quinta-feira, 27 de abril de 2017

O JEITO E A GREVE.

     Era um funcionário relapso. Vivia chegando atrasado. É que, vira e mexe, o carro dele quebrava, um pneu furava, um ônibus o abalroava... Às vezes faltava. Matava a mãe, matava a sogra, um tio... Muitas vezes saía apressado no meio do expediente, um filho quebrara o pé, uma árvore caíra-lhe sobre a casa... Em pleno horário de trabalho, pendurava-se ao telefone para brigar com o encanador, pesquisar preço de geladeira, encomendar a pizza do jantar... E como ia ao médico! Claro, sempre no horário de trabalho. Médico, dentista, pscólogo, era um cara que cuidava bem da saúde. Dele próprio e de toda a família, até o terceiro grau. Acompanhava sogro, cunhado ao médico. Quebrava o braço umas duas vezes por ano. Justificava tudo com argumentos muito humanos e, ao final do mês, o salário caía integral.

     Não era demitido porque seu patrão era uma empresa estatal, entrara por concurso. Os colegas relevavam, havia tolerância. A empresa só demitia quem pisava no tomate de maneira escabrosa. Trabalhasse numa empresa privada e já estaria fora há muito. Porque ele era do tipo de funcionário que precisava comparecer, produzir. Na empresa privada, esse tipo vive debaixo de chicote. Há um outro tipo de funcionário na empresa privada, que apenas consta na folha de pagamento. Sequer sabe o endereço da firma.

     Mas, voltemos ao nosso colega. Aproximava-se o dia da nossa greve anual. Durante a negociação salarial, ano sem greve não contava... Nos dias precedentes, agitação, discussão, ameaças, boatos, pavor. Uns eram tão inseguros, tinham tanto medo, que eram melhores dentro do que fora da empresa, durante a greve. Apavoravam tanto no piquete que acabávamos botando-os pra dentro, discretamente...

     O primeiro dia da greve é triste. A gente tem de chegar cedo, muito cedo. E tem de ficar falando e respondendo a argumentos infantis o tempo todo. De pé. Sem água. Sem café, sem banheiro. A gente sabe quem vai furar pelo vestuário. Aquele ou aquela colega com roupa impecável, barba feita, marmita, não tem quem segura. Já aquela de calça jeans e tênis vai até pra passeata, ao final do dia.

     Enfim, chegou o dia da nossa greve. A vanguarda do movimento estava a postos uma hora antes do horário de entrada. Meia hora depois, faltando, portanto, outra meia hora para o início do expediente, aponta lá na esquina o nosso colega relapso. Barbeado, cheiroso, impecável. Preocupado com o prejuízo da empresa, diligente, trabalhador...

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