Em minhas longas caminhadas pelas estradinhas desse mundão caipira de São Paulo e Minas Gerais, vejo muitas cruzes fincadas ao lado do caminho. Antigas estradas boiadeiras, de barrancos altos; estradas vicinais ligando sítios à cidade e até estradas municipais asfaltadas: morre alguém ali, a família finca uma cruz no local. Nelas escrito o nome do finado e as datas de nascimento e morte. Até hoje nunca vi o nome de uma mulher. E olha que leio todos. Por que as mulheres não morrem à beira da estrada? (a primeira cruz que vejo, no dia seguinte, após pensar isto, vou ler o nome, Francisc...Francisca!). Só não faço o sinal da cruz porque não sou populista. De vez em quando, uma família mais abonada constrói uma capela, que a gente chama de igrejinha. Mais triste que uma cruz abandonada, é uma igrejinha abandonada na beira do caminho, as paredes se desintegrando, o telhado caindo. E o povo ainda tem o costume de descartar os santos quebrados ali. É assim, a imagem do santo — de barro — cai, quebra. O fiel não tem coragem de jogar os cacos no lixo ou deles fazer melhor proveito. Pensa que, deixando os cacos ali na capelinha da beira da estrada, estará livre de qualquer descontentamento do santo de verdade, que tudo vê lá de cima.
E me mata a curiosidade de saber os detalhes da tragédia. Todos pensam num acidente ou atropelamento. Os mais antigos lembram os assassinatos nas tocaias. Ninguém aventa a hipótese de um ataque cardíaco ou cerebral. Seria broxante morrer do coração à beira da estrada. E se o finado caiu do cavalo, quebrou o pescoço? Ou morreu de canseira? Deitou pra descansar, dormiu, não acordou mais... Mas e se fosse o ataque de uma onça? Uma cobra? Uma abelha! Foi! No Caminho da Fé, perto de Consolação (MG), um peregrino morreu de picada de abelha. Tinha alergia, morreu. Três ou quatro abelhas, morreu ali, sem socorro. E sabe qual a profissão dele? Médico.
E tenho pena dos mortos cujas cruzes estão capengas abandonadas. A família se muda para longe, a cruz fica descuidada. Há cruzes que, de tão desamparadas, despertam a comiseração da população vizinha e, sem mais nem menos, põem-se a inspirar feitos e curas inexplicáveis. Seus titulares galgam o imaginário coletivo e triunfam sobre o ostracismo familiar. Agora fico pensando: e se alguém deixasse um par de muletas ou uma cadeira de rodas ou uma garrafa de pinga ou uma seringa de injeção na veia nas proximidades de uma dessas cruzes esquecidas? Seria uma forma de induzir os passantes a acreditar que o morto virou santo, é capaz de curar gente que não consegue andar, viciado em drogas... Seria uma jogada de marketing legítima do santo — à luz do princípio de que a fé remove montanhas —, para avisar a nós ignorantes e pecadores da sua bem aventurança nos terrenos eternos.
Mas esse hábito de cultivar os mortos está entranhado em nós, caipiras. Porém, somos de poucas palavras e raríssimas letras. Escrevemos o nome, a data em que nasceu e a data em que morreu, lá na cruzinha. O povo da cidade escreve, além dos dados essenciais que registramos, mais alguma coisa: os epitáfios. Alguns mais afoitos arriscam frases ou versos de autoria do finado. Consideramos isso uma temeridade, esculpir um pensamento ou uma ideia ou uma opinião no monumento eterno da nossa morte. Porque nós respeitamos o princípio, aqui e além, de que em boca fechada não entra mosquito. Somente que, de vez em quando, arriscamos uns petardos capazes de furar a couraça cética de certos viajantes: me emocionou o epitáfio numa cruzinha perto de Liberdade, cidadezinha mineira à beira do Rio Grande, de alguém que morreu com 28 anos, em 2006: “Se perguntarem por mim, diga que fui morar na casa do pai”.
Muito bom!
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