sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O CARCEREIRO DE CURITIBA.



     Antes de falar do japonês da Polícia Federal de Curitiba, preciso falar-lhes sobre o Irmão.

     Irmão era um crente da Congregação Cristã no Brasil que estudava comigo no colégio interno. Morávamos eu, ele e mais oito num apartamento. Tinha o apelido de irmão porque era a forma como se tratavam, entre eles, os fiéis da igreja. Era um cidadão sem pecado. Tanto que nunca havia se masturbado na vida, sendo que era um jovem saudável de 17 anos. E não se sentia diminuído não, por tamanha abstinência. Ao contrário, achava que nosotros é que deveríamos lamentar, pois estávamos irremediavelmente perdidos... Irmão era um cara tranquilo, seguro de estar no rumo certo, sem nenhum dilema a atormentá-lo. Sua placidez nos exasperava. Certa feita, numa roda, um gaiato não aguentou:

     - Irmão, é verdade que você nunca bateu uma punheta?

     - É, respondeu o Irmão, sorrindo, tranquilo.

     - É bão, Irmão..., retrucou, lambendo os beiços, o gaiato, de quem me lembro bem, mas não vou dedar. (aliás, aprendi o significado de “dedar” na primeira semana daquele colégio interno, assunto para futura crônica).

     Pois bem.

     Muitos anos depois, aqui em S.Paulo, ao entrar numa delegacia para registrar um B.O., encontrei o Irmão exercendo a função de escrivão de polícia. Estava estudando Direito, queria ser delegado. A ocorrência era um atropelamento, perdemos a tarde inteira ali, esperando. E vendo o Irmão trabalhar... Os policiais entregavam os presos ao delegado, que mandava o Irmão trancafiá-los. O Irmão agarrava o elemento pelo cangote e o ia empurrando para o fundo do prédio. Abria a cela e empurrava o sujeito pra dentro, como fazíamos com as galinhas, lá no Colégio Agrícola. Aquela imagem continua impregnada em minhas retinas, 25 anos passados...

     Agora vamos à carceragem da PF de Curitiba. Já nos é familiar a imagem do policial de traços orientais, com óculos escuros e cabelos curtos e grisalhos, a escoltar os presos famosos. “O japonês de Curitiba”, estão cochichando por aí. Tudo bem, a esmagadora maioria dos japoneses e seus descendentes é honesta e prudente, por isso poucos vão presos ou trabalham na polícia...

     (Aliás, japonês é honesto e trabalhador e prudente, assim como francês, angolano, inglês, russo, chinês, italiano, moçambicano, português, alemão, sueco, coreano,  congolês, etíope, espanhol, queniano, judeu, árabe, turco, grego, palestino, afegão, indiano... vícios e virtudes são democraticamente bem distribuídos...)

          Mas, estive pensando: vai que esse policial brasileiro de ascendência japonesa seja também uma vítima. Sei lá, o Paraná é um estado tão sem carisma... (ops, anotar, para futura crônica...), o funcionalismo ali deve observar todos os milímetros do regulamento, o pobre exercia a função de carcereiro quando um juiz local resolveu prender meio mundo, quem entre os subalternos ali da carceragem ia prever que a mídia fazia parte da trama, ia baixar em peso? Então o coitado caiu de gaiato, e os diretores de imagem das TVs gostaram do seu perfil austero e determinado e o prenderam... obrigando-o a continuar exercendo o execrável papel...!

     Porém, sendo verdadeira minha hipótese, o cara é um ótimo ator. Porque sua felicidade salta aos olhos dos telespectadores. O que só contribui cada vez mais para aumentar a divisão entre os 52% que o execram e os 48% que o idolatram, para a perplexidade da nação.

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