O TOMBO
Você acredita que um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar? Um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar – jamais – não se trata de acreditar ou não, não é uma questão de fé, mas de lógica. É uma verdade aristotélica que um raio não pode cair duas vezes no mesmo lugar, pelo simples fato de que um raio não pode cair duas vezes. A menos que ele caísse, levantasse, voltasse às nuvens, caísse novamente. Entretanto, dois raios podem cair no mesmo lugar, sim.
Foi o que aconteceu comigo esta manhã, quer dizer, não raios, mas algo equivalente em termos destrutivos.
Me refiro a dois tombos, provocados pela mesma raiz, num espaço de vários meses entre eles. Quem corre quase todo dia sabe do que estou falando, pois não conheço nenhum que não tenha caído pelo menos uma vez. A menos que corra numa pista imaculadamente plana, sem nenhum morrinho indevido, nenhuma protuberância intrometida, nenhum desnível imprevisto, nenhuma árvore por perto e isso é impossível, na prática.
Quanto aos efeitos destrutivos, os tombos são severos. O cidadão pode escapar de problemas físicos, pode sair sem ao menos um arranhão, mas não escapa da desmoralização. Eu sei bem o que é isso, já caí umas... já perdi a conta. Daí porque hoje me senti apenas levemente desmoralizado, quando tropecei pela segunda vez na mesma raiz e, igualmente, fui ao chão pela segunda vez no mesmo lugar. Foi na pista externa do Ibirapuera, com a qual estou muito familiarizado. O pior é que a tragédia se dá quase em câmara lenta e o cidadão acostumado tem muito tempo pra pensar entre o instante do tropeção e a aterrisagem.
No átimo de segundo da topada, pensei duas coisas: que era a segunda vez e que eu ia, inevitavelmente, cair e esfolar as mãos e os joelhos e, se tivesse sorte, esfolaria apenas um deles. Quando a vítima, correndo, projeta seu centro de gravidade além do permitido – o que é feito com o tropeção -, o tombo é inevitável. Mas não o estrago físico, como ficou constatado hoje. Imediatamente acionei todos meus dispositivos, recuei os joelhos, avancei as mãos de maneira a acompanharem o corpo, mudando rapidamente de posição no solo, evitando que arrastassem nele, num movimento semelhante à frenagem de um automóvel com freios ABS. O fato é que levantei ileso e isso contrabalançou o prejuízo. Salvo a ferida na alma.
Nenhum comentário:
Postar um comentário