sábado, 28 de setembro de 2019

I N O C E N T E S.

Os jovens estão ali, sentados no chão com as costas na parede em pleno espaço público de passagem, a desafiar uma das mais sagradas normas do metrô, às barbas dos fiscais, alegres, leves, inocentes… garotas, garotos, cada um com um formado de roupa diferente do outro, caiu a ditadura da roupa igual dos anos 70, se há algo na vida de que me envergonho é de ter usado calça boca de sino.

Também me envergonho de ter passado roupa. Sim, aquilo que se fazia com o ferro de passar roupa… Outra coisa, os cabelos. Cabelos curtos, longos, amarrados, soltos, lisos, enrolados, careca, parece que há um resquício de imposição (e obediência) nos cabelos alisados das mulheres negras. Lembra-me que quando eu era adolescente, invejava os cabelos enrolados, porque paravam penteados, não desmanchavam com o vento e o movimento. Inocente…

Mas esses jovens aí sentados contra as normas não são transgressores. São inocentes. Não há neles, em nenhuma parte da expressão corporal deles, a marca da rebeldia. Fizeram como os seixos rolados nos leitos dos rios, pararam aí, após milhares de semelhantes serem enxotados para outras margens menos reguladas. Venceram pela insistência e pelo acúmulo aleatórios e o natural cansaço do controle.

São inocentes, acabaram de sair da casca da casa, onde até então viveram apascentados por mães e pais também inocentes. Estudam em uma das dezenas de unidades da FMU espalhadas ao redor, ou na Uninove. Como os filhotes de tartarugas marinhas, estão na fase de atravessar a areia para chegar ao mar, quem sobrar, sobrou…

Me ocorre que estão sentados por dois motivos básicos: são cansados e desorganizados (eu disse “são cansados” e não “estão cansados”. Estar cansado é próprio de quem esteve descansado, de quem submeteu o corpo a essa saudável dicotomia corporal que faz bem e é produtiva). São cansados de nascença, por herança. E desorganizados, saíram com o smartphone descarregado, desceram à cama com pressa ontem, não havia cabeça para deliberar a recarga noturna.

Não acho próprio que sejam chamados de universitários. Sim, estudam numa dessas faculdades espalhadas por aí. Uma Universidade é muito, muito mais que isso. É preciso que haja, no mínimo, um campus, uma cidade universitária; uma independência (os alunos, dos pais, principalmente; os professores, do Sistema), um espírito, um intelecto adulto, uma disposição, uma prática coletiva — quase corporativa — de quem frequenta a Universidade.

Sim, esses jovens estão cansados e cansados. Cansados de verdade, da vida e do trabalho, que quase todos precisam “se virar”. “Se virar” é o que 42% dos trabalhadores brasileiros fazem para ganhar uns trocados e sobreviver, carregar o celular, pelo menos… Seus pais também “se viram”, o cansaço é hereditário, já disse. A inocência é hereditária.


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