segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Mataram meu doce rio.



MATARAM MEU DOCE RIO
     Vou contar para vocês o testemunho de um menino que viu seu rio ser assassinado. O que é o assassinato de um rio? É quando se mata todos os seres vivos que vivem em suas águas. Por isso que o Tietê e o Pinheiros são rios mortos. O assassinato do Rio Doce não é mera coincidência... 

     Esse menino sou eu. Havia um rio no fundo da minha casa, coisa de 200 metros. Onde dei as primeiras braçadas e fisguei os primeiros peixes. Não era de muita água, chamava-se corgo. Nos corgos pesca-se e nada-se nos poços – trechos onde a água se acumula e para, por causa de alguma depressão maior. Quando o primeiro humano pula na água, os outros bichos saem todos: sapos, rãs, cobras, jacarés, preás, capivaras, etc. Só ficam os peixes, por falta de alternativa.

     Eu pescava todo dia. Uma vara de bambu, uma linha de 2 metros e um anzol. Uma latinha vazia de massa de tomate cheia de terra com minhoca e uma fieira pra trazer os peixes. Umas 2h por dia, na parte da tarde. Em média eu pegava 3 bagres, 2 mandis e um lambari. Raramente pegava um peixe-cachorro ou uma traíra. Pesando tudo dava uns 200 gramas. Minha mãe limpava e fritava. De vez em quando matava um preá, com o estilingue. Então a fritada era maior...

     Até que um dia, sem qualquer aviso, os peixes se mostraram todos de barriga pra cima, branquelos, descendo a correnteza, zanzando nos poços, parando nos aguapés e nas taboas. As águas não eram límpidas, jamais se via um peixe, senão fisgado. Por isso, os peixes eram misteriosos. Mas naquele dia eles perderam a vida e o encanto. E eu perdi a piscina e a mistura.

     Aconteceu o seguinte: um sitiante montou um engenho de pinga 2km rio-acima. Uma pequena indústria, bem maior que os tradicionais alambiques de cachaça que pululam pelo interior do Brasil. A cachaça é o resultado da destilação do vinho de caldo de cana. No processo, grande parte é descartada e... jogada no rio! Um produto venenoso e fedorento. Mata quem não pode fugir e afugenta os anfíbios. E vacas e bois e burros e cavalos e mulas e éguas e cabras e bodes e porcos e carneiros que encontrem outra água para beber.

     Mas o assassinato do Rio Doce foi pior. Matou os seres vivos animais e vegetais e afetou uma população muito maior. E a lama desfigurou o rio. Além de matar gente e destruir suas casas. Sendo que uma população enorme bebia daquela água. O assassinato do meu doce rio da minha infância não esqueço nem depois de morto. O sitiante não tinha filho nem morava lá. Era da cidade. Aquilo era só um negócio. A Vale gasta uma graninha a mais em marketing institucional e limpa tudo rapidinho.

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