RIO MORRE.
MAS RESSUSCITA.
O Rio do
Carmo também foi matado. O Rio do Carmo é um dos formadores do Rio Doce. Estão
mortos. De uma pancada só.
Diferente do
Tietê. Do Pinheiros. Do Tamanduateí. Que foram matados devagarinho. Mas estão
igualmente mortos. Isso só pra ficar nos três cadáveres mais próximos da minha
casa.
Com uma
paulada só ou devagarinho, é tudo uma pouca-vergonha. Falta de respeito do
governo, do povo, do industrial. Um sujeito individual ou coletivo é culpado
dessa carnificina, quero dizer, dessa aquaficina.
A sujeira de
um rio denuncia o grau civilizatório dos seus ribeirinhos.
Penso que,
talvez, já haja tecnologia para individualizar os esgotos jogados no rio. Uma substância
colocada em cada local e depois identificada lá no rio...uma espécie de DNA do
esgoto de cada um. Mas uma forma radical e viável de limpar o rio é obrigar
todas as unidades – familiares, prediais, comerciais, industriais – a tratarem
o próprio esgoto.
Ou a pagar
para alguém tratar.
Porque,
diferente de nós, animais e vegetais, os
rios ressuscitam.
Esse
conceito é muito importante nos casos de morte-matada de uma paulada só, como
fizeram com o Carmo e o Doce. Obrigarem os que deram a paulada a gastarem grana
na recuperação.
Pois um rio
é dinâmico por natureza. A água suja e assassina escoa. E água limpa, mas sem
vida, passa a correr no rio, se pararem de jogar sujeira nele. A água limpa é
repovoada pela vida remanescente nos afluentes. Reflorestar as margens. Sem
frescura. Obrigar os proprietários das margens. Primeira obrigação: passar uma
cerca na distância que consta na lei. Por lei, cada rio tem uma largura mínima
de matas em suas margens. Para que ali não passe nenhuma cabeça de gado, que
dirá trator. Em pouco tempo a mata se forma sozinha. A mesma coisa nas
encostas. A partir de certa declividade, o terreno não pode ser cultivado. Está
na lei.
E o que o
reflorestamento tem a ver com o rio? É que os rios são formados por minas.
Minas são águas acumuladas nas profundezas da terra que afloram à superfície.
Essa água uma dia foi chuva. Que, ao invés de escorrer, infiltrou. Infiltrou
porque algum obstáculo não a deixou correr. E o melhor obstáculo é a floresta,
que não deixa a água da chuva escorrer nem evaporar.
Desculpem o
beabá. É viável ressuscitar um rio.
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