Aos 15 anos fui estudar num colégio interno. Na primeira semana de internato, o veterano Brinjela me contou que o veterano Grapete dedava. Apelidos fictícios... Eu fiquei boiando: Grapete punha o dedo em algo? Porque dedava só podia ser uma derivada de dedo. Não, dedava e ponto. Era dedo-duro. Peraí. Era ou tinha o dedo duro? Tinha problema no dedo? Não, coió! É um cagueta. Xiiii! Piorô. Quê que é cagueta? Cagueta, coió! Dedo-duro. Leva-e-trás.
Ôpa! Então fiquei de orêia em pé. Como burro, que de burro não tem nada, quando percebe algo importante, levanta a orêia.
Ele déda, rapaiz. Cuidado. E saiu andando, sem mais detalhes, me deixando cabrêro com aqueles verbos e adjetivos intransitivos. Com aquelas frases descomplementadas.
Mas o Grapete era doente. Aguentou os três anos no maior isolamento, debaixo do nosso impiedoso desprezo. Como é que ele sabia certas coisas da nossa parte, se a gente mudava de assunto com sua aproximação? Fatos esses que ele logo batia na orêia da Mirinda, chefe da secretaria. Que contava ao diretor na hora do almoço.
É que — descobrimos tarde — havia eventuais sub-delatores. Eternos coiós que delatavam ao delator. Ainda bem que todos esses eternos coiós sub-delatores foram beneficiados com a troca da prova de Matemática do professor Juneca, que a nossa turma perpetrou no quarto bimestre do segundo ano. A secretaria não tinha forro, os armários não tinham chave, entramos por cima, colocamos uma prova bem feita no lugar da desastrada... Até hoje!
Conseguimos preservar o Sistema. Todo mundo concluiu o curso, sobreviveram, hoje sexagenários, cada um mais honrado que o outro. Ainda bem que conseguimos neutralizar o Grapete, coitado, um delator não premiado.
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