domingo, 12 de abril de 2020

O TERRAPLANISMO

Vamos supor que alguém de 1991 entrasse numa máquina do tempo e voltasse lá em 1891 e contasse, ao Henrique Dumont (que morreria um ano depois, em 1892), da existência do Antonov.
Para quem não sabe, Antonov é um avião cargueiro feito pela antiga URSS, que voou pela primeira vez em 1988, e pode decolar com 640 toneladas de peso bruto, equivalente a 21 jamantas de 30 toneladas cada.
Henrique Dumont foi um fazendeiro plantador de café, morador do interiorzão do Brasil; Henrique Dumont é o pai do Alberto, o do avião.
Claro que o pai do inventor do avião, lá do meio do seu cafezal, diria que era cascata, invenção, sonho.
Da mesma forma, se alguém do futuro contasse ao Alberto, o do avião, lá em 1920, que, em 2020, fazemos videoconferências por whatsapp, 3, 4 pessoas, cada um em uma cidade diferente, usando para tanto um aparelho similar em peso e tamanho ao seu relógio portátil, é muito provável que ele não acreditasse.
A incredulidade dos Dumont se deve à diferença de um século no tempo entre o informante e o ouvinte, alienados um do outro por 100 anos de história.
Mas, e se o pai do Alberto, o Henrique, viesse ao futuro dos dias atuais e nos contasse que nenhum objeto mais pesado do que o ar pode voar por impulso próprio?
É possível que os muito ignorantes acreditassem; os muito isolados, os muito desligados, os inexperientes, os alienados, os irascíveis. É possível que acreditassem os não tão ignorantes, mas que vivessem submersos num ambiente obscurantista, cheio de superstição e misticismo. A boa-velha caduca se rejuvenesce e ganha credibilidade junto a essas pessoas, ainda mais quando vem convenientemente embalada numa nuvem de fake news, num tempo de mulheres e homens e ideias e notícias brutas. Tempo de argumentos ligeiros e parciais, campo fértil aos charlatães.
A marginalização da maioria da população, através da desigualdade de renda e oportunidades e da miséria moral e intelectual, leva o país à tragédia, mais dia, menos dia. Isso acontece porque marginalizar a maioria é uma contradição. Pelas leis da física, nenhuma maioria permanece marginalizada por muito tempo. Eis nossa obra: barbaridade!
Estamos colhendo o que plantamos: temos um governo de Terra plana e arrasada.



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