segunda-feira, 17 de abril de 2017

DE(DO) DELAÇÕES & FUXICOS

Delação é uma das expressões da traição.

Toda delação é premiada. Delação não premiada é fuxico. Delação é um fuxico interclasses.

Delação só existe em sistemas muito desiguais e autoritários.

Fuxico há em toda parte, até entre os animais. Sendo que as galinhas devem ser as mais fuxiqueiras do mundo animal: já perceberam como elas andam sempre em bando e a cacarejar?

(Sendo que sistema muito desigual e autoritário é uma redundância: desigualdade e autoritarismo sempre andam juntos.).

Fuxico é quando um compadre déda o outro, uma comadre a outra, povo da mesma laia, tudo igual e misturado, gente boa e entediada da vida, sem esperar nada em troca, incapaz de ficar calada.

(Déda do verbo dedar, dedodurar, durodedar, caguetar; caguetar do substantivo Cagueta; é, cagueta é um ser, não uma qualidade; no dicionário, comparece como Alcagueta; "Al" de Al Capone, suponho).

Grandes & Pequenas traições, o Brasil pode ser um país de fuxiqueiros.

Mas — Tiradentes versos Joaquim Silvério —, o Brasil não gosta dos grandes traidores.

A História está aí mostrando o traído, o delatado, como herói.

Entretanto — D. Pedro, antes que outro o faça —, o Brasil é um país de oportunistas que gostam de levar vantagem, outro pleonasmo.

Porém — Gerson no ostracismo —, no atacado o brasileiro não gosta de gente que quer levar vantagem:  o Brasil não é um país de traidores.

Pero que los hay, los hay.

Num tava maucheirando que o nosso mordomo de Tietê ia trair, com aquela cara de vice? Num tava na cara que apenas esperava uma pequena oportunidade para engrandecer seus corriqueiros fuxicos?

Fuxiqueiro interclasse? Duro-dedar, vim a conhecer o conceito aos 15 anos, quando entrei no colégio interno.

Minto. Minha irmã já me havia dedado pro meu pai, muito antes, por ocasião de um sabugo mal arremessado em sua têmpora.

Aos quinze, o conceito veio a me ser denominado. Quer dizer, não sei se um esgoelar escandaloso para chamar a atenção do pai pode ser comparado a uma delação propriamente dita.

Também tenho dúvidas se continua sendo delação quando a traidora não recebe nada em troca.

Então, acho que isso da irmã mais nova contar pro pai a safadeza do irmão mais velho pode ser um único exemplo de fuxico interclasses que é só fuxico. E do bem.

Porque fuxico pode ser do bem, delação jamais.

Colégio interno, penitenciária, Exército, não há universos desiguais e autoritários — pleonasmos recorrentes —, que não tenham ao menos um dedo-duro em suas categorias de base.

Entendido que a grande empresa privada nacional é também um desses universos. (empresa privada autoritária, outra redundância).

A carne é fraca e entre os subalternos sempre há algum dedo-leve a querer levar vantagem sobre seus iguais, eis que a delação é uma das expressões do oportunista.

Quanto mais abaixo do desigual está a vida, maior a tentação.

Só que, em geral, não é o zé lá do fim da fila que trai. O delator contumaz pode estar em qualquer patamar, em sua gradual e sorrateira ascensão.

Tudo depende das espigas sacudidas em frente ao focinho.

Enfim, o delator é um ser inevitável, mas insignificante, na quantidade e no conceito.

Os mundos giram normalmente na presença desse ser antissocial, mantido sob controle e desprestigiado.

Entretanto, quando os delatores são celebrados como heróis e protegidos pela lei, num tem tatu que aguenta. Talvez não provoque  tanto estrago na Escandinávia calvinista...

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