A
Carlos Sampaio é uma travessa da Paulista. No quarteirão mais
próximo há dois xig-ligs. Como se sabe, trabalham nesses centros de
venda de bugigangas aquelas pessoas que não gostam ou não conseguem
arrumar patrão(ou perderam um, recentemente). Pessoas de baixa
escolaridade sem profissão e imigrantes em geral são maioria entre
os “empreendedores” nesses locais e há também muitos
desempregados.
Nesse
mundo, quem não é acaba ficando individualista e pensando só no
curto prazo, por causa das inúmeras dificuldades financeiras,
legais, informativas e da concorrência, que ali, sim, é real e
braba. É um mundo precário, informal e transitório, onde o Estado
quase sempre só chega pra cobrar e punir. Enfim, cidadania, para
esse povo, é palavrão.
Do
lado esquerdo, entre um xig-lig e outro, estacionada, a Kombi bege,
sem para-choque, parecia a mesma em que aprendi a dirigir, há quase
meio século. Sendo que ela nunca deve ter entrado numa funilaria,
nesse período.
No
vidro traseiro da Kombi estava escrito, num adesivo grande: FOI DEUS
QUEM ME DEU. Na hora, pensei: “Grande merda!”. Que Deus mais
sovina, dar um trambolho desse pro súdito. Uma Kombi daquela deve
custar uns 300 reais. Aliás, num traste daquele na via pública o
cidadão arrisca se machucar ou ser preso ou, no mínimo, ficar a pé
e perder a carga.
Mas
depois pensei: pode ser uma estratégia para justificar, perante o
DETRAN, a inexistência do pagamento do IPVA; se o veículo era de
Deus, qual fiscal terá peito para apreendê-lo?
Mas
não. Deus era o antigo proprietário, o ex-proprietário, que havia
doado o veículo ao atual, o humano ao volante. Então,
imediatamente, me lembrei de que há muitos carros velhos rodando por
aí com outro adesivo: PROPRIEDADE DE JESUS.
Esse,
sim, é poderoso. Quero ver o guarda que vai ter coragem de confiscar
um bem de Deus. O máximo que podem fazer, os temerários, é lavrar
a multa, como simples registro burocrático, para alegria do
motorista relapso.
E
essa inscrição deve ser muito eficaz também contra os ladrões de
carros e assaltantes em geral. Qual o bandido que vai se atrever a
levar um carro de Deus? Qual o meliante que vai se atrever a fazer
mal ao usuário ao volante, sabendo que ele é — as condições
objetivas indicam — um empregado de Deus?
Sem
dúvida, para o mister de comover o guarda e afugentar o bandido,
esse PROPRIEDADE DE JESUS é melhor do que o FOI DEUS QUEM ME DEU.
Então, me lembrei de outro adesivo muito comum em carros velhos, mas
com mensagem oposta a estes que acabo de mencionar:
É
este: NÃO ME INVEJE, TRABALHE, frequente em carros de catadores de
sucata, lambe-lambes, entregadores de jornal, pedreiros, vendedores
ambulantes, etc., tanto quanto os dois anteriores.
Sorri.
Invejar o quê? Um atestado de pobreza? (carro esculhambado =
atestado de pobreza). Porque é um dístico que faria mais sentido
num carrão novo, documentação em dia, tudo funcionando, cujo
proprietário teria grana para ser invejado.
Vendo
o pobretão ao volante do carro mal-amanhado a defender argumento de
rico(que nenhum rico de verdade é besta de portar na via pública de
cara limpa), todos pensarão se tratar de um otário, no mínimo um
incréu, além de egoísta.
Além
do mais, esse NÃO ME INVEJE, TRABALHE, é uma provocação. Guardas
de trânsito e miseráveis e pilantras em geral não terão simpatia
nenhuma por quem defende essa ideia.
Sei
que há muitos pobres otários. Mas apenas isso não explica esse
adesivo bobo numa gambiarra ambulante. Imagino que boa parte deles
pertence a ricos disfarçados de pobres meritocratas.
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