quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

OS COMEDORES DE MORTADELA.



     No início do mundo, era mortandela. Depois tiraram o “n”, e virou mortadela. Era, também, no começo, duzentas gramas de mortandela. Depois descobriu-se que “grama” era substantivo masculino – coisa mais esdrúxula – e passamos a pedir, na padaria, duzentos gramas de mortadela. (e descubro, ao digitar, que meu processador de texto também pensa que é duzentas, porque corrigiu para “gramos” quando digitei “duzentos” na frente de “gramas”). Se bem que, dia desses, na padaria, quando eu pedi “duzentos gramas de mortadela”, vários clientes me olharam feio de esgelha, considerando-me um estrangeiro. Já o atendente, coitado, nem se tocou, atordoado sob pressão da fila e do patrão do outro lado do balcão: “Duzentas?”. E eu, pra confirmar: “É, duzentos!”. O ponto de exclamação foi por conta do meu queixo erguido na direção da freguesia ignara, desconhecedora do castiço e escorreito português que o populacho teima em desaprender, um povinho que tem a mania de comer mortandela e arrotar mortadela. 

     No início do mundo eu quase morri comendo mortandela. Antes é preciso dizer que eu comia mortandela uma vez por ano, por ocasião das compras anuais. Sobre compras anuais, falo outro dia. Pão com mortandela e guaraná, no reservado da padaria. Por conta do almoço, em  família. À noite, em casa, azulou tudo. Pior que o pior veneno, o estômago comandou uma febre que me destruiu uns dois neurônios. Eu delirava tão bem que, até hoje, vejo os soldados romanos e suas lanças invadindo o quarto pelas telhas da casa sem forro, enquanto as mulheres da famiglia rezavam ao pé da cama.(ora, era um tempo machista em que meu pai até rezava, mas escondido; a religião e assuntos correlatos era assunto de mulher; homem rezador, que gostava de padre, não era bem visto).

     Havia uma mortandela que não carecia de geladeira. Aquilo era um perigo. Atualmente a mortadela é mais fina, ops, mais cara, do que presunto e muzzarela. No início do mundo, só deputado comia presunto e muzzarela. Aliás, no início do mundo, fecharam o Congresso para reocupá-lo com cidadãos eleitos por eleitores previamente esclarecidos sobre boas maneiras de votar e condicionados por parâmetros limitadores convenientes, eita tucanês desgraçado!

     Agora, sanduíche de mortadela é coisa fina no Mercadão. Vem turista do mundo inteiro à procura dos sanduíches do Mercado Municipal de São Paulo. Só a ditadura da Microsoft supera a ditadura dos guias turísticos. Mas aquele sanduíche é um despropósito. Porque um sanduíche de mortadela – e disso eu entendo – não pode ter mais nem menos fatias. E aquele sanduíche do mercadão tem muitas fatias demais, não presta. E ainda cometem a heresia de esquentarem a mortadela.

     Ainda, mais uma vez, constato que a maioria da população brasileira é constituída de contumazes comedores de mortadela. Mas somente uma vez por ano, que são desconfiados. No dia a dia, comem arroz, feijão, tomate, ovo frito. O populacho é burro mas não é besta. E coxinha, até comem, mas com reservas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário