Fui ao cardiologista. A mocinha
recepcionista-secretária-faxineira-copeira era anti-PT. No telefone,
proselitismo com a freguesia. E não era mocinha. Ela também ia ao banco,
realizar procedimentos junto à conta do patrão, mas não sei como se chama essa
profissão atualmente.
A freguesia era de alto nível. Só havia
revistas Caras e revistas Vejas sobre a mesinha de canto; nenhuma Contigo. E na telona de sessenta polegadas,
um vistoso DVD sertanejo universitário se fazia acompanhar por um quarteto de
cordas e um coro se senhoras e senhores de óculos, sob impecável jogo de luzes.
O cardiologista me aguardava de pé, ao
lado da porta aberta, com a mão na maçaneta. Era alto e gordo. Sua figura
parecia o tronco de uma paineira adulta. O perímetro de sua circunferência
abdominal media uns três metros. Certamente era hipertenso e diabético, a
julgar pelos sinais externos de iminente apoplexia.
Ao se sentar, vi que a artrose nos joelhos
do médico ia adiantada e o movimento dos quadris estava comprometido. Olhei em
volta e lá estavam todos os diplomas e certificados. E, numa graciosa e
discreta estante, sisudas lombadas de sérios compêndios dividiam o espaço com
caixas de medicamentos e folhetos de renomados laboratórios.
Algo estava fora do compasso na cena. Eu
não via no profissional a competência certificada das paredes nem a sobriedade
do mobiliário. A atmosfera solene da sala fora subvertida pelo profissional
relapso, que, por sua vez, traía a todo-poderosa medicina. O cheiro do
incenso-remédio me lembrou um pleonástico guru-charlatão.
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