sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sujeito problemático.

Sujeito problemático

     Sabe esse sujeito aí da mesa ao lado, com a barba de três dias...? Sujeito problemático! Sujeito problemático é esse que vai trabalhar com a camisa mal-passada, manchada, amarrotada. Se a roupa estiver suja ou rasgada, piorô. Eu cheguei a ouvir, de gente adulta, a expressão: “é pobre mas limpinho”. Sujeito problemático é quem fala “é pobre mas limpinho”. Aliás, não precisa nem falar, basta pensar. Pensou na mulher do vizinho? Sujeito problemático!

     Sujeito problemático é esse cara de camisa vermelha ou estampada com motivos deveras expressivos, com essa tatuagem no biceps e esse pedaço de cobre atravessado no nariz.  É esse que vai ao cabeleireiro toda semana, que passa horas escolhendo shampus na gôndola do supermercado. É esse que antes mesmo de entrar no elevador já mira a própria imagem no espelho e só desgruda dela quando a porta automática se fecha. Problemático é a caspa salpicando os ombros do terno escuro.

     Uma protuberância abdominal avantajada é sintoma de sujeito problemático. Gengiva sangrando, verruga no nariz. Taxa de colesterol alta, arritimia cardíaca. Pressão alta, tontura. O barbudo com os pêlos bem aparados  não tem problema, mas essa barba enorme que não vê qualquer objeto cortante há semanas é muito problemática. Sujeito problemático é esse que tem quatro resfriados por ano, que apresenta uma curva glicêmica oscilante, é esse que sabe de cor mais de quatro marcas de remédio, é o obeso mórbido.

     Sujeito problemático é esse que tem o nome no serviço de proteção ao crédito, é esse que pede dinheiro emprestado ao colega, é quem  tem conta em mais de um banco, a carteira recheada de cartões. Sujeito problemático é esse que tem milhões, é quem tem um mordomo, é quem não tem bunda.

     Pensar muito em mulher é forte indício de problema. Pensar pouco também. Sujeito problemático é esse que tem uma geladeira em casa cujo motor parece uma tempestade atmosférica, que tem uma torneira pingando, um nenezinho chorando, um botijão de gás acabando. Cuja mulher não se dá bem com a matemática. Que pensa muito em gramática. Que entende arte abstrata, que adora literatura. Aliás, adorar qualquer coisa é problemático. 

     Sujeito problemático é quem usa óculos escuros, é quem chega atrasado, é quem está sempre ocupado. É quem tem carro com vidro fumê, com guicho na frente e engate atrás, parecendo um porco-espinho. Sugere problemas essas pessoas que vivem rindo e falando, esbanjando felicidade, e o mesmo se pode dizer dos sorumbáticos. Sujeito problemático é quem vive sempre perfumado, quem nunca teve um calo.

    
     Sujeito problemático é esse que está vivo. Não adianta você escanhoar sua barba diária e religiosamente, vestir uma camisa impecável de cor discreta e colarinho duro, ter com o nó de uma gravata a mesma familiaridade que tem com a escova de dentes. Não adianta cercar todas suas idiossincrasias, vigiar todos seus devaneios, distrair todos seus desgostos. Esmaltar as unhas, pentear cuidadosamente os cabelos, aparar as sobrancelhas... Você não consegue dar conta de todas as variantes à espreita. É como cercar uma enxurrada morro-abaixo, é uma bolha no pé, uma dor-de-dente, um corte no polegar, um pêlo no nariz,  um sapo que te assusta, uma salamandra que te causa náuseas, uma jararaca que te desmoraliza, é o imprevisto que se substantiva. Sujeito problemático é a base do romance moderno. Meu amigo, você não tem escapatória.

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