domingo, 2 de fevereiro de 2020

O TRATOR E O VIOLINO.

O jovem estava produzido para atuar. Bem vestido, exceto pelo jeans rasgado acima do joelho… aliás, taí uma coisa que não entendo. O rasgo deve ser no joelho, na bunda, nos lugares em que o tecido é massacrado entre o usuário e o banco, o muro, o chão. A minha paranoica e nostálgica mente racional não concebe um rasgo na altura da canela ou das coxas. No mais, o jovem estava impecável, incluindo o cabelo rigorosamente desalinhado. A pele estava tão boa que só podia estar oculta sob grossa camada de cremes.
Entrou serelepe e sorridente pela porta, como se o vagão fora um palco. Trazia debaixo do sobaco um violino, levando o arco à frente com uma mão avançada, como fazem os magos e respectivas varas. A mão do braço do sobaco do violino segurava, penduradas por cordéis, duas caixas de similar tamanho, uma de som e outra de sapato.
Eu sei que a palavra sobaco não fica bem numa crônica em que há também a palavra violino. Porque uma é grossa, quase chula, e a outra soa tão bem quanto o instrumento que nomeia. Uso sobaco em homenagem à memória do tempo em que não conhecia a palavra axila.
Eu sempre pensei que um violino fosse mais caro do que um violão. Vejo on-line, contudo, que não é verdade. Em geral, os violinos são mais baratos. Isso explica a proliferação de tocadores e tocadoras de violino na via e na coisa pública. Sem contar que alisar é mais fácil do que pinicar, logo tocar violino deve ser mais fácil do que violão.
O jovem depositou as duas caixas no piso e ligou a de som num acompanhamento base de piano. Em seguida, posicionou seu instrumento no pescoço, esticou os dois braços — um de cada vez, como fazem os padres na hora de misturar o pão e o vinho dentro do cálice —, plantou bem os dois pés no não tão sacolejante chão do moderno trem e tascou a Ave Maria de Gounod, apesar de faltar ainda 2 horas para a hora certa, que é às 6 horas da tarde, como sabemos.
Acontece que o intervalo entre uma estação e outra é de cerca de 2 minutos e toda música, discurso, reza ou venda deve caber nesse tempo, porque toda atividade comercial deve ser silenciada quando a porta se abre na plataforma onde pode estar à espreita um vigilante. O violinista pulou ou adaptou alguns movimentos e a Ave Maria coube direitinho entre a Armênia e a Tiradentes, fazendo por merecer respeitosos aplausos da plateia viajante.
Aliás, tenho notado certa boa vontade dos passageiros do metrô para com esses empreendedores individuais, com exceção à militância religiosa. Apressadamente, concluo que o povão é consumista e laico e gosta de arte.
Quando o violinista ia iniciar sua primeira flexão do tronco, para agradecer aos aplausos e, em seguida, passar a caixa coletora, o condutor do comboio tascou pelo som o aviso de que as atividades artísticas estão proibidas no metrô, porque podem causar acidentes.
O jovem, respondendo ao anúncio, avisou a todos que a única possibilidade da sua arte provocar acidente seria num aumento de emoção capaz de provocar algum Acidente Vascular Cerebral ou Cardíaco. 
 
E, sem coletar ou esperar qualquer contribuição ou réplica, saiu da cena tão célere quanto entrara, mas cabisbaixo, deixando-nos aflitos com o tratorista que nos conduzia.

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