Fumar,
tudo bem, mas jogar a bituca na calçada, na frente dos olhos meus e dos olhos
de outros cidadãos exímios pagadores de
impostos? Sendo o fumante um cidadão trabalhador da área da saúde, talvez
dentista, a julgar pela roupa branca e a placa no segundo andar? Pois o cidadão
fumava na porta do sobrado, eu ia passando, ele tascou a bituca, que saiu
quicando na calçada, indo estacionar bem na minha frente, cerceando meu direito
de ir e vir e outros.
Fazia
sol, a claridade era absoluta, todos viram. (Na verdade, o céu estava nublado, chuviscava...). O homem
vestido de branco jogou o resto do cigarro na calçada. Essa é a dura realidade,
eu vi, outros cidadãos viram. Se brincar, a ponta deve estar lá até agora.
Não foi uma miragem, havia muita luz,
luz natural, do dia, a bituca quicou, parecia viva. Enquanto o resto de tabaco
traçava sua trajetória rumo ao chão, como se fora uma estrela cadente, eu
desviei meu olhar em direção ao olhar do homem e o flagrei conferindo a
parábola. Foi um átimo, eu não sustentei o flagrante – fiquei constrangido -,
retomei o cenário anterior a ponto de ainda pegar o pedacinho de cigarro no ar
e conferir sua performance saltitante no cimento, até a imobilidade. O
cartuchinho branco parecia sorrir, parecia vivo, parecia um moleque.
O indivíduo vestido de branco estava com o
cigarro na boca há pouco, deduzo, pitou até transformá-lo em bituca,
descartou-o displicentemente, largando-o na calçada, na frente da sua porta e
dos meus pés. Teria iniciado o lançamento com um piparote, utilizando-se do
polegar e do médio, como fazemos para espantar besouros? Isso não vi,
cheguei depois, quando o cigarro já estava no ar. Quero crer que sim, a julgar
pelas três quicadas, que normalmente só acontecem com petardos lançados
vigorosamente. Entretanto, pode ser que não, a julgar pela pequena distância
percorrida.
Seria triste constatar que a bituca foi
simplesmente largada – dois dedos se abrindo discretamente, cuidando para não
deslocarem nenhuma molécula de ar. Talvez assim tenha sido feito, após pequeno
balanço do braço e da mão, como costumam fazer as pessoas elegantes. A bituca
deve estar lá ainda, talvez já tenha se desmanchado por causa da chuva,
certamente está lá uma pequena mancha escura do resto de fumo em pó, o homem já
deve ter voltado aos seus afazeres, no andar de cima, na labuta diária com os
dentes da freguesia, usando escrupulosamente as higiênicas luvas de látex,
prática essa que ele aprendeu nos bancos escolares da faculdade de odontologia.
Na
esquina, um bar; em frente, uma copiadora; lá longe, um hospital; cá embaixo,
um supermercado. Muitos cidadãos passando por ali, obrigados todos a saltarem
sobre a bituca ali no passeio público. A faxineira pode tê-la varrido, os
lixeiros da prefeitura podem tê-la recolhido, mas seus restos repousam neste
mesmo mundo nosso. E o fato da sua existência está inapelavelmente escrito nas
moléculas aéreas do ar do pedaço. Os cidadãos continuarão obrigados a conviver
com seu fantasma, a ideia de que uma ponta de cigarro foi jogada na calçada
continua intransponível. É fato concreto que o cidadão de branco e de bigode
jogou o resto de cigarro na calçada. É inquestionável a existência das
transações humanas acima referidas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário