quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O VÉU E O HOMEM.

     Ia eu pela Visconde de Parnaíba, ali no Brás, passara em frente à Hospedaria do Imigrante, local que me suscita tenebrosas transações, quando comecei a ver barracas de camelôs a vender véus. Véus brancos, rendados. Só véus. Observei algumas lojas e vi que também vendiam véus. Algumas lojas vendiam instrumentos musicais metálicos, de sopro. Liguei rápido o oportunismo comercial ao templo da Congregação Cristã no Brasil, em frente. Nenhuma mulher pode entrar naquela igreja com a cabeça ou os ombros a descoberto.
     Corta para Praça da Sé, cena de rua vista num relance, enquanto passava de bicicleta. Um homem e uma mulher comuns, normalmente vestidos, discutiam em altos brados. A mulher, de costas para mim, dirigia uma frase inteira(que eu não entendia) ao homem e o homem respondia com uma única e bem pronunciada palavra: VAGABUNDA! Se desvencilharam rápido, tudo leva a crer que eram desconhecidos, e a mulher não tinha a aparência de “vagabunda”, segundo o imaginário machista.
     Sobre a venda dos véus, eu deduzi, na hora, que o oportunismo é a principal qualidade do comerciante; que naquela igreja era obrigatório o uso do véu às mulheres e, que as mulheres eram pegas desprevenidas sobre essa obrigatoriedade, por isso precisavam comprar o véu para participar da cerimônia. E me lembrou que essa cena acontece também no Vaticano, para entrar na Catedral de São Pedro, às mulheres de camiseta sem manga. E me lembrou as mulheres judias, que precisam esconder os cabelos; e me lembrou as mulheres muçulmanas...
     Sobre a cena da Praça da Sé, me lembrou na hora que os homens broncos (a maioria) usam as palavras VADIA ou VAGABUNDA, com conotação sexual, para vencer rapidamente no grito uma mulher. As mulheres em geral se sentem tão ofendidas com tais palavras, que ficam momentaneamente atordoadas e abandonam a discussão, dando a vitória ao homem. Eu continuei pedalando e pensando: por isso, é golpe baixo chamar uma mulher de vagabunda. Por isso, é um covarde quem atribui o estupro à postura corporal da mulher.
     Cheguei a casa e fui pesquisar: e descobri na Wikipédia as duas pérolas que seguem: a primeira, no verbete "Véu", é um trecho da Epístola aos Coríntios, atribuída a Paulo de Tarso. E a segunda, no verbete “Congregação Cristã no Brasil”:

1ª)  “Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça; e toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça; pois é como se a tivesse rapada. Se a mulher não cobre a cabeça, deve também cortar o cabelo; se, porém, é vergonhoso para a mulher ter o cabelo cortado ou rapado, ela deve cobrir a cabeça. O homem não deve cobrir a cabeça, visto que ele é imagem e glória de Deus; mas a mulher é glória do homem. Pois o homem não se originou da mulher, mas a mulher do homem; além disso, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. Por essa razão e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade. No Senhor, todavia, a mulher não é independente do homem, nem o homem independente da mulher. Pois, assim como a mulher proveio do homem, também o homem nasce da mulher. Mas tudo provém de Deus. Julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça descoberta? A própria natureza das coisas não lhes ensina que é uma desonra para o homem ter cabelo comprido, e que o cabelo comprido é uma glória para a mulher? Pois o cabelo comprido foi lhe dado como manto. Mas se alguém quiser fazer polêmica a esse respeito, nós não temos esse costume, nem as igrejas de Deus. (1 Coríntios 11:4-16)”

2ª)  “As mulheres na Congregação Cristã no Brasil possuem um status subalterno:: não podem ocupar funções de decisoras, sua participação no culto restringem-se a orar, pedir hinos e testemunhar, os cargos ocupados são de limpeza, cozinha, costura, auxiliar de jovens, atendente das portas (não podem ser chamadas de "porteiras" como seus correspondentes masculinos). As auxiliares de diáconos, chamadas de "irmãs da obra da piedade" possuem limitada participação na escolha das famílias necessitadas e nas entregas de mantimentos, sem poderem serem anunciadas publicamente seus ministérios na igreja. Entretanto, nem sempre foi assim. Até os anos 1970 era permitido às mulheres pregarem e dirigirem as Escolas Dominicais (hoje chamadas de Reunião de Jovens e Menores). Apesar de os Estatutos não proibirem, não há mulheres em cargos administrativos de presidente, secretária, tesoureira ou conselheira fiscal. No passado, houve diaconisas ordenadas e com mesmas funções de diáconos homens: Lucia Menna que esteve no Brasil nos anos 1920 e Rosina Francescon em 1948, a qual também era diretora de Escola Dominical na Congregação Cristã em Chicago.
“Até a participação das mulheres nas orquestras é limitada. Desde que em 1961 um ancião diz ter tido uma revelação para tirar as mulheres das orquestras, elas não podem tocar outros instrumentos além do órgão no Brasil. Entretanto, em outros países puderam continuar a tocar.”.

     Mas, enfim, um alento. Até as crentes da Congregação são pegas de surpresa...

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