Antes de falar do japonês da Polícia
Federal de Curitiba, preciso falar-lhes sobre o Irmão.
Irmão era um crente da Congregação Cristã
no Brasil que estudava comigo no colégio interno. Morávamos eu, ele e mais oito
num apartamento. Tinha o apelido de irmão porque era a forma como se tratavam,
entre eles, os fiéis da igreja. Era um cidadão sem pecado. Tanto que nunca
havia se masturbado na vida, sendo que era um jovem saudável de 17 anos. E não
se sentia diminuído não, por tamanha abstinência. Ao contrário, achava que
nosotros é que deveríamos lamentar, pois estávamos irremediavelmente perdidos...
Irmão era um cara tranquilo, seguro de estar no rumo certo, sem nenhum dilema a
atormentá-lo. Sua placidez nos exasperava. Certa feita, numa roda, um gaiato
não aguentou:
- Irmão, é verdade que você nunca bateu
uma punheta?
- É, respondeu o Irmão, sorrindo,
tranquilo.
- É bão, Irmão..., retrucou, lambendo os
beiços, o gaiato, de quem me lembro bem, mas não vou dedar. (aliás, aprendi o
significado de “dedar” na primeira semana daquele colégio interno, assunto para
futura crônica).
Pois bem.
Muitos anos depois, aqui em S.Paulo, ao
entrar numa delegacia para registrar um B.O., encontrei o Irmão exercendo a
função de escrivão de polícia. Estava estudando Direito, queria ser delegado. A
ocorrência era um atropelamento, perdemos a tarde inteira ali, esperando. E
vendo o Irmão trabalhar... Os policiais entregavam os presos ao delegado, que
mandava o Irmão trancafiá-los. O Irmão agarrava o elemento pelo cangote e o ia
empurrando para o fundo do prédio. Abria a cela e empurrava o sujeito pra
dentro, como fazíamos com as galinhas, lá no Colégio Agrícola. Aquela imagem
continua impregnada em minhas retinas, 25 anos passados...
Agora vamos à carceragem da PF de
Curitiba. Já nos é familiar a imagem do policial de traços orientais, com
óculos escuros e cabelos curtos e grisalhos, a escoltar os presos famosos. “O
japonês de Curitiba”, estão cochichando por aí. Tudo bem, a esmagadora
maioria dos japoneses e seus descendentes é honesta e prudente, por isso poucos
vão presos ou trabalham na polícia...
(Aliás, japonês é honesto e trabalhador e
prudente, assim como francês, angolano, inglês, russo, chinês, italiano, moçambicano, português,
alemão, sueco, coreano, congolês, etíope, espanhol, queniano,
judeu, árabe, turco, grego, palestino, afegão, indiano... vícios e virtudes são democraticamente bem distribuídos...)
Mas, estive pensando: vai que esse
policial brasileiro de ascendência japonesa seja também uma vítima. Sei lá, o
Paraná é um estado tão sem carisma... (ops, anotar, para futura crônica...), o
funcionalismo ali deve observar todos os milímetros do regulamento, o pobre
exercia a função de carcereiro quando um juiz local resolveu prender meio
mundo, quem entre os subalternos ali da carceragem ia prever que a mídia fazia parte da trama, ia baixar
em peso? Então o coitado caiu de gaiato, e os diretores de imagem das TVs
gostaram do seu perfil austero e determinado e o prenderam... obrigando-o a
continuar exercendo o execrável papel...!
Porém, sendo verdadeira minha hipótese, o cara
é um ótimo ator. Porque sua felicidade salta aos olhos dos telespectadores. O
que só contribui cada vez mais para aumentar a divisão entre os 52% que o
execram e os 48% que o idolatram, para a perplexidade da nação.
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