segunda-feira, 23 de setembro de 2019

HIPNOTIZADOS, ROBOTIZADOS, SONÂMBULOS.

Vocês sabem que ando desconfiado, contei aqui outro dia, de que há uma epidemia de sonambulismo na população brasileira. Entretanto, uma forma mais profunda e duradoura do que aquela descrita pela medicina. Pessoas vão e vêm, trabalham, estudam, amam, andam de metrô, votam, tudo dormindo: como um sonâmbulo. O distúrbio dura o dia inteiro, e só termina quando a vítima está dormindo, propriamente. A cegueira descrita pelo Saramago era clara, luminosa; esse sonambulismo ataca quando o sujeito está acordado, e dura cerca de 16 horas.

Mas, olhando bem, pode ser que parte dessa legião de irresponsáveis não esteja dormindo, mas hipnotizada. Ou robotizada. (sim, um sonâmbulo é um irresponsável, no bom sentido; não se pode responsabilizar um sonâmbulo que, no exercício do seu distúrbio, saia sem pagar, passe a mão na bunda de alguém, vote num troglodita).

Sabe esses robôs de verdade, da linha de montagem de automóveis, que ficam dia e noite rebitando o friso do farol direito? Não há ninguém, nas suas imediações, que fica apertando sempre o mesmo parafuso? No inverno ou no verão, natal, carnaval, o sujeito sempre lá, usando todo o teclado para escrever sempre a mesma frase, rezar a mesma ladainha, adjetivar o mesmo substantivo.

Só que pode ser hipnose também, acho. Estive assuntando. De longe, é tudo sem-noção, mas de perto há diferenças. O robotizado é o mais fácil de ser identificado, porque seu assunto é restrito e imutável. O sonâmbulo tem como característica marcante a aparência cansada, de morto-vivo, e a atitude inconsequente em relação aos seus atos, a não-consciência. Porém, há um terceiro tipo, que parece sob o efeito da hipnose.

São libidinosos, melífluos, irreverentes, iconoclastas, eu diria que conseguem até ser irônicos. Ora, nenhum sonâmbulo ou robotizado consegue ser mais de uma pequena coisa na vida e ambos têm a característica comum de serem sem-graça. Já esse terceiro tipo consegue até escrever em jornais, falar no rádio, aparecer na TV. Contudo, não enganam um observador atento com este, que foi isto que me transformei, após ler o livro do Saramago e, concomitantemente, assistir à cena do esbarrão dos dois sonâmbulos no quiproquó da estação Paulista do metrô, semana passada.

Porque, diferente dos dois tipos descritos, o hipnotizado age de acordo com a orientação do seu mestre hipnotizador. O sonâmbulo está dormindo, não tem jeito, é um caso perdido; o robotizado poderia ser recuperado, se conseguíssemos localizar o local onde o chip foi implantado (na prática, pode-se dizer que também é caso perdido, porque ele teria, por espontânea vontade, de se submeter ao escrutínio de terceiros). Esse terceiro tipo é o de mais difícil identificação.

O hipnotizado não está dormindo nem tem um chip no corpo. Mas, como aqueles, age de forma alienada, ou seja, sob o comando de algo externo, só que à distância, através do seu inconsciente. Mas esse pau-mandado complexo e sedutor, que tenho identificado por aí, não encontrei nos manuais da psicanálise.

Tenho notado que esse tipo se dirige, com muita frequência, ao longo do dia, a uma ou várias entidades ou pessoas para se submeter às sessões de hipnotismo. Hoje em dia, em plena era da internet das coisas, isso é fácil, pode ser feito quase sempre de forma remota, por um mestre do outro lado do mundo (não deve ser gratuito que, em geral, esses hipnotizados portem toda a gama dos melhores gadgets disponíveis no mercado).

De modo que esse hipnotizado fica cerca de 16 horas por dia sob comando alienígena, de uma ou mais entidades ou mestres, conforme as sessões a que é submetido. Isso explica porque eles são volúveis, inconstantes e apresentam grande variação de humor; mudam muito de opinião, mas são sempre extremados naquilo que defendem. Variam muito os termos e as formas de exporem algo, dando-nos a impressão de que, ou possuem múltiplas personalidades ou não possuem ideias próprias. Mas claro! Como não havia pensado nisso antes?! Muda o hipnotizador, muda a personalidade do hipnotizado.

Há um hipnotizado que não varia de hipnotizador. Normalmente é seu empregado. É muito confundido com o robotizado. Ainda que monocromático, é mais charmoso do que aquele e muda por conta própria, basta mudar de emprego.

Pelo que tenho notado, é uma epidemia de grandes proporções.





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