Os
jovens estão ali, sentados no chão com as costas na parede em pleno
espaço público de passagem, a desafiar uma das mais sagradas normas
do metrô, às barbas dos fiscais, alegres, leves, inocentes…
garotas, garotos, cada um com um formado de roupa diferente do outro,
caiu a ditadura da roupa igual dos anos 70, se há algo na vida de
que me envergonho é de ter usado calça boca de sino.
Também
me envergonho de ter passado roupa. Sim, aquilo que se fazia com o
ferro de passar roupa… Outra coisa, os cabelos. Cabelos curtos,
longos, amarrados, soltos, lisos, enrolados, careca, parece que há
um resquício de imposição (e obediência) nos cabelos alisados das
mulheres negras. Lembra-me que quando eu era adolescente, invejava os
cabelos enrolados, porque paravam penteados, não desmanchavam com o
vento e o movimento. Inocente…
Mas
esses jovens aí sentados contra as normas não são transgressores.
São inocentes. Não há neles, em nenhuma parte da expressão
corporal deles, a marca da rebeldia. Fizeram como os seixos rolados
nos leitos dos rios, pararam aí, após milhares de semelhantes serem
enxotados para outras margens menos reguladas. Venceram pela
insistência e pelo acúmulo aleatórios e o natural cansaço do
controle.
São
inocentes, acabaram de sair da casca da casa, onde até então
viveram apascentados por mães e pais também inocentes. Estudam em
uma das dezenas de unidades da FMU espalhadas ao redor, ou na
Uninove. Como os filhotes de tartarugas marinhas, estão na fase de
atravessar a areia para chegar ao mar, quem sobrar, sobrou…
Me
ocorre que estão sentados por dois motivos básicos: são cansados e
desorganizados (eu disse “são cansados” e não “estão
cansados”. Estar cansado é próprio de quem esteve descansado, de
quem submeteu o corpo a essa saudável dicotomia corporal que faz bem
e é produtiva). São cansados de nascença, por herança. E
desorganizados, saíram com o smartphone descarregado, desceram à
cama com pressa ontem, não havia cabeça para deliberar a recarga
noturna.
Não
acho próprio que sejam chamados de universitários. Sim, estudam
numa dessas faculdades espalhadas por aí. Uma Universidade é muito,
muito mais que isso. É preciso que haja, no mínimo, um campus, uma
cidade universitária; uma independência (os alunos, dos pais,
principalmente; os professores, do Sistema), um espírito, um
intelecto adulto, uma disposição, uma prática coletiva — quase
corporativa — de quem frequenta a Universidade.
Sim,
esses jovens estão cansados e cansados. Cansados de verdade, da vida
e do trabalho, que quase todos precisam “se virar”. “Se virar”
é o que 42% dos trabalhadores brasileiros fazem para ganhar uns
trocados e sobreviver, carregar o celular, pelo menos… Seus pais
também “se viram”, o cansaço é hereditário, já disse. A
inocência é hereditária.
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