Da mesma forma que os baianos são
preguiçosos e os cariocas folgados, os paulistanos são trabalhadores... o que
seria de nós sem os preconceitos? Pelo menos no que se refere a nós,
paulistanos, descobri o motivo da fama. É que nós, realmente, fazemos as coisas
mais depressa. Se o fazemos completo e bem feito, já é outra discussão... (aqui não resisto a uma reflexão sobre as
coisas que, quanto mais devagar, melhor... mas somente cá com meus botões).
Ora, quem faz depressa, faz mais, é mais produtivo. É isso que as pessoas
tendem a deduzir. Sabe aquele seu colega de escritório que não para, que sempre
está fazendo algo, que por isso nunca tem tempo, que tem um monte de arquivo
pra fazer? Não é verdade que todo mundo
no escritório acha que ele é o mais trabalhador? Pois então, observe melhor. Ele realmente
pode estar sobrecarregado, mas o mais provável é que ele seja um impostor ou um
incompetente. Ele pode ser um fingido, daqueles que querem mostrar serviço.
Mas, na maioria dos casos, se trata de pura incompetência. Até porque o fingido
não dura muito: ou é desmascarado ou sobe de posto e ... Já o incompetente dura, porque permanece
bastante tempo na função, pois a sua sinceridade realmente comove chefes e
subordinados.
E o que tem a ver essa realidade microcósmica
com o paulistano trabalhador? Tem a ver que o paulistano só anda correndo na
rua, com pressa, carrancudo, pois provavelmente está com os minutos contados.
Experimente parar um amigo paulistano na calçada, na parte da manhã, para ver o
vexame: é a impaciência em pessoa, eis que seus minutos estão contados para
chegar a algum lugar em que tem hora marcada. E porque isso acontece? Porque
ele mora longe. O paulistano perde muito
tempo no trânsito, coisa de duas horas pra ir, duas pra voltar, em média. Isso
é um chute meu, mas ancorado na observação real. (eu mesmo, paulistano, nunca
perdi mais de 15 minutos pra ir e vir, a pé).
Pois vá somando. Dez horas por conta do patrão, quatro horas por conta
do transporte, oito por conta do necessário sono, sobraram duas horas para
cozinhar, arrumar a casa, ir ao supermercado, fazer ginástica, preparar a
marmita, ler o jornal, assistir à novela, chamar e acompanhar o técnico da
máquina de lavar roupa, do micro-ondas, do fogão, da geladeira, do computador,
do telefone, da ligação da internet, do
gás, da eletropaulo, da sabesp, do pedreiro, do encanador, do pintor, do
professor de inglês, fora ter de levar o
carro no posto, no mecânico, no seguro, no detran, na vistoria, fora ter de
renovar a carteira de habilitação (a cada quatro anos), a carteira de
identidade (a cada dez anos), pagar as contas, IPTU, IPVA, ir à assembleia do condomínio, do sindicato,
da reunião de pais na escola, ao cabelereiro, ao pedicuro, ao médico, ao
dentista. Ao Pacaembu... Sendo que
ainda tem muito paulistano que multiplica tudo isso por dois, com a casa na
praia ...
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