Vocês
sabem que ando desconfiado, contei aqui outro dia, de que há uma
epidemia de sonambulismo na população brasileira. Entretanto, uma
forma mais profunda e duradoura do que aquela descrita pela medicina.
Pessoas vão e vêm, trabalham, estudam, amam, andam de metrô,
votam, tudo dormindo: como um sonâmbulo. O distúrbio dura o dia
inteiro, e só termina quando a vítima está dormindo, propriamente.
A cegueira descrita pelo Saramago era clara, luminosa; esse
sonambulismo ataca quando o sujeito está acordado, e dura cerca de
16 horas.
Mas,
olhando bem, pode ser que parte dessa legião de irresponsáveis não
esteja dormindo, mas hipnotizada. Ou robotizada. (sim, um sonâmbulo
é um irresponsável, no bom sentido; não se pode responsabilizar um
sonâmbulo que, no exercício do seu distúrbio, saia sem pagar,
passe a mão na bunda de alguém, vote num troglodita).
Sabe
esses robôs de verdade, da linha de montagem de automóveis, que
ficam dia e noite rebitando o friso do farol direito? Não há
ninguém, nas suas imediações, que fica apertando sempre o mesmo
parafuso? No inverno ou no verão, natal, carnaval, o sujeito sempre
lá, usando todo o teclado para escrever sempre a mesma frase, rezar
a mesma ladainha, adjetivar o mesmo substantivo.
Só
que pode ser hipnose também, acho. Estive assuntando. De longe, é
tudo sem-noção, mas de perto há diferenças. O robotizado é o
mais fácil de ser identificado, porque seu assunto é restrito e
imutável. O sonâmbulo tem como característica marcante a aparência
cansada, de morto-vivo, e a atitude inconsequente em relação aos
seus atos, a não-consciência. Porém, há um terceiro tipo, que
parece sob o efeito da hipnose.
São
libidinosos, melífluos, irreverentes, iconoclastas, eu diria que
conseguem até ser irônicos. Ora, nenhum sonâmbulo ou robotizado
consegue ser mais de uma pequena coisa na vida e ambos têm a
característica comum de serem sem-graça. Já esse terceiro tipo
consegue até escrever em jornais, falar no rádio, aparecer na TV.
Contudo, não enganam um observador atento com este, que foi isto que
me transformei, após ler o livro do Saramago e, concomitantemente,
assistir à cena do esbarrão dos dois sonâmbulos no quiproquó da
estação Paulista do metrô, semana passada.
Porque,
diferente dos dois tipos descritos, o hipnotizado age de acordo com a
orientação do seu mestre hipnotizador. O sonâmbulo está dormindo,
não tem jeito, é um caso perdido; o robotizado poderia ser
recuperado, se conseguíssemos localizar o local onde o chip foi
implantado (na prática, pode-se dizer que também é caso perdido,
porque ele teria, por espontânea vontade, de se submeter ao
escrutínio de terceiros). Esse terceiro tipo é o de mais difícil
identificação.
O
hipnotizado não está dormindo nem tem um chip no corpo. Mas, como
aqueles, age de forma alienada, ou seja, sob o comando de algo
externo, só que à distância, através do seu inconsciente. Mas
esse pau-mandado complexo e sedutor, que tenho identificado por aí,
não encontrei nos manuais da psicanálise.
Tenho
notado que esse tipo se dirige, com muita frequência, ao longo do
dia, a uma ou várias entidades ou pessoas para se submeter às
sessões de hipnotismo. Hoje em dia, em plena era da internet das
coisas, isso é fácil, pode ser feito quase sempre de forma remota,
por um mestre do outro lado do mundo (não deve ser gratuito que, em
geral, esses hipnotizados portem toda a gama dos melhores gadgets
disponíveis no mercado).
De
modo que esse hipnotizado fica cerca de 16 horas por dia sob comando
alienígena, de uma ou mais entidades ou mestres, conforme as sessões
a que é submetido. Isso explica porque eles são volúveis,
inconstantes e apresentam grande variação de humor; mudam muito de
opinião, mas são sempre extremados naquilo que defendem. Variam
muito os termos e as formas de exporem algo, dando-nos a impressão
de que, ou possuem múltiplas personalidades ou não possuem ideias
próprias. Mas claro! Como não havia pensado nisso antes?! Muda o
hipnotizador, muda a personalidade do hipnotizado.
Há
um hipnotizado que não varia de hipnotizador. Normalmente é seu
empregado. É muito confundido com o robotizado. Ainda que
monocromático, é mais charmoso do que aquele e muda por conta
própria, basta mudar de emprego.
Pelo
que tenho notado, é uma epidemia de grandes proporções.
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