No início do mundo, era mortandela. Depois
tiraram o “n”, e virou mortadela. Era, também, no começo, duzentas gramas de
mortandela. Depois descobriu-se que “grama” era substantivo masculino –
coisa mais esdrúxula – e passamos a pedir, na padaria, duzentos gramas de
mortadela. (e descubro, ao digitar, que meu processador de texto também pensa
que é duzentas, porque corrigiu para “gramos” quando digitei “duzentos” na
frente de “gramas”). Se bem que, dia desses, na padaria, quando eu pedi “duzentos
gramas de mortadela”, vários clientes me olharam feio de esgelha,
considerando-me um estrangeiro. Já o atendente, coitado, nem se tocou,
atordoado sob pressão da fila e do patrão do outro lado do balcão: “Duzentas?”.
E eu, pra confirmar: “É, duzentos!”. O ponto de exclamação foi por conta do meu
queixo erguido na direção da freguesia ignara, desconhecedora do castiço e
escorreito português que o populacho teima em desaprender, um povinho que tem a
mania de comer mortandela e arrotar mortadela.
No início do mundo eu quase morri comendo
mortandela. Antes é preciso dizer que eu comia mortandela uma vez por ano, por
ocasião das compras anuais. Sobre compras anuais, falo outro dia. Pão com
mortandela e guaraná, no reservado da padaria. Por conta do almoço, em família. À noite, em casa, azulou tudo. Pior
que o pior veneno, o estômago comandou uma febre que me destruiu uns dois
neurônios. Eu delirava tão bem que, até hoje, vejo os soldados romanos e suas
lanças invadindo o quarto pelas telhas da casa sem forro, enquanto as mulheres
da famiglia rezavam ao pé da cama.(ora, era um tempo machista em que meu pai até rezava, mas escondido; a religião e assuntos correlatos era assunto de mulher; homem rezador, que gostava de padre, não era bem visto).
Havia uma mortandela que não carecia de
geladeira. Aquilo era um perigo. Atualmente a mortadela é mais fina, ops, mais
cara, do que presunto e muzzarela. No início do mundo, só deputado comia
presunto e muzzarela. Aliás, no início do mundo, fecharam o Congresso para
reocupá-lo com cidadãos eleitos por eleitores previamente esclarecidos sobre
boas maneiras de votar e condicionados por parâmetros limitadores convenientes,
eita tucanês desgraçado!
Agora, sanduíche de mortadela é coisa fina
no Mercadão. Vem turista do mundo inteiro à procura dos sanduíches do Mercado
Municipal de São Paulo. Só a ditadura da Microsoft supera a ditadura dos guias turísticos. Mas aquele sanduíche é um despropósito. Porque um
sanduíche de mortadela – e disso eu entendo – não pode ter mais nem menos
fatias. E aquele sanduíche do mercadão tem muitas fatias demais, não presta. E
ainda cometem a heresia de esquentarem a mortadela.
Ainda, mais uma vez, constato que a
maioria da população brasileira é constituída de contumazes comedores de
mortadela. Mas somente uma vez por ano, que são desconfiados. No dia a dia, comem
arroz, feijão, tomate, ovo frito. O populacho é burro mas não é besta. E coxinha, até comem, mas com reservas.
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