Eu,
tivesse o talento, a paciência e a fé de Saramago, escreveria
Ensaio sobre o sonambulismo. Como se sabe, o nobel lusitano escreveu
Ensaio Sobre a Cegueira, um exercício imaginativo do que aconteceria
no espaço coletivo e na rotina de cada um, se uma epidemia
avassaladora e total deixasse todos cegos.
É
que ontem, eu, mais uma vez, transitava pela inacreditável Tubulação
que liga as linhas amarela e verde, na estação Consolação-Paulista
(vinha na Amarela, para pegar a Verde; se fosse no sentido contrário,
tudo seria ao contrário, inclusive o nome da mesma estação).
O
Inédito, em minha rotina, naquela tubulação, foi que eram 10 horas
da noite. Nunca passei ali nessa hora. De repente, dois homens se
estranhando, em pleno frenético fluxo de vai-e-vem. Esse fluxo,
naquele tubão em zigue-zague, daria outros ensaios: sobre a Manada,
sobre a Incoerência…
Incoerência:
é assim, o sujeito caminha apressado, chega na esteira rolante,
para, se queda ao modorrento movimento dos mecânicos mancais, ode
coletiva à preguiça. Na escada rolante, tudo bem, boa parte da
população não tem coração para vencer a força da gravidade. Mas
a esteira rolante é plana…
Ontem,
às 10h da noite, lá naquele tubão, eu vislumbrei que a Manada Tubo
a dentro se comporta como a Enxurrada Morro abaixo ou o Fogo Morro
acima. Há dois corredores que vão, dois que vêm, separados por
fitas; o fluxo era bem maior num sentido, muitos invadiam o corredor
na contramão. E, dormindo, trombavam. E, dormindo, se empurravam, se
estapeavam, sem maiores consequências, entretanto, tudo dentro da
mais aparente e asséptica ordem.
Sim,
dormindo, sonâmbulos. Quase uma epidemia. E esse vislumbre, como
relâmpago em noite escura, iluminou em minha memória algumas
situações corriqueiras que temos vivido nos dias que correm. Por
exemplo, a passividade dos motoristas nos congestionamentos; a
indiferença da população com um juiz parcial, com o analfabetismo
funcional, com a miséria à luz do dia, com um parlamentar que
elogia a tortura, com o descaramento do jeitinho e do privilégio,
com um miliciano que faz justiça com as próprias mãos, com os
espertalhões do templo, com a desigualdade pornográfica.
Ensaio
Sobre o Sonambulismo. A ideia se deve a que li recentemente o Ensaio
sobre a Cegueira. E, neste instante, me ocorre Os Noivos (I Promessi
Sposi, Alessandro Manzoni). Ali, há a descrição detalhada do que
acontece — no coletivo e em cada um — quando a Peste se abate em
massa sobre a população de Milão (Itália) em 1630.
Da
parte que me toca, acrescento o Sonambulismo à tragédia coletiva da
Peste e da Cegueira. Porque li atentamente as duas narrativas, a da
Peste Italiana e a da Cegueira Portuguesa: a minha trágica memória,
iluminada pelo fulminante clarão da cena dos dois sonâmbulos a se
estapearem na Paulista-Consolação, intuiu que um Sonambulismo
Brasileiro está em vias de se tornar Pandemia. Ninguém poderá
alegar desconhecimento do que virá, porque a literatura já nos
preveniu. Enfim, a brasileira contribuição ao mundo; não em forma
de livro, mas na vida real.
No
ônibus, no trem, no metrô, no congestionamento, na fila, no
pronto-socorro, no desemprego, na eleição, na escola, na igreja, no
estádio, no sofá, no rodeio, na feira, no elevador, na festa, no
trabalho, na assembleia, cada um no seu quadrado luminoso, tangidos
por mensagens supérfluas e parciais e escatológicas, o povo se
comprime e se resvala e se esvai e se esprime e se coça e se mexe e
escorrega e grunhe e arrota e suspira e morre e mata e segue e nunca
grita nem esperneia nem diverge, mas age por impulso e arroubos, no
semiautomático, sem reflexão, sem freios, irresponsavelmente,
insensível, desinteligente, como, como...autômatos. Como
sonâmbulos.
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