O
jovem estava produzido para atuar. Bem vestido, exceto pelo jeans
rasgado acima do joelho… aliás, taí uma coisa que não entendo. O
rasgo deve ser no joelho, na bunda, nos lugares em que o tecido é
massacrado entre o usuário e o banco, o muro, o chão. A minha
paranoica e nostálgica mente racional não concebe um rasgo na
altura da canela ou das coxas. No mais, o jovem estava impecável,
incluindo o cabelo rigorosamente desalinhado. A pele estava tão boa
que só podia estar oculta sob grossa camada de cremes.
Entrou
serelepe e sorridente pela porta, como se o vagão fora um palco.
Trazia debaixo do sobaco um violino, levando o arco à frente com uma
mão avançada, como fazem os magos e respectivas varas. A mão do
braço do sobaco do violino segurava, penduradas por cordéis, duas
caixas de similar tamanho, uma de som e outra de sapato.
Eu
sei que a palavra sobaco não fica bem numa crônica em que há
também a palavra violino. Porque uma é grossa, quase chula, e a
outra soa tão bem quanto o instrumento que nomeia. Uso sobaco em
homenagem à memória do tempo em que não conhecia a palavra axila.
Eu
sempre pensei que um violino fosse mais caro do que um violão. Vejo
on-line, contudo, que não é verdade. Em geral, os violinos são
mais baratos. Isso explica a proliferação de tocadores e tocadoras
de violino na via e na coisa pública. Sem contar que alisar é mais
fácil do que pinicar, logo tocar violino deve ser mais fácil do que
violão.
O
jovem depositou as duas caixas no piso e ligou a de som num
acompanhamento base de piano. Em seguida, posicionou seu instrumento
no pescoço, esticou os dois braços — um de cada vez, como fazem
os padres na hora de misturar o pão e o vinho dentro do cálice —,
plantou bem os dois pés no não tão sacolejante chão do moderno
trem e tascou a Ave Maria de Gounod, apesar de faltar ainda 2 horas
para a hora certa, que é às 6 horas da tarde, como sabemos.
Acontece
que o intervalo entre uma estação e outra é de cerca de 2 minutos
e toda música, discurso, reza ou venda deve caber nesse tempo,
porque toda atividade comercial deve ser silenciada quando a porta se
abre na plataforma onde pode estar à espreita um vigilante. O
violinista pulou ou adaptou alguns movimentos e a Ave Maria coube
direitinho entre a Armênia e a Tiradentes, fazendo por merecer
respeitosos aplausos da plateia viajante.
Aliás,
tenho notado certa boa vontade dos passageiros do metrô para com
esses empreendedores individuais, com exceção à militância
religiosa. Apressadamente, concluo que o povão é consumista e laico
e gosta de arte.
Quando
o violinista ia iniciar sua primeira flexão do tronco, para
agradecer aos aplausos e, em seguida, passar a caixa coletora, o
condutor do comboio tascou pelo som o aviso de que as atividades
artísticas estão proibidas no metrô, porque podem causar
acidentes.
O
jovem, respondendo ao anúncio, avisou a todos que a única
possibilidade da sua arte provocar acidente seria num aumento de
emoção capaz de provocar algum Acidente Vascular Cerebral ou
Cardíaco.
E,
sem coletar ou esperar qualquer contribuição ou réplica, saiu da
cena tão célere quanto entrara, mas cabisbaixo, deixando-nos
aflitos com o tratorista que nos conduzia.
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