Ia eu pela
Visconde de Parnaíba, ali no Brás, passara em frente à Hospedaria do Imigrante,
local que me suscita tenebrosas transações, quando comecei a ver barracas de
camelôs a vender véus. Véus brancos, rendados. Só véus. Observei algumas lojas
e vi que também vendiam véus. Algumas lojas vendiam instrumentos musicais
metálicos, de sopro. Liguei rápido o oportunismo comercial ao templo da
Congregação Cristã no Brasil, em frente. Nenhuma mulher pode entrar naquela
igreja com a cabeça ou os ombros a descoberto.
Corta para Praça
da Sé, cena de rua vista num relance, enquanto passava de bicicleta. Um homem e
uma mulher comuns, normalmente vestidos, discutiam em altos brados. A mulher,
de costas para mim, dirigia uma frase inteira(que eu não entendia) ao homem e o
homem respondia com uma única e bem pronunciada palavra: VAGABUNDA! Se
desvencilharam rápido, tudo leva a crer que eram desconhecidos, e a mulher não
tinha a aparência de “vagabunda”, segundo o imaginário machista.
Sobre a venda dos
véus, eu deduzi, na hora, que o oportunismo é a principal qualidade do
comerciante; que naquela igreja era obrigatório o uso do véu às mulheres e, que
as mulheres eram pegas desprevenidas sobre essa obrigatoriedade, por isso
precisavam comprar o véu para participar da cerimônia. E me lembrou que essa
cena acontece também no Vaticano, para entrar na Catedral de São Pedro, às
mulheres de camiseta sem manga. E me lembrou as mulheres judias, que precisam
esconder os cabelos; e me lembrou as mulheres muçulmanas...
Sobre a cena da
Praça da Sé, me lembrou na hora que os homens broncos (a maioria) usam as
palavras VADIA ou VAGABUNDA, com conotação sexual, para vencer rapidamente no
grito uma mulher. As mulheres em geral se sentem tão ofendidas com tais
palavras, que ficam momentaneamente atordoadas e abandonam a discussão, dando a
vitória ao homem. Eu continuei pedalando e pensando: por isso, é golpe baixo
chamar uma mulher de vagabunda. Por isso, é um covarde quem atribui o estupro à
postura corporal da mulher.
Cheguei a casa e fui pesquisar: e descobri na Wikipédia
as duas pérolas que seguem: a primeira, no verbete "Véu", é um trecho da Epístola aos Coríntios,
atribuída a Paulo de Tarso. E a segunda, no verbete “Congregação Cristã no Brasil”:
1ª) “Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta
desonra a sua cabeça; e toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça
descoberta desonra a sua cabeça; pois é como se a tivesse rapada. Se a mulher
não cobre a cabeça, deve também cortar o cabelo; se, porém, é vergonhoso para a
mulher ter o cabelo cortado ou rapado, ela deve cobrir a cabeça. O homem não
deve cobrir a cabeça, visto que ele é imagem e glória de Deus; mas a mulher é
glória do homem. Pois o homem não se originou da mulher, mas a mulher do homem;
além disso, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa
do homem. Por essa razão e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a
cabeça um sinal de autoridade. No Senhor, todavia, a mulher não é independente
do homem, nem o homem independente da mulher. Pois, assim como a mulher proveio
do homem, também o homem nasce da mulher. Mas tudo provém de Deus. Julguem
entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça
descoberta? A própria natureza das coisas não lhes ensina que é uma desonra
para o homem ter cabelo comprido, e que o cabelo comprido é uma glória para a
mulher? Pois o cabelo comprido foi lhe dado como manto. Mas se alguém quiser
fazer polêmica a esse respeito, nós não temos esse costume, nem as igrejas de
Deus. (1 Coríntios 11:4-16)”
“Até a participação das mulheres nas orquestras é limitada. Desde que em 1961 um ancião diz ter tido uma revelação para tirar as mulheres das orquestras, elas não podem tocar outros instrumentos além do órgão no Brasil. Entretanto, em outros países puderam continuar a tocar.”.
Mas, enfim, um
alento. Até as crentes da Congregação são pegas de surpresa...
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