ÚLTIMA CRÔNICA AMARGURADA.
- Pô, meu, o
cara é presidente de multinacional!
- Não é
multinacional, é grupo empresarial paulista, com ramificações e associações no
exterior...
- Pô, meu,
no nordeste e em Guaraci, isso é tudo a méma b.!
-
Desapareceu na curva, dobrô o espigão, é estrangeiro...
- Cê viu, o
cara anda de bicicleta!
- É, isso é
pré-requisito pra contratação...
- O quê?!
- O cara tem
sensibilidade social...
- Para de
falar com reticências, caralho!
- Escuta
aqui, ô mermão, enfia tua alienação no cu, sem exclamação...
- La vem
você com essa porra de discurso!
- Não é
discurso, é sussurro...
- O quê?!
Deixa palavras faltando e ainda fala baixo!
- Já foi o
tempo em que as multinacionais e os grandes grupos empresariais paulistas contratavam
broncos...
- É, cê viu
que gente fina!
- E a
bicicleta era vagabunda...
- Pô, meu,
a maió humildade, dô o maió valor!
- É, gestão
profissional...
- Caceta,
palavras faltando, palavras sibilando! Você é dose!
- Os
bandeirantes já se incorporaram à terra; dos fazendeiros de café só restam os
cabelos e os ossos mais grossos; os capitães-de-indústria já morreram ou estão
gagás; os filhos estão proibidos de abrir a boca em público pra não dar
vexame...
- Até achei
simpático esse ponto-e-vírgula!
- Na época
da ditadura era o contrário, contratavam trogloditas no exterior...
- Pô, meu,
para com isso! O cara comanda milhões e vem aqui pra rua, se mistura com a
gente, sua, pedala, você não queria que ele fosse comunista, né?!
- Não, eu só
queria que ele falasse bicicleta ao invés de bike...
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