terça-feira, 24 de novembro de 2015

FUI AO CARDIOLOGISTA



     Fui ao cardiologista. A mocinha recepcionista-secretária-faxineira-copeira era anti-PT. No telefone, proselitismo com a freguesia. E não era mocinha. Ela também ia ao banco, realizar procedimentos junto à conta do patrão, mas não sei como se chama essa profissão atualmente. 

     A freguesia era de alto nível. Só havia revistas Caras e revistas Vejas sobre a mesinha de canto; nenhuma  Contigo. E na telona de sessenta polegadas, um vistoso DVD sertanejo universitário se fazia acompanhar por um quarteto de cordas e um coro se senhoras e senhores de óculos, sob impecável jogo de luzes. 

     O cardiologista me aguardava de pé, ao lado da porta aberta, com a mão na maçaneta. Era alto e gordo. Sua figura parecia o tronco de uma paineira adulta. O perímetro de sua circunferência abdominal media uns três metros. Certamente era hipertenso e diabético, a julgar pelos sinais externos de iminente apoplexia. 

     Ao se sentar, vi que a artrose nos joelhos do médico ia adiantada e o movimento dos quadris estava comprometido. Olhei em volta e lá estavam todos os diplomas e certificados. E, numa graciosa e discreta estante, sisudas lombadas de sérios compêndios dividiam o espaço com caixas de medicamentos e folhetos de renomados laboratórios.

     Algo estava fora do compasso na cena. Eu não via no profissional a competência certificada das paredes nem a sobriedade do mobiliário. A atmosfera solene da sala fora subvertida pelo profissional relapso, que, por sua vez, traía a todo-poderosa medicina. O cheiro do incenso-remédio me lembrou um pleonástico guru-charlatão.

     Minha simplória mentalidade sempre entendeu que uma mãe deve ser boa, um padre deve ser santo, e um vidente deve ser misterioso. Um professor de educação física deve ser atleta, um escritor deve usar óculos e um delegado deve ser truculento. E um médico deve ser sadio. Não, eu não estava a fim de abdicar de todo e qualquer poder sobre mim mesmo. O cenário era bom, mas o ator não. Isso me permitiu deixar vazia a sala da ciência das doenças e continuar dono do meu corpo e das minhas certezas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário