terça-feira, 4 de abril de 2017

NUNCA FUI ASSALTADO.

     Não sei porque inventei de descer na República e ir andando até a Sé. Era o fim de um sábado solitário, voltava pra casa, larguei o metrô e fui andando. Iria até a Praça da Sé, mas, claro, não pegaria o trem novamente só por duas estações. Acabaria de chegar a pé, evidente. A Barão de Itapetininga, o Viaduto do Chá, a rua Direita já não apresentam nada novo pra mim.  Inventei, desci,  fui. Ao contrário, o pedaço me dá um certo desgosto. Cheguei nos anos 1970, creio que não muito depois de seu apogeu econômico e cultural. Ali na região da Sé ainda existia a Praça Clóvis do Vanzolini, o Edifício Mendes Caldeira que, no mesmo ano, foi implodido espetacularmente para a construção da estação. As Lojas Americanas enfrentavam as Lojas Brasileiras ali na Rua Direita e ainda mantinham parte do dinamismo e novidades que encantaram minha mãe em 1954.  Guardando o viaduto do Chá ainda havia o Banco do Estado de São Paulo(antes do Banespa), de um lado, e a Light, do outro. O Mappin, em frente ao Teatro, no começo da Barão, ainda era loja de gente de classe média pra cima. Em todo o trecho passava carro, não havia nenhum calçadão. Não tenho certeza se crianças ainda estudavam no Caetano de Campos ali no meio da Praça da República.

     Eu poderia ter ido por baixo, vendo o mundo no celular. Mas fui por cima. Acho que por saudosismo. Frequentei muito cinema ali naquela região além-Anhangabaú, que então se chamava Centro Novo. A São João ainda era rua (e não avenida) e era a mesma que fora atravessada pela Iracema do Adoniran. A esquina com a Ipiranga ainda era a mesma do Caetano, havia dois enormes e luxuosos cinemas ali perto. Dava pra sentir o cheiro da Boca do Lixo e ecos das tragédias que inspiraram Ronda, do biólogo Paulo Vanzolini. Mulheres distantes e peladas se exibiam num cinema na Rua Aurora.

     Na época, havia os trombadinhas. Fui avisado deles ainda no trem da FEPASA. Eram perigosíssimos, segundo o noticiário do rádio e da TV. Porém só atacavam — ou melhor, só trombavam — velhos e pessoas debilitadas. E eu não era nem uma coisa nem outra, então, nos meus 18 anos, de modo que os ignorei e, como o esperado, fui ignorado por eles.

     Mas o tempo passa, como dizia Fiori Giglioti, narrador de futebol no rádio. Meus cabelos restantes branquearam. E era assim, careca e sexagenário, que resolvi atravessar por cima, novamente, aquele mundo familiar. Eu poderia ter continuado, descido na Sé, tomado a outra linha. Era um sábado morto, o sol já tinha se posto, fazia o lusco-fusco em que todos os gatos são pardos. A Rua Direita é estreita. Todas as portas já estavam abaixadas. Gatos pingados caminhavam  aqui e acolá, encaracolados em sí próprio, todos apressados, de cabeça baixa.

     E o que fazia aquele alemão magrelo ali, folgado, olhando a paisagem? Olhando por cima, pra frente, sem pressa, só, desarmado? Os dois jovens despontaram na Quintino Bocaiúva ao meu encontro. Fazia calor mas estavam de jaqueta. E eram pretos. E pobres. E carentes. Um homem de 60 anos, 42 deles submerso no caldo noticioso e preconceituoso da megalópole, sabe ler os sinais da malandragem central, pobres diabos que sobrevivem na besta ignorância da violência primária de tomar à força migalhas de seus iguais.

     De fato, vieram em minha direção. Eu no meio da rua no meio do redemoinho. Eles, de lá pra cá, igualmente. Da minha parte, nenhuma mudança: na direção, no olhar, na velocidade. Dos batimentos cardíacos, não me lembro. A hora era propícia, a iluminação da prefeitura está lamentável. Era um alemão velho, mas "in gamba", como dizem os italianos. De tênis, na ponta dos cascos, barbudo, destemido. Destemido no sentido de aparentar não ter notado o perigo. Encarando a dupla transeunte com naturalidade, como iguais. Fingido, bom ator, olhos mansos. Passaram reto, passei reto. Não. Não fui assaltado. Nunca fui assaltado.  

3 comentários:

  1. Trabalhei uns 3 anos na são joão com a ipiranga, no "relógio de ferro" ... chegava e saía de ônibus, na república ... nunca fui assaltado ... um inglês que trabalhava comigo, 1,60 m, olhar assustado, foi assaltado algumas vezes :-(

    Belo texto.

    :-)

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  2. Um texto lindo, claro, vivo. A gente sente o pulsar cada frase dentro do coração.

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