segunda-feira, 24 de abril de 2017

Crônica folgada.

AINDA OS FOLGADOS.

     Minha amiga Graça me diz que todo folgado tem má índole. Então, de toda minha família paterna, só meu pai não era sacana. Porque meu pai, realmente, nunca, jamais, pediu a mim-criança, que fosse buscar uma cerveja na geladeira...que fosse buscar o chinelo. Os outros todos, especialmente os homens, tios, avô, era um tal de pedir. Pedir não, mandar. E, da minha parte, um tal de desobedecer. Nunca fui buscar porra nenhuma de cerveja pra tio nenhum, nem pro nono.

     Mas, olha o detalhe. Nunca brigaram comigo por causa disso. É claro que, na hora, ficavam brabos, mas nada duradouro, nenhuma ameaça,  nada que abalasse a amizade.

     Quem nunca curtiu um final de semana num hotel-fazenda, só por causa do lençol cheiroso, do banheiro imaculado, do café-da-manhã? Quer coisa mais saborosa do que jogar a toalha no chão quando achamos que ela deva ser lavada?  A prova de que estávamos nesse hotel somente por causa dessas mordomias básicas e urbanas é que, embora ele estivesse rodeado de cavalos, pedalinhos, trilhas, nós não saímos da sua área calçada, durante os dois dias.

     Quem nunca ficou o dia inteiro só comendo, dormindo e tomando banho, dentro de um hotel do tipo pensão completa, localizado no centro de uma cidade interessante?

     Quem nunca fez alguma pequena que seja trapaça para ganhar mais dinheiro e poder comprar mais... mordomias?

     Quem nunca teve um pesadelo com um mordomo próprio? Sim, quem nunca sonhou em ter à disposição uma governanta?

     Quem nunca contratou uma faxineira?  (pô, isso é jogo sujo. E baixo!).

     Querida Graça, a folga é como o pecado. Está em toda parte, a nos tentar. Ser folgado é o estado latente de todo ser. A maioria de nós precisa de um deus para se mexer, para lavar o próprio prato. Agora, terrível é quando um sujeito de má índole encontra um deus que o torna diligente. Então temos um nazista.

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