, o ponto mais alto da região. O Demo
segurou Jesus de pé, pelo ombro, e falou: “tá vendo todo esse mundão”, e
mostrou o mundão, fazendo com que seus corpos girassem uma volta completa. “Tudo
isto te darei, se você se ajoelhar pra mim, aqui, agora”. O Três Caras contava
com a sonolência do Filho de Deus para subjugá-lo. De fato, Jesus já tava
largado no chão, mais morto do que vivo. Mas quando ouviu aquela conversa de “ajoelhar
pra mim”, quase teve um piripaque. Pulou feito uma pipoca e estacou de pé, na
frente do Mintiroso: “Seu Amanhecido Safado Filhadaputa, tá pensando que eu sou
mais um da tua laia?! Suma da minha frente, antes que eu te quebre na porrada!”.
“Vai-te, Satanás!!” (Mt 4, 10). Diante de tamanha ferocidade, o Cujo deu um
pinote e escafedeu-se. Então Jesus, admirando o seu mundão, apalpou a barriga e
decidiu: “tá na hora de comer, porque saco vazio não para em pé”.
Como surgiu o Pai Nosso
“E agora vamos rezar a oração que Jesus nos ensinou”.
Segundo minha memória auditiva, essa era a frase da missa em que o padre mais
caprichava na doçura da voz. Uma voz cálida, compassada, melíflua.
É incrível como esses caras não se cansam de ser solenes. Se
solenidade não cansasse, a gente se batizaria várias vezes, se casaria várias
vezes (com o mesmo cônjuge, quero dizer), os presidentes tomariam posse várias
vezes… Mas pouca gente sabe como surgiu essa história do Pai Nosso ensinado por
Jesus.
Jesus estava fazendo a apresentação do seu programa de
governo. Ou melhor: do programa de governo do seu Pai. Escolheu para isso o
cume de uma montanha, onde só os mais fanáticos chegariam para ouvi-lo, porque
para chegar ao cume de qualquer montanha é preciso perseverança (porque não é
adequado apresentar o programa de governo diretamente às massas).
Claro que todo político, quando vai apresentar seu programa,
o faz recheado de críticas aos concorrentes. E os piores concorrentes de Jesus
eram os fariseus.
Sabe esses caras e essas donas que conhecem todas as regras
da missa, do terço, do culto, do calendário religioso? Que rezam adoidado
quando levantam, quando deitam, quando comem, quando viajam? Que rezam rápido,
porque conhecem todas as orações de frente, de lado e de trás pra frente? Pois
então, são os fariseus. Que Jesus, naquela ocasião — acho que para não reforçar
o nome do adversário — chamou de hipócritas (Mt 6, 5) e gentios: “Nas vossas
orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é
pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque vosso
Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes” (Mt 6, 7).
“Então, rezem com palavras próprias, simples, poucas, peçam
coisas básicas, sempre lembrando, é claro, de reafirmar o voto nEle, pedir pão,
perdão e abaixar a crista. Se tem uma coisa que Meu Pai não suporta é
arrogância, vaidade, e ousadia e independência para, eventualmente, mudar de
candidato. Por exemplo, façam assim (vejam bem, é só um exemplo, não vão
decorar isso pelamordedeus e ficar repetindo ad aeternum, porque aí será trocar
seis por meia dúzia e replicar o farisaísmo que tanto me combate): ‘Pai nosso
que estás nos céus, santificado seja o teu Nome...’”.
E a prova de que fizeram exatamente como ele não queria é
que até você, ó cética leitora, dois mil anos passados, repete de cor as tais
palavras sugeridas por Jesus rapidamente naquele discurso inaugural, a título
de exemplo. Tudo bem, talvez você possa apresentar a atenuante de ter ensaiado
alguma oração de própria lavra…
Discurso inaugural de campanha
Dois mil anos atrás, discurso se chamava sermão. E os
apaniguados já eram fiéis discípulos. Mas olhem só como Jesus foi certeiro:
“Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 3). A
pré-condição de sucesso para todo líder é conhecer o seu público. E essa
primeira frase do primeiro discurso de Jesus explica seu sucesso posterior.
Felizes os mansos, os aflitos, os puros… vocês serão a mão de
obra da terra, pau pra toda obra, burros de carga. Mas não se preocupem, porque
será grande a vossa recompensa… nos céus!
Claro que a patuleia não esperou o complemento da frase.
Enfim, seriam recompensados e ponto final. Havia uns mais radicais pedindo
constituinte já. Jesus disse (o que comprova que era um reformista e não um
revolucionário): “Gente, a Lei é boa! Só precisa ser cumprida” (Mt 5, 17). Os
mais exaltados se entreolharam até que um gaiato falou um pouco mais alto: “I
num é qui é mémo!” Pronto, aí Jesus soltou os cachorros: “Não basta só não
matar; porque chamar seu irmão de cretino também é uma espécie de assassinato.
Se encolerizar contra um amigo ou um vizinho, chamá-lo de fiadaputa, renegado,
é tão grave quanto matá-lo”.
Essa história de adultério. Cêis tão pensando que adultério
é só quando chegam às vias de fato com a mulher alheia? Não senhores! “Todo
aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério” (Mt
5, 28).
“Mas mestre!? O olhar não tem cerca e o desejo não tem dono!”.
“Ora, se virem! Se não conseguirem segurar, furem os olhos.
É melhor ser cego do que adúltero”. Outra coisa, cuidado com as mulheres
divorciadas, que quem se mete com elas também comete adultério (tudo bem… mil
perdões às mulheres, mas está lá escrito, no versículo 32 do capítulo 5 do
livro do Mateus no Novo Testamento da Bíblia cristã).
Procurei atentamente, li de novo, mas não encontrei nada
correspondente para o sexo feminino, tipo toda aquela que olha para um homem
com desejo libidinoso já cometeu adultério, portanto vejam vocês, mulheres, que
o machismo judaico-cristão tem suas vantagens…
Não vou me alongar nessa, mas Jesus disse que esse costume
de jurar por deus para afirmar a verdade é coisa de gente boba, não deve ser
feita nunca. “Basta a sua palavra” (Mt 5, 33-37).
E esse negócio de olho por olho, dente por dente é coisa de
gente primária. Se um truculento lhe bate na cara, dê-lhe a outra face (e anote
na cadernetinha, para dar o troco da forma adequada na hora oportuna).
Também essa coisa de amar o amigo e odiar o inimigo é
fisiologismo, além de redundante. O certo é aplicar a lei aos próximos e aos
distantes, igualmente, e dar as mesmas oportunidades aos pretos e brancos, e
mulheres e homens.
E o costume de ajudar alguém e sair contando pra todo mundo
é sacanagem: ajudar sim, mas sem estardalhaço. Porque esse negócio de fazer
caridade e deixar alguém ficar sabendo é coisa de gente hipócrita (Mt 6, 2).
Da mesma forma, a religiosidade aparente. Sabe esses caras
que dizem acreditar em deus e batem no peito, trombeteando a própria fé?
Hipócritas! (Mt 6,5). Da mesma forma esses caras que fazem sacrifícios
carregando cruzes, jejuando, com cara de vítimas: Hipócritas! (Mt 6, 16).
Gostei dessa: “Não ajunteis para vós tesouros na terra...”
porque os bens materiais as traças e os carunchos corroem e os ladrões arrombam
e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, que lá ninguém mexe e aí entendi
que, para Jesus, céu é a saúde, e o intelecto, e a reputação, e o conhecimento,
e a solidariedade, e o bem-comum, que levam à paz.
Ou você serve a Deus ou ao Dinheiro. Daí que o Dinheiro é o
capeta da desigualdade e do individualismo. Se você quer enricar, saiba que
ninguém pode servir a dois senhores: ou você escolhe enricar ou escolhe a
comunhão com a vizinhança.
Então Jesus disse que você não precisa se preocupar com o
dia de amanhã. Eu ponho um reparo: tudo bem, nada de paranoia, porque as coisas
costumam se arranjar, mas vigiai e orai, porque desconfiômetro e caldo de
galinha não fazem mal a ninguém.
Outra coisa: com a medida com que medis sereis medidos. Nada
de sentar sobre o próprio rabo e ficar caçoando do rabo alheio. E não atireis
vossas pérolas aos porcos, evidente! Quem desperdiça, passa fome. E se você
estiver com fome e não tiver nada para comer, peça. Não tenha vergonha de
pedir.
E siga a regra de ouro da empatia: não faça a ninguém aquilo
que não quer que façam a ti. Reforçando: trate todo mundo do jeito que gostaria
de ser tratado. Essa é a regra de ouro: na rua, na chuva ou na fazenda…
Mas se alguém lhe propuser um negócio da China, desconfie.
Um bilhete premiado, um rendimento estupendo, uma boa pirâmide financeira…
Quando o milagre é muito grande, desconfie do santo, porque “largo e espaçoso é
o caminho que conduz à perdição” (Mt 7, 13).
O mundo tá cheio de falsos profetas, lobos em pele de
cordeiro. Pelos seus frutos os reconhecereis: o cara pede donativos e dízimos
para ajudar os pobres e necessitados, mas mora no Leblon e vai a Paris todo
verão? Desconfie. (Taí uma boa contradição da nossa classe média progressista).
Enfim, os falsos discípulos. Sabe esses caras que chegam
mais perto, atropelando, afoitos, quando o candidato ganha a eleição, se
dizendo correligionários desde criancinha? Fisiológicos! Oportunistas!
Carreiristas!
Depois dessa, a multidão ficou extasiada. Foi um tremendo
sucesso o discurso inaugural de Jesus, o famoso Sermão da Montanha. Uma carrada
de gente saiu daí entusiasmada, praticando uma militância ferrenha pela vida
afora e o resultado foi que o partido cresceu. Cresceu, assumiu o poder e se
degenerou…
Pedra sobre pedra
Jesus mora em Itaquaquecetuba e é pedreiro. Pedreiro não,
servente de pedreiro. Isso quer dizer que ele trabalha para um pedreiro, que
trabalha para um empreiteiro, que trabalha para um engenheiro, que trabalha
para uma imobiliária, que constrói ou reforma casas.
Jesus não coloca tijolo sobre tijolo, mas assiste à
colocação de tijolo sobre tijolo, prepara a massa que liga os tijolos. Foi por
isso que ele saiu com aquela de que não restaria tijolo sobre tijolo, quando
foi barrado na entrada daquele shopping novo da Avenida Paulista.
Fazia uns 33 anos que Jesus havia nascido na periferia de
Itaquá quando endoideceu na Paulista. Tudo bem que lá onde nasceu é outro
município, mas pode-se considerar prolongamento da zona leste da capital.
Então, pode-se dizer que São Paulo é a cidade natal do Jesus. No entanto, era a
primeira vez que ia à Avenida Paulista. Era um domingo, estava a passeio. Acho
que ganhou a passagem numa rifa da igreja… Levantou muito cedo, pegou o ônibus,
depois o trem, depois outro trem, depois o metrô, depois outro metrô, depois
outro metrô.
Na calçada, em frente ao shopping, almoçou o pão com ovo que
trouxera na mochila. Acho que foi por isso que o segurança invocou com ele.
Além de preto e pobre, era periférico e porco, comendo sem guardanapo, lambendo
os dedos, limpando os beiços com a costa da mão. Turista sim, mas farofeiro...
O chefe gostaria de saber que ele, o segurança, tivera a iniciativa de barrar
aquele não-consumidor.
Jesus não conseguiu metabolizar a afronta. Não havia aberto
a boca desde que saíra de casa, acuado pelo vocabulário estranho da multidão
calada. Então explodiu em impropérios desconexos e tudo que os passantes
atônitos entendiam, da sua espumante e copiosa fala, era essa do tijolo, de que
não restaria tijolo sobre tijolo, mal sabendo ele, coitado, de que ali a
estrutura era só cimento, pedra e aço.
Mas no palácio da FIESP, ali pertinho, ele acertou. Vendo um
estufado, e insolente e enorme pato todo garboso passeando na calçada, não teve
dúvidas: sacou de sua faquinha de fatiar salame e esfaqueou a patológica ave.
No mesmo instante, ela embrulhou impotente no chão a seus pés, sem nenhuma
arrogância.
Enquanto se debatia entre as garras dos seguranças do
palácio, antes de ser levado lá para dentro — agora sim, não só podia entrar,
mas era levado —, Jesus ainda teve tempo de falar para todo passante que queria
ouvir: “estão vendo este templo? Em verdade vos digo: amontoará no chão como
este pato; não ficará aqui pedra sobre pedra: tudo será destruído”, Mateus
capítulo vinte e quatro, versículo dois.
Tudo bem, viajei aí nesse Jesus de Itaquaquecetuba. Mas a
cena do Jesus original foi assim: ele teve um arranca-rabo com uns sacerdotes,
uma discussão acalorada, enquanto distribuía panfletos numa esquina perto da
estação do metrô que se chamava, exatamente, Templo de Salomão, pela
proximidade com o Templo. Acusavam Jesus de querer ser mais realista do que o
rei, de ser ignorante quanto à Lei e, ainda assim, querer subvertê-la. Aí,
acabaram-se os panfletos, ele e os apóstolos estavam indo embora; quando
passavam numa praça ampla, André exclamou admirado: “olhem!”. Era o templo
reformado, enorme, majestoso.
Então Pedro, Tiago, todos eles, pararam para admirar a
faraônica, ops, salomônica obra. E, ao mesmo tempo, cutucavam Jesus: “olhe,
mestre, que grandioso!”. Jesus só olhou assim, meio de esguelha, e tascou: “grande
merda, não vai ficar pedra sobre pedra dessa porcaria”. De fato, trinta anos
depois um general romano bombardeou o templo e passou com os tanques por cima.
Só deixou uma pequena parte do muro em pé, para os fariseus se lamentarem para
todo o sempre.
O perdão vai e volta
O perdão não vem se não for. E vice-versa. Perdoar é um caso
sério, para ambas as partes. Para que haja perdão, é preciso que haja ao menos
duas partes. Sendo mais claro, o perdoador não é nada sem o perdoado.
A gente às vezes pensa que quem pede perdão depende da boa
vontade de quem perdoa. Mas a recíproca é verdadeira: quem perdoa depende da
boa vontade de quem pede perdão. E essa transação de mão dupla tem o poder de
purificar quem tomou parte dela, seja de que lado for.
Isso de perdoar e ser perdoado é uma das ideias do famoso
Pai Nosso de Jesus. Como se sabe, está escrito em Mateus 6, 9-13 e os padres
nos lembram em todas as missas que se trata da oração que Jesus nos ensinou.
Mas Jesus estava nos ensinando a rezar, não a decorar um
texto e muito menos repeti-lo ad aeternum,
mas sobre isso já falei em alguma página aí atrás (sim, Jesus era daqueles
caras que achavam mais importante entender do que decorar…).
Eu acho que foi com essa conversa de pregar perdão de
dívidas e devedores que Jesus impossibilitou qualquer perdão da parte dos
fariseus: “perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos
devedores” (Mt 6,12).
Jesus veio com uma conversa muito perigosa para os
banqueiros e comerciantes de Jerusalém, que poderia inviabilizar todo o sistema
de crédito do país e, pior, mandar todos os credores para o Inferno.
Olha o que Jesus emendou, logo após aquela ideia-força do
Pai Nosso: “Pois, se perdoardes aos homens os seus delitos, também vosso Pai Celeste
vos perdoará; mas se não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará
vossos delitos” (Mt 6, 14-15).
Então é o seguinte: você, banqueiro ou comerciante, pode executar
e azarar a vida daquele seu cliente caloteiro, despejá-lo, sujar seu nome,
tomar-lhe o bem, o diabo, mas com isso perde qualquer direito de perdão divino.
Ah! Você não erra, você é honesto, você observa rigorosamente as regras, as
leis e, principalmente, paga todas suas dívidas!
Bem, se você conseguir caminhar a vida inteira sem pisar
fora do trilho ao menos uma vez, tudo bem. Não sendo de carne e osso, humano,
quem sabe você consegue… Agora, cá entre
nós, se você conseguir essa improvável vitória, na hora do vamovê será
reprovado por antipatia. “Ah! Mas além de honesto, sou simpático”. Não, para
entrar no Paraíso, não basta ser honesto e simpático. É preciso também ser
empático.
(Péra aí, no meu Pai Nosso não há as palavras Dívida e Devedores.
Há “ofensas” e “ofendidos”. Verdade. Digamos que com o advento do crediário e
da Tabela Price e do SPC Serasa, foram necessários alguns ajustes… ajustes
estes operados no Brasil em 1970, com as resoluções do Concílio Vaticano II.
Sim, me lembro bem. No Pai Nosso que minha mãe me ensinou era “dívidas” e
“devedores”).
O diabo no porco
Jesus caminhava por uma estradinha, ladeando a praia. Ao longe, a cidade de Gadara, onde pretendia
fazer campanha. À medida que ia chegando perto da cidade, ia aumentando o lixo
na beira do caminho, havia até geladeira e colchão de molas abandonados, pra
não falar das garrafas pet e sacolas plásticas e mais um estabano de lixo da
indústria do consumismo.
Até Jesus, com sua infinita paciência, já quase a perdeu
toda, quando viu, em meio ao lixo, um porco enorme, morto de três dias, com o
ventre estufado prestes a explodir.
Além do lixo, havia, nessa periferia, muitos desocupados
perambulando, alguns adolescentes em bicicletas velhas. De vez em quando,
passava um carro barulhento e caindo aos pedaços. Alguns jumentos pastavam o
capim da via pública e havia muitos porcos soltos. Era uma região de criadores
de porcos.
De repente, apareceram-lhe dois inconsequentes a lhe
provocar. Jesus estava acostumado com esse tipo de gente, e tentou ignorá-los,
mas eles insistiram, cada vez mais agressivos: “Que queres de nós, Filho de
Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” (Mt 8, 29).
Jesus se tocou na hora que se tratava do Satanás e acho que
foi aí que forjou aquele bordão que faz sucesso ainda hoje, nos comícios dos
anacrônicos, apesar do surgimento da psiquiatria, do desenvolvimento da
psicologia, da psicanálise, da clozapina, do citalopram, que é o “Sai,
Satanás!”.
Claro que poderiam ser dois simples drogados ou arruaceiros,
como é o normal, mas aquela conversa “Filho de Deus” e “nos atormentar antes do
tempo” foi reveladora.
Jesus ainda não havia se revelado, somente o Satanás, seu
velho conhecido, sabia que aquele forasteiro era um dos integrantes da
santíssima trindade. E sabia também que ainda não chegara a hora da sua
expulsão definitiva do mundo, eis que isso só ocorreria no Juízo Final, daí ter
reclamado da vinda antes do tempo.
Mas, vendo que era Jesus em carne e osso que estava em sua
frente e conhecendo a fera, foi logo se rendendo: “tá bom, se quer me expulsar,
que me mande para aquela manada de porcos, e apontou uma manada que passava ao
longe”. Aí Jesus falou: "tá bom, você pediu, pode ir”.
Acontece que o Mintiroso assumia, aí, a forma coletiva e
tinha o nome de Legião (Mc 5,9). Foi por isso que a manada inteira de porcos
foi possuída e, doida, se atirou no mar próximo e morreu afogada. Claro que
tudo isso gerou muito ruído, porque o Capeta é bicho escandaloso.
A população da cidade acorreu em peso, mas quando viu
aquelas toneladas de porcos se perdendo no mar, aqueles criadores — de porcos,
de doidos, e de porcos doidos —, ficaram possessos com o prejuízo e pediram que
Jesus se retirasse do seu território, senão iriam à falência.
Jesus e a família
Sabe aquela conversa da Tradição, que diz que a Família é o
esteio da Propriedade? Acho que está certa, mas não tem nada a ver com Jesus, a
julgar pelo jeito que ele tratava sua própria família. Ou a julgar pelas
recomendações que eventualmente fazia a respeito.
Certa feita, um de seus discípulos pediu-lhe uma licença
para ir enterrar seu pai. Sabe o que Jesus respondeu? “Deixa pra lá, cara,
algum parente inútil cuida disso” (Lc 9, 60). Segue-me, que nós temos coisas
mais importantes e urgentes a fazer. Outro queria se despedir da família: “nem
pensar, pra frente é que se anda”, vam'bora! (Lc 9, 62).
Falando a respeito de quando a revolução estourasse, Jesus,
em instrução aos seus discípulos, disse: “não adianta, gente, o jeito é tomar
cuidado, porque o populacho é traíra”. Quando a jiripoca piar, “o irmão
entregará o irmão à morte e o pai entregará o filho. Os filhos se levantarão
contra os pais e os farão morrer” (Mt 10, 21).
Na hora do aperto, nego pisa no pescoço da própria mãe… Eu
não sei se ele havia assistido recentemente ao Parente é Serpente, do Mario Monicelli, para estar tão pessimista
assim.
A respeito da família, Jesus não dava moleza aos seus
discípulos: “aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim”. “E
aquele que ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10,
37). Mas, justiça seja feita: esse mesmo rigor ele empregava a si próprio.
Certa feita, durante um comício, enquanto estava lá em cima
do palanque, sua mãe e seus irmãos chegaram e mandaram um assessor avisá-lo de
que queriam falar com ele. O assessor cochichou em seu ouvido: “sua mãe e seus
irmãos estão aí, querem falar com você”. Aí ele, puto (ou você não ficava puto
quando alguém da sua família ia lá no campinho com algum recado, durante a
pelada?). Aí ele, puto: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” (e vejam que
a mãe dele não era qualquer uma, era a Virgem Maria!). E, apontando para os
correligionários em volta, respondeu: “aqui estão minha mãe e meus irmãos!” (Mt
12, 46-50). E deve ter mandado o assessor despachar a mãe e os irmãos, dizendo
que estava ocupado, que esperassem em casa.
Não, Jesus não era grosseiro nem insensível não. Apenas
tinha a clareza política e social de dar mais importância ao público do que ao
privado. Se isso é novidade e inaceitável no seio familiar ainda hoje, imagina
naquele tempo!
De pombas e serpentes
Olha só como Jesus era esperto. Passou mais tempo instruindo
seus apóstolos do que perdendo tempo diretamente com o populacho. Assim como
todo grande capitalista, que não se mistura ali com os executivos da diretoria,
mas fica lá longe, no sossego e no controle do conselho de administração.
Jesus controlava e treinava; não fazia, ensinava a fazer.
Por exemplo — ensinava ele —, “quando chegarem numa cidade, não vão se hospedar
na casa de um João ninguém. Procurem alguém influente. Mas se ninguém quiser
recebê-los nessa cidade, não percam tempo com ela, vão na próxima”. Porém, “antes
de deixarem a cidade hostil, sacudam bem as roupas, batam os pés, que nem o pó
desse povo vale a pena levar” (Lc 10, 10-12).
E não percam tempo em maldizer e rogar praga, porque deus tá
vendo. Sabe aquilo que deus fez com Sodoma e Gomorra? Vai ser pior. Se não
possuírem essa grandeza de manter o silêncio no desaforo, sibilem, no máximo,
esse deus tá vendo, que eles vão entender.
Aí, diante desse rigor prometido, superior ao dirigido à
putaria de Sodoma e Gomorra, que Mateus garante lá no versículo 15 do capítulo
10, fico pensando que, para Deus, a falta de hospitalidade é mais grave do que
a falta de compostura. Uma certa libidinagem até passa, mas tratar mal uma
visita é intolerável.
Enfim, caros treinandos, a vida é dura. Mando minhas ovelhas
tratar com lobos. Mas, para o sucesso da empreitada, é assim que tem de ser.
Aquela história de olho por olho, dente por dente do meu pai, já vimos que não
deu certo. Olha aí as víboras que foram criadas. Aquele belicismo do meu pai,
os exércitos de Iahweh, aquelas legiões de anjos guerreiros que desciam dos
céus cuspindo fogo, já vimos que não funcionam, ainda mais contra esses
generais modernos dessas legiões romanas.
A gente tem de pegar esses caras no contrapé. Desarmá-los
com nossa pele de cordeiro e estapeá-los com luvas de pelica. Endurecer, mas
sem perder a ternura.
Não dá para falar grosso diante dos tanques, mas nunca
desistam de imobilizá-los. Sorrateiramente, desapertem um parafuso da sua
esteira, depois outro… Vocês precisam ser sacanas e inocentes ao mesmo tempo.
Usem a criatividade. Sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as
pombas (Mt 10,16).
João ciumento e a concorrência
João chegou da rua esbaforido e foi logo contando: “mestre,
tinha um cara que a gente não conhece distribuindo nosso panfleto na porta do
metrô. Tomamos o pacote dele e o botamos pra correr”. Jesus então, surpreso,
respondeu: “mas João, deixasse ele lá fazendo o proselitismo em nosso nome;
quem não é contra nós, é por nós” (Mc 9, 40).
“Se ele estivesse promovendo o candidato adversário, ou até
mesmo fazendo propaganda das Casas Bahia em plena véspera da eleição, aí ele
estaria contra mim ou, nesse último caso, sendo dispersivo; o que, para nossa
causa, é tão nocivo quanto apoiar o adversário, porque quem não está a meu
favor está contra mim, e quem não ajunta comigo, dispersa (Lc 11, 23) e então
teríamos de ser intransigentes”.
“Mas se alguém quiser fazer milagres em meu nome, expulsar
demônios em meu nome, tudo bem. No nosso negócio, é mais importante a fama do
que o produto. Aliás, estou até pensando em criar uma franquia, o cara usa
nossa tecnologia, recolhe o dízimo e nos repassa um percentual, o que que cêis
acham?”
Ninguém fica rico trabalhando sozinho, fazendo ele mesmo as
coisas. Tampouco alguém fica rico sendo condescendente o tempo todo. Ou
intransigente. O sujeito de sucesso é aquele que sabe a hora de morder e a hora
de assoprar (não encontrei esse versículo na Bíblia, mas acho que foi por
sacanagem dos tradutores…).
Gente, pelamordedeus, se manquem! Não estão vendo aí que o
segredo de ajuntar dinheiro é colocar gente para trabalhar para a gente?
Contudo, há um detalhe que vou revelar aqui para vocês: um empresário de
verdade, bem-sucedido, é aquele que tem gente desconhecida trabalhando para
ele. Porque gente conhecida tem filho para levar à escola, fica doente, pega
ônibus, tem de pagar aluguel; gente desconhecida não tem nada disso, é número,
insumo, mão de obra. Entenderam?
Se os apóstolos entenderam, não sei, mas se mantiveram
entusiasmados, o que resolve tudo.
Os burocratas do templo
No tempo de Jesus, para os judeus, o Templo de Jerusalém era
uma espécie de Congresso Nacional misturado com o Supremo Tribunal Federal. Daí
vocês imaginem a quantidade de burocrata bem remunerado e pouco ocupado que
havia lá dentro. E, claro, zelosos de suas prerrogativas.
Por isso, quando ficaram sabendo que havia um cidadão que
conversava com deus diretamente, nas praças, nas portas do Templo, por fora das
instâncias eclesiásticas e sem qualquer ritual, e de graça, sem exigir nenhum
carneiro ou rolinha que seja, ficaram de orelha em pé.
E, pior, com maior eficiência: enquanto os custosos e
escolados escribas e sacerdotes levavam o dia inteiro ou até a quaresma inteira
para expulsar um pacato demoninho do corpo de um freguês, esse cidadão, chamado
Jesus, deixava o freguês limpo e lúcido num estalar de dedos, ainda que fosse
sábado.
Os burocratas não trabalhavam no sábado de jeito nenhum (no
que eu acho que estavam certos), mas Jesus que, além de diletante, era
trabalhador informal, trabalhava sábado, domingo, feriado. Coitado do Jesus,
uma coisa que ele nunca teve na vida foi carteira assinada, eis que pertencia à
maioria do populacho.
Nunca bateu um cartão ou assinou um livro de ponto na vida.
Mas, em compensação, trabalhava por gosto, daí por que não se desgastava tanto.
Só se desgastava quando aparecia a guarda do Templo enchendo o saco: “Pô, cara,
você fica aí em nossas portas fazendo concorrência desleal com a gente! Os homi
lá de cima tão querendo falá com você, vamo lá pra dentro”.
Aí Jesus entrou para falar com a chefia da casa. Todo mundo
de paletó e gravata, só ele de chinelo de dedo, bermuda e camiseta. Todo mundo
cheiroso, barba escanhoada, alguns de bigode, ele com uma barba de nazareu
abandonado. Sozinho e mal pago contra uma equipe de doutores da lei. Mas Jesus,
nem aí: “quê que cêis querem comigo?” (também, com um sistema aéreo celestial
dando cobertura!, até eu fico insolente).
Aí os doutores: “cidadão, fizemos um levantamento, sabemos
que você não estudou em nenhuma das nossas universidades, não tem registro em
nenhum conselho profissional, com que autoridade fazes estas coisas?” (Mc 11,
28). “Onde foi que você aprendeu a profissão?”
Tranquilo, Jesus se lembrou de seu compadre João Batizador,
de quem corria um buchicho de que se tratava da reencarnação de Elias, ídolo
dos escribas que lhe questionavam. Ele sabia que por aí era fácil embananar a
burocracia incompetente e arrogante. E respondeu à pergunta com outra pergunta:
“o batismo de João era do Céu ou dos homens?”
Os engravatados perceberam a areia movediça, a sinuca de
bico. Não poderiam dizer “do Céu”, porque eles mesmos haviam condenado João por
heresia; não poderiam dizer “dos homens”, porque ficariam mal nas pesquisas
junto à opinião pública, que acreditava em peso que João era profeta de
verdade.
Mas todo poder autoritário silencia, quando não convém
falar. Dessa forma, disseram que não iriam responder. Então Jesus, insolente,
retrucou: “nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas”. (Isso foi o
que anotou Marcos, no último verso do capítulo 11. Eu, a julgar pela ousadia,
insolência, ironia e informalismo de Jesus, acho que ele respondeu curto e
grosso: “esse conhecimento me caiu do céu”).
Parábolas, bolas!
Não sei se ainda é assim, mas no meu tempo, em que as
palavras “dívidas” e “devedores” ainda não haviam sido substituídas por
“ofensas” e “ofendidos”, no Pai Nosso, o padre lia ou pedia para alguém ler uma
das famosas e manjadíssimas parábolas de Jesus, sempre curtinhas, Jesus era
craque da síntese.
Aliás, não resisto ao devaneio: Jesus é sintético, fariseu é
prolixo; Jesus é pá pum; fariseu é falastrão enrolador; Jesus é direto, fariseu
é finório. Como ia dizendo, alguém lia, em trinta segundos, a parábola, e o
padre fariseu ficava meia hora explicando em seu sermão.
À multidão, de cima do palanque, Jesus só falava em
parábolas. Após um longo comício de várias parábolas, uma encadeada na outra,
seus assessores não resistiram e perguntaram: “mestre, por que lhes falas em
parábolas?” (Mt 13, 10). Jesus respondeu:
“Se eu falar normalmente, esse povão não vai entender nada
mesmo. Pior, vai embora e me deixa aqui falando sozinho, porque é chato. Então
falo em parábolas, que eles também não entendem, mas gostam da historinha”.
Os assessores ficaram putos, porque perceberam que a coisa
funcionava assim também com eles. E mais putos ainda ficaram quando Jesus,
dando uma de desentendido, rebateu:
“Mas felizes os vossos olhos, porque veem, e os vossos
ouvidos, porque ouvem” (Mt 13, 16). Vocês não fugiram da aula de literatura nem
de linguística, entendem a linguagem figurada, sabem ler nas entrelinhas. O
povão lá embaixo não sabe ler nem a linha propriamente dita. Vocês entendem, o
povão sente. Uma bela historinha toca o coração do povão; não é o caso de
vocês, que exigem toque no cérebro.
Estão vendo o povão embasbacado, lá embaixo? Eles ouvem, mas
não entendem; enxergam, mas não veem (Mt 13, 13). E digo mais: é melhor deixar
que assim seja, porque o dia em que esse povão ver o que lhe vai pela fuça e
entender o que lhe embota o cérebro, nóis tamos lascados. Não sobra um aqui
para nos ouvir, vai todo mundo virar fariseu e cuidar da própria vida.
Conhecem aquela conversa da meritocracia? Só funciona
enquanto poucos a conhecem, como vocês.
Aí foi que o apostolado perdeu as estribeiras de vez. “Mestre,
pelamordedeus, não brinca. Nós também não entendemos porra nenhuma das suas
historinhas engraçadas”. Jesus, sonso, pediu: “qual delas vocês querem que eu
explique? Qual delas!?”. “Ora, todas! A do joio, a do fermento, a da rede, a do
tesouro e da pérola, a do grão de mostarda, a do semeador…”
E acho que foi aí que começou esse costume de um sermão de
meia hora para explicar um causo de 30 segundos. Porque Jesus, só de sacanagem,
destampou a falar e a explicar até anoitecer. Lá pelas tantas, um assessor
estrilou. Jesus então redobrou a carga:
“Eu sei, você quer metáfora fácil, de futebol, né? Pois
fique sabendo que, para trabalhar comigo não pode ser simplório. Comigo, o cara
tem de ser bom entendedor. Se queres o prato feito e mastigado, corre lá pra
baixo. Mas aguenta as consequências, o tratamento destinado ao gado”.
E um adendo final, mas não menos importante, nesse assunto
de parábolas. Jesus devia também ser um grande piadista. Todo comunicador que
usa fábulas e parábolas e metáforas, para se comunicar, usa também piadas.
Tudo bem, não consta nenhuma piada nos evangelhos, mas isso
se deve, certamente, a que, uns 50 anos após a morte de Jesus, quando os 12 da
época, sucessores dos sucessores dos apóstolos originais, reuniram-se para
discutir a narrativa unificada da nova religião, consideraram então que não
pegava bem para um membro da Santíssima Trindade ser humorista. Ainda mais
sabendo que a maioria dos potenciais seguidores era mal-humorada.
O profeta em casa
Vocês devem se lembrar das peripécias do Jesus menino.
Parecia precoce, mas, quando chegou a hora de arrumar emprego, ficou enrolando
pra sair da casa dos pais e só foi se mancar com 30 anos de idade. Mas aí já
era muito velho para começar de baixo, ganhando o piso, por isso virou
sindicalista combativo (ou coisa que o valha). Mas logo percebeu que sindicato
era engrenagem do sistema e partiu para a política.
Porém, muito mais sagaz do que a maioria, sacou que, se
entrasse no jogo normal da política partidária oficial, seria engolido pelo
monstro. Por isso, fundou um partido, sim, mas nunca concorreu ou permitiu que
algum correligionário concorresse a qualquer cargo no Templo. Não ficou
perdendo tempo com aluguel de sede, tribunal eleitoral, legislação pertinente,
prestação de contas.
Montou uma estrutura enxuta e informal de 12 membros e botou
pra quebrar. Em três anos, pôs o farisaísmo de joelhos e negociou diretamente
com o centro do império, libertando-se do mundinho da limitada terra prometida
de Moisés para todo o mundo ocidental, da Turquia ao Havaí, da Rússia à
Etiópia.
Nesse interregno, já poderoso, logo após o congresso que
escolheu os doze, tirou uns dias para descansar junto à família, em Cafarnaum,
na Galileia. Porém, vazou a informação de que o cara estava ali e a multidão se
apinhou na porta da casa de Maria e José e seus irmãos. Foi uma muvuca danada,
a família não tinha sossego nem para comer, nem para dormir.
E Jesus, como todo político bem-sucedido, gostava da muvuca.
Ia lá fora conversar com a turba, aproveitava para expulsar alguns demônios,
eventualmente devolvia a visão a algum cego, fazia algum paralítico andar, só
para não perder o costume e pelo gosto mesmo do cheiro de povo.
Aí, acho que Tiago e Judas (irmãos de Jesus), chegando do
trabalho, cansados, e vendo aquela bagunça, com o irmão lá no meio, como se
nada estivesse acontecendo, pensaram: “Enlouqueceu!” (Mc 3, 21). Jesus percebeu que o espaço privado da
família era inadequado a qualquer movimentação pública e transferiu a pajelança
para a sinagoga.
Na sinagoga, muito mais espaçosa, muito mais segura, com
aqueles tocos de concreto na calçada para proteger do ataque até de tanques,
Jesus expandiu o discurso. Discorria brilhantemente sobre todos os assuntos,
atendia com presteza a todo mundo, tudo com uma fineza de gestos digna do mais
ilustrado escriba.
A população, maravilhada, perguntava: “Mas esse aí não é aquele moleque filho do
carpinteiro!? Onde foi que aprendeu essas coisas? A sua mãe não é a Maria, ele não é irmão do
Tiago, do José, do Simão e do Judas? (Mt 13, 55). E as suas irmãs não vivem
todas entre nós? Donde então lhe vêm todas essas coisas?” E não acreditavam, e
se escandalizavam.
Foi então que Jesus chegou à seguinte conclusão: santo de
casa não faz milagre. Quer dizer, até faz, mas ninguém vê. Se vê, não acredita.
Se acredita, não espalha.
Uns dizem que o que realmente ele falou foi que ninguém é
profeta em sua própria casa. É semelhante àquele rompante artístico do filho,
do cônjuge, do irmão, que lhe é mostrado e você não vê nada de mais, uma perda
de tempo; você não consegue impressionar quem te viu crescer ou escovar os
dentes.
Mateus escreveu que o profeta é recebido em todo canto com
muitas honras, menos em sua cidade (Mt 13, 57). Então Jesus, sujeito prático e
inteligente, não perdeu mais tempo ali em demonstrações de sabedoria e
habilidade. Porque toda sabedoria e toda habilidade carecem da credulidade da
audiência.
Pão com peixe
Tempos depois da famosa multiplicação dos pães, que fez um
sucesso danado, e o povo gostou tanto que, até hoje, repete a cena em toda
santa missa, Jesus voltou ao assunto, quando percebeu que a coisa podia virar
festa.
É que, numa outra viagem, os discípulos simplesmente
“esqueceram” de levar pães. Ou melhor, levaram só uns dois ou três. “Qualquer
coisa, o mestre multiplica isso”, pensaram, lembrando de uma recomendação
recente dele de ter cuidado com o fermento da padaria. Na hora do vamovê, ou
seja, na hora de comer, vieram com a manjada choradeira, pra cima dele: “Mestre,
não temos pães para todo mundo…”
Jesus, que não era bobo, além de ter ótima memória, começou
a rir. “Ah é, é!? Não tem pão pra todo mundo, é? Ora, se não tem pão, que comam
brioches!” Mas não dava para comer brioches, porque o brioche só foi inventado
1789 anos depois, na França. “Para vocês, tudo é festa, né? Oh, meu pai do céu,
vocês não entenderam nada da coisa, mesmo, da história da multiplicação dos
pães”.
“Vocês estavam pensando que eu falava de pães, quando avisei
vocês para terem cuidado com esse fermento vendido aí nas padarias dos
fariseus? Eu não estava preocupado com pães ou com fermento, mas com os
próprios fariseus, com aquela conversa deles, cheia de sotaque e sovinice.
Porque o fermento leveda a massa, mas pode também corrompê-la. Oh raça de massa
rala, vocês!”
Mas vamos ao episódio: uma multidão participava de um piquenique
com Jesus e seus doze assessores num lugar retirado. A hora do almoço se
aproximando e o povo inquieto — Jesus inclusive —, percebendo que não havia
estrutura de fornecimento de alimentação para todo mundo. Por fim, chamou um
deles e perguntou: “Escuta, vocês não providenciaram infra de comida?”
Aí outro respondeu: “Bem, trouxemos aí 5 pães e dois peixes,
para nós. Melhor dispensar esse povo, para que cada um providencie sua própria
comida”. Jesus ficou puto. “O quê!? Se a gente fizer isso, nunca mais eles
comparecem em um evento nosso. Oh incompetência, meu pai!” Sendo que quando
Jesus falava “meu pai”, falava com propriedade, com sentimento; ainda que não
estivesse, parecia enfático.
Vendo que a merda já tava feita, pensou: “Quero ver agora
até onde vai meu poder de convencimento”. E pediu aos discípulos que trouxessem
lá os 5 pães e os dois peixes. É, naquele tempo era pão com peixe, só muito
depois foi que inventaram o hambúrguer. Quando viu o tamanho dos pães e dos
peixes, ficou menos apreensivo.
É que os pães eram daqueles de semolina, que a gente compra
nos postos de beira de estrada, enormes, com quase um quilo cada. E os peixes,
além de grandes, eram secos, parecidos com essas pranchas de bacalhau que a
gente compra no mercadão na véspera do Natal, o que aumenta as possibilidades
de repartição…
Aí, de cima do palanque, que naquele tempo se chamava altar,
tomou do pão e do peixe e, mostrando-os à multidão, falou: “Se vocês tiverem
fé, isso aqui vai dar pra todo mundo. Claro que não é para ninguém encher a
barriga, mas todo mundo vai ao menos sentir um gostinho e posso garantir que o
pão está fresco e o bacalhau é da Noruega”.
E, então, organizou o povo em filas e, ele em pessoa,
assessorado por coroinhas embasbacados, ia pegando um tiquinho de cada pão e
colocando diretamente na boca de cada um para não desperdiçar.
Um pedacinho de pão, um pedacinho de peixe; havia uns que
não gostavam de peixe, ele só dava pão; outros estavam fazendo regime, ele só
dava peixe. Ao final, todo mundo comeu e ficou satisfeito. Os estômagos nem
tanto, mas os espíritos, que é o que importa, ficaram saciados.
E aquela informação de que, ao final da refeição coletiva,
ainda recolheram doze cestos cheios das migalhas que sobraram (Mt 14, 20) é
pura ironia de Mateus. Ora, por mais indisciplinado e afoito que seja o povo,
nenhuma multidão desperdiça tanto, ainda mais num contexto de tamanha escassez
e rígido controle como aquele.
Ensino fariseu: cego conduzindo cego
Alguns turistas fariseus, em viagem pelo interior,
depararam-se com a comitiva de Jesus. Ficaram de longe, espiando. Viram que ele
e seus discípulos trabalhavam enquanto comiam. Obravam com uma mão e seguravam
o sanduíche com a outra, às vezes trocavam de mãos, tudo sem guardanapo e sem lavar
as mãos.
Acredito que foi nessa passagem bíblica que os seriados estadunidenses
se inspiraram, ao reproduzirem aquelas cenas de trabalhadores fanáticos
segurando seus hambúrgueres do méquidonaldes enquanto trabalham.
Os fariseus ficaram horrorizados com tamanho desrespeito às
leis de Moisés. Por isso que aqueles homens eram todos impuros, onde já se viu
comer sem lavar as mãos!? Bem-intencionados, com o propósito de ajudar, chamaram
Jesus do lado e explicaram-lhe a parte da lei que falava da impureza de se
comer com as mãos sujas. “Isso é pecado, cara, o quê que custa lavar as mãos
antes de comer?”
Ora, custava que ali na praça não havia sequer uma
torneirinha, como ainda sucede em quase todas as praças das cidades desse
hemisfério, que dirá um lavatório e um mijador. Mas Jesus olhou bem praqueles
turistas e não aguentou: “Mas como vocês são hipócritas, não?! Fazem uma
celeuma com um simples pedaço de pão e obrigam um nazireu a desamparar pai e
mãe, só por causa da tradição (Mt 15, 3 – o nazireu era alguém consagrado a
Iahweh, que devia destinar bens ao templo, ainda que em prejuízo de pai e mãe,
segundo a excessiva interpretação farisaica). Querem saber? Vão lamber sabão!”
E acho que logo em seguida Jesus inventou um bordão muito usado até hoje,
embora não conste nos evangelhos: “O que não mata, engorda”. E deve ter
emendado, baixinho, só para si: “no máximo pode provocar uma diarreia”.
Não é o que nos entra pela boca que nos torna impuros, mas o
que sai dela. Os impropérios que vocês amplificam, à guisa de lição de moral,
as maldições e lacrações que vocês promovem por qualquer besteira, isso sim,
que brota no coração e sai pela boca, em forma de palavras, tornam impuro o
homem.
O que adianta serem limpinhos e cheirosos, ingerirem
alimento puro e vomitarem prostituições, roubos, assassínios, adultérios,
ambições desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação,
arrogância, insensatez? (Mc 7, 21-22).
“Vocês são como cegos tentando conduzir outros cegos. Sabe o
que acontece quando um cego conduz outro cego? Ambos caem no buraco (Mt 15,
14). E tenho dito!” E tascou mais uma mordida no naco de pão que segurava com
uma mão, enquanto atendia a outro grupo de turistas que lhe pedia informações.
A fé seca figueiras
Conhecem essas figueiras enormes das calçadas e parques de São
Paulo, cuja função social é dar sombra aos andarilhos e abrigo aos passarinhos,
mas produzem uns figuinhos mixurucas, que acho que nem os passarinhos comem?
Pois, no tempo de Jesus, esses figos eram razoáveis e alimentavam os viajantes.
Mas Jesus chegou numa delas, cansado e com fome, e não havia
unzinho sequer. Aí ele ficou puto e falou pra ela (é, quando estamos muito
cansados e com fome, falamos até com as árvores): “pois que você seque agora e
suas descendentes não saciem mais seus pretendentes”.
Claro que a figueira não secou coisa nenhuma, porque aquilo
é praga, com aquele sistema radicular que vai buscar água até na Amazônia, se
preciso, mas seus figuinhos ficaram mixurucas para sempre, por mais adubo que
se acrescente à terra, em volta da planta.
Mas os evangelistas disseram que a figueira secou na hora,
sabe por quê? Para introduzir o famoso bordão de que a fé remove montanhas.
Secar aquela figueira só com um fervoroso olhar é uma boa metáfora para
introduzir a metáfora de remover uma montanha com a vontade.
Tudo por causa de um menino desmiolado, que os apóstolos não
conseguiram curar. Jesus chegou e, pá pum! Devolveu os miolos do rapazinho ao
seu devido lugar (Mt 17, 18). Então os discípulos, em particular,
perguntaram-lhe: “Diabos, por que não conseguimos?”
Aí Jesus: “Porque vocês são muito distraídos. Sabem qual o
segredo do negócio? A determinação. Tanto que, escrevem isto que vou dizer,
daqui uns dois mil anos, os cristãos conservadores vão abusar, nas redes
sociais, de um bordão equivalente: foco,
fé e força! Aquele menino, sabem o que eu fiz? Dei atenção a ele.
Individualizei ele no mundo. Primeiro, me coloquei ao lado dele de corpo e
alma. Em seguida, olhei dentro dos seus olhos. Não tem demônio que resista a um
tratamento desse. Em verdade, em verdade vos digo: a atenção remove montanhas”
(é, eu acho que Jesus falou atenção, mas os tradutores, os tradutores...!). Aí,
acho que Simão (que depois que virou papa assumiu o nome de Pedro), ou Tiago,
ou João, não sei, chiou: “Lá vem você outra vez com essas metáforas!”
Porque, coitados, eles sofriam com essas metáforas. Porque o
repertório de metáforas de Jesus não era pobre e fácil como o de Lula não, com
suas tiradas de futebol que até os adeptos do basquete entendem. Era mote
inédito sobre mote inédito, o caudal do homem não tinha fim. O povão, que não
sabia que não sabia, divertia-se com as fábulas e parábolas e demais figuras de
Jesus, mas seus discípulos sofriam porque sentiam nelas a própria e humana
mediocridade.
Continuava Jesus: “A fé remove montanhas. Claro que ninguém
vai remover uma montanha só com a vontade, viu Pedro, se bem que, daqui uns
dois mil anos, estou vendo lá na frente, os chineses vão remover prédios,
assim, numa boa, sem nenhum truque, tirar um predião daqui e colocá-lo ali,
inteirinho, acho que até com os moradores dentro. Mas o que eu quero de vocês,
que são profissionalizados no Partido, é que tenham determinação. Porque com um
grupo determinado, ainda que pequeno, ninguém pode, nem a burocracia de
Jerusalém, nem as legiões romanas”.
Como pagar impostos
Num belo dia, os fiscais da Receita Federal baixaram na sede
da igreja de Jesus para cobrar os atrasados. Naquele tempo, como hoje, somente
as igrejas oficiais eram isentas. As igrejas de fachada, essas que funcionam
como se fossem uma mercearia ou uma construtora, ou um banco, ou uma
petrolífera, pagavam um imposto maquiado, ajeitado.
E as igrejas de fato, encarnadas num determinado cidadão,
tinham de pagar imposto normalmente, quer dizer, o cidadão titular tinha de
pagar.
Pedro recebeu os fiscais. Porque Jesus era humilde e se
expunha somente com suas ovelhas, em praça pública. No privado, e ainda mais
com a burocracia em geral, Jesus era marrento. Ficava lá dentro, recolhido;
para falar com ele, era preciso passar por Simão Pedro, por Tiago, por um escândalo
de assessores.
“E, então, seu chefe é sonegador?”, perguntaram a Pedro os
fiscais, porque os fiscais, em geral, chegam assim, pressionando as vítimas.
Pedro, inexperiente nos negócios, ficou alarmado. “Rapazes, sabem que nunca
pensei nisso!” E correu lá dentro esclarecer a questão com Jesus, que falou: “Sonegador,
eu!? Cê tá doido!? Fala lá pros fiscais que sou um cidadão de bem, cumpridor de
todos os deveres e pagador de todos os impostos devidos”.
Claro que Jesus conhecia muito bem a problemática dos
impostos e do Estado e como os recursos públicos eram injustamente carreados.
Por vontade própria, não só não daria nenhum centavo àquele Estado, como
queimaria os eventualmente entesourados junto com o próprio Estado.
Mas, diante dos fiscais da Receita, com aquela frota de
camionetas estacionada na calçada, não era hora de criar caso, nem discutir
política. Ao contrário, devia evitar escândalos e aparentar a maior normalidade
possível. Até porque, no seu caso, a coisa era fácil.
Enfim, Jesus mandou Pedro perguntar aos fiscais quanto devia.
E os fiscais fizeram o devido lançamento, estabeleceram o devido prazo, e foram
embora.
Jesus chamou Pedro e instruiu-o: “Faz o seguinte, vai
pescar. O primeiro peixe com mais de cinco quilos que pegar, abra a barriga
dele, e encontrará um invólucro de plástico. Dentro, você encontrará um maço de
notas verdinhas do legítimo dólar estadunidense. Será suficiente para pagar os
impostos. Aproveita e paga o seu também, que o dinheiro vai dar” (Mt 17,27). E
acrescentou — pedindo antes que Pedro desligasse o gravador — que fazia daquela
forma porque desaforo com desaforo se paga.
Os eunucos da igreja
Volto ao tema dos Eunucos. Numa crônica aí atrás, disse que,
na Babilônia (e em todos os reinados da época), os reis possuíam haréns. E que
esses haréns eram administrados por eunucos, e isso fora uma sacada genial dos
reis. Aliás, não só os haréns, os eunucos comandavam todos os serviços do
palácio.
Por esse motivo, todos os palácios possuíam um batalhão de
eunucos, havia um serviço de recrutamento deles, ou melhor, recrutamento de
jovens que se tornariam eunucos. Escrevi da conveniência de tais serviços serem
controlados por eunucos, pessoas sem desejos e sem interesses extraordinários.
Pois bem. Pensava que isso era coisa da arca de Noé, já
superada no tempo de Jesus, mas olha o que achei, bem pertinho do famoso “o que
Deus uniu, o homem não separa” (Mt 19, 6) que tenho de ouvir toda vez que vou a
um casamento na igreja.
Vou criar coragem e, no próximo, pedirei ao padre que
continue lendo mais os seis versículos seguintes apenas, dentre os quais se lê:
“Com efeito, há eunucos que nasceram assim, do ventre materno. E há eunucos que
foram feitos eunucos pelos homens. E há eunucos que se fizeram eunucos por
causa do Reino dos Céus. Quem tiver capacidade para compreender, compreenda!”
(Mt 19, 12).
Porque, diante dessa besteira de Jesus, que nunca fora
casado, seus discípulos disseram: “Desse jeito, não vale a pena casar” (Mt 19,
10). Porque quase todos seus discípulos eram casados, conheciam bem o que era
dividir uma casa com outra pessoa em regime de casamento.
Enfim, tiraram o atraso em cima da inocência de Jesus, e
tanto estavam certos que até os italianos, tão católicos e às barbas do papa,
não demoraram em aprovar o divórcio, que Moisés já aprovara lá muito antes
dessa conversa.
Mas Jesus de inocente não tinha nada. Ele não estava
pensando nessa corriqueira injunção física e social entre homem e mulher, ou
entre dois cidadãos ou cidadãs que resolvem fazer um teretetê particular e
duradouro entre si, quando saiu com aquela de que o que deus uniu o homem não
separa. Ele estava pensando lá na frente, em Roma, no Vaticano e no império
eclesiástico, nas administrações dos múltiplos palácios desse império. Aquilo,
pra funcionar, só com eunucos.
Perceberam que há um ponto de exclamação ao final do
versículo que fala dos eunucos?
Querem saber? Acho que nem Mateus e muito menos Jesus
passaram perto dessa conversa. Isso deve ser coisa de Constantino, que entendia
de palácios e conveniências. Mas por que essa proximidade entre casamento
indissolúvel e eunuco? Acho que por causa da conveniência. Algum psicanalista
poderia responder: “é que o palácio do casamento indissolúvel só funciona quando
administrado por eunucos”. E aproveito para perguntar: há na psicologia moderna
o conceito de eunuco emocional?
Jesus, um desorganizado
Interessante, Jesus era tão metódico com umas coisas e tão
desatento com outras. O contrário de Moisés.
Por exemplo, Moisés negociou previamente com Iahweh a água
que brotaria das rochas e o maná que cairia do céu, para alimentar e matar a
sede do seu povo durante a travessia do deserto. Jesus tinha de improvisar,
fazer mágica, para multiplicar os pães, para alimentar seus correligionários.
Moisés organizou os dez mandamentos — dez, um número bonito
e redondo —, cercando todas as safadezas possíveis dos homens, nos campos
público, privado, libidinoso e religioso e, mais!, mandou gravar tudo na pedra.
E mais!, mandou fazer um baú de excelente madeira para guardar a pedra e mandou
construir uma igreja monumental para guardar o baú.
Queria ver qual o mosaico que alegaria ignorância dos
mandamentos!
Mas Jesus? Jesus, nem na hora que foi diretamente
questionado a respeito dos mandamentos, soube dizê-los completos. Vejamos: um
rapaz das redondezas, desses bem preocupados, chegou para Jesus e perguntou: “Mestre,
o que devo fazer para ir para o céu?” Acho que Jesus não esperava tão bisonha
preocupação, daí sua resposta chinfrim, meia boca. “Ora, deve cumprir os
mandamentos”. Claro que ele se referia aos mandamentos de Moisés, mas, para
dizer a verdade, nem ele sabia de cor aquele palavreado. Aí o rapaz,
pernóstico, quis saber quais. E é aí que critico a distração de Jesus. Em vez
de mandar o cara ir caçar sapo com bodoque ou responder simplesmente “todos”,
passou a relacionar os tais mandamentos necessários.
E o resultado foi que os dez de Moisés viraram seis em
Jesus: “Não matarás, não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso
testemunho, honrarás pai e mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 19,
18).
E, com esse improviso, acho que Jesus levou uma chamada do
Pai, porque esqueceu de relacionar o mandamento mais importante: amar a Deus
sobre todas as coisas. Por outro lado, para nós, ficou mais fácil entrar no
reino dos céus.
Sepulcros caiados
“Serpentes! Raça de víboras! Hipócritas!” Isso era Jesus
para os fariseus. Porque se havia uma raça que Jesus não engolia era a dos
fariseus. Porque fariseu é uma raça que há em todas as raças. Mas veja se ele
não tinha razão. O fariseu queria que o fiel fosse à missa de paletó e gravata.
Cabelo bem aparado, penteado e curto. Bigode podia, desde que bem cuidado, mas
barba de dois dias, jamais. Também não podia ir de chinelo.
A mulher deveria cobrir a cabeça e os ombros com véu e
jamais usar calça comprida. Deveria ir à missa todo domingo, confessar os
pecados periodicamente, não comer carne durante a quaresma inteira, guardar os
dias santos, rezar um pai nosso e três ave-marias todo dia antes de se
levantar, ante de se deitar e antes das refeições, trepar só para procriar e a
mulher não podia gostar da coisa. Chamar os mais velhos de senhor e pedir
bênçãos aos tios e avós. Quanto a amor, amizade, justiça, misericórdia,
tolerância, fidelidade, solidariedade, que é o que realmente importa, nenhuma
palavra. E ainda ficavam na porta, ticando todos os itens numa lista, para ver
se o cidadão ia ou não para o céu! Tinha cabimento!?
“Vocês escondem a podridão da violência e da competição e da
desigualdade e do racismo e do preconceito e do privilégio com essa camada de
vestes de grife muito bem passadas e engomadas, com esse bom-mocismo de
vitrine, com essa limpeza ostensiva, com essa caridade programada, com essa
igreja-máfia que mais se parece com um cartório para garantir primazias. Vocês
são como os túmulos que guardam seus mortos, revestidos de granitos limpos e
brilhantes por fora e podres e fedorentos por dentro. Seus hipócritas, vocês e
seus cupinchas auxiliares, os tecnocratas, os juízes, implacáveis com as
picuinhas dos de fora, dos não incluídos, e indulgentes com seus compadres e
agregados. Seus burocratas menores, que fazem caso de um mosquito e engolem um
camelo!” (Mt 23, 24).
Não me canso de chamar vocês de hipócritas, nunca uma
palavra só foi tão categórica, tão exata, mas gosto mais, segundo meu estilo
metafórico, do “sepulcro caiado” que cunhei na hora do sangue quente. Na
ocasião, eu ia ser popular e usar o “por fora bela viola, por dentro pão
bolorento”, mas, num rompante de felicidade criativa, me caiu do céu esse
“sepulcro caiado”, uma das minhas melhores sacadas.
“Comigo não, seus hipócritas, sepulcros caiados “(Mt 23, 27),
acabou a era da perfumaria, das aparências. Não basta falar e parecer. Tem de
praticar e ser. Abaixo a ditadura da forma! Vida longa à substância e ao
conteúdo! De agora em diante, quem dita as regras para entrar no céu sou eu,
ouvidas as partes, sempre que possível.
Duas parábolas sem graça
Refiro-me às parábolas dos talentos (Mateus 25, 14-30) e das
minas (Lucas 19, 11-27). Trata-se, essencialmente, da mesma parábola, apenas
que, no tempo de Mateus, o dólar lá deles se chamava talento, enquanto no tempo
de Lucas se chamava mina. Só essa divergência já é suficiente para a gente
desconfiar da autenticidade do autor. Grosso modo, trata-se de um homem rico
que sai para uma longa viagem (naquele tempo era impossível administrar e
aplicar a fortuna remotamente, como hoje) e distribui seu dinheiro para seus
empregados administrarem.
Na narrativa de Mateus, o homem rico distribui cinco milhões
de reais a um, dois milhões de reais a outro e um milhão de reais a um
terceiro. Na volta, o que recebera cinco milhões devolve-lhe dez, significando
que fez a grana dobrar de valor, teve um rendimento de 100%. O mesmo aconteceu
com o que recebeu dois milhões: devolveu quatro, rendimento também de 100%. E o
que recebeu um milhão devolveu o mesmo um milhão, rendimento zero. Claro que o
ricaço cagou na cabeça desse último, coitado, demitindo-o sumariamente,
enquanto gratificava e promovia os outros dois.
Na narrativa de Lucas, o homem rico que vai viajar talvez
fosse argentino, ou talvez vivesse no tempo do nosso Cruzeiro, sei lá, digamos
que tinha dez milhões de pesos argentinos. Distribuiu um milhão de pesos para
cada um dos dez empregados.
Na volta, um dos empregados que recebera um milhão de pesos
devolveu-lhe 11 milhões de pesos, fazendo com que o capital investido tivesse
um retorno de 1000(mil)%; um outro devolveu-lhe seis milhões de pesos,
rendimento de 500%. E um terceiro devolveu-lhe o mesmo um milhão de pesos,
rendimento zero.
Pronto! O primeiro foi promovido a diretor-superintendente
do conglomerado; o segundo virou presidente de uma subsidiária; e o terceiro
foi transferido do financeiro para a portaria.
Eu, cá distante no tempo e no espaço, e macaco velho de
certas mutretas, tenho quase certeza de que, no caso da historinha de Mateus,
os dois primeiros eram cupinchas um do outro e se juntaram e aplicaram o
dinheiro no mesmo fundo de capital de risco. Isso foi possível graças à bolada
de sete milhões, resultante da soma do que os dois receberam. Não tivessem
feito isso, não poderiam aplicar nesse rentável fundo, cujo valor mínimo de
aplicação era de seis milhões.
Já o terceiro, coitado, com a merreca de um milhão, teve de
se contentar com a taxa SELIC, num banco de segunda linha, e, ao final,
considerando imposto de renda, IOF e taxa de administração, não sobrou nada
além do investimento original. Ora, já naquele tempo, em todos os tempos,
dinheiro gera dinheiro: quanto mais dinheiro, mais rendimento.
Na historinha de Lucas, houve real competição entre os
empregados, porque estava em jogo o cargo de superintendente, único, impossível
de dividir.
Então o primeiro, que era insider na bolsa, nadou de
braçada; o segundo devia ser parente de algum banqueiro e conseguiu, também, um
bom retorno; e o terceiro, coitado, fez como o terceiro lá de Mateus e mal e
parcamente manteve o valor investido. Quem tem muito ganha mais; quem tem pouco
perde tudo.
De fato, está muito estranha essa cantilena aí de cima de
premiar os primeiros, o lucro, a acumulação. Jesus era sinônimo de
desprendimento. “Muitos dos primeiros serão últimos, e os últimos serão
primeiros” (Mc 10, 31).
O nacionalismo judeu
Como é sabido, os judeus sempre foram muito nacionalistas; daí
por que sonhavam com um rei poderoso, nos moldes de Davi, que reunificasse e
fortalecesse o país. Boa parte deles esperava o tal Messias, que seria
descendente de Davi, com essa terrena finalidade.
Acontece que Jesus, cujos correligionários diziam ser o rei
dos judeus, não queria conversa com burocracia nenhuma, com cargo algum, porque
sabia que era uma tarefa inglória essa de ser político honesto e
bem-intencionado numa terra de hipócritas. Acho que foi por isso que Jesus
adiou o máximo possível o início de sua militância. Mas quando começou, foi
desde o começo para subverter aquela bandalheira toda. Entretanto, o populacho
pensava que Jesus era apenas mais um deles, que queria o poder pelo poder.
Se soubessem que já era o rei, se conhecessem seu poder de
fogo, esse populacho viria em cima e ele não teria mais sossego. Porque o povo
sempre gostou muito de um bom caudilho.
Jesus sabia que essa informação secreta podia vazar de duas
maneiras: pelos apóstolos e pelos demônios. Pelos apóstolos, especialmente da
parte de Pedro, Tiago e João, os mais chegados, ainda mais depois que os quatro
atravessaram juntos a parte mais alta da Mantiqueira. Lá no cume, metade do
caminho, as mochilas, de 18 quilos, pareciam pesar quarenta. Todos mais mortos
do que vivos de tão cansados, exceto Jesus que, além de ter o melhor preparo
físico dos quatro, ainda levava uma mochilinha pequena e leve, que ele não era
besta.
Nem forças para armar a barraca tinham, dormiram ao relento.
Fazia frio, aproveitaram para abrir a garrafa de conhaque que haviam levado.
Pedro, Tiago e João secaram a garrafa, enquanto Jesus só tomava água. O que
aconteceu foi que não demorou para os três pândegos verem Moisés e Elias
baixarem do céu numa asa delta e baterem o maior papo com Jesus, que se
transfigurara numa roupa alvíssima e resplandecente, em forma de batina.
Inclusive, juram até hoje que ouviram uma voz do Além, bem grave, dizendo: “Este
é o meu filho amado; ouvi-o” (Mc 9, 7). Por ser uma voz bem grossa, só podia ser
de Deus.
O pileque foi violento de tal forma a proporcionar uma visão
e um som tão nítidos, que nem Jesus conseguiu convencê-los, no outro dia,
quando já estavam sóbrios, de que aquilo tinha sido efeito da droga e do
cansaço. Vendo que não tinha jeito, Jesus então explicou-lhes: “Claro que sou o
filho de Deus, mas não contem para ninguém. Esses deserdados da terra só podem
saber depois que eu morrer e ressuscitar. Então, bico calado”. Mas, sabe como
é, os três, além de analfabetos, eram pescadores, que costumam falar e mentir
muito; Jesus sabia disso e temia.
Outra possibilidade de vazamento era pelos demônios que
Jesus vivia enfrentando. Lembram de que o demônio Legião reconheceu Jesus assim
que o viu? De que pediu que fosse incorporado nos porcos? E o pior é que esses
endemoninhados eram muito escandalosos e sempre havia algum parente perto, de
olhos e ouvidos bem abertos, cuidando. É por isso que a primeira coisa que
Jesus fazia quando se deparava com o demônio incorporado num humano era
mandá-lo ficar quieto, calar a boca. Claro que o poder de Jesus nesse
particular era absoluto, semelhante àquele do diretor de som dos estúdios, de desligar
o microfone do falante que atravessa a fala.
O Satã doido para cumprimentar o compatriota, porque no
estrangeiro até os adversários se comprazem no mútuo reconhecimento, e a
garganta entalada, sem possibilidade de um simples olá.
De vez em quando, numa roda informal, alguém chegado que
conhecia o segredo interpelava Jesus: “E aí, cara, quando é que você vai botar
pra quebrar? Eu tô nessa, conta comigo!” Jesus desconversava, porque o maior
problema do eleito que vai assumir o poder em breve é se livrar dos puxa-sacos:
“Que nada, cara, meu reino não é deste mundo…”
O rico no céu
Sobre a dificuldade de o rico entrar no céu, o que Jesus
quis dizer — com as minhas palavras, é claro — foi que o único jeito de o rico
subir ao céu seria entrando dentro da viola do urubu. Creio que essa minha
figura é melhor do que aquela do camelo passar no buraco de uma agulha.
Mas olha o perigo. Quem sobe ou entra no céu não é o corpo,
é a alma. E alma, além de não ter cor, não tem peso! Nem forma. Diria que a
alma é um vaporzinho assim, infinitamente mais leve do que o ar; logo, ela pode
se transformar num filete de nuvem e passar pela agulha, até a do rico. E pode
subir ao céu sozinha, é só se soltar, eis que é mais leve do que o ar.
Mas a alma pode ser uma ideia. Nesse caso, o rico volta a
levar desvantagem. Porque, considerando que, para que haja um rico, são
necessários 900 pobres, todo rico é culpado pela miséria do mundo. E, não
adianta, lá no céu não entra gente culpada.
E, sim, Jesus perdoa os culpados, desde que eles peçam
perdão. E o único jeito de um rico pedir perdão é doando toda a sua riqueza.
Então, pegando o gancho de Jesus, adiciono: é mais fácil um camelo passar pelo
fundo da agulha do que um rico abrir mão da sua riqueza.
Então, ficamos assim: o rico usufrui do paraíso aqui na
Terra e o pobre lá no Céu. Eu, particularmente, acho que tem dedo de rico nessa
formulação, baseado na máxima de que mais vale um pássaro na Terra do que dois
no Céu.
Mas Jesus efetivamente disse ao rico, que garantira que cumpria
todos os mandamentos necessários: “Uma só coisa te falta: vai, vende o que
tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu” (Mc 10, 21). Atentar para o
detalhe: dá aos pobres, não a Deus(igrejas).
Para Jesus, os humildes tinham preferência. Como os ricos
são ousados, vaidosos, arrogantes, autoritários, Jesus passa reto. Passa reto,
mas deixa o recado: “Lá no Céu a gente conversa”. Na porta do Céu, quero dizer,
do lado de fora. Porque, “com efeito, aquele que no vosso meio for o menor,
esse será grande” (Lc 9, 48).
Entretanto, informam os editores da minha Bíblia, riqueza e
prosperidade eram tidos, nos livros sapienciais, como sinais da bênção divina.
Jó, depois de passar por todas aquelas atribulações, ficar doente, perder a
fortuna, teve sua sorte restaurada por Iahweh: “Então Iahweh mudou a sorte de
Jó, e duplicou todas as suas posses” (Jó 42, 10). O Salmo 16: “diz Iahweh, és
tu que garante a minha porção”.
Em Provérbios 3, 1: ”Meu filho, não esqueças minha
instrução, porque te trarão longos dias e anos, vida e prosperidade”.
Eclesiastes 7, 11: “A sabedoria é boa como uma herança”. E não nos esqueçamos
de que Iahweh simplesmente tomou Canaã dos povos que lá moravam e entregou-a
aos judeus, através da mais descarada guerra de extermínio, para ocupação
territorial.
Pelo que vi até agora, o Pai era partidário dos ricos e
poderosos, admirava as pessoas bem-sucedidas aqui na Terra e, se preciso, fazia
até guerra para conquistar um pedaço de terra. Já o Filho gostava dos pobres e
humildes, compreendia os fracassados e não gostava de violência. Se alguém lhe
chutava a canela, ele só ficava olhando, com aquele olhar de tristeza. Preferia
morrer a fazer uma guerra. Mas mandava Simão Pedro anotar todos os desaforos
num caderninho, para cobrar lá na porta do Céu.
Tiago e João
Já disse que, dos doze apóstolos, havia três mais chegados a
Jesus: Pedro, Tiago e João, tanto que fizeram juntos aquela travessia da
Mantiqueira, lembram? Tomaram aquela bebedeira, lembram?
Bom, desses três, Jesus escolheu Pedro para chefiar sua
igreja. Mas isso foi posteriormente. Na ocasião em que se sucedeu o que vou
narrar, o cargo estava em disputa. E, para essa disputa, os filhos de Zebedeu
fizeram uma dobradinha.
Sim, Tiago e João eram irmãos, filhos de Zebedeu. Agora,
fico pensando: se eles tivessem vencido, hoje teríamos dois papas?
Porque, de fato, os dois, na maior cara dura, chegaram para
Jesus e disseram: “Mestre, concede-nos, na tua glória, sentarmo-nos, um à tua
direita, outro à tua esquerda” (Mc 10, 37). Tiago e João ao menos têm
atenuante: fizeram o pedido às claras, durante uma reunião em que os demais
participavam.
É claro que os demais ficaram putos com a desfaçatez dos
dois, exceto Pedro, creio, que já devia ter sido sondado por Jesus e ficou na
dele.
Jesus, entretanto, considerou o pedido dos dois irmãos mais
como uma ingenuidade decorrente do desconhecimento e da pouca experiência de
ambos do que por ambição propriamente. E encerrou o assunto rapidamente,
dizendo que essa atribuição não lhe cabia.
Houve um leve espanto da parte de todos com essa revelação
de limite de poder da parte de deus, e acho que foi aí que Jesus teve de
começar a explicar o difícil arranjo da Santíssima Trindade. Ele explicou e até
hoje não sei se convenceu.
E talvez, para soterrar o assunto, emendou por cima que os
chefes devem servir. “Aquele que, dentre vós, quiser ser grande, seja o vosso
servidor, e aquele que quiser ser o primeiro, dentre vós, seja o servo de todos
(piscando para Pedro).
E finalizou com aquela máxima posteriormente popularizada
pelos populistas: “pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10, 41-45).
Bem, o indício de que restou um pontinho de dúvida nessa argumentação
divina foi a posterior traição de um dos então presentes.
Vigiai e Orai
Começo com uma introdução burocrática, para vocês terem a
dimensão do quanto é necessário vigiar e orar, desde o dia em que nossos pais
nos entregam a chave da porta até o dia que ela nos é tirada por uma filha, uma
neta ou uma cuidadora.
No Getsêmani, que Lucas chama de Monte das Oliveiras e João
apenas de Jardim e mais nada, esteve Jesus junto com Pedro, Tiago e João (os
três da travessia da Mantiqueira, lembram?), que Lucas não individualiza, mas
diz apenas “discípulos” e João, como dito, não diz nada.
Subiu lá para orar junto ao Pai, porque estava muito
angustiado. Estava com medo, para falar o português claro. “Pai, se queres,
afasta de mim este cálice!” Gil e Chico preferiram Marcos e Lucas: afasta de
mim este cálice, porque a sonoridade de Mateus era mais pobre: que passe de mim
este cálice.
Lá em cima, pediu aos três companheiros que vigiassem,
enquanto ele se afastava, para conversar com o Pai, ou seja, orar. Na volta,
encontrou os vigilantes dormindo: “Belos vigilantes eu tenho”, caçoou ele dos
três dorminhocos. “Se minha segurança dependesse de vocês, eu tava lascado”.
Mas isso é uma injustiça que cometemos contra Pedro, Tiago e João.
Em verdade, eles foram vítimas de uma combinação entre Pai e
Filho, que armaram a cena apenas para que Jesus pronunciasse um de seus mais
criativos bordões: “Vigiai e orai!” Marcos e Mateus, mais rápidos na anotação,
transcreveram direitinho, com a musicalidade e a concisão exatas, tal qual o
publicitário criou: Vigiai e orai!
Mas Lucas passou do ponto: Levantai-vos e orai.
Agora, estava pensando: Jesus e os três chegaram a um
determinado ponto. Jesus lhes disse: “Vigiai, enquanto vou ali orar”. Quer
dizer então, para minha decepção, que uns vigiam, enquanto outros oram? Porque
sempre achei genial essa dialética jesuíta de fazer o crente assobiar e chupar
cana ao mesmo tempo.
Ainda bem que durante a conversa entre Pai e Filho, acho que
o Pai, mais experiente, alertou Jesus: “Escuta, você armou a cena de maneira
contraditória ao planejado. Não era para você, daqui a pouco, dizer,
solenemente: vigiai e orai?” Era. “Então como é que só eles vigiam e só você
ora?”
Graças a essa sagacidade do Pai, a cena não azedou. Mas acredito
que, se não fosse isso, Jesus ia, mais uma vez, repetir aquela história de dar
o outro lado da face, de que seu reino não era deste mundo, de que só Jesus
(aquele que ora) salva. Você pode conferir em Mt 26,41, Mc 14,38 e Lc 22,46.
Ah, antes que me esqueça. Essa beligerância toda enquanto
reza é tudo por causa da carne. Se você bestar, a carne desanda, desatenta.
A magdalena
Era magdalena porque vinha da cidade de Magdala, essa Maria
de quem vamos falar. Essa magdalena era discípula de Jesus, exatamente como
Simão e André (irmãos), Tiago e João (irmãos), Filipe, Bartolomeu, Tomé,
Mateus, Tiago (filho de Alfeu), Tadeu, Simão (o Zelota) e Judas Iscariotes, que
depois da cagada que fez foi substituído por Matias.
Mas, como naquele tempo os homens não contavam as mulheres…
Maria, de Magdala, ou Maria, a magdalena, é uma personagem
muito famosa na Bíblia, não tanto pela qualidade e intensidade da sua atuação
explícita, mas pelo fato de ser, praticamente, a única mulher independente a se
relacionar com Jesus. Alguns dizem que ela era prostituta, antes de conhecer
Jesus. E outros vão mais longe, considerando-a mulher de Jesus. Sua fama,
portanto, decorre mais do que ela teria sido, das deduções que se fazem com
base no que realmente está registrado.
A magdalena era prostituta? Eu acho que sim. Onde já se viu
uma mulher sem pai, sem mãe, sem marido, sem filhos, ficar saindo pela rua com
um bando de homens, incluindo ao menos um solteiro? Só podia ser puta… no
mínimo era uma assanhada. E mais, uma puta ativa, possessa, que tinha o diabo
no corpo!
Não, não era uma simples puta endiabrada não. Era sete vezes
endiabrada, derrubava qualquer cristão. Mas aí, num encontro fortuito,
encontrou aquele rebelde galileu — que não era qualquer Cristão —, que a deixou
mansinha: expulsou os sete demônios do corpo dela (Mc 16, 9).
Foi porque, como sabemos, nessas situações, um é pouco, dois
é bom e três é demais; imagina nove (ela, ele e os sete demônios). Vocês devem
se lembrar de que os demônios incorporados nos corpos dos humanos não só
reconheciam Jesus como conversavam com ele. Impossível, portanto, qualquer
diversão sem antes repatriar os sete para o Inferno.
Mas aí, sem o diabo no corpo, ela virou apóstola… Eu acho
que foi aí que Jesus começou a entender de dialética.
A magdalena era mulher de Jesus? Acho que sim. Claro,
casamento informal e aberto. Atuavam no mesmo partido, no mesmo diretório, ela
gostava dele, ele gostava dela… Senão vejamos:
Primeiro, tiveram o teretetê acima descrito.
Segundo, era a única mulher “solteira” dentre as três
citadas — Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e José (mãe de Jesus, também) e
Salomé, mãe dos apóstolos Tiago e João — que acompanhavam de longe o calvário
de Jesus na cruz (Mt 27, 56).
Terceiro, ela que foi cuidar do túmulo no primeiro dia da
semana após o sepultamento. Ora, quem, senão o cônjuge, vai cuidar dessas
questões práticas quando morre seu parceiro, ainda mais em pleno domingo de
páscoa?
Bom, o resto é conhecido. Jesus, já ressuscitado, apareceu
para ela. Ela foi contar aos demais
apóstolos e aí foi aquela zoeira, que não parou até hoje.
Confusão entre fé e disciplina
Ou fé e hierarquia. É porque pintou um militar na história,
que naquele tempo se chamava centurião. Porque desde aquele tempo é comum entre
os militares a confusão entre fé e disciplina. Não só entre os militares, mas,
igualmente, entre os sucessores de Jesus. De fato, é difícil saber em qual dos Estados-Maiores
a hierarquia é mais rígida: o eclesiástico ou o militar. Não para Jesus, que
abominava a hierarquia.
O fato é que esse centurião era o chefe militar da pequena
cidade onde Jesus estava. Ele tinha um empregado de quem gostava, que estava
muito doente. Mandou então uns velhos conhecidos pedirem a Jesus que salvasse
seu empregado.
Os velhos, também conhecidos de Jesus: “Vai lá, jovem, esse
centurião é militar, mas é gente boa”. Esse “jovem” aí é porque era a
cidadezinha onde Jesus havia crescido, os velhos o conheciam desde criancinha.
“Então, como estávamos dizendo, ele ajudou a gente a construir a sinagoga,
ajude-o, ele merece” (Lc 7, 4-5). Aí Jesus: “Tá bom, vamos lá ver o que posso
fazer”. (Se for qualquer demônio, minha simples presença resolve…).
Quando o militar soube que Jesus se dirigia à sua casa,
ficou alarmado. Aquela raposa subversiva vai entrar aqui em casa, vai que
descobre certas coisas… Aí mandou um jipe com um cabo e dois soldados ao
encontro da comitiva: “Oi, mestre, meu chefe mandou dizer que não é digno de
que o senhor entre na casa dele, inclusive ele não se achou digno de ir ao seu
encontro, só mandou o recado. E ele estava pensando, aliás, que, como ele
resolve seus problemas à distância, bastando para isso que dê a ordem no devido
elo da cadeia de comando, que o sistema do senhor fosse igual e, nesse caso,
bastava o senhor ordenar a cura, mesmo de longe”, arengou o cabo.
Aí Jesus se interessou: “Como é que isso funciona com ele?”
Aí o cabo explicou: “O general comanda o coronel, que comanda o major, que
comanda o capitão, que comanda o tenente que comanda o sargento, que comanda o
cabo, que comanda o recruta, que vai lá e faz”.
Jesus ficou admirado: “Mas isso funciona? Ninguém dessa
cadeia questiona ou modifica a ordem?” Aí o cabo: “ô se modifica! Se o senhor
soubesse cada jacarana que sai… Mas o lá de cima sempre assume a obra realizada
porque, para ele, o comando é mais importante do que a obra”.
Jesus: “E essa obediência, não tem ninguém nessa cadeia que
desobedece?” O cabo: “Cê tá doido! Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
Jesus: “E as pessoas vivem bem, são felizes, vivendo debaixo desse bombardeio
de ordens?” O cabo: “Ah, a gente se acostuma, se conforma; simplesmente
acatamos o que vem de cima. Ao fim, o que conta é o dindim ao final do mês”.
Acho que foi por causa desse “acatamos o que vem de cima”
que Jesus confundiu disciplina com fé. E pensou: “Acho que vou recomendar a
Pedro, quando ele estiver no Vaticano, que implante um sistema parecido. Mas
bem depois da minha morte, que eu não vivo num empurra-empurra desse nem que a
vaca tussa”.
E, para encerrar o assunto e mostrar ao general romano que
ele também comandava de longe, mandou Daniel, ou Miguel, ou Gabriel sobrevoar a
cama do enfermo e curá-lo. Só que para Jesus era diferente e fácil; ele tinha
real controle, era como comandar um drone. O general romano gostou de ter o
ajudante curado, mas ficou com a pulga atrás da orelha com o poder de comando
daquele civil.
O defunto de Naim
“Os homens desta geração são como crianças sentadas numa
praça, a se desafiarem mutuamente”. Isso foi Jesus, esconjurando sua geração
(qualquer semelhança com a nossa não é mera coincidência). Se Deus-Pai manda
João Batista, vocês falam que é safado. Se Deus-Pai manda seu próprio filho,
vocês falam que é safado. Cêis querem o quê? Milagres? Tá bom, então esperem
pra ver.
Aí Jesus pensou, “vou arrebentar a boca do balão com esse
povinho, só pra ver a reação”. E planejou: “o primeiro enterro que passar em
minha frente, paro o cortejo, mando depositarem o caixão no chão e faço o
defunto levantar e sair andando. Aí quero ver quem vai duvidar de mim”.
O primeiro enterro depois disso foi na entrada de Naim, na
estrada que dá para o cemitério. Naquele tempo os cemitérios ficavam fora das
cidades, o povo tinha muito medo de defuntos. Jesus ia chegando e o féretro ia
saindo, em direção ao cemitério. Jesus mandou parar tudo.
Quando soube que se tratava do filho único de uma viúva,
exultou: “Putz, perfeito! Mato três lebres com uma só paulada”. Porque naquele
tempo era quase uma obrigação religiosa ajudar as viúvas e os órfãos. Fazendo o
defunto ressuscitar, ajudava o órfão, que era o próprio defunto, ajudava a
viúva, que era a mãe do defunto, e demonstrava seu poder aos descrentes.
Mandou abrir o caixão e, da mesma forma, mandou o jovem
defunto se levantar. Levantar-se e falar, que era para não haver nenhuma
dúvida. Claro que todo mundo que estava acompanhando o corpo acreditou que
Jesus era realmente um profeta dos bons, daqueles com ligação direta e sem
ruídos com deus.
Eu, se estivesse ali em carne e osso, também acreditaria.
Mas de ouvir falar, de saber pelo amigo, que ouviu do vizinho, que ficou
sabendo pela irmã, que soube pela cunhada, que ouviu duma colega de trabalho
que leu no evangelho? Assim, fica difícil. Até João Batista pediu confirmação,
ao saber do boato.
João Batista enviou uns emissários a Jesus, perguntando-lhe
se, de fato, era ele o filho de deus (Lc 7, 19). Porque uma coisa é curar
doentes e outra é ressuscitar um morto.
Curar doente é fácil, ainda mais naquele tempo, em que
praticamente todas as doenças eram causadas por demônio no corpo. Nem precisava
ser Jesus, bastava ser alguém mais firme, com um olhar mais penetrante, que
desse um chacoalhão adequado no enfermo, que o Mintiroso saía dele, ia baixar
em outra freguesia, porque o Satanás é esperto e Covarde. “Pra que criar
confusão, se tem tanto corpo dando sopa por aí?”
Mas não vá pensar que Jesus era como esses apresentadores e
pastores de TV de hoje em dia. Essa de fazer o morto se levantar foi uma
exceção, para impressionar os patrocinadores, num momento crítico da
negociação.
Em geral, Jesus era discreto. No máximo, ele pedia para o
povo não espalhar a notícia de eventual cura. Claro que aí era que o povo
espalhava… Afinal, expulsar demônios, para Jesus, era algo tão corriqueiro
quanto dar esmolas. E vocês sabem o quanto Jesus odiava essas pessoas que
alardeiam a própria caridade.
Aliás, Jesus vivia sendo cobrado a esse respeito pelos
escribas e fariseus: “Mestre, queremos ver um sinal” (Mt 12, 38). Ou seja, se
você tem parte direta com deus, faça um milagre em nossa frente, aqui e agora.
Mas milagre de verdade, não aquela enrolação de tirar capeta do corpo de gente
encapetada. Aí Jesus: “Oh povo sem fé, cêis tão pensando que isso aqui é
ciência, é? Isso aqui é religião! A graça da coisa é essa: o mistério, o
imponderável, o utópico”. E tem mais: “Eu até faço alguns prodígios de vez em
quando, mas nunca na frente de vocês, seus descrentes!” Mas, dúvidas à parte, o
bordão “levanta até defunto” começou com Naim.
A lâmpada do corpo
A lâmpada do corpo é o teu olho. Se teu olho estiver são,
todo o teu corpo ficará também iluminado; mas se ele for mau, teu corpo também
ficará escuro (Lc 11, 34).
Entretanto, vê bem se esse teu olho estralado não é de ódio,
ressalva Jesus: “Por isso, vê bem se a luz que há em ti não é treva” (Lc 11,
35). Vê bem se esse teu olhar brilhante não é de inveja, em que o olho fica tão
evidente que apelidaram esse tipo de luz de olho gordo.
Interessante, aqui a gente fica sabendo que treva é um tipo
de luz. Aquela luz mortiça dos puteiros seria treva? O escurinho do cinema?
Enfim, a luz pode estar acesa ou apagada, ser quente ou fria, ser colorida e aí
se abre um leque de possibilidades… Luz vermelha, luz azul, luz verde, luz
amarela, luz negra.
Analisemos o olho do cidadão na via pública. Em nossa
análise, olho é sinônimo de luz. Olho de deboche, olho de reprovação, olho de
superioridade, olho de arrogância, olho de isolamento, olho de não me toques,
não se aproxime, mantenha a distância, não sou da tua laia, ponha-se no teu
lugar. Olho de pobre, mas limpinho…
Ora, aí o cidadão recebe um petardo de volta, sob a forma de
violência urbana (assalto, roubo, estupro, agressões diversas), e reclama, sem
levar em conta a luz repulsiva que havia em seu olhar. Porque essa luz
preconceituosa do olhar tem a capacidade de ferir tanto quanto o ferro do
assaltante.
Há o chavão que diz que os olhos são o espelho da alma. Eu
diria que é a tela, com uma câmera acoplada. Através do olhar, o cidadão vê e é
visto. E é sempre arriscado. Desde o momento que o cidadão abre o olho, está
exposto.
Acho que, por isso, Jesus disse que quem não abre (ou desvia
ou esconde) os olhos é covarde ou, no mínimo, insensato: ninguém acende uma
lâmpada para colocá-la em lugar escondido (Lc 11, 33). Sabe aquele olhar
oblíquo e dissimulado? Sabe essa gente que olha atravessado, de rabo de olho,
de esguelha, de soslaio? Jesus não gostava nem um pouco dela.
Pedro e pedra
Aos Pedros do mundo lhes digo: Pedro é igual a pedra, em
grego e aramaico. No começo de sua atuação, quando Jesus foi apresentado a
Simão, enquanto recrutava os primeiros apóstolos, disse: “Tu és Simão, filho de
João; chamar-te-ás Cefas” (que quer dizer Pedra), João, capítulo 1, versículo
42.
Sei lá, acho que Jesus estava pensando na construção dos
palácios do Vaticano, na quantidade de pedra que seria preciso, aí vieram com
aquela conversa de que Pedro seria a Pedra sobre a qual edificaria a sua
igreja. Pedra, base, alicerce, fundação.
Interessante é que foi André, irmão de Simão, que descobriu
Jesus, avisado por João Batista. Então foi procurá-lo. Conversa vai, conversa
vem, André falou que tinha um irmão que era porreta e isso e aquilo. Aí Jesus: “Bom,
então traga esse teu irmão aqui, que quero conhecê-lo”.
No outro dia, foi lá Simão. Quando os dois, Simão e Jesus,
se encontraram, foi amor à primeira vista. Simão ficou embasbacado com a
presença do galileu: “É esse mesmo que vou seguir, com esse carisma a gente
nunca mais vai perder eleição, sigo-o até debaixo d'água”.
Não, não foi nessa passagem que Jesus debochou da exagerada
fidelidade de Pedro, isso foi lá no fim, após uns três anos de forte amizade e
militância conjunta, quando disse a Pedro para deixar de exagero, que antes que
o galo cantasse, lhe negaria três vezes.
Já Jesus, quando bateu o olho no irmão de André, pensou: “É exatamente
esse que eu procurava para alicerçar a minha igreja: duro e imutável como uma
pedra”. E não teve dúvidas, já via a devoção nos olhos do subalterno: “Tudo
bem, sei que você se chama Simão, André me falou, mas vou te chamar de Pedro”.
Aí Simão: “Mas esse nome nem consta na relação dos rabinos, será que vai dar
certo?” Aí Jesus: “Oxe, se vai dar certo!” E Pedro ficou petrificado ante
tamanho peso.
E está aí um dos primeiros motivos por que a Igreja só
atualiza suas posições depois que até as pedras as consideram anacrônicas.
Dialética & Metafísica
Cerca de cinquenta anos antes do nascimento de Jesus, uns
crentes começaram a atravessar a sinagoga. Por exemplo, João Batista começou a
batizar diretamente no rio Jordão, sem necessidade alguma da família doar um
boi, ou uma pomba, em sacrifício, nem fazer roupa nova, bastava um calção. O
povo começou a abrir lojinhas de reza. Ficavam na calçada, com megafone,
chamando os consumidores.
Os escribas e fariseus ficaram apavorados: “Daqui a pouco
vamos comer só arroz e feijão”. Quando os guardas do Templo baixavam nas
lojinhas de reza, para reprimir a ilegalidade, os rezadores que aí estavam,
açulados pelo dono e seus seguranças, gritavam em coro contra eles: “Cristo vem
aí! A vinda de Cristo está próxima, arrependei-vos!”
Esse contra-ataque mortificava os fariseus. Era o
correspondente, na época, ao nosso contemporâneo “trabalhador unido jamais será
vencido”. Daí que a vinda de Cristo, ou do Messias, ou do Rei dos Judeus, era o
terror dos fariseus.
Era por isso que podia aparecer qualquer profeta, ainda que
de qualidade, com efetiva ligação com Deus, que os fariseus tachavam de falso. Até
Jesus, que levantava defunto, tacharam de falso, para vocês terem uma ideia do
reacionarismo do sistema jurídico-legislativo-eclesiástico da época. Quando não
conseguiam comprar ou desmoralizar o profeta, matavam. Foi assim com João
Batista e com Jesus; sem contar aqueles cujas execuções não saíram no jornal,
porque o sistema conseguiu abafar.
Em todos os embates entre Jesus e os fariseus, a pauta não
fugia disso: “Você é o filho de deus? Você é o Messias? Você é o chefe do reino
de deus?” Jesus tergiversava, “vocês é que estão dizendo”… e tome ataque: “você
é um impostor, um falso, um charlatão”… e a polêmica misturada com mistério e
disputa dava muita audiência e visualizações e curtidas a ambas as partes.
A TV descobriu o filão da audiência e programou várias
entrevistas, dessas em que fazem de conta que são isentos e plurais e chamam um
representante de cada partido. Era Jesus de um lado e mais de um fariseu do
outro. Mas o ramerrão estava ficando chato, os homens da lei atacando e Jesus
saindo pela tangente. Porque, afinal, Jesus não podia negar, Deus estava vendo.
Também não podia confirmar, que ia direto ao apedrejamento. É, os judeus
gostavam de matar na pedrada, quem matava na cruz eram os romanos.
Pode ter sido nesses embates televisivos que Jesus
desenvolveu o método dialético. Questionado sobre a data em que baixaria o
Reino de Deus, Jesus, inicialmente, perdeu as estribeiras: “Mas como é possível
vocês serem tão burros assim, hein!? Tão rasos, tão primários!? Isso aqui não é
física, isso aqui é metafísica! Querem saber: a vinda do Reino de Deus não é
observável (Lc 17, 20). Há muito mais coisas entre o Céu e a Terra do que supõe
vossa vã Legislação. De repente, o Reino de Deus pode já estar no meio de vós”
(Lc 17, 21). Claro que, engambelados pelas palavras dialética e metafísica, os
escribas nem desconfiaram de que Jesus estava sendo literal.
Casamento, pão e vinho
Não fossem as habilidades de Jesus, e o dono do casamento
teria passado vergonha. Isso porque, no melhor da festa, acabou o vinho. E
naquele tempo não era como hoje, em que a gente pode pedir uma entrega rápida em
domicílio. Aliás, naquele tempo pouca gente vendia ou comprava vinho. Quase
todo vinho que se tomava era de fabricação própria. E ainda não haviam
inventado a cerveja, para distrair e empanzinar os convidados a baixo custo.
Mas acontece que a Virgem Maria estava nesse casamento,
assim como toda a família de Jesus e ele próprio, e era amiga da mãe da noiva,
acho, tanto que foi uma das primeiras a saber do fim da bebida, antes que o
vexame se espalhasse. Porque acabar o pão ainda passa, mas acabar o vinho é o
fim da picada. De qualquer maneira, Jesus era especialista em multiplicar tanto
este quanto aquele.
Em sendo pão, o verbo é multiplicar, que tem a ver com
fermento, ingrediente vital para sua fabricação. Em sendo vinho, o verbo é
transformar ou mudar, por causa daquele ditado popular que diz, quando algo
muda drasticamente, que mudou da água para o vinho.
A Virgem Maria, discretamente, só deu um esbarrão no filho e
não disse mais do que “eles não têm mais vinho”. Jesus, que era excelente
entendedor, só retrucou: “Oh, minha nos’sinhora do rosário! Esse povo num mi dá
sossego! Ninguém me conhece ainda e estou bem assim, no anonimato”.
É que Jesus ainda não havia demonstrado suas habilidades
para ninguém, só a Nossa Senhora que sabia até então. Aliás, nem Nossa Senhora
tinha certeza, só desconfiava, daí por que provocou Jesus, vendo-o alegre, com
o último copo de vinho na mão. Mas, diante da resposta brejeira do filho, que
conhecia desde criancinha, já foi logo dizendo aos serventes: “fazei tudo o que
ele vos disser” (João 2,4).
Jesus pediu aos serventes que enchessem um barril vazio que
estava próximo, com água, mas estava tão impaciente que acelerou até esse
enchimento, aumentando artificialmente (milagrosamente) a disposição dos
pachorrentos serviçais. Nunca um barril foi enchido tão rápido. Aí Jesus mandou
novamente, dispensando qualquer encenação: “pronto, pode levá-lo pra cantina”.
Tudo aconteceu muito discretamente, o mestre dos vinhos, o
que servia, simplesmente passou de um barril vazio para o cheio, que acabara de
chegar, e, não fora sua mania de avaliar antes todo vinho que servia, a
maracutaia teria passado em branco. Porque, quando provou, levou um susto. Era
um vinho dos deuses!
Então, chamou o noivo: “Meus parabéns, rapaz! Você realmente
não é um trapaceiro, como todo mundo, que serve primeiro o vinho bom, e deixa o
sangue de boi por último, quando todos os paladares já estão embotados. Você
deixou o bom para o final”. E o ingênuo e inocente noivo, em vez de ficar
quieto, disse, bem alto, que não somente oferecera pouco vinho, como de um só
tipo. Aí o mestre dos vinhos foi investigar e descobriu a trapaça toda e, no
final das contas, creio que Jesus teve de sair correndo, diante dos conhecidos
que acorreram, pedindo que também seus estoques fossem renovados.
Uma sacanagem do evangelista
Bem, como é de amplo e antigo conhecimento, Deus deu a Terra
a Jesus. Explico: Deus já vinha se estressando com seu povo havia muito. Logo
de cara, com Adão e Eva. Depois, com os filhos de Caim, de cuja raça Deus
deixou só Noé. Com os herdeiros de Moisés, Deus teve desgostos seguidos, tanto
que destruiu Jerusalém várias vezes, exilou-os várias vezes, e quanto mais
castigava, mais insolentes ficavam, até forjarem uma classe dirigente da
qualidade dos escribas e fariseus do tempo de Jesus.
Diante dessa tragédia reiterada, Deus desistiu deste planeta
e entregou-o a seu Filho: “Filho, você toma conta da Terra. Faça o que você
quiser com ela e com seus ocupantes. Passo-lhe uma procuração com plenos
poderes, por toda a eternidade, sem cláusula de revogação. Não quero mais ouvir
falar daquele povinho, ele é todo seu. Pode, inclusive, mudar completamente o
modo como tratei seus ocupantes até hoje, em lugar do olho por olho dente por
dente, pode propor paz e amor, pode até mudar o dia de descanso de sábado para
domingo, não vou ficar ofendido. Escolha o modo como você quer tomar posse
daquilo”.
Aí Jesus falou: “Tudo bem, ando meio ocioso mesmo, pode
deixar que dou um jeito naquele povinho. Mas quero começar do começo. Quero
nascer e crescer lá, para, quando chegar a hora, falar com propriedade”. Aí
Deus: “Tá bem, é você que tá pedindo. Só te dou um aviso: cuidado com aquele
meu povo!”
Era por isso que Jesus não podia ver um escriba, ou um
fariseu que logo falava (ou pensava): “Hipócritas! Raça de víboras!” Aliás, não
só Jesus, como João Batista. Claro, quando Deus mandava um profeta, o primeiro
aviso que dava era esse: “Cuidado com aquele meu povo, quer dizer, com seus
representantes”. Em conversa com aquela raça, mais uma vez Jesus avisou-os: “Quem
não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (Jo 5, 23).
E, então, diante da insistente dúvida burocrática do fim do
mundo, do final dos tempos, da vinda do Messias, da hora do vamovê do Juízo
Final, os escribas viviam questionando Jesus, e este lhes disse: “Querem saber?
Quem me escuta e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a
julgamento. Não se preocupem com esse tal Juízo Final: a hora é agora, em que
os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que o ouvirem viverão” (Jo 5,
24-25).
Como Jesus vivia complicando a linguagem, com suas firulas
linguísticas, os escribas não entenderam que Jesus estava sendo literal. O
julgamento acontecia naquele instante. Para ser julgado, basta estar vivo.
Tudo bem: vai vendo. Informados de que o Juízo Final é uma
figura complexa de algo que pesa sobre todo vivente pela sua condição
intrínseca de ter nascido, e que o cidadão nasce e vive dentro de um tribunal,
os escribas não se conformaram e reafirmaram, logo depois da fala de Jesus, a
velha cantilena de Daniel (Dn 12, 2): “Vem a hora em que todos os que repousam
nos sepulcros ouvirão sua voz e sairão” (Jo 5, 27-29).
Oh, meu pai do céu, pois o próprio chefe da comitiva não havia
acabado de afirmar que a hora é agora!? Só mudara o jargão: antes Deus descia
com seus exércitos, agora Jesus descia com sua comitiva. Pois é, companheiras e
companheiros, escriba e fariseu são osso duro de roer.
Atos dos apóstolos
Atos dos Apóstolos (At)
Final de semana
Só agora me dou conta de uma coisa: é sábado de sétimo;
sábado é o sétimo dia da semana; logo, o último. Claro, o dia em que o Criador
descansou. Trabalhou de segunda a sexta e descansou no sábado, após o trabalho
realizado. Aí que está o detalhe. Não foi de segunda a sexta, mas de domingo a
sexta. Sim, domingo é o primeiro dia da semana, portanto, antes do arranjo
posterior, de que vou falar, domingo era dia de trampo, trabalhava-se de
domingo a sexta.
Aí, não sei se por bronca dos judeus, que consideraram
Barrabás melhor do que ele, ou se de birra dos escribas, que viviam censurando
os milagres que realizava no sábado, ou se por ter ressuscitado nesse dia, o
fato é que Jesus determinou que a gente trabalhasse de segunda a sábado e
descansasse no domingo.
Mas acontece que esse negócio de guardar o sábado era um
costume tão forte que grande parte do povo continuou trabalhando só até sexta,
apesar de começar na segunda, conforme Jesus determinara. Aí, considerando que
Jesus já estava no céu e não fazia mais milagres em nenhum dia da semana, Pedro
e Paulo, procuradores de Jesus aqui na Terra, acharam melhor deixar por isso
mesmo e aceitaram a semana judaico-cristã, que poderia ser chamada também de
semana inglesa.
Entretanto, essa pendenga durou quase dois milênios. Durante
todo esse tempo, permaneceu essa estranha divergência entre cristãos e judeus:
estes, seguindo a lógica, descansavam após trabalhar; aqueles,
incompreensivelmente, descansavam antes de trabalhar.
Só podia ser desfeita, birra contra fariseu. Mas vejam que o
farisaísmo dos escribas acabou prevalecendo: o sábado junto com o domingo passaram
a ser chamados de fim de semana. Agora, sinceramente, desconfio que esse
arranjo bom para ambas as partes foi coisa de uma terceira parte, neutra.
Desconfio dos chineses.
Antibabilônia
O ícone Torre de Babel lembra confusão de línguas, certo? E
o Pentecostes é uma espécie de antibabel. A coisa aconteceu mais ou menos
assim:
Na Torre de Babel, Deus, puto da vida com a ousadia e a
arrogância dos homens, que queriam se igualar a Ele, fez baixar do céu uma
ventania, que não derrubou a torre, como os engenheiros estavam esperando, mas
confundiu os operários, que não mais se entendiam entre si. O pedreiro pedia cimento,
o servente servia-lhe brioches.
De tal maneira que não foi possível concluir a pretensiosa
construção, porque os construtores não mais conseguiam sincronizar o trabalho: cada
um ia para um lado, obedecendo à vontade própria, o que eu acho que, se hoje,
seria chamado individualismo. Mas Deus, no Gênesis, preferiu a linguagem
figurada, porque se fosse explicar, estaria falando até hoje sem ser entendido:
os homens não mais se entendiam porque cada um passou a falar uma língua
diferente.
(Mas parece que ninguém atentou para outro aspecto da lição
da Torre de Babel: o contra-ataque, em geral, vem por um flanco inesperado;
enquanto os construtores esperavam tempestade de vento, veio tempestade de
línguas).
Já o milagre de Pentecostes, resumidamente, foi uma ventania
que baixou sobre os homens, num momento em que eles estavam bem desorientados,
se achando a titica do cocô do cachorro do dono do cavalo. Estavam juntos,
queriam estar juntos, mas não sabiam o que fazer. Entendiam-se no trivial e se
desentendiam no estratégico. A ventania lambeu os homens, que passaram a falar
e a entender a língua de todos os homens.
Fico pensando... Por que, até hoje, nunca apareceu uma
escola de línguas, dessas que prometem fluência em dois meses, mediante módica
mensalidade, com o nome de Pentecostes? Ou Espírito Santo, que seja?
Porque, como está escrito lá no capítulo 2, do Atos dos
Apóstolos: “Apareceram-lhes línguas como de fogo, que se repartiram e que
pousaram sobre cada um deles. E todos ficaram repletos do Espírito Santo e
começaram a falar em outras línguas” (vs. 3 e 4).
Mas isso não foi para toda a população não, senão o que
seria dos que investiram tempo e dinheiro na aprendizagem de outros idiomas?
Foi só para os onze apóstolos (Matias ainda não havia sido sorteado para
substituir Judas, o traidor) e algumas mulheres, dentre as quais a Virgem
Maria, e também os irmãos de Jesus.
Exatamente aqueles que iriam animar o congresso dos
católicos dispersos pelo mundo, que se encontrava reunido em Jerusalém; e a
situação se avizinhava desesperadora, porque havia judeus de todas as partes do
mundo, cada um falando uma língua diferente (sendo que naquele tempo não havia
serviço de tradução simultânea).
E a prova de que o Espírito Santo, por essa época de
multinacionalização do cristianismo, era uma espécie de professor de línguas
pode ser encontrada também em At 19, 6: “E quando Paulo lhes impôs as mãos, o
Espírito Santo veio sobre eles: puseram-se então a falar em línguas e a profetizar”.
Apesar de que esse negócio de entender línguas estrangeiras
é muito relativo. Por exemplo, imagine um coreano num teretetê com uma
finlandesa. Ou uma índia com um astronauta. É claro que vão se entender
direitinho...
Você pode ser o monoglota mais empedernido, mas se for
peregrinar pelo Caminho de Santiago, não só não vai sentir dificuldade nenhuma
com as diversas línguas que terá de enfrentar, como vai se divertir.
Se você for participar de um congresso de sindicalistas
revolucionários na Noruega, com delegados do mundo todo, também entenderá o que
rola por lá, o espírito da coisa, apesar das diferentes línguas dos discursos.
Da mesma forma, ninguém deixava de se compungir com a missa,
até os anos 1960, só porque era rezada em latim. O que determina o entendimento
é o Espírito da Coisa. Entre Espírito da Coisa e Espírito Santo, foi um pulo...
De mais a mais, aqueles mascates de Jerusalém, relatados no
milagre de Pentecostes, já deviam entender a língua de todo mundo havia tempos,
considerando os êxodos e contraêxodos que haviam sofrido, transitando do Egito
à Babilônia, passando por Alexandria, sofrendo ataques de gregos e romanos,
tendo de enfrentar turcos e persas e filisteus, e, de quebra, tendo de entender
as vontades da freguesia, cada uma em sua própria língua.
Porque um mascate que não entende a língua alheia não tem
futuro; e, da mesma forma, um pregador sem lábia e com língua lerda.
Arrependei-vos!
Ia eu de bicicleta pela Praça da Sé, quando em minha
retaguarda esquerda explodiu um “Sai Satanaiz!” Mais adiante, um homem muito
magro e muito alto parecia que ia levantar voo, com o seu “Aleluia, irmão!”
Mais umas pedaladas e uma mulher de olhos, cabelos, peles e roupas castanhos
garantia a dois ouvintes que Só Cristo Salva!
E, do outro lado da mesma tipuana enorme, na borda da sua
sombra, um homem negro empertigado, de paletó e gravata, anunciava para três
que Cristo vem aí!
Mas o que me impressionou foi o mendigo que quase atropelei
sobre a faixa de pedestre, aquela no canto da praça que dá para a rua Direita e
a 15 de novembro.
O homem descalço e pálido de pele, calça, camisa e sujeira
capengava, não sei se por algum problema no sistema locomotor ou se por causa
do desequilíbrio provocado pelas cinco sacolas bem grandes, de conteúdos e
tamanhos variados, que segurava com uma mão, enquanto com a outra segurava a
calça larga e sem cinto que teimava em cair. Quando viu minha bicicleta inerte
a cinco centímetros das suas canelas, soltou no chão tudo que segurava,
empertigou-se em minha direção, como se fosse jurar bandeira, e me tascou um “Arrependei-vos!”
com pronome e tudo.
Essa enorme introdução que tem a ver só com a minha pessoa e
com o tempo presente foi por causa do discurso de Pedro ao povo de Jerusalém,
logo após o milagre de Pentecostes. Quer dizer, o povo não sabia do milagre,
que se operou a portas fechadas só para os apóstolos e mais alguns, como vimos
na crônica anterior. O povo babava perante Pedro por causa da sua desenvoltura
linguística.
O populacho gosta de uma língua falastrona e enrolada, de
desentendê-la. Pedro, nos bastidores do congresso, despachava com ucranianos,
costa-riquenhos e moçambicanos com a desenvoltura de um papo de boteco, e os
seus conterrâneos só ficavam assuntando de longe.
Aproveitando o campo magnético gerado, danou-se a lembrar a
patuleia de que aquele que preferiram na cruz a Barrabás, se é que eles
quisessem saber, era tão inocente que nem os bichos puderam comer a sua carne:
subiu aos céus em carne e osso etc. Ouvindo isso, eles sentiram o coração
traspassado. “Tá bom, e agora, o que devemos fazer, então?” Aí Pedro: “Arrependei-vos!”
Sim, mas não é só isso. Arrependei-vos e, em seguida, formem fila ali na sacristia,
para pegar a ficha do batizado e pagar a taxa.
Só sei que naquela tarde foram cerca de três mil pessoas
batizadas (At 2, 37-41). E estava sacramentada a fórmula de terminar sermões e
pregações com essas exortações apocalípticas ou escatológicas, que os
comunistas copiaram, no encerramento de seus manifestos, vinte séculos depois.
Esmola & aleijado
Esse “aleijado” aí é de São Lucas, não meu.
Pedro e João (só faltava Antônio, para virar uma festa
junina) se dirigiam ao templo, para fazerem a oração das três da tarde. Aí um
aleijado profissional, que fazia ponto na passagem do caminho que ia dar na
porta em que eles costumavam entrar, esticou-se todo na direção dos dois,
pedindo uma esmola pelo amor do deus dos católicos, porque o homem era
aleijado, mas não alienado.
O esmoler sabia que então havia dois deuses: o dos judeus e
o dos católicos. E que, depois da safadeza que os judeus fizeram com o deus dos
católicos, havia uma animosidade entre as partes, a coisa estava politizada e
polarizada. Lembrando sempre que essa polarização se dava dentro do mesmo
partido, o partido de Iahweh, cuja sede era o templo ao lado. Havia pouco tempo
que a facção dos fariseus condenara o líder da facção contrária, e as feridas
estavam vivas na memória da militância em geral. O esmoler, como todo bom
profissional, agradecia em nome de um ou de outro deus, conforme os doadores.
Diante do pedido, Pedro parou e olhou bem para o sujeito
estrebuchado no chão; que um bom pedidor de esmolas sabe se estrebuchar no
chão. “Escuta, cara, você quer que eu te dê um peixe ou que eu te ensine a
pescar?” O aleijado titubeou, como quem não tivesse entendido. “Você quer esta
nota de 50 ou quer andar?”, perguntou Pedro, que devia estar recebendo já
alguma grana adiantada, por conta do futuro papado. Aí o aleijado ficou
atônito. Como velho profissional da via pública, pensou rápido e negociou: “Não
pode ser as duas coisas?” Pedro olhou para João e cochichou: “Eu não te falo
que esse povo é de amargar”. E para o aleijado: “Não, é um ou outro”. E o
aleijado pensou: “O que que adianta poder andar, se não tem emprego?” E
escolheu os 50 paus, cunhando, creio, o famoso ditado: vale mais 50 paus na mão
do que um salário mínimo voando.
Bem, o livro dos atos dos apóstolos diz que Pedro nem
esperou a resposta do aleijado, e já foi ordenando que ele se levantasse e
andasse e não enchesse mais o saco. O autor era linear e cartesiano em sua
esquemática fé e não dava espaço para tergiversações. O senso comum, numa
situação dessa, nem imagina que o aleijado possa preferir os 50 reais; o senso
comum acha que, sim, ele escolheria andar.
Andar, ficar feliz e contar para todo mundo, que
imediatamente fez uma roda em volta dos dois milagreiros. Pedro, então, como todo
bom papa, aproveitou para dar uma lição de moral: “Milagroso, eu? Não, quem fez
essa proeza foi Jesus, aquele que vocês mataram”.
É claro que os circunstantes retrucaram: “Putz, que besteira
que fizemos, não? E agora, o que será da gente?” Pedro já estava craque nessa
cena: “Ora, não se preocupem, vocês podem ser perdoados”. Como? “Ora,
arrependei-vos! (At 3, 19) e convertei-vos!”
Ignorantes, mas intrépidos
Pedro e João contavam a quem quisesse ouvir da sacanagem dos
fariseus contra Jesus. Porque, naquele
tempo, Jesus não era famoso como hoje. Pouca gente ficou sabendo da sua condenação
e execução.
Estão lembrados de que eram três cruzes para suspender três
bandidos? Mais precisamente: dois ladrões e um subversivo. E essa conta só não
ficou empatada em dois a dois, porque Pilatos perdoou Barrabás, lembram? Era um
tempo de miséria e agitação e, sim, Jesus foi apenas mais um…
Lembram dos falsos profetas? Sim, não era muito diferente de
hoje, havia profetas de várias tendências e Jesus era mais um, assim como João
Batista. Acontece que Jesus era iletrado e desclassificado, mas não era bobo.
Percebeu que, por mais milagre que fizesse, ele sozinho não tinha futuro.
Percebeu que era necessária uma luta de longo prazo e toda luta de longo prazo
só pode ser feita pela via coletiva.
Tratou logo, então, de organizar seu partido. Organizou uma
executiva com 12 membros, porque os judeus eram invocados com esse número desde
Jacó, com seus 12 filhos.
Jesus, além de não ser bobo, era sagaz. Porque, às vezes, a
gente não é bobo, mas também não é esperto, sabe como é?
Quase todos somos assim, a gente não faz grandes besteiras,
só pequenas… Jesus não fazia besteira nenhuma, aí que está a diferença. E, por
isso, preencheu os 12 cargos com gente da sua laia, entenderam? (Tudo bem,
Paulo tinha instrução e posição social, mas só entrou no partido depois que
Jesus morreu. E, vai saber, pode ser que a Igreja resultou mais parecida com
Paulo do que com Jesus).
Sim, Pedro e João eram homens iletrados e sem posição social
(At 4, 13), mas, diante do Sinédrio – para onde foram levados, após terem sido presos
em frente ao templo enquanto contavam a todo mundo da sacanagem contra Jesus –,
pareciam grandes advogados, tamanha a desenvoltura com que reafirmavam a
inocência e o programa de Jesus, enquanto discorriam sobre as Escrituras.
Raramente alguém do povão se metia a falar na frente dos
sabichões, ainda mais numa sessão solene. O Sinédrio era o Congresso Nacional
deles, em que pontificavam escribas e sacerdotes e anciãos, ou seja, juízes,
rabinos e deputados. Dentro do sistema de partido único chamado Judaísmo, havia
a tendência dos saduceus (a elite) e dos fariseus (a classe média). E Jesus
ousou formar uma terceira tendência — a dos pobres —, para disputar esse butim.
O fato é que Jesus escolheu a dedo e deixou 12 decididos
dirigentes, cuja intrepidez deixava esses tais saduceus atônitos. Como pode
essa fluência toda nesses ignorantes?
Mas é que a injustiça que fizeram com Jesus foi tamanha que
não tinha como. Jesus havia aberto os olhos ao menos daqueles doze. O fato é
que alguém esclarecido e indignado fica com o espírito no corpo. Os saduceus
não entenderam. Era mais que intrepidez, era obstinação. Era uma comichão
atravessada no corpo, não havia como ficar quieto.
Comunismo
Claro que Jesus havia mostrado e demonstrado por A mais B
aos seus seguidores a tremenda injustiça social reinante ali e alhures, mas
longe dele, imagino, dizer que a solução para aquela safadeza era o comunismo.
No máximo um socialismo democrático, talvez.
Mas a turma do bem-bom era tão empedernida que nem um
moderado aceitaram, e acabaram com a raça de Jesus. Mas não com a de seus
seguidores. Aliás, nem com a raça de Jesus acabaram: Tiago, seu irmão, foi
chefe da Igreja em Jerusalém, em substituição a Pedro, e até contribuiu para a Bíblia
com uma epístola.
Enfim, os do andar de cima radicalizaram primeiro,
crucificando o líder popular. Por sua vez, não restou outro caminho aos
remanescentes, senão a radicalização contrária: o comunismo! E daquele
comunismo mais ortodoxo: sabe aquela história do “a cada um segundo a sua
necessidade”? (At 4, 35).
Era! “A multidão dos que haviam crido era um só coração e
uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo
entre eles era comum” (At 4, 32). Um cipriota de nome José, que os apóstolos
cognominaram Barnabé, vendeu sua terra e pôs o dinheiro na caixa comum.
Porém… sim, a coisa era bonita, mas Ananias e Safira foram
os primeiros de muitos poréns. Esses dois, marido e mulher, venderam uma propriedade
e puseram o dinheiro na caixa comum. Beleza!, mais que bonzinhos, heróis! Acontece
que não depositaram tudo, ficaram com uma parte. Declararam, entretanto, que a
doação era tudo. O problema não era dar ou não dar o dinheiro, mas mentir. Eles
poderiam não dar nada, mas nesse caso não seriam chamados de comunistas.
Poderiam dar apenas uma parte, declarando-o, entretanto. Nesse caso, seriam
chamados no máximo de simpatizantes.
Mas não, pretendiam ficar com um pé em cada canoa. Deram uma
parte e saíram se vangloriando de que ficaram sem nada, de que o que havia sido
deles agora era de todos. Então, Pedro, esperto que só (não foi à toa que Jesus
o nomeou para ficar lá na porta do Céu, checando a ficha de cada um), foi logo
encarando Ananias: “Cara, você é safado!” Ananias nem esperou pelo resto do
sermão, já foi logo caindo e morrendo. Inclusive, pelo que parece, havia uns
rapazes especialmente destacados só esperando para levar e destinar o corpo.
Daí a pouco, lá vem a mulher de Ananias, Safira, com a mesma
cara de sonsa do marido. Pedro: “Então, Safira, por quanto mesmo venderam o
terreno?” A resposta dela bateu com a dada pelo marido, cerca de três horas
antes. Aí Pedro: “Quer dizer que vocês dois combinaram direitinho, né! Minha
filha, mentir para nós é feio, mas para Deus, além da feiura há a tolice, eis
que Ele tudo sabe. Tá vendo aqueles jovens que vêm entrando, lá? Então, eles
vêm voltando do cemitério, aonde foram enterrar seu marido; eles levarão também
a ti” (At 5, 9). Diante de tão peremptória notícia, não restou alternativa à
Safira senão estrebuchar no chão e expirar. Os rapazes levaram-na e a
enterraram junto ao corpo do marido. Vejam que não é de hoje que os dirigentes
comunistas são clarividentes e implacáveis…
Helenistas e Hebreus
Escrevi lá atrás sobre o choque entre o monoteísmo hebreu e
o politeísmo grego. Isso começou quando o primeiro navio grego aportou no
litoral da Palestina (o contrário é improvável, sabe como é, judeu gostava de
deserto, não de mar; até então, basicamente, a única experiência de navegação
era a da arca de Noé).
Então houve o choque entre o helenismo grego, com seus
filósofos e protagonismo civil, e o judaísmo hebreu, com seus profetas
(teólogos) e sacerdotes. Em Atenas, a Ágora; em Jerusalém, o Templo. E esse
costume de judeu se espalhar pelo mundo, depois voltar para Israel, já era
comum muito antes de Jesus. Tanto que em Jerusalém havia sinagogas onde se lia
a Bíblia em grego e sinagogas onde se lia a Bíblia em hebraico.
Grosso modo, não se misturavam. De um lado, os judeus
cosmopolitas, que haviam viajado e vivido em outras partes do mundo e, ainda
que morando em Jerusalém, só falavam em inglês e até o chocolate importavam de
Miami; estes eram os helenistas. De outro lado, o povinho da terra, que nem
sabia direito onde ficava o Aeroporto de Cumbica e mal pensava e falava em
aramaico; eram os hebreus.
E, nas primeiras missas católicas, os helenistas tentaram
reproduzir o costume da divisão das sinagogas (At 6, 1). Porque os helenistas,
apesar de em menor número, estavam em toda parte – até entre os partidários de
Jesus – e eram influentes, impressionavam e muitas vezes se impunham com uma
palavra estrangeira bem-soante entremeada na falação.
Só que, nessa época, o padre era sempre um dos batutas
escolhidos por Jesus; no primeiro buchicho que houve, Pedro, ou talvez João,
sei lá, um dos doze, chamou a turma de lado: “Escuta, gente, aqui não é a
sinagoga não. Aqui é a Igreja de Roma, que tal, então, para agradar a gregos e
hebreus, se a gente falasse latim?”
Mas depois de muita gente reclamar do péssimo ensino de
latim nas escolas e do ótimo ensino de latim nos seminários, decidiram que
falariam em português, mas a missa seria rezada em latim. Porém Pedro sabia que
não bastava gastar o latim, era preciso dar expressão organizativa àquela
diferença real. Sugeriu, então, que esses “estrangeiros” se organizassem, com
um representante de cada país onde haviam morado.
Deu sete; dentre eles Estevão, que ficou tão entusiasmado
que saiu pregando em praça pública adoidado e foi logo convocado a dar
explicações no Sinédrio; seu longo discurso lá deixou os parlamentares tão
possessos que nem esperaram pelo julgamento formal, já o arrastaram para fora e
o mataram a pedradas (At 7, 59), sendo considerado o primeiro mártir católico
(Jesus nunca foi católico).
Agora é Roma
E não é que os anjos começaram a atacar os romanos? Atacar
não, assediar. Cutucar. Inspirar. Avisar. Até então, anjo só aparecia para
judeu. E judia, claro. Mas, pela época em que os apóstolos de Jesus começaram a
contar para todo mundo do acontecido, da safadeza de terem crucificado um
inocente, apareceu um anjo para um romano, o centurião Cornélio (At 10, 3). O
anjo mandou Cornélio chamar Pedro, para ouvir dele o que tinha a dizer.
Imediatamente, Cornélio enviou mensageiros a Pedro, para chamá-lo, contando o
acontecido.
Claro que Pedro foi, porque quem está iniciando uma
empreitada não escolhe freguês. Lá chegando, havia uma pequena assembleia de
parentes e amigos de Cornélio, para ouvi-lo. Pedro ficou animado: os
imperialistas e politeístas querendo ouvir um monoteísta? E danou-se a falar:
“Dou-me conta, em verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em
qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça, lhe é agradável” (At 10,
34-35). Eis o pulo do gato, o ovo de Colombo da nova religião!
Eis o real motivo da bronca dos dirigentes do templo judaico
para com os seguidores de Jesus. Eram diversionismo as acusações de profanar a
Lei, trabalhar no sábado, comer em casa de gentios, afirmar que Jesus era o
Cristo.
No fundo, percebiam que se tratava de uma dissidência grave,
a caminho do cisma: aqueles capiaus queriam fundar uma nova religião! Era um
movimento separatista, enfim. (A Tendência interna dos jesuítas foi denominada
O Caminho pelos judeus tradicionais.)
Do outro lado, Deus articulava os romanos. Ora, que outro
nome poderíamos dar, senão articulação, ao envio do anjo ao militar romano?
Sim, Deus articulava um expansionismo sem precedentes. Nada de se restringir
aos judeus, em detrimento dos demais.
Aliás, Deus já tinha essa estratégia desde quando fez os
judeus condenarem seu próprio filho, desencadeando nos outros povos, em
momentos específicos e convenientes, um ódio que nem Ele poderia suspeitar.
Claro, eram os efeitos colaterais do antagonismo, crucial para mobilizar e
consolidar a nova religião. Daqui a pouco Deus vai sugerir Roma como sede, quer
apostar?
No caminho de Damasco
Havia em Jerusalém um tal Saulo de Tarso, que era bate-pau
dos fariseus, uma tendência interna ao famoso partido de nome Judaísmo. Saulo,
de Tarso, da cidade de Tarso. Esse tal Saulo era mais que bate-pau. Era pau pra
toda obra. Jogava de goleiro e de centroavante. Cobrava o escanteio e corria
pra cabecear. Ele argumentava e dava porrada. Discutia e prendia e era tão bom
numa quanto noutra modalidade.
Na parte civilizada, usava não só passagens da Torá como ia
mais longe. Citava de cabeça de Pentateuco a Malaquias, passando pelos
históricos e sapienciais. Ajudava a condenar e depois a crucificar. E era
certeiro nas pedradas. São raras as pessoas eficientes nesses dois terrenos, porque
em um é preciso sutileza e paciência, além de conhecimento e perspicácia, e, no
outro, basta truculência; sendo que, em geral, uma coisa exclui a outra. Mas
Saulo de Tarso era brilhante em ambos.
Saulo era brilhante e atuante. Tinha energia, iniciativa,
ousadia, tanto que foi destacado para perseguir os partidários de Jesus em
Damasco (At 9, 1). Isso foi logo após a morte a pedradas de Estevão, quando o
tempo fechou em Jerusalém. A hierarquia judaica passou a perseguir até a sombra
da memória de Jesus.
Então os apóstolos e os diáconos (os seis representantes – Estevão
estava morto – dos helenistas entusiastas de Jesus), e todo mundo que estava se
destacando como memorialista ou agitador junto ao populacho teve de se mandar
dali. E se espalharam pelas cidades da região, sendo Damasco uma das mais
próximas. Assim, estava infestada de subversivos, na visão de Saulo e seus
chefes. Saulo e um destacamento de arapongas-bate-paus dirigiram-se para lá,
para prender e levar para Jerusalém aqueles terroristas.
Acontece que Jesus, sentado à direita do Pai, lá de cima
acompanhava a caravana e havia decidido levar Saulo para seu time. Ora, se tá
cheio de palmeirense que, mediante um bom contrato, faz muitos gols pelo
Corinthians, era possível fazer aquele craque jogar para Ele. Porque craque é
craque, não importa a posição nem a agremiação.
E Jesus não tinha dinheiro, essa versão deveras humana de
poder. Jesus tinha a luz do raio e a voz do trovão. E foi com elas que
impressionou Saulo: “Saul, Saul, por que me persegues?” (At 9, 4); “quem és,
senhor?”; “Eu sou Jesus”… Saulo, além de impressionado com a tecnologia, foi
tocado pela intimidade de Jesus, com aquele Saul, que, parece, só era chamado
em família, pela mãe, os irmãos, os primos.
Ora, que Jesus era um mestre da empatia todo mundo sabe.
Jesus convencia e seduzia e, com Saulo, chamou-o a pôr a mão na consciência,
reconhecer o ridículo de ser um entusiasta daquela aristocracia vagabunda,
corrupta e sanguinária, e se colocar na pele de seus irmãos fugitivos. Mais, se
juntar a eles.
Bem, o fato é que, com aquela tempestade de relâmpagos diretos
na cara de Saulo, ele teve suas vistas ofuscadas, tanto que não enxergava um
palmo à frente do nariz. Aí Jesus aproveitou o titubeio e falou: “Vai, amigo,
entra na cidade e lá já vai ter alguém dos nossos te esperando, para lhe dizer
o que fazer, além de te devolver a visão”. Jesus foi tão hábil no
convencimento, tão certeiro, tão sucinto, que Saulo nem se lembrou de
contra-argumentar, tampouco dos milhares de capítulos e versículos que trazia à
ponta da língua.
Saulo aderiu a Jesus de tal forma que acho que nunca nem
parou para pensar na mudança, tamanha a urgência com que saiu Império Romano
afora a converter gentios. E o cartola retribuiu, dando a ele o status de apóstolo, apesar de não o ter conhecido
pessoalmente.
Cristãos
Quando ficou claro que aquela ralé atrevida e insolente era
mais entusiasta de Jesus do que de Moisés, a luz vermelha acendeu e a
aristocracia cheirosa da zona sul levantou e rasgou todos os véus, baixou a
ditadura e tocou o terror na patuleia. A primeira vítima foi Estevão, morto a
pedradas sem qualquer julgamento formal, à porta do Congresso Nacional e sob as
vistas dos ministros do supremo.
E sabem quem entre eles, acho que até gritando “lincha!
Lincha! Lincha!”? Um tal Saulo, da cidade de Tarso. Saulo de Tarso. Isso mesmo,
o nosso Paulo. São Paulo, isso! É, entre os judeus, era moda isso de chamar as
pessoas por um apelido nada a ver. Por exemplo, Simão era chamado de Pedro, o
nosso São Pedro! E Saulo era chamado de Paulo.
Mas em Antioquia, Saulo já era Paulo, já havia passado pelo
Caminho de Damasco e para o outro lado. Antioquia, então capital da Síria,
província romana, às margens do rio Orontes, hoje é a moderna Antáquia,
território da Turquia. Era a terceira cidade do Império Romano, depois de Roma
e Alexandria. Situava-se no vértice norte do fundão do mar Mediterrâneo,
enquanto Alexandria, no delta do Nilo, dominava o vértice sul.
No meio dessa linha imaginária entre as duas metrópoles,
Jerusalém e Damasco, a Síria, a Fenícia, a Palestina. No mar, perto, a ilha de
Chipre. Mais lá longe, Atenas. E muito longe, por mar, Roma. E o Mediterrâneo e
o Egeu e o Adriático, com suas águas impassíveis e navegáveis, lambendo as
praias.
Antioquia, além de grande e importante, situava-se numa
posição geográfica intermediária aos principais centros de poder do Império.
Paulo assuntou bem e, junto com Barnabé, fundou uma grande filial da Igreja de
Jesus, destinada a ser sua base operacional para toda a região, da Síria a
Roma, passando pela Macedônia e a Grécia.
Aí, não sei se escreveram na placa “Igreja dos Cristãos” ou
se o substantivo-adjetivo surgiu da boca do povo, o fato é que ali, pela
primeira vez, os partidários de Jesus receberam o nome de Cristãos (At 11, 26).
Uma marca forte, digamos.
Pedro se safou daquela
Bem, como já dito, o mar não estava para peixe, nem para
seguidor de Jesus, em Jerusalém, depois que a alta hierarquia eclesiástica se
desiludiu de vez com aquela terceira tendência de caráter popular que começava
a nascer dentro do esquema judaico.
Herodes já havia mandado matar o apóstolo Tiago, irmão de
João; Estevão já havia sido morto a pedradas; o eficiente Paulo já havia
desertado para as lides dos insurretos.
E tudo isso sob a batuta de Pedro, que a cada dia que
passava mais esquecia o pescador que fora e mais lembrava o papa que seria.
E sabe quem era um dos mais eficazes auxiliares de Pedro?
Tiago. Não o Tiago apóstolo, que fora passado no fio da espada de Herodes, mas
o Tiago irmão de Jesus. De fato, o irmão de Jesus era chefe dos hebreus,
aqueles que, em conjunto com os helenistas, integralizavam o partido dos
seguidores de Jesus em Jerusalém.
Claro, então, que Pedro era caçado por Herodes. Esse Herodes
era o neto do outro Herodes, aquele que havia mandado matar o bebezinho Jesus,
aquele dos reis magos, lembram? Pois naquele tempo, em Jerusalém, havia dois
poderes: o local e o imperial. Herodes era o rei local e o poder imperial era
do procurador romano. Em todas as províncias do Império Romano, o esquema era
esse.
Os imperialistas não mudam nunca…
Sim, havia uma certa divisão de competências entre esses
dois poderes, para não virar bagunça e também para livrar a cara da subalterna
aristocracia local. Mas na hora do vamovê, quem tinha os tanques e os soldados
decidia, e quem decidia era o procurador romano (só para se situarem, Pôncio
Pilatos, aquele que lavou as mãos, era procurador romano).
Esse perene e latente conflito se manifestava frequentemente
nas prisões. Porque as prisões eram guardadas por soldados romanos, mas os
presos, em geral, eram mandados para lá pelos escribas e sacerdotes e seu rei
(o poder local).
Se o preso soubesse explorar esse conflito, não era incomum
que um anjo, altas horas da noite, baixasse na cela e o libertasse. E foi isso
que aconteceu com Pedro, que finalmente fora preso por Herodes, que aguardava
apenas a passagem da Páscoa para acabar com ele.
Alta hora da madrugada, Pedro, livre, bateu na porta do
aparelho, que funcionava na casa de Maria, mãe de João Marcos, aquele do
segundo evangelho. A criada, Rode, coitada, quando foi atender a quem batia e
ouviu a voz de Pedro, nem abriu a porta de tão assustada, certamente pensando
que Pedro voltava do Além… (At 12, 13). Mas, enfim, Pedro entrou, relatou o
acontecido aos que se encontravam reunidos, e saiu de cena por um tempo.
Porém, vejam como a turma de Pedro já era forte, rogaram
tanta praga misturada com as rezas, por ocasião da prisão do futuro papa, que o
Herodes da vez não demorou a partir desta para pior, roído pelos vermes.
Paulo: o fiasco de Atenas
Você já deve ter ouvido algo do tipo: nosso mundo ocidental
é greco-romano no civil e judaico-cristão no religioso. Bem, acho que, de fato,
isso vem desde Adão e Eva, considerando que essa história começou numa das
beiradas do Mediterrâneo, berço da tal civilização.
Na Bíblia, salvo engano, a civilização grega é pela primeira
vez confrontada no livro de Macabeus, que se refere às lutas dos judeus contra
os sucessores do império de Alexandre da Macedônia, cerca de dois séculos antes
do nascimento de Jesus.
Enfim, Paulo chegou em Atenas e se pôs a revelar a nova
verdade, como se estivesse em Jerusalém ou na Turquia. Não sei se ele se fazia
de desentendido ou se não tinha noção mesmo de onde estava pisando. Paulo, acostumado
com um deus único e invisível, desde os tempos de judaísmo ferrenho, via deuses
pra todo lado em Atenas, em sólidos ouro, ou bronze, ou barro, cada um
diferente do outro; havia deuses para todos os gostos e necessidades e, pasmem,
havia até deusas! Claro que Paulo ficou escandalizado com tamanha heresia.
Paulo começou a desconfiar de algo muito estranho naquela
gente quando percebeu que até os judeus da sinagoga eram meio filósofos… Na
Ágora, então, era epicureu pra cá, estoico pra lá, e ninguém, nenhum teólogo.
Profeta, nem pensar! Eram tão desinformados que tomaram a Ressurreição, que
Paulo vivia citando, como uma deusa companheira de Jesus (At 17, 18).
Mas o palrador o fazia com tanta ênfase, tamanha convicção,
que alguém o tomou pela mão e falou: “Tudo bem, cara, parece que você tem algo
novo a dizer, vamos lá no Areópago, que aqui na praça é desconfortável, lá tem
cadeiras, sistema de som e intelectuais, para ouvir e avaliar. Lá é bom, acho
que até filmam, pra passar no Youtube”.
Paulo, culto orador e polemista de primeira, gostou do
profissionalismo dos bastidores do Areópago. E, para mostrar àqueles finórios
que manjava também de certa filosofia, misturou à sua arenga traços de algum
helenismo pescados nas histórias de Antíoco Epífanes e Simão Macabeus e alguma
coisa que havia pesquisado de última hora na Wikipédia, acho.
Mas, quanto mais falava, mais a plateia achava graça. Paulo
estava acostumado com o rancor saduceu, com o literalismo fariseu, com a
oposição ferrenha, mas de mesma natureza, que encontrava no Sinédrio. À crítica
aos ídolos de barro ou de ouro, um ou outro da plateia respondia com Homero, ou
Hesíodo, Platão, ou Aristóteles.
Ao argumento de deus verdadeiro, criador do céu e da terra,
o filósofo de plantão respondia com uma estranha conversa de Literatura e
Personagem, Figura e Símbolo. Quando Paulo encasquetou com a tal Ressurreição,
aí que o auditório veio abaixo em gargalhadas.
(Enquanto isso, num canto, o cidadão que havia levado Paulo
para discutir com os filósofos balançava a cabeça, creio, pensando que deveria
saber que sempre será improdutiva uma discussão entre um crente e um cético.)
Eu sei que Paulo saiu de lá debaixo de vaias e jurou nunca
mais sair da sua praia, na hora da disputa ideológica. De agora em diante,
tomaria mais cuidado com o ambiente e a excessiva informalidade. Evitaria os
ambientes civis e só argumentaria com Cristo
vem aí, Arrependei-vos, No final dos tempos, todos ressuscitarão
para serem julgados e Jesus
ressuscitou, e Pecado, e Batismo, sem nunca sair da conhecida
ladainha escatológica e apocalíptica, apimentada com alguma notícia policial…
sempre com voz empostada, muita ênfase e razoável solenidade.
Que povo mais besta: nenhuma ameaça de morte, nenhum ranger
de dentes, só galhofas. Mas, ao final, apesar do fiasco, não é que Paulo
conseguiu converter Dâmaris! (At 17, 34).
Cartas de São Paulo
Romanos (Rm)
Primeira aos Coríntios (1Cor)
Segunda aos Coríntios (2Cor)
Gálatas (Gl)
Efésios (Ef)
Filipenses (Fl)
Colossenses (Cl)
Primeira aos Tessalonicenses (1Ts)
Segunda aos Tessalonicenses (2Ts)
Primeira a Timóteo (1Tm)
Segunda a Timóteo (2Tm)
Tito (Tt)
Filêmon (Fm)
Hebreus (Hb)
Pedra de tropeço
Acho que descobri onde Carlos Drummond de Andrade achou a
pedra que tinha em seu caminho. Foi no versículo 32 do capítulo 10, da Carta
aos Romanos, de Saulo, o nosso popular São Paulo.
Quer dizer, essa exata palavra – tropeço – acho, sim, que é ali
que aparece pela primeira vez, ao menos na edição em que estou pesquisando. Já
foi chamada de Pedra de Alicerce (Isaías, 28, 16) e Pedra Angular e até Pedra
de Escândalo, mas Pedra de Tropeço é a primeira vez.
Fiquei sabendo, dos meus tempos de moleque, que alguns
punham quatro tijolos dentro de uma caixa de sapato e a deixava dando sopa num
local de passagem. Era um tempo em que as pessoas andavam com a alma e os pés
descalços e todo par de sapatos vinha da loja dentro de uma caixa de papelão.
Alguém de alma leve taca pedra, caça borboleta e chuta tudo
que é chutável que se apresenta. E uma caixa de sapato largada na via pública é
um objeto chutável. Claro que é uma molecagem, porque muita gente quebrou o
dedão ao chutar a caixa pensando que estava vazia.
Da mesma forma, a Pedra de Tropeço é colocada em nosso
caminho sabe por quem? Por Deus! Lembram do coitado do faraó ante Moisés, que
Iahweh não deixava esmorecer, só para exercitar sua artilharia de pragas (Ex 9,
12)?
Iahweh oferecia o petardo a Moisés, ensinava-o a usar, e já
adiantava que seria fatalmente usado – fazer decolar um caça de milhões de
dólares e voltar sem nem um tiro é desperdício – porque endureceria o coração
do faraó, que não negociaria e, daí, seria castigado. Porque Deus faz misericórdia
a quem quer e endurece a quem quer (Rm 9, 18).
Evidente que uma pedra no meio do caminho será sempre
passível de tropeço, especialmente pelos indolentes; sabe esses caras que, de
tão relapsos, andam arrastando os pés, sem disposição para elevá-los
minimamente na hora de trocar os passos? Também aos afoitos, aos desatentos,
uma pedra escandalosa costuma provocar um atraso de vida. Tubo bem, mas, se o
cidadão tem fé, não tem perigo.
Sim, essa conversa de pedra de tropeço de São Paulo, cuja
ideia por trás foi explicitada lá no começo do mundo, quando quase não havia
caminhos, que dirá metrópoles, é para dizer pra gente que não adianta andar
prestando atenção no terreno, devidamente calçado, se a gente não tiver fé.
Porque, de repente, uma pedra cai do céu e vai se postar ali em sua frente,
depois que você já tirou o olho daquele ponto…
Não adianta folgar no sábado o ano inteiro rigorosamente, só
comer comida kosher, operar da fimose, se Iahweh manda Jesus Cristo todo
liberal nos costumes para atravessar seu caminho. Grosso modo, nesse negócio de
pedra marota para nos derrubar, ou paraíso a conquistar, Deus prefere um cara
distraído e descalço, mas entusiasmado, a um metódico pedestre todo equipado e
cheio de razão e marasmo.
A lei e o amor
Mas claro que, se um inocente matar a mãe, continuará
inocente. Alguém que ignora a norma elementar de que não se deve matar um
semelhante pode matar a própria mãe sem culpa. Isso quer dizer que basta ser
normal para estar debaixo do tacão da Lei, quero dizer, da norma, do costume,
do correto. Não é preciso lei.
Aquela máxima de que não há crime sem lei anterior que o
defina é conversa de advogado. O cidadão sabe o que é certo e o que é errado,
independentemente da lei. Mas, se ainda assim, resolvem baixar a lei,
devidamente escrita e, pior, acompanhada dum batalhão de juízes e tribunais, e
promotores, e advogados, isso só vai piorar as coisas, só vai provocar e avivar,
e lembrar aos potenciais criminosos.
Mal comparando, a polícia desarmada de Londres é menos
provocativa do que a Rota na Rua de São Paulo, capital. A lei produz a ira;
onde não há lei, não há transgressão. Onde arranjei tamanha sandice? Tá lá em
Romanos, 4, 15: “Mas o que a lei produz é a ira, ao passo que onde não há lei,
não há transgressão”.
Essa arenga de Paulo foi para se contrapor aos seus
patrícios judeus, com a conhecida mania de obedecer à Lei de Moisés até debaixo
d'água. Paulo dizia que aquela Lei fria e rígida, além de desatualizada, só
servia para gerar pecados, ou seja, existia para ser desobedecida e fazer a
festa dos operadores do direito da época.
Inclusive, muita gente que olhava para a vizinha com olhar
sonhador ficou sabendo, depois que viu escrito na Lei, que aquilo era concupiscência
e pecado, portanto. Outra vez não sou eu que invento, mas Paulo que afirma, em
Rm 7, 7. Aliás, o santo Jesus foi processado e condenado por essa Lei.
Eu sabia que ia dar nisso, falar de Lei e de Amor: Moisés versus Jesus, judeu contra grego, burocrata
contra apóstolo.
Os guardiões da Lei dormiram no ponto e, de repente,
descobriram que estavam por baixo da carne seca, tudo por causa de uns malucos
que se danaram a pregar o amor. Ora, para os beligerantes sacerdotes do templo
e seus ciosos escribas, embalados pelos exércitos de Iahweh, o amor era
transgressivo porque, sei lá, onde já se viu guerra e amor?
Eu particularmente acho que pura e simplesmente os da Lei
acharam uma afronta aquele bando de iletrados ignorantes quererem falar de
igual para igual com eles. Mas, grosso modo, o que estava em disputa ali era se
mais valia uma lei sem alma ou uma alma sem lei. Aqueles subversivos estavam
dizendo que bastava a fé. A boa-fé.
Certamente não é um detalhe, porém, o fato de que os da Lei
queriam-na circunscrita ao povo eleito de Deus, enquanto os do amor queriam-no
universal.
Zelo esclarecido
Sabe aquele zeloso e esforçado horticultor, todo dia de sol
a sol cavoucando, e plantando, e transplantando, e limpando, e regando, e aparando,
e catando as pragas?
A sua horta não vai para frente se, apesar do esforço, fizer
tudo errado. Plantar de semente o que deve ser plantado de estaca e vice-versa,
não observar as épocas propícias de plantio, regar demais ou de menos, não usar
esterco, deixar as galinhas entrarem.
Sabe aquele funcionário que é o primeiro a chegar e o último
a sair, que não para um minuto para descansar, por isso não tem tempo para pensar?
Aquele zagueiro impecável em seu uniforme, mas perna de pau e fora de forma?
Aquele evangélico praticante que diz que todo pobre é pobre porque não se
esforçou ou que bandido bom é bandido morto?
Então, quem me lembrou esses tipos foi Paulo, em Romanos 10,
2, em que diz, a respeito dos judeus, em relação a Deus serem zelosos, sim, mas
zelosos não esclarecidos. Guardam o sábado, não comem frango destroncado,
cortam o prepúcio dos bebezinhos, rezam na hora certa e, na hora do vamovê,
desprezam os gentios.
Tá certo que isso nem seria pecado se os gentios tivessem a
mesma conotação dos gentios brasileiros, mas, naquela época, esses gentios a
que me refiro eram os mandachuvas imperialistas.
Os marajás da Lei dormiram sobre o calhamaço e não
perceberam que Deus mudou de opinião. Quando pensavam estar sendo zelosos,
estavam fazendo pouco caso da nova ordem. Zeloso, sim, mas qualificado. Além de
esforçado, é preciso saber quando sai o Faraó e entra César.
Coleta
Nesse negócio de coleta, parece que não houve evolução. Não
na forma, mas no argumento, digo. Olhem só o argumento de Paulo e vejam se não
tenho razão: quem semeia com parcimônia, com parcimônia também colherá, e quem
semeia com largueza, com largueza também colherá (2 Cor 9, 6).
Claro que Paulo devia arrecadar bem menos do que os
apóstolos atuais, porque argumentava por carta e os atuais o fazem pela TV, sem
intermediários, diretamente na casa do desavisado fiel. Isso fazia e faz muita
diferença. Começa que a carta era escrita num pergaminho, que naquele tempo
ainda era em rolo. Imagina o trabalho do correio para enviar um rolo tão
delicado.
O rolo chegava ao destinatário, que o guardava a sete
chaves, senão estragava. Se fosse rico, pagava um copista para copiar e afixar
na porta da igreja. Mas isso em geral não era feito, porque até o pergaminho
era difícil de encontrar, que dirá o copista.
Então ele transmitia seu conteúdo verbalmente. E, nessa
transição, muito da verve literária de Paulo se perdia. Paulo, de tanto
trabalho, foi para o céu; esses arrecadadores atuais, de tanta facilidade e
tanto sucesso, irão lá para dentro do fundo da treva do chão da cova do capeta.
Mas o argumento não tem que tirar nem pôr: cada um dê como
dispôs em seu coração, sem pena nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá
com alegria (2 Cor 9, 7). E dar bastante ainda tem a vantagem de que o
contribuinte pode contar para todo mundo. E como está dito lá em cima, a
retribuição é proporcional.
Tem fiel que todo domingo pinga na sacola de coleta uma
reles nota de dois reais e aí, na hora da precisão, quer exigir. Dá dois reais por
semana e, na hora do pedido, pensa como todo pequeno-burguês: “Tô pagando,
tenho direito!” Claro que tem direito! Tem direito ao retorno equivalente a dois
reais. Não, quatro reais. É que Deus sempre dá em dobro…
Então, se você fica constrangido quando o padre ou o pastor
vêm com aquela cantilena, pedindo dinheiro na maior cara dura, fica sabendo que
isso não é novo. Vem, no mínimo, desde Paulo. E Paulo queria dinheiro para quê?
Eu acho que era para construir um templo de Salomão bem grandão na degradada
avenida Celso Garcia e chamar a presidenta da república e o governador para a
inauguração e se cacifar como grande ator político, mas ele dizia que era para
ajudar os santos de Jerusalém.
Claro que, entredentes, devia dizer que era para aqueles
vagabundos de Jerusalém… Mas mandava o
dinheiro com gosto; aliás, foi levá-lo, pessoalmente, mais para colher os
aplausos do prestígio do que por falta de meios eletrônicos de remessa. Claro
que, durante o Congresso que se realizava então, ele pôde falar um pouco mais
grosso…
Da graça e do esforço
Nesta altura de minha leitura bíblica, estou preocupado e
confuso. Sabe expressões do tipo: fui agraciado por Deus, ou, com a graça de
Deus, ou esse nosso corriqueiro Graças a Deus? Tudo isso porque Deus nos
concede a graça. Em tradução mais comercial, Deus concede seus benefícios de
graça, sem nada cobrar. Numa dessa, a meritocracia foi pras cucuias.
De fato! Paulo escreve: “Não é pelas obras; do contrário, a
graça não é mais graça”. (Romanos 11, 6). Deus, sabe-se lá por quais
insondáveis critérios, escolhe. Lá no começo do mundo, Deus escolheu os judeus.
Deus mesmo, depois, declarou que o fez meio aleatoriamente, de graça (Dt 7, 7;
9, 6).
Naquele tempo já havia esquimós na Rússia e aborígenes
australianos, e samurais no Japão, e até os ancestrais dos nossos tupiniquins.
Eu duvido que os ancestrais dos tupiniquins não eram mais inocentes do que os
judeus. Entretanto, Deus escolheu os judeus. E, no Egito, reafirmou a escolha,
em detrimento de um povo muito mais maleável.
Não tem problema, até porque Deus reavaliou. Seria
problemático se Deus fosse inflexível para todo o sempre, mas Deus colocou uma
pedra de tropeço no caminho dos judeus e… eles tropeçaram. Crucificaram Jesus.
Foi a pior viagem. Deus refez sua escolha e escolheu os romanos.
É uma escolha bem aleatória. Mil e quinhentos anos depois da
mudança para os romanos, Deus escolheu os portugueses, neste lado da América,
só para se contrapor àquele costume tropical de os americanos (que Deus chamou
de índios) ficarem olhando para o céu nas noites de Lua cheia ou ficarem
adorando aquele sol das areias de Copacabana.
Enfim, eu acho que está certo esse critério de se escolher
pela graça e não pelo esforço.
Uma mulher graciosa, por exemplo, não se fabrica em horas de
salão de beleza. Já uma mulher bonita, sim.
Um agricultor que cultiva a terra no sistema agroflorestal
contribui com a alimentação e a saúde das pessoas e preserva o planeta. Um
empresário do agronegócio produz toneladas de grãos que só alimentam navio e
desgraça com o solo e seu equilíbrio fitossanitário.
E Deus, como dono do mundo, está certo em preferir a mulher
espontaneamente graciosa e o pequeno agricultor agroflorestal. Bom, sendo
assim, ficarei mais confuso se Deus, em face da presente revolução – e como
tudo indica –, escolher os chineses.
Moral doméstica
É impossível falar de moral doméstica, à luz de São Paulo (o
apóstolo), sem usar o verbo fornicar ou o substantivo fornicação. Aliás, até
pouco tempo, eu achava que fornicação era palavrão, mais escabroso do que
fudeção ou foda, por exemplo. Mas não, é palavra bíblica!
Tem duas coisas que São Paulo não gosta nem recomenda:
fornicar e casar. Todavia, se você não pode viver sem tocar em mulher, então
case. Dos males o menor: antes casar do que fornicar. Porque, se você não está
sabendo bem, fornicar é fazer sexo ilícito.
Sexo ilícito!? Sim, normatizaram até o sexo, como outro
negócio qualquer. Naturalmente, isso não se aplica às mulheres, que passam
muito bem sem tocar em homem… Não!? Não reclame comigo, reclame com São Paulo. Paulo
disse, ressalvando que isso era por conta própria e não conversa de Jesus, que
casar era arranjar sarna para se coçar, recomendação válida para o homem e para
a mulher.
Se o cidadão ou cidadã já for casado, tudo bem, permaneça
casado, não se separe de jeito nenhum, aguente o tranco. Mas se você não tiver
mulher/marido, não arranje um, porque é fatal que terá tribulações na carne; “é
algo que eu vo-las (as pessoas) desejaria poupar” (1 Cor 7, 27).
Se a sua mulher ou seu marido forem ateus, não tem problema (não,
nem o conceito “ateu” existia na época, que dirá a palavra). Em lugar de
“ateu”, usar “não cristão”. Se for o caso, permaneça com ele/ela, não se
separe. Não se preocupe com os eventuais filhos desse casamento, que não serão
batizados, mas serão puros (1Cor 7, 13-14). Se ele morrer, fique viúva. Mas se
quiser casar de novo, não cometa a besteira de se casar com outro ateu.
O certo mesmo seria ficar virgem (homens e mulheres), não
entrar nessa seara tão delicada, tão dialética… Eu creio que, se Paulo dissesse
uma coisa dessa na frente de Jesus, levaria uma bronca: “Cara, você tá querendo
melar aquele meu mais genial bordão, aquele do crescei-vos e multiplicai-vos?!”
Agora vejam só a motivação de Paulo: quem não tem esposa,
cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Senhor. Quem tem esposa,
cuida das coisas do mundo e do modo de agradar à esposa. Da mesma forma, a
mulher não casada agrada ao Senhor e a mulher casada agrada ao marido (1 Cor 7,
32-34). Paulo deve ser o padroeiro dos padres.
Ah, mulher, você estava achando Paulo um amor de equidade de
gênero, é? Segura então os versículos 21 a 24, do capítulo 5, da Carta aos
Efésios: “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres o sejam
a seus maridos, como ao Senhor, porque o homem é cabeça da mulher, como Cristo
é cabeça da igreja e o salvador do Corpo. Como a Igreja está sujeita a Cristo,
estejam as mulheres em tudo sujeitas aos maridos”.
Conflito santo
Sim, sim, vou tratar de uma briga santa. Uma briga de santo.
Entre santos. Uma briga entre São Pedro e São Paulo.
Tudo bem que eles ainda não eram santos, na época em que
isso se deu, mas já estavam se esforçando bastante para se credenciarem à
santidade e, além do mais, foi às barbas do Pai. Foi, então, uma briga entre o
papa e um arcebispo. Aliás, não vejo motivo de escândalo, o que mais ocorre
neste mundo, desde que inventaram o catolicismo, é briga entre papa e
arcebispo.
Logo após o bafafá de Jesus em Jerusalém, todo mundo que
tinha tino comercial viu claramente o novo filão: meter o pau nos judeus e
elogiar os seguidores de Jesus dava muitos views e likes. E
aqueles comerciantes já sabiam, apesar de Adam Smith ainda não ter nascido, que
o que faz sucesso dá dinheiro.
Aí devem ter sondado Pedro, que era a maior liderança dos
seguidores do crucificado, devem ter sondado João também quando viram que Pedro
era meio lerdo e, enfim, concluíram que, se dependessem daqueles doze, não
teriam futuro.
Acho que foi então que perscrutaram um tal de Paulo, judeu
meio sistemático. Jesus, lá de cima, já havia chegado à mesma conclusão dos headhunters e adiantou o trabalho, nem
esperou Paulo chegar a Damasco.
Bom, resumindo, juntaram uns especialistas romanos para
assessorar a turma, como juristas, economistas, publicitários, incluindo alguns
gregos na parte cultural propriamente dita, notadamente uns editores, e
estruturaram a hierarquia católica.
Deixaram para eleger o papa só quando o Vaticano ficasse
pronto, principalmente aquela lareira e respectiva chaminé de onde sai a fumaça
branca, e aquela varanda de onde anunciam o nome do escolhido. Mas já dividiram
o mundo em dioceses, Pedro ficou com a arquidiocese de Jerusalém, onde estava o
filé dos fiéis, e Paulo com o osso: a arquidiocese do estrangeiro (mas com
grande potencial...).
O que Pedro fazia numa só cidade, Paulo tinha de viajar o
mundo inteiro para fazer. Retardatário e arrependido sofre.
Acontece que no território de Pedro só tinha judeu, enquanto
no território de Paulo só tinha gentio. Na época, gentio era tudo que não fosse
judeu. Até aí tudo bem, acho que Pedro – assim como Fidel Castro – não botava
muita fé no estrangeiro, não estava muito interessado em implantar o comunismo
no mundo inteiro e aquele arranjo de manter Paulo fora de Cuba foi bem
providencial, aquele chato…
Mas Paulo, mais que um arcebispo, era um general; não, um
eficaz guerrilheiro, um guerrilheiro do evangelho. Evangelho era a boa nova, a
Notícia Nova. Pregar e propagar o Evangelho consistia simplesmente em sair
mundo afora, contando as safadezas dos judeus para com Jesus e, de quebra, a
falar do estilo de vida dele e de como agiria nessa ou naquela nova situação.
Paulo, como todo vira-casaca, era um ardoroso defensor do
evangelho. Ardoroso e incansável, destampou a conquistar fiéis e fundar filiais
em meio mundo – para provar que realmente havia virado a casaca, Antioquia,
Éfeso, Corinto, Filipos, Colossas, Galácia, Tessalônica –, só em Atenas foi que
ele deu com os burros n'água (por isso não existe nenhuma Carta aos Atenienses no
Novo Testamento!). Ainda, cobrava o dízimo e mandava uma parte para Roma, de
tal maneira que, num congresso em Jerusalém, chegou todo cheio de moral; quem
financia fala grosso.
Pedro, que já se sentia eleito papa, ficou com a pulga atrás
da orelha. Mas Paulo, hábil, percebendo a ciumeira de Pedro, convidou-o para ir
com ele a Antioquia. Ora, todo cacique fica desarmado diante do convite de um
emergente cabo eleitoral para visitar suas bases. Ainda mais quando lá é
recebido com honras de chefe. Foi o que Paulo preparou para Pedro, lá em
Antioquia. Acontece que Paulo era uma raposa velha. E Pedro, coitado, era um
santo.
Pedro, diante da ousadia e do informalismo de Jesus, também
era informal. Mas, diante do legalismo dos judeus, depois que Jesus se fora,
passou até a defender a operação de fimose para todo mundo, sem nem esperar o
pinto crescer.
Mas sobre isso, Paulo era intransigente. Ora, se Paulo fosse
obrigar os gentios a operar da fimose até aqueles que não precisavam, juntaria
meia dúzia de gatos pingados e o povão baixaria noutra freguesia, em que não
houvesse essa idiossincrática exigência.
Aí, lá em Antioquia, Pedro à vontade no meio dos gentios,
comendo até carne de porco, que dirá as picanhas da friboi, lembrando os bons
tempos de Jesus, quando chegam seus assessores, judeus, claro.
Aí Pedro se retrai, diz que só come alimentos kosher,
durante os batizados recomenda às mães que operem o pintinho do bebê. Aí Paulo
sobe nas tamancas (e isso em alto e bom som, amplificado pelo teto alto da
igreja, bem na hora que ela estava cheia de fiéis): “Se tu, sendo judeu, vives
à maneira dos gentios e não dos judeus, por que forças os gentios a viverem
como judeus?” (Gálatas, 2, 14). Tudo bem, se você quiser ser hipócrita, pode,
mas não aqui. Vá ser hipócrita lá em Jerusalém!
O fato é que, dessa contenda, sabe qual foi o resultado?
Pedro conseguiu ser eleito papa, acho que Paulo não viu problema nisso ou a
maioria dos eleitores estava de acordo com o que ele foi ser em Jerusalém, mas
Paulo conseguiu levar o Vaticano para Roma, sede da sua arquidiocese e do mundo
gentio.
Longanimidade na Parusia
Nem sei se é vantagem conhecer Longanimidade e Parusia. Mas
acho que a única maneira de as conhecer é lendo a Bíblia. A palavra aparece,
você faz de conta que não viu e continua. Daí a pouco, outra vez. Você continua
sonso, deixando-a pra lá. Mas a tal é tão insistente que chega uma hora que
você se rende e vai ao dicionário. Longanimidade é, essencialmente, a qualidade
de quem tem saco sem fundo. Sim, saco sem fundo, aquele que não enche nunca.
Sabe essas pessoas que pegam ônibus, trem, dois metrôs e
outro ônibus e chegam ao trabalho duas horas depois para ir, e outro tanto para
voltar, todo santo dia? E no sábado, se algum amigo pergunta, responde que a
vida até que é boa? Então, esse é um sujeito longânimo. Sim, se quem pratica a
magnanimidade é magnânimo, quem nunca fica com o saco cheio é longânimo. O
longânimo sempre é magnânimo, mas o inverso nem sempre é verdadeiro.
O longânimo é uma rocha de firmeza em seus propósitos, mas
toda vez que me deparo com um espécime dessa categoria fico com a pulga atrás
da orelha. Porque a longanimidade é coisa de gente santa. E santidade me lembra
alma: Um longânimo seria um santo com alma de pedra. Porque o sujeito é tão
paciente e tão altruísta que até sua alma não se abala. Seria então uma alma
fixa. Ou alma rígida. Uma alma tão evidente, tão palpável, que chega a pesar.
Ora, se pesa, não é alma, e o cara é um desalmado calculista dos infernos!
Já Parusia só não aparece escrita com destaque na parede de
toda igreja porque faria os pernósticos saírem para consultar o dicionário.
Porque o que ela significa é o único motivo da religiosidade daquele povo: o
retorno majestoso de Jesus.
O cidadão pode justificar sua prática e fé religiosa com mil
argumentos, todos plausíveis, mas no fundo, no fundo, ele só está querendo
salvar sua alma do fogo do inferno (nem sei por que tanta preocupação,
considerando que, no inferno, tem até gelo para contrabalançar, segundo Dante).
Sim, porque nessa segunda visita que Jesus fará a nosso
planeta, a coisa vai ser diferente: já vai nascer numa família bilionária de
pais que, além de podres de ricos, dominam boa parte do poder mundial. Se a
Parusia fosse no próximo ano, era bem capaz que um anjo baixasse do céu e fizesse
Hillary Clinton parir Jesus.
Se Sara pariu Isaac depois de velha, Hillary, com os
recursos atuais, o faria com mais facilidade. Mas se demorar uns três anos,
acho que Jesus vai preferir algum casal chinês da alta cúpula do Partido, Deus não
teria problema algum com o partido único.
Na Parusia, Jesus vai chegar arrebentando e julgando, sem dó
nem piedade, daí por que nascer rico. Espero que ele não venha com aquela mania
dos antigos, de lembrar como foi no seu tempo quando a gente reclamar de algum
castigo.
Quanto à Teodiceia, é sua vez de ir ao dicionário. Mas, de
repente, a palavra me esclarece por que Deus, apesar de bom e, ao mesmo tempo,
todo-poderoso, permite o Mal. Por que não acabar logo com o Diabo, o Deus que
tudo pode? Ora, porque se o mocinho matar o bandido no começo, o filme perde a
graça.
Outro palavrão: apostasia
A Apostasia precederá a Parusia. Legal, né? Tudo bem:
Apostasia é o abandono da fé. Vamos falar claramente sobre a tática de Paulo –
mais do que qualquer outro apóstolo – para conquistar tantos fiéis. Ele chegava
no meio dos ímpios e já ia expulsando algum satanás.
Ora, o que não falta onde tem muitos ímpios é satanás. Vai
ali na Praça da Sé pra ver o tanto de gente encapetada zanzando por lá. Ímpio
para Paulo era gente sem rumo, gente sem Deus. Gente encapetada, para nós, é
gente sem rumo, guiada pelo capeta.
Em geral, os capetas mais fracos são os mais escandalosos,
Paulo os botava pra correr rápida e facilmente. Em seguida, Paulo lançava a
ideia central, sem meias-palavras: “Cristo vem aí! Venha para a igreja enquanto
é tempo. Quando ele já tiver chegado, será tarde. Enquanto ele não tiver
chegado, sempre será possível perdoar seus pecados, é só confessá-los”.
Em todas as epístolas de Paulo, a conversa é essa: aos
Tessalonicenses ele escrevia que Cristo só não havia chegado ainda por causa
dos políticos reformistas, esses com preocupações sociais, que estavam
segurando as maldades do Satanás (2 Ts 2). Por exemplo, um político que boicota
o combate à Covid-19 apressa a Parusia… (Quem espera com ânsia a Parusia tende
a gostar de quem atrapalha o combate à pandemia).
Escrevia: quando os neoliberais de índole fascista dominarem
tudo, Satanás aparecerá, com toda sorte de portentos, milagres e prodígios
mentirosos (2 Ts 2, 9).
Quando você começar a ver mais de 20% de cidadãos declarando
ao Censo que não têm religião na maior cara dura, o Congresso aprovando o
divórcio e o aborto, as mocinhas descobrindo a cabeça e usando minissaia,
filósofos e físicos substituindo padres em esclarecimentos à população pela TV,
capetas e descrentes por toda parte à luz do dia, pode saber que o fim tá
próximo, Cristo não demora.
Aí, a primeira coisa que você deve fazer é ficar longe desse
povo (2 Ts 3, 6). E rezai, irmãos. E rezai mais ainda para que Cristo esteja de
bom humor, quando chegar! E rezai, irmãos, para que aquela humilhação lá de
Jerusalém ainda não lhe esteja atravessada na garganta.
Eu sei que, depois das ameaças de Paulo, pouca gente tinha
coragem de voltar para casa sozinho e isso explica a conversão de meio mundo ao
catolicismo (a outra metade do mundo não se converteu porque Paulo não passou
por lá com as ameaças da Parusia…).
De fato, Jesus voltaria rápido mesmo, não fora os romanos
destruírem Jerusalém, uns 30 anos depois da sua morte. Vendo Jerusalém pegar
fogo, Jesus se acalmou.
Sorte nossa. Se ele voltar agora, vinte séculos passados,
acho que vai voltar bonzinho. O perigo é essa quantidade de cruzes com a
estátua dele pregada reavivar sua memória. A sorte é que aquele cara pregado lá
é um europeu – ele não vai entender nem se reconhecer –, porque se fosse um
árabe, estaríamos ferrados.
De hebreus e gentios
Já contei sobre as arquidioceses de Pedro e de Paulo. A de
Pedro era pequena, mas densa. A de Paulo era extensa, mas rala. Densa e rala de
gente, de fiéis em potencial.
Pedro parecia um burocrata, tamanha a facilidade de acesso
ao rebanho; acho até que se podia dar ao luxo de ir almoçar em casa todo dia.
Além do mais, seu rebanho era constituído por ovelhas acostumadas com pastor
desde Moisés, no mínimo, para não nos estendermos antiguidade afora.
Paulo, porém, tinha de viver viajando, arregimentava uns
gatos pingados na Síria, embarcava num barco a remo até a Macedônia, por
sabe-se lá quantas semanas de viagem, arregimentava mais uns gatos pingados em
Tessalônica, mais outras tantas semanas até Corinto... Vê se isso é vida!?
Certa feita, seu barco naufragou, ele só não morreu porque Deus tava atento.
Mas Paulo tinha uma vantagem: pregava aos gentios, aquele
povo ingênuo nas idiossincrasias de Deus. Enquanto Pedro tinha de argumentar
exaustivamente com gente que não só conhecia a Lei, mas a burocracia toda, e
não podia nem pensar em consertar a torneira de casa no sábado tampouco comer
um torresmo no boteco, Paulo vivia pelo mundo sem nenhum judeu no cangote a
cagar mesquinhas regras.
Porém, à medida que Paulo foi ficando famoso, graças ao seu
sucesso de público, mais os judeus esparsos pelo mundo iam lhe atravessando o
caminho, em censuras e contra-argumentos. O pior era quando aparecia um judeu
desgarrado no meio dos ímpios, aí entrava areia na engrenagem de convencimento
de Paulo.
Vejam se tinha cabimento: enquanto Paulo dizia que Jesus
voltaria, poderoso, para castigar os pecadores, o judeu retrucava que Jesus
estava mortinho e enterrado lá em Jerusalém.
Chegou uma hora que Paulo resolveu escrever uma carta aos
hebreus. Mas, diferente das outras cartas, nessa ele caprichou mais.
Aos coríntios e aos efésios, aqueles ignorantes, bastava o
catecismo básico; Timóteo e Tito eram seus subalternos físicos e intelectuais,
podia escrever-lhes qualquer coisa que eles engoliam. Mas aos hebreus era
diferente, aquele povinho manhoso, cheio de zelo com seus rolos de pergaminho
de sabe-se lá quais priscas eras.
Na arenga com os judeus, Jesus era sacerdote, a igreja
virava templo, a conversa com Deus era aliança, e não havia cruz, havia
sacrifício. Passava ao largo de apóstolo, corpo, cemitério ou sepulcro e já
colocava Jesus lá em cima, do lado direito do Pai.
Não adianta nada vocês se empaparem com sangue de boi e de
carneiro, Iahweh não dá a mínima para isso, escrevia ele; sacrifício pra valer
foi o nosso: o sangue do seu filho, num oferecimento único e eterno, que limpou
o mundo numa tacada só.
Enquanto vocês ficam aí todo sábado nessa matança de
animais, parecendo um frigorífico, nós oferecemos nosso cordeiro para salvar o
mundo. Enquanto vocês se esfalfam nessa sangrenta e semanal lavagem literal,
nós resolvemos a parada numa única e asséptica, e seca, lavagem figurada.
Antes, Paulo só se alongara tanto com os coríntios, por
causa de uns filósofos que também lhe enchiam o saco; agora, com os hebreus,
era diferente: encheu a carta de citações bíblicas e passagens proféticas para
impressionar aquela cambada.
Cansado de argumentar no varejo, tentava convencê-los no
atacado e por escrito, trabalhando com a linguagem e a simbologia deles. Chegou
a ter a cara de pau de lhes escrever que Jesus poderia lhes ser agradável.
Cartas de outros
Epístola de São Tiago (Tg)
Primeira epístola de São Pedro (1Pd)
Segunda epístola de São Pedro (2Pd)
Primeira epístola de São João (1Jo)
Segunda epístola de São João (2Jo)
Terceira epístola de São João (3Jo)
Epístola de São Judas (Jd)
Irmãos de Jesus
Realmente, não fica bem uma virgem com uma penca de filhos.
Quanto a uma virgem ser mãe do filho de Deus, tudo bem porque, como sabemos, a
Deus tudo é possível. Mas, quem diria, as epístolas de Tiago e de Judas… Esse
Tiago e esse Judas são irmãos do Senhor Jesus! Aliás, havia também José e
Simão, fora as irmãs… (Mateus 13, 55 / Marcos 6, 3). Irmãos de sangue!
Esse Tiago – São Tiago –, além de escritor bíblico, foi
arcebispo de Jerusalém, figura maior da Igreja naqueles primeiros tempos.
Quanto a Judas – São Judas –, acho que era um escritor diletante, sem querer
conversa com a hierarquia em que seu irmão (não o crucificado) se dava tão bem.
Então, alguém da Igreja, muitos séculos depois, numa espécie
de nepotismo póstumo, para agradar seus dois irmãos bambambãs (Tiago e Jesus –
que já haviam morrido, mas continuavam ativos e muito vigilantes, lá de cima),
incluiu um seu escrito de pouco mais de uma página, no cânone católico, e temos
a Epístola de São Judas, penúltimo livro do Novo Testamento, imediatamente antes
do Apocalipse.
Bem, esse negócio de cultuar pessoas mortas, transformá-las
em santas, é uma coisa muito séria, para não dizer ridícula. Dia desses estava
eu passando por dentro do Cemitério da Consolação, em São Paulo (faço isso, às
vezes, em minhas caminhadas de 10 quilômetros pela cidade), quando vi algumas
pessoas em trajes vistosos próximas a um túmulo.
Curioso, vi que se tratava do túmulo de Plínio Correa de
Oliveira que, quando vivo, cultuava sua mãe como santa. Agora, os fiéis cultuam
sua mãe e ele próprio como santos. Quem sabe, daqui a uns 200 anos, esses
fiéis, se forem bem-sucedidos, não façam vitoriosa a narrativa de que Plínio
foi o próprio sucessor de Jesus Cristo? (Claro, se os outros deixarem eles
contarem a história sozinhos.)
Então Maria, mãe de Jesus, Judas, José, Tiago e Simão (além
de várias filhas mulheres, cujos nomes não ficaram registrados porque, afinal,
no mundo retratado quem manda e quem escreve e quem edita são os homens),
morreria de rir se soubesse que, alguns séculos depois, a transformariam numa
virgem de filho único feito de longe.
Mas esses proeminentes irmãos de Jesus indicam algo
surpreendente para um católico ignorante: a família era do ramo!
O irmão de Jesus era rabino
Quer dizer, isso é o que deduzo, a julgar pelo que escreveu
em sua epístola. Sim, a Epístola de São Tiago. Não sabia que esse tal São Tiago
era também filho de Maria, irmão de Jesus? Pois os evangelistas Mateus e Marcos
garantem que sim.
Tudo bem, tô sabendo que o padre foge dessa conversa, mas tá
lá escrito na Bíblia, fazer o quê? Era filho de Maria e não era filho de nenhum
anjo, logo, devia ser filho de José ou de um seu sucessor deveras humano,
equipado com um sistema sujo de reprodução…
Tiago foi o arcebispo de Jerusalém, responsável portanto
pelo rebanho mais acostumado com as práticas judaicas. Ou Tiago era judeu
demais para cair no mundo a falar mal dos judeus e preferiu ficar por lá mesmo.
Enfim, não sei se por conveniência ou por convicção, o fato é que Tiago
permaneceu no país natal, a mediar as divergências e concordâncias entre a
velha e a nova ordens religiosas, apesar da injustiça feita por seus confrades
contra seu irmão.
Acho, então, que foi por isso que Tiago escreveu, em
oposição ao palavrório dos cristãos novos da época, que era contra a
intemperança na linguagem. De fato, veja: “Se alguém pensa ser religioso, mas
não refreia a língua, antes se engana a si mesmo, saiba que sua religião é vã”
(Tg 1, 26).
Como sabemos, os rabinos são discretos; ao menos esses
nossos, do bairro de Higienópolis, nunca vi nenhum fazendo pregação na TV ou na
praça. E também não era qualquer um que podia sair por aí dando uma de pastor;
tinha de ser, no mínimo, da família dos levitas.
Tiago também pregou contra os ricos. Dizia que a condição de
ricos era como o vapor, que se vê por alguns instantes, depois logo se desfaz
(Tg 4, 14). Os judeus eram tão ciosos da igualdade econômica que hoje seriam
tachados de comunistas radicais.
Aliás, acho que ainda são assim até hoje. O detalhe nada
desimportante e todo contraditório é que essa igualdade só vale para os membros
da comunidade, ou seja, os escolhidos de Iahweh. Os ímpios, os gentios, os
pagãos, os infiéis, os goy que se lasquem no proletariado! Que se lasquem,
trabalhando para os preferidos de Deus…
Outra de Tiago: Fé sem obras não vale nada (Tg 2, 14). Se
Abraão não tivesse agarrado seu filho Isaac pelo cangote, estendido seu pescoço
sobre o cepo, levantado o cutelo e já o ir baixando para cortar de verdade,
Iahweh não se teria sensibilizado e, quem sabe, tivesse escolhido os etíopes,
sei lá, como seu povo eleito.
Mas vendo aquele doido disposto a transformar a fé em obra,
não teve dúvidas: escolheu a descendência dele para favorecer. O problema é que
Tiago considera “obras” essa coisa de visitar doentes em hospital e defuntos em
velório, sabe esses proselitistas neopentecostais e essas freiras que vêm
encher o saco quando estamos internados ou quando estamos velando um parente
morto?
Claro que, como bom puxa-saco do irmão morto, Tiago dizia
também que é a fé que leva à obra. Sei lá, acho que Tiago não falava besteira:
ter excelentes ideias e não as pôr em prática não adianta nada; e toda prática
tem uma ideia por trás.
Pedro, o imarcescível
Tenho culpa se ele escreve duas vezes Imarcescível em apenas
sete páginas? Entretanto, vejam só, imarcescível tem tudo a ver com pedra, que
nada mais é que pedro. Já escrevi aí atrás que, em hebraico ou grego, sei lá,
pedro e pedra são uma palavra só, com a mesma grafia e significado; e pedro
(pedra) é apelido, colocado em Simão, que virou Simão Pedro e, depois, só
Pedro.
E sabe quem pregou esse apelido em Simão? Jesus! Mas claro
que não foi por bullying, mas por
premonitória conveniência: pedra, a base sólida sobre a qual seria edificada a
Igreja. A Igreja que, solidamente apoiada, seria imarcescível. (E fico
pensando: como os tradutores descobrem essas palavras em nossa língua?)
Aliás, não seria adequado traduzir – ou adequar –, no caso
das comunicações de São Pedro, de “epístola” para “encíclica”? Porque Pedro, em
sua primeira epístola, dirige-se aos estrangeiros da dispersão no melhor estilo
papal. E, para não variar, com conselhos reacionários: “Sujeitai-vos a toda
instituição humana...” (1 Pd 2, 13). Tributai honra ao rei. Tributai honra ao
patrão. “Vós, criados, sujeitai-vos, com todo o respeito, aos vossos senhores,
não só aos bons e razoáveis, mas também aos perversos” (1 Pd 2, 18). Mulheres,
sujeitai-vos aos vossos maridos (1 Pd 3, 1). Jovens, sujeitai-vos aos anciãos
(1 Pd 5, 5).
Mas, calma! Agora vem a fraternidade: sejam compassivos,
cheios de amor fraterno (1 Pd 3, 8). Essa fraternidade pretende resumir todas
as exortações precedentes. Bastava ao rei, ou ao patrão, ou ao senhor, ou ao
marido, ou ao ancião, terem espírito fraternal para evitar eventuais excessos
de autoridade! Claro que faltava combinar com a outra parte…
Claro que, ainda para não variar, Pedro registrava também o
tema da ressurreição de Jesus e do Fim do Mundo porque, afinal, sem Juízo Final
não há monoteísmo que prospere. Interessante, porém, é que Pedro afirma que
esse tão temido Fim dos Tempos, que leva tanto ingênuo à conversão pelo medo,
já havia se dado, ou ao menos se iniciado, com o nascimento de Jesus (1 Pd 1,
18-21).
Ainda bem que os propagandistas vindouros consideraram o
dito pelo desdito do primeiro papa, reforçaram as certezas e ameaças futuras de
São Paulo e conseguiram preencher todas as praças centrais de todas as cidades
do Brasil com uma igreja no meio. E, atualmente, uma lojinha de vender salvação
em cada quarteirão.
Porque, não se enganem, essa separação entre católicos e
protestantes é simples briga comercial de subalternos.
São João: do foguetório ao fogo
Sabiam que São João é o fundador da Deus é Amor? E se houver
uma com a denominação Deus é Luz, foi ele que fundou também. São João não tem
nada de festeiro, mas de terrorista. Terrorista no sentido de nos amedrontar. Ele
foi muito mais efetivo do que o verborrágico São Paulo em suas ameaças.
Enquanto Paulo repetia, a cada três versículos das suas
inúmeras cartas, que era pra gente se converter antes do Juízo Final, João já
tratou de escrever (e bem escrito) um livro especial sobre o tema: o
Apocalipse! E
ali, no Apocalipse… bem, isso será tema da última crônica.
João nos chama de filhinhos: filhinhos, cuidado com o
Anticristo! É filhinho pra cá, filhinho pra lá, e tome-lhe ameaça do fogo do
inferno. “Filhinhos, é chegada a última hora” (1 Jo 2,18); filhinhos, aquele
que comete o pecado é do diabo; aquele que odeia seu irmão é homicida;
filhinhos, guardai-vos dos ídolos.
E, se nós somos todos filhinhos de João, temos de tomar
cuidado com os filhinhos do Diabo. Porque João deixa claro: há os filhos de
Deus e os filhos do Diabo (1 Jo 3, 10). E aí temos aspecto não denunciado, mas
preocupante, para nosotros mui amantes desta terrena vida: filho de Deus é do
Além; filho do diabo é deste mundo.
Você gosta do dinheiro e de tudo que ele pode comprar? Filho
do Puto! Da indicação de um político para arranjar um bom emprego? Filho do Cão!
Gosta de ar-condicionado? Filho do Capeta!
“Meus filhinhos, isto vos escrevo para que não pequeis; mas,
se alguém pecar, temos como advogado, junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 Jo
2, 1). Acreditam em mim, depois dessa, que ele foi fundador de algumas dessas
lojinhas de meio de quarteirão, especializadas na venda de passagem para a
alma? E se você frequenta uma dessas lojinhas levando a Bíblia debaixo do braço
e se gabando de conhecer bem as escrituras, mas vive de espertezas comerciais e
lucros mal explicados, saiba que você é um mentiroso (1 Jo 2, 4).
E se você é desses que prega a palavra em praça pública por
conta própria, sem dar satisfação nem repassar a grana a nenhum bispo, você
deve ser um dos inúmeros anticristos que pipocarão nos Últimos Dias.
Meus filhinhos, Deus é Luz (1 Jo 1, 5-7). Acho que aqui
nesse trecho João nos chamou de cara de pau. Sabe nós, que só porque lemos
dezoito livros na vida, nos julgamos ilustrados? Pois na lenga-lenga de luz e
trevas, João, muito sorrateiro, acho, quis nos dizer que o brilho de alguém
ilustre é semelhante ao das madeiras enceradas e lustradas, mediante muita
escova e pano.
Sim, João nos chama de cara de pau. Em contraposição, ele
propõe que, para ser brilhante (ou iluminado), basta ter parte com Deus. E, não
digo ler, mas carregar pra lá e pra cá os 70 livros da Bíblia.
A comédia do Apocalipse
Enfim, o último livro do Novo Testamento, o Apocalipse (Ap).
Calma, não se trata de afirmar que o Apocalipse é uma
comédia. Digo, descobri, que a Comédia,
de Dante, se inspirou no Apocalipse, de João. Dante, descrente, não deixou por
menos já no título: Comédia; que
alguns desavisados, na tentativa de corrigir, ou atenuar, ou disfarçar,
acrescentaram: Divina.
O Apocalipse é de um profeta (embora Jesus tenha dito que o
último dos profetas teria sido o xará João Batista…), enquanto a Divina Comédia é de um… comediante.
Este, contudo, guiado por um poeta pagão; aquele, por Deus.
O Apocalipse foi feito no capricho e na encomenda, ampliando
e exagerando os profetas do Antigo Testamento. Isaías, Jeremias, Ezequiel e
Daniel soam amadores perto de João e sua assessoria vaticana. Mas o modelo e o
cenário são os mesmos.
É como se os profetas nos narrassem um desses videozinhos
que vemos toda hora no smartphone,
enquanto João nos narra um longa-metragem de superprodução no cinema. E tome-lhe
Besta, Dragão e… Mulher! E o homem no meio, como bebezinho indefeso… mas
protegido por Deus. E tem até para os adeptos do jogo do bicho: o número da
Besta é 666 (Ap 13, 18). Mas o número forte é o doze, em disputa com o sete.
Como se sabe, os apóstolos passaram os 50 anos seguintes à
morte de Jesus contando a crueldade dos judeus e a indiferença dos romanos para
com a execução de um inocente. E a injustiça foi tamanha que Deus se
compadeceu, ressuscitou o injustiçado e nomeou-o chefe da casa civil, e
prometeu vingança: Que esperassem, porque, mais dia, menos dia, mandaria o
próprio para ajustar contas (e não como aquele doce de paz e amor da primeira
vez, mas como um rei imponente e absolutista).
Os apóstolos passaram aquele meio século ameaçando: o Dia do
Senhor (Parusia) está próximo! Falavam com tanta ênfase, que o povo entendeu
como convicção e acreditou e se converteu em massa. Mas o tempo foi passando e
nada de Parusia, nenhum rumor aéreo indicativo de qualquer rei poderoso vindo
do céu para nos julgar.
O povo começou a desconfiar de que caíra no conto do Juízo
Final. Então chegava o apóstolo, já velhinho, mas ainda raivoso, que havia
contado piadas com Jesus, privado da sua amizade terrena, com aquela veemência
dos indignados, e o povo fiel se aquietava.
Entretanto, os apóstolos foram morrendo e a convicção dos
sucessores já não convencia como antes. O povo se foi revoltando, e mais se
revoltava quando um dos sucessores, mais prático, dizia que o tal dia já se
dera com a destruição de Jerusalém, havia pouco (ano 70). Quando algum pastor
desavisado vinha com essa desilusão, o povo quebrava tudo e ia procurar um
substituto.
A situação começava a ficar insustentável e o Vaticano, para
alívio geral, achou um conveniente escrito do apóstolo João, ao qual deu o nome
de Apocalipse. Capricharam na linguagem, exageraram no simbolismo – o povo
gosta de uma charada –, acrescentaram cenas e personagens e o fato é que o povo
sossegou e, passados vinte séculos, continua firme na esperança do Dia da
Justiça.
Bem, de minha parte, dito nesses termos – Dia da Justiça –,
até embarco nessa. Mas se algum malandro vier para cima de mim com aquela velha
conversa de arrependei-vos enquanto é tempo, ou antes que seja tarde, estendo-lhe
na fuça os vinte séculos próximos passados e grito: polícia! Feiquinius!!
Sobre o autor
ROBERTO DONIZETE BUZZO nasceu em 1956 em Guaraci, noroeste
do Estado de São Paulo. Este é seu quarto livro de crônicas. Em 2006, publicou
Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado. Em 2018
publicou Um milhão de passos pensos, no Picadão de Cuyabá(formato digital). Em
2019, publicou Média & Pingado 130 crônicas amarelas(digital). Contato: robertobuzzo@gmail.com
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