domingo, 1 de setembro de 2019

KOMBI VELHA, DEUS, DIABO.

A Carlos Sampaio é uma travessa da Paulista. No quarteirão mais próximo há dois xig-ligs. Como se sabe, trabalham nesses centros de venda de bugigangas aquelas pessoas que não gostam ou não conseguem arrumar patrão(ou perderam um, recentemente). Pessoas de baixa escolaridade sem profissão e imigrantes em geral são maioria entre os “empreendedores” nesses locais e há também muitos desempregados.

Nesse mundo, quem não é acaba ficando individualista e pensando só no curto prazo, por causa das inúmeras dificuldades financeiras, legais, informativas e da concorrência, que ali, sim, é real e braba. É um mundo precário, informal e transitório, onde o Estado quase sempre só chega pra cobrar e punir. Enfim, cidadania, para esse povo, é palavrão.

Do lado esquerdo, entre um xig-lig e outro, estacionada, a Kombi bege, sem para-choque, parecia a mesma em que aprendi a dirigir, há quase meio século. Sendo que ela nunca deve ter entrado numa funilaria, nesse período.

No vidro traseiro da Kombi estava escrito, num adesivo grande: FOI DEUS QUEM ME DEU. Na hora, pensei: “Grande merda!”. Que Deus mais sovina, dar um trambolho desse pro súdito. Uma Kombi daquela deve custar uns 300 reais. Aliás, num traste daquele na via pública o cidadão arrisca se machucar ou ser preso ou, no mínimo, ficar a pé e perder a carga.

Mas depois pensei: pode ser uma estratégia para justificar, perante o DETRAN, a inexistência do pagamento do IPVA; se o veículo era de Deus, qual fiscal terá peito para apreendê-lo?

Mas não. Deus era o antigo proprietário, o ex-proprietário, que havia doado o veículo ao atual, o humano ao volante. Então, imediatamente, me lembrei de que há muitos carros velhos rodando por aí com outro adesivo: PROPRIEDADE DE JESUS.

Esse, sim, é poderoso. Quero ver o guarda que vai ter coragem de confiscar um bem de Deus. O máximo que podem fazer, os temerários, é lavrar a multa, como simples registro burocrático, para alegria do motorista relapso.

E essa inscrição deve ser muito eficaz também contra os ladrões de carros e assaltantes em geral. Qual o bandido que vai se atrever a levar um carro de Deus? Qual o meliante que vai se atrever a fazer mal ao usuário ao volante, sabendo que ele é — as condições objetivas indicam — um empregado de Deus?

Sem dúvida, para o mister de comover o guarda e afugentar o bandido, esse PROPRIEDADE DE JESUS é melhor do que o FOI DEUS QUEM ME DEU. Então, me lembrei de outro adesivo muito comum em carros velhos, mas com mensagem oposta a estes que acabo de mencionar:

É este: NÃO ME INVEJE, TRABALHE, frequente em carros de catadores de sucata, lambe-lambes, entregadores de jornal, pedreiros, vendedores ambulantes, etc., tanto quanto os dois anteriores.

Sorri. Invejar o quê? Um atestado de pobreza? (carro esculhambado = atestado de pobreza). Porque é um dístico que faria mais sentido num carrão novo, documentação em dia, tudo funcionando, cujo proprietário teria grana para ser invejado.

Vendo o pobretão ao volante do carro mal-amanhado a defender argumento de rico(que nenhum rico de verdade é besta de portar na via pública de cara limpa), todos pensarão se tratar de um otário, no mínimo um incréu, além de egoísta.

Além do mais, esse NÃO ME INVEJE, TRABALHE, é uma provocação. Guardas de trânsito e miseráveis e pilantras em geral não terão simpatia nenhuma por quem defende essa ideia.

Sei que há muitos pobres otários. Mas apenas isso não explica esse adesivo bobo numa gambiarra ambulante. Imagino que boa parte deles pertence a ricos disfarçados de pobres meritocratas.


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