sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ENSAIO SOBRE O SONAMBULISMO.

  Eu, tivesse o talento, a paciência e a fé de Saramago, escreveria Ensaio sobre o sonambulismo. Como se sabe, o nobel lusitano escreveu Ensaio Sobre a Cegueira, um exercício imaginativo do que aconteceria no espaço coletivo e na rotina de cada um, se uma epidemia avassaladora e total deixasse todos cegos.

É que ontem, eu, mais uma vez, transitava pela inacreditável Tubulação que liga as linhas amarela e verde, na estação Consolação-Paulista (vinha na Amarela, para pegar a Verde; se fosse no sentido contrário, tudo seria ao contrário, inclusive o nome da mesma estação).

O Inédito, em minha rotina, naquela tubulação, foi que eram 10 horas da noite. Nunca passei ali nessa hora. De repente, dois homens se estranhando, em pleno frenético fluxo de vai-e-vem. Esse fluxo, naquele tubão em zigue-zague, daria outros ensaios: sobre a Manada, sobre a Incoerência…

Incoerência: é assim, o sujeito caminha apressado, chega na esteira rolante, para, se queda ao modorrento movimento dos mecânicos mancais, ode coletiva à preguiça. Na escada rolante, tudo bem, boa parte da população não tem coração para vencer a força da gravidade. Mas a esteira rolante é plana…

Ontem, às 10h da noite, lá naquele tubão, eu vislumbrei que a Manada Tubo a dentro se comporta como a Enxurrada Morro abaixo ou o Fogo Morro acima. Há dois corredores que vão, dois que vêm, separados por fitas; o fluxo era bem maior num sentido, muitos invadiam o corredor na contramão. E, dormindo, trombavam. E, dormindo, se empurravam, se estapeavam, sem maiores consequências, entretanto, tudo dentro da mais aparente e asséptica ordem.

Sim, dormindo, sonâmbulos. Quase uma epidemia. E esse vislumbre, como relâmpago em noite escura, iluminou em minha memória algumas situações corriqueiras que temos vivido nos dias que correm. Por exemplo, a passividade dos motoristas nos congestionamentos; a indiferença da população com um juiz parcial, com o analfabetismo funcional, com a miséria à luz do dia, com um parlamentar que elogia a tortura, com o descaramento do jeitinho e do privilégio, com um miliciano que faz justiça com as próprias mãos, com os espertalhões do templo, com a desigualdade pornográfica.
Ensaio Sobre o Sonambulismo. A ideia se deve a que li recentemente o Ensaio sobre a Cegueira. E, neste instante, me ocorre Os Noivos (I Promessi Sposi, Alessandro Manzoni). Ali, há a descrição detalhada do que acontece — no coletivo e em cada um — quando a Peste se abate em massa sobre a população de Milão (Itália) em 1630.

Da parte que me toca, acrescento o Sonambulismo à tragédia coletiva da Peste e da Cegueira. Porque li atentamente as duas narrativas, a da Peste Italiana e a da Cegueira Portuguesa: a minha trágica memória, iluminada pelo fulminante clarão da cena dos dois sonâmbulos a se estapearem na Paulista-Consolação, intuiu que um Sonambulismo Brasileiro está em vias de se tornar Pandemia. Ninguém poderá alegar desconhecimento do que virá, porque a literatura já nos preveniu. Enfim, a brasileira contribuição ao mundo; não em forma de livro, mas na vida real.

No ônibus, no trem, no metrô, no congestionamento, na fila, no pronto-socorro, no desemprego, na eleição, na escola, na igreja, no estádio, no sofá, no rodeio, na feira, no elevador, na festa, no trabalho, na assembleia, cada um no seu quadrado luminoso, tangidos por mensagens supérfluas e parciais e escatológicas, o povo se comprime e se resvala e se esvai e se esprime e se coça e se mexe e escorrega e grunhe e arrota e suspira e morre e mata e segue e nunca grita nem esperneia nem diverge, mas age por impulso e arroubos, no semiautomático, sem reflexão, sem freios, irresponsavelmente, insensível, desinteligente, como, como...autômatos. Como sonâmbulos.


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