terça-feira, 21 de julho de 2015

OS EMBECIS


emBeCIS !”        “Morfemos !”


     É o que está escrito no muro de uma travessa entre a Vergueiro e a 23 de maio. O “Morfemos !” é por minha conta, a propósito de uma crônica do Cony nos jornais desta semana. Acrescentei também os sinais gráficos denotadores de ênfase indignada. Lá no muro está apenas “emBeCIS”, o “e”, o “m” e o “e” em letras de fôrma minúsculas e o “b”, o “c”, o “i” e o “s” em letras de fôrma maiúsculas, mas todas do mesmo tamanho, muito bem desenhadas, para não deixarem dúvida quanto ao conceito do escritor-pichador em relação a algo ou alguém no plural. Uma pichação atípica, de alguém sem prática, dirigida, certamente, a um conjunto de pessoas próximas do autor, semelhantes a ele, pois todos somos parecidos com as pessoas que nos são próximas. Próximas, porque ninguém xinga distantes. Entretanto, não consegui atinar quem seriam os destinatários, a julgar pela localização da pública palavra: um muro de uma subestação da Eletropaulo – onde não trabalha ninguém, portanto – numa ruazinha inexpressiva, de frente para um prédio com aparência de abandonado.

     Na hora senti uma simpática pena do indignado e quis ajudá-lo, melhorando a mensagem, daí que acrescentei o “Morfemos”  e as exclamações – não lá, mas aqui e, cá entre nós, não sei qual dos sítios é mais insignificante. Contudo, ambos são públicos, e isto é o que basta para nós – eu e o pixador -, que, agora, constituímos uma dupla. Deixo para explicar a minha parte no final; agora quero falar da palavra do meu parceiro. Indignado, porque “emBeCIS” é coisa de gente que está puta da vida. E como se não bastasse o tamanho e a legibilidade da palavra, ele ainda deu maior solenidade a ela, utilizando o poético recurso da hiper-correção. Não, não se trata de meros e dicionarizados imbecis, mas de específicos e inconfundíveis “emBeCIS”, sem esquecer os detalhes nada desprezíveis da letra de fôrma e da ausência do sinal enfático, que não era preciso, redundante atrás de tão solene palavra.

     Quanto ao “morfemos”...  é um xingamento da mais alta contundência, aqui grafado no plural. Eu não sei exatamente qual sua área específica de atuação – se ele atua no campo físico ou intelectual, do indigitado ou de seus parentes, se ele envolve a mãe do referido, se ele tem como matéria-prima aspectos sexuais ou político-partidários do desqualificado em tela, mas desconfio que sua atuação é completamente subjetiva, requerendo a capacidade abstrativa do usuário e constituindo, assim, um desqualificativo pós-moderno de alto poder desmoralizador, adequado a todos os tipos de público. Enfim,  é um xingo de grosso calibre, derivado da palavra morfema. De mais a mais, com esse som e essa ascendência, só pode ser um palavrão. Imagine a crônica se a palavra fosse “pusilânime”?

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