JOÃO DO
MORRO & PÉ DA SERRA.
Ia eu
empurrando a bicicleta dentro do Parque da Água Branca, quando vi os dois
velhos. Estavam de pé, parados. Num banco entre os dois, dentro do saco,
repousavam suas violas. São artistas de rua, cantam música caipira, vendem um
CD que gravaram.
- Qual o
nome da dupla? - perguntei, pra começo de conversa.
- João do
Morro & Pé da Serra, respondeu o Pé da Serra, líder da dupla.
“Que nome
mais anacrônico”, pensei. A última dupla que usou esses nomes pitorescos foi
Pena Branca e Xavantinho, já mortos. Hoje o bom gosto recomenda Vitor &
Leo, Fernando & Sorocaba... Bom gosto?
Estavam
eufóricos, haviam participado de um programa na TV Record, me contou o líder, e
não era mentira, porque vários frequentadores do parque passaram e
cumprimentaram os artistas, pelos dois minutos de fama.
Estavam
eufóricos e estão esperançosos. Acreditam que ainda há tempo de construir
uma carreira, fazer sucesso... senhores de mais de 60 anos, pobres e
semianalfabetos e fora do lugar e da hora. Desenraizados. Tensos. Tristes.
Uma viola e
um violão. Primeira e segunda voz. O Pé da Serra fala, o João do Morro se cala.
Um manda, outro obedece. É incrível como o meio artístico reproduz o
autoritarismo reinante no mundo da produção. O líder ou o cérebro do grupo é,
em geral, arrogante e autoritário. Se quiserem, cito vários exemplos. É um meio
de vida. Delimitam seus espaços, incluem ou vetam parceiros e concorrentes, não
ensinam gratuitamente a arte, desdenham a concorrência, agem como qualquer
comerciante.
Procurem no
Youtube por João do Morro & Pé da Serra que vocês encontram. Ou ao vivo, lá no parque.
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