O SUSTO DA MORTE DO CANTOR.
Não escrevo o nome do cantor no título por dois motivos:
porque teria de ir ao Google, pois ainda não sei seu nome completo, mesmo após
o bombardeio do noticiário, e porque não descemos ao detalhe do nome da pessoa,
quando ela não faz parte do nosso mundo.
Semana passada vi, num desses noticiários rápidos dos quais
ninguém escapa, que o cantor fulano de tal havia falecido num acidente de
carro. Agi como agem aqueles que vivem em zona de guerra, sob bombardeio
constante, diante da queda de um estilhaço de bomba a cinquenta metros de distância:
ignorei. Porque se a gente fosse parar e prestar atenção em tanta notícia, não
faria outra coisa na vida.
Mas levei um susto quando percebi, em meu corpo, o sangue
escorrendo. Sim, eu fora ferido pela notícia. Aquela notícia cujo estilhaço caiu perto. O homem era famoso
e eu nunca, jamais, em tempo algum, havia ouvido ou visto ou sentido qualquer
obra sua ou qualquer menção ao seu nome.
Fiquei assustado, então, como quem momentaneamente toma
consciência do exíguo limite do próprio mundo em que vive e ignora fatos ou
coisas ou gentes que acontecem ou estão pela vizinhança. O vizinho do
apartamento ao lado morre e a gente só descobre meses depois, numa conversa
casual com o porteiro do prédio. Isso é comum nestas megalópoles de vidas
multifacetadas e interesses múltiplos e dispersos. O que não é comum, pensamos,
é desconhecermos a existência de um compatriota famoso, ainda mais quando nos
julgamos “por dentro”, bem informados.
O susto foi provocado pelo seguinte: o meu mundo não era o
mundo do cantor vitimado pelo acidente automobilístico. O susto veio da fugaz
consciência da existência prática e concreta de mundos paralelos. Aí então a
gente racionaliza o problema, como quem trata o ferimento do estilhaço da
bomba.
Então era isso aquela multidão pedindo “partido não!”, “sindicato
não!” nas manifestações de junho de 2013. Então é isso! Essas milhares de
pessoas que odeiam visceralmente tudo que se refere ao Partido dos
Trabalhadores sempre estiveram aí, caminhando ao lado, mas em outro mundo.
Sempre estiveram por aí a ranger os dentes essas milhares de pessoas que
defendem a volta da ditadura militar. Ao nosso lado, porém invisíveis, porque
em mundo paralelo.
E continuamos a reflexão: quantas formas práticas de se
estabelecer mundos paralelos! As igrejas, com seus dogmas e regras próprias; as
maçonarias e clubes equivalentes, com seus códigos exclusivos e seus interesses
restritos; as máfias de toda espécie a defender cegamente interesses de grupo;
os cartórios profissionais, com seus jargões e suas reservas de mercado; as
grandes empresas, com suas culturas internas. Um país fechado, isolado, é um
bom exemplo de mundo paralelo: as nações – com ou sem território – e seus
nacionalismos, condicionam seus cidadãos em mundos particulares.
E um partido político? Também não é uma forma prática de cercar
vários cidadãos num mundo particular? Bem, se esse partido disputa o poder
geral com outros partidos, ele resvala, abalroa, toca, entra em contato,
interage com outros partidos. Se esse processo é pacífico, como nas eleições,
podemos acreditar que aqueles supostos mundos paralelos têm a capacidade de
contactar e conviver entre si em benefício de um todo. Então eles não seriam
mundos paralelos, porque o que caracteriza os mundos paralelos é o susto e o
choque quando um aborda o outro; é a impossibilidade de qualquer contato sem
estranhamento.
Trazendo essas precárias reflexões aqui pra nossa vidinha,
dá pra perceber que a maioria dos nossos males sociais decorre dos entrechoques
entre pessoas de mundos paralelos que convivem no mesmo espaço geográfico. Um
nacionalismo extremado leva à guerra, porque estabelece o maniqueísmo do bem e
do mal entre um lado e o outro da fronteira. Suponha um mundo pobre a caminhar
pela calçada da Avenida Paulista. Ele cruza com um mundo rico, a brincar com seu
smartphone. A única forma do mundo pobre conseguir um smartphone é invadir o
mundo rico. E mais não digo sobre o que não se admite.
Trocando em miúdos, o morto virou celebridade porque interessava à mídia televisiva, promotora do circo sem o pão...
ResponderExcluirnão, não, ele era famoso mesmo, de verdade. Só que num outro mundo que não o meu.
Excluir